7.31.2008

Made in Portugal


Após os primeiros contactos com os gigantes Norte Americanos Microsoft e Intel eis que o governo Português se prepara para apresentar o verdadeiro e mais ambicioso projecto tecnológico nacional que causará (esse sim) ecos pela solução de um flagelo mundial. As passwords serão entregues estrategicamente antes das eleições. Viva José Socrates. Viva Portugal.

7.30.2008

Nadar em ti

Olhar-te como a imensidão do mar. Entrar em ti numa música. Percorrendo-te, num nadar de anémona. Leve. De movimentos elípticos. Escassos, quase imperceptíveis. Apenas os suficientes para apanhar boleia da tua corrente e deixar-me ir, nesse nadar de suavidades húmidas. Que apetece tocar. Que contorna o corpo como uma onda a ganhar forma. Adiando o seu rebentar. Escorregando-te num arrepio infinito. Diluindo salpicos frescos, na pele queimada. E depois, enfim, dar à costa. Exausto de te ter tido assim. Despida de medos e de conchas. Desprovida de rede. Num mar imenso. Nosso. Tranquilo. Aberto.

7.29.2008

Flexibilidade

Isto de reunir pela manhã com um administrador empertigado, MBA em Harvard, com relógio Porsche Design e botões de punho Hermes e pela tarde com outro (não menos vaidoso e importante) mas com discurso de "alhos e bogalhos" e traje conjugando calças e polo tipo futebol tem muito que se lhe diga.

7.28.2008

Close your eyes



You do something to me
something that simply mystifies me
tell me, why should it be
you have the power to hypnotize me?
let me live 'neath your spell
do do that voodoo that you do so well
for you do something to me
that nobody else can do
let me live 'neath your spell
do do that voodoo that you do so well
for you do something to me
that nobody else can do
that nobody else can do

Sinead O'Connor, You do something to me, tribute to Cole Porter

7.27.2008

Olhar nos olhos

A humilde capacidade de admirar as pessoas, respeitá-las, que tanto levei a conseguir. Olhar nos olhos o que um ano destes não serei. Custa-me a ideia de não escrever um dia. Do mundo continuar sem mim. De perder corpos, calor: o que ganharei em troca?


António Lobo Antunes


7.26.2008

Ouço os teus passos

Deitar-me contigo e ali ficar. Olhos nos olhos. Num lento balançar de tempo novo. Por inventar. Percorrendo-te as feições com um dedo. Enrolando-te um fio de cabelo. Fazendo-te festas com a alma. Sem nada dizer. Tudo o que te dissesse seria a mais. A brancura oculta das palavras adiadas, libertando mistérios. Onde os perfumes dançam e uma mão te percorre a pele. Em serpente. Ouves o entrelaçar dos sonhos? O desejo ofegante a galopar? Este íman proibido aproximando os lábios com fome e sede de bichos. Os jardins suspensos do teu corpo debruçado em mim. A luz mordida. A brisa nua. Que pode uma boca esperar que não outra boca? Perde-te comigo. Encontra-me. No mais fundo de mim. Ouço os ecos dos teus passos. Lentos. Como ondas leves. Descalços em espuma.



Publicado apenas para relembrar, quando apetecer.

7.25.2008

Pulp Muppets

A vida tem muito de Pulp Fiction mas também tem laivos de Muppets Show

Doença

Ouvia os ponteiros de Kronos há muito. Matemáticos, como um bater de asas, aos ouvidos. E os longos véus da doença e da desgraça, sacerdotisas do mal, acenando-lhe. Pairando-lhe à vista como leques lentos. Era-lhes, no entanto, completamente indiferente, enfrentando-os sem temor. Sem expressão. Como quem passa por uma fera assustadora, não lhe mostrando a mínima fraqueza. Com a certeza, porém, de que nunca lhes poderia ganhar. Era apenas um adiar duma viagem, que sabia já marcada.

E assim se passaram alguns anos. Naquela ambígua cumplicidade de vivência distante e, no entanto, tão próxima. Até que, numa manhã de inverno, o cansaço estendeu-se-lhe como uma massa fina. Aos poucos, sem se aperceber. Em camadas quase transparentes, inotáveis. Dia a dia. Com a lentidão veloz dum cancro fatal. Ramificando tudo em redor com a sua farinha seca e sem cor. Pó indiferenciado. Cinza, onde nada mais se edifica ou constrói.

Dos campos outrora verdes tudo sufocara num amarelo desértico. Calado, pelos ainda segundos metálicos, mais ténues, como um eco a esvair-se. Eis que o corpo já não obedece à vontade e parece distante. Uma leveza sublime disperta. Como que um papel queimado que se levanta no ar. Algo paira envolto nos ditos véus que se misturam num todo e levitam.


Em memória de alguem que já partiu e sempre me faz falta.

7.24.2008

Lake of Fire

Conheço um lago de fogo, onde uma voz rouca me chama e se dissipa na pele. Num ténue calor de areia quente. Morno. Relaxante. Ali ficando sem pressas, dançando em relflexos mágicos. Letais ao olhar. É um lago estranho. De anjos e demónios, onde vou dar, não sei se perdido se descoberto. É um lago misteriosamente interessante. É um lago difícil. É um lago de fogo.




Where do bad folks go when they die
They don't go to heaven where the angels fly
Go to a lake of fire and fry
see them again 'till the Fourth of July

I knew a lady who came from Duluth
Bitten by a dog with a rabid tooth
She went to her grave just a little too soon
flew away howling at the yellow moon

Where do bad folks go when they die
They don't go to heaven where the angels fly
Go to a lake of fire and fry
see them again 'till the Fourth of July

People cry and people moan
Look for a dry place to call their home
Try to find some place to rest their bones
While the angels and the devils try to make 'em their own

Where do bad folks go when they die
They don't go to heaven where the angels fly
Go to a lake of fire and fry
see them again 'till the Fourth of July

Nirvana, Lake of Fire, originally by The Meat Puppets

7.23.2008

7.22.2008

Gula chocolate sangue

Saciar uma sede. Esta sede de mais. Que nunca sacia. Que nunca dorme. Este bicho faminto, foragido, sem destino. Um poço sem fundo. Um abismo, egoísta. Onde lábios latejantes fendem ecos vazios nos poços profundos do desejo. Quentes por possuir algo mais. Sempre mais. Até não saber mais que desejar. Que possuímos ao certo afinal? Escravos de sabores fugazes. Passageiros de mel. Medonhos. Diluindo-se na boca que perdeu o sabor original. Sou eu quem te domino. Sou eu quem te seco neste castanho tundra. Prendendo-te nas raizes que te enterram nessa morte interior. Lenta. Envolta dessa sede de mal. Sou eu quem te devoro assim, afinal.

Capítulo Terceiro: Gula (aqui publicado) e Vaidade em Andromeda-News

7.21.2008

Máquina Fotográfica

"Retratos. Reflexos pálidos do que fomos".

António Lobo Antunes

Fotograficamente falando seria talvez a preto e branco, capturado um pouco melhor por uma máquina lenta, não muito moderna, de preferência uma Leica.

7.20.2008

Descoberta

Descobre-me. Por entre as entrelinhas. Nesses longos carreiros de escrita. Que nascem num país distante e caminham sinistros, como fumo. Talvez para ti.

Descobre-me. Nesse ritmo de onda que, vagarosa, quer sempre um pouco mais. Nessa paciência de noite calma, a cair na cama. Que sempre apaga mais um dia. Mais um fogo. Deixando-nos a mágica intimidade dos silêncios.

Descobre-me. Sem te apressares. A meio dum livro, num abrir de janela, num cheiro a café que teima em demorar. Envolve-te nesses sons líquidos que nos trespassam a pele de areia. Derramados no mais fundo de nós. No mais secreto dos tesouros.

Descobre-me. Pois já não me conheço mais.

7.19.2008

Everybody knows



Everybody knows that the dice are loaded
Everybody rolls with their fingers crossed
Everybody knows that the war is over
Everybody knows the good guys lost
Everybody knows the fight was fixed
The poor stay poor, the rich get rich
Thats how it goes
Everybody knows

Everybody knows that the boat is leaking
Everybody knows that the captain lied
Everybody got this broken feeling
Like their father or their dog just died

Everybody talking to their pockets
Everybody wants a box of chocolates
And a long stem rose
Everybody knows

Everybody knows that you love me baby
Everybody knows that you really do
Everybody knows that youve been faithful
Ah give or take a night or two
Everybody knows youve been discreet
But there were so many people you just had to meet
Without your clothes
And everybody knows

Everybody knows, everybody knows
Thats how it goes
Everybody knows

Everybody knows, everybody knows
Thats how it goes
Everybody knows

And everybody knows that its now or never
Everybody knows that its me or you
And everybody knows that you live forever
Ah when youve done a line or two
Everybody knows the deal is rotten
Old black joes still pickin cotton
For your ribbons and bows
And everybody knows

And everybody knows that the plague is coming
Everybody knows that its moving fast
Everybody knows that the naked man and woman
Are just a shining artifact of the past
Everybody knows the scene is dead
But theres gonna be a meter on your bed
That will disclose
What everybody knows

And everybody knows that youre in trouble
Everybody knows what youve been through
From the bloody cross on top of calvary
To the beach of malibu
Everybody knows its coming apart
Take one last look at this sacred heart
Before it blows
And everybody knows

Everybody knows, everybody knows
Thats how it goes
Everybody knows

Oh everybody knows, everybody knows
Thats how it goes
Everybody knows

Everybody knows

Leonard Cohen


Thank you Mr. Cohen. Everybody knows that will be a great concert.

7.18.2008

Gipsy Kings 1 - All Blacks 0

Apenas... Tenho que virar
A minha vida de pernas para o ar
E procurar, uma casa
Para eu morar
Um pequeno T2
Onde podemos viver os dois
Com vista para o mar e um jardim
Um carro com teto de abrir

Ricardo Azevedo



Passo nº1:
Arranjar confusão, envolvendo dois grupos (tipo milícias) envoltos numa aura xenófoba.

Passo nº2:
Sair para a rua. Danificar o mais possível do imóvel do grupo que pretende mudar de habitação (o outro terá de esperar um pouco mais pela 2ª mão). Utilizar armas (se possível de fogo) e relembrar a infância brincando aos cowboys na via pública mas com o realismo do teatro de guerra iraquiano.

Passo nº3:
Abandonar o imóvel (já devidamente danificado) permitindo ao 2º grupo ser compensado com parte do recheio. Brincar também aos escuteiros “montando tenda” junto da câmara municipal. Aconselha-se levar o máximo de crianças a berrar e a contratação de um advogado de renome para ir à televisão.

Passo nº4:
Exigir aos responsáveis políticos (errata, retirar o responsáveis) a instalação dos “lesados” num novo imóvel e o suportar de todos os danos causados. Assim como, à restante população, o orgulho patriota de ser um contribuinte dedicado e suportar com naturalidade um profundo sentimento de injustiça para com quem realmente passa dificuldades e necessidades e uma entranhada imagem generalizada e injusta (para com os que, pertencendo aos referidos grupos, são pessoas sérias e honestas) que são todos iguais.

Passo nº5:
Ter presente que amanhã ninguém se lembra e agendar a 2ª mão.

7.17.2008

Infedilidade

Para o jogging de verão, deixei os fiéis Nike de sempre para voltar a uma velha paixão de adolescência (que já não encontrava há muito tempo). Claro que não resisti e comprei também uns para os casual days.

7.16.2008

Desafio 1 - Autoretrato em 6 pontas soltas

Apesar (confesso) da minha falta de jeito para desafios, no seguimento do anterior (que era o segundo) e esperando que se proporcione algum tempo até ao próximo. Aqui segue a resposta ao primeiro desafio (bastante dificil por sinal) lançado pela menina Lover.

1.

Nasci com algo de quadro de Klimt. Uma Fénix de cores impossíveis que sempre renasce em tudo o que me cativa o olhar. Estampando sonhos de giz num Kimono sedoso. Invisível mas intenso aos sentidos.


2.
Cresci rodeado de livros, música e poemas. Neles aprendi a beleza das coisas simples e bebi a vontade de sabedoria que sempre escorreu nas minhas veias. Transformei-me numa espécie de água musical.

“Que música serias se não fosses água?”
(Eugénio de Andrade)


3.
Algo se apoderou de mim. Quando? Onde? ou Porquê? não o sei. Um inquilino que por vezes me deixa à deriva. Ao sabor deste mar. Apertado. Pequeno. Pequeno demais.

“You are dangerous cause you’re honest.
You are dangerous cause you don’t know what you want”
(U2)

4.
Quando me apetece estar só tenho um pouco de Moonlight Sonata. Noite, silêncio e gotas de luar a cair suspensas. Como mãos finas em teclas de marfim. Leves como o ondular àquela hora mágica, naquele local. Leves mas encorpadas. Como um vinho que permanece na boca.

5.
Também tenho Azul. Um Azul brilhante. Intenso. Um Azul de Creta nos meus olhos. Um Azul de sorrisos vorazes que voam como ave. De memórias e dejas vus. Um Azul de momentos singulares. Irrepetíveis. Que podem ser estranhos, incompreensíveis ou mesmo padecer depressa mas que nunca se esquecem. Na magia desse Azul. De azul em azul.

“Nunca mais este momento será teu, lentamente há-de chegar, o fim da linha enfim.
Nunca mais o mesmo modo, o mesmo sol, e a noite pouco a pouco, de azul em azul.

Nunca mais este momento voltará, lentamente o vento, o movimento, o mar, o ar.

Viajará esta noite rio a cima, e nunca mais o mesmo sol, o céu, a terra, Nunca mais”
(Rádio Macau)

6.
Quando morrer serei cremado para descansar no mar ou no deserto. Misturar-me-ei neles até desaparecer. Deixo essa escolha, talvez, à obra do acaso. Se por alguma ironia do destino voltar, já que tem de ser (e o tem de ser tem muita força), gostaria de me apresentar em árvore secular ou gato de telhado. O mais vadio possível.




Repasso este desafio às mesmas 7 meninas do desafio anterior trocando a menina Lover pela Noiva Judia apenas para ver se se deixam de desafios .)

7.15.2008

Desafio 2 - Alter Ego

Em resposta ao desafio lançado pela Noiva Judia (clicar para perceber) deixo o meu alter ego em versão feminina. É que os homens são tão desinteressantes .)

Repasso este desafio (se estiverem sem sono e com pachorra, claro está) às minhas carissimas Andromeda, Ariane, Be, Eyes Wide Open, Joaninha, Lover e M&M.
XinXin

7.14.2008

Velejar

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.


Sophia de Mello Breyner Andersen

7.12.2008

Sabor do vento

O rio a correr, ao sabor do vento e ela avançando. Apressada. No sentido oposto. Lado a lado. Até que, como que sustida pelo olhar, abrandou o passo. Presa. Colada. Percorrendo aquela imagem inesperada do rio a correr e o vento a bater-lhe na cara. Fazendo-a parar. Soltando os cabelos. Abraçando-lhe o corpo numa suavidade sensual.
Fechou os olhos e veio-lhe à cabeça aquela expressão de que sempre gostara - ao sabor do vento - a que sabe o vento? Pensou. Ficou assim alguns minutos a saboreá-lo. De lábios entreabertos e mãos estendidas. Deixando-se levar pelo rio que a puxava numa dança. Tirou os sapatos e prosseguiu com eles pendurados em passos de bailarina. E um sorriso que lhe cobria o rosto à medida que avançava olhando para o rio, que continuava no seu ritmo. O vento sabe sempre o que diz e leva-nos em viajem se o escutarmos atentamente. Sem resistência. Nunca diz, no entanto, tudo o que realmente sabe e especialmente a que sabe. Mas tem algo verdadeiramente fantástico no seu sabor.

7.11.2008

Comunicado

Sob pena de passar a imagem de embriaguez quero arriscar referir que dos poucos políticos nacionais que ainda reconheço valor, responsabilidade, profundidade e pertinência nas observações e análises (e ainda me dão gosto ouvir) são o Medina Carreira e Silva Lopes. Pena que não tenhemos jornalistas à sua altura.

7.10.2008

Folha escrita e amarrotada

Eu sou a folha escrita e amarrotada
Esquecida algures
Num cume invisível à vista.
Numa cadeira vazia. Inodora
Uma folha escrita não muito longa
Concisa de palavras
Arejada de espaços
Que silêncios existem
mais sonoros que todas as sílabas vivas
Uma folha de caligrafia fina
Lavrando fundas sementeiras de palavras
que brotam como frutos nos lábios
Eu sou a folha escrita e amarrotada
que se solta e rodopia ao vento
descansando presa nas janelas
ganhando fôlego numa mão perdida
que dedilha uma frase
saboreia uma imagem
para logo se lhe escapar
em lágrima ou sorriso.
Eu sou a folha escrita e amarrotada
Cansada e gasta pelo tempo
sem se deixar secar.
Molhada de chuva e reflexos de mar
Até que um dia
Se a encontrarem
Talvez seja tarde
Pois as palavras também morrem
E as folhas querem-se lisas e paradas

7.09.2008

Gravatas tristes

Fui abordado há uns tempos por uma menina de uma loja, que já se tinha metido comigo uma vez, ao que lhe retorqui com uma seriedade simpática, dizendo algo subtil sobre as gravatas que ela estava a arrumar. Esta semana, passado já não sei quanto tempo, voltei à referida loja e não é que a mesma menina me perguntou descaradamente quando é que me decido a comprar-lhe uma gravata? Perguntei-lhe se a causa de tal observação era achar feias as que usava. Ao que ela respondeu. Não. São muito bonitas até, mas é que são tristes. Sorri e prometi voltar, quem sabe, para que me escolha uma alegre. Mas fiquei a magicar naquilo. Confesso sou muito esquisito nas gravatas mas será que tenho mesmo gravatas tristes ou terá sido apenas técnica de boa vendedora?

7.08.2008

Close your eyes

Anyone whos ever had a heart
Wouldnt turn around and break it
And anyone whos ever played a part
Wouldnt turn around and hate it
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane

Youre waiting for Jimmy down in the alley
Waiting there for him to come back home
Waiting down on the corner
And thinking of ways to get back home
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane

Anyone whos ever had a dream
Anyone whos ever played a part
Anyone whos ever been lonely
And anyone whos ever split apart
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane

Heavenly widened roses
Seem to whisper to me when you smile
Heavenly widened roses
Seem to whisper to me when you smile

Sweet Jane
Sweet, sweet Jane

Cowboy Junkies, Sweet Jane

7.07.2008

Preguiça dourada em lume brando

O peso dos ponteiros sobre os ombros nus. Empurrando-o para aquele estado embevecido. Algures entre um sono manso e um olho aberto no corpo imóvel. Despercebido do mundo. Despercebido de tudo. Um espreguiçar na areia quente. Um escorregar do tempo no esquecimento. Pelas ampulhetas sem vidro das suas mãos remexendo passados e futuros sem dar qualquer passo. Sem nada querer ou fazer. Apenas permanecendo. Ali. É complexo, permanecer. Uma eternidade da qual pouco se repara. A primeira e última resistência – o permanecer. Eis que surge uma pequena tentativa de movimento. Quase um esgar. Uma ameaça. Mas não. Ainda é cedo. Mais um pouco deste revirar em lençol de seda. Mais um afago de almofada. Um adiar de realidade. Mais este queimar de pôr de sol, ainda desfocando a vista numa dança dourada de fogo. Os segundos soando numa brasa sem chama. Quente. Irresistível. Um bocejar que se prolonga na pele. Um dia que acaba sem começar. Permaneço. Permaneço. E nada me move. Nada me seduz. Nada brilha mais que esta luz.

Capítulo Segundo: Preguiça (aqui publicado) e Inveja em Andromeda-News

7.06.2008

Remington

O barulho metálico das teclas ecoava no escuro. Percorrendo o vácuo infinito, prisioneiro da geometria da sala. O ritmo veloz da escrita a galopar. Cascos de sílex. Letra a letra. Num deserto nocturno. Guiado por estrelas ao vento. Fazendo festas nas paredes porosas. Libertando-lhes histórias, ali depositadas. Regressando saciado. Entregando-as ao corpo. À frescura da pele nua num ténue calor. Uma garrafa por companhia. Aberta em tempos que não recordava. Transparente. Ao contrário do que escrevia. O álcool a alastrar, lentamente, nas veias. Suave veneno adormecendo sentidos. Despertando outros, numa espécie de poesia. Num rio que avança violento. Despertando ramos e folhas presas nas margens do ser. A garrafa a descer. O branco da folha a subir. Como que acenando paz daquela guerra. O escuro a apoderar-se de tudo. Contrariado apenas pela fresta de lua, brilhando através do vidro da garrafa. Mostrando criaturas desconhecidas. Habitantes apenas visíveis ao passar pelo vidro. Revelando-se subtilmente. De novo os sons de prata. De beleza ímpar. Invisíveis ao olhar. A garrafa já vazia. Folhas amarrotadas cobrindo o chão. Finalmente o sono percorrendo o rosto com a sua mão fria. Num jogo de sedução adiado ao limite. Adormeceu com o barulho dum beijo no escuro, perto daquela velha máquina que dá pelo nome de escrever.

7.04.2008

Old Jag

Não sou daqueles maluquinhos por carros, nem chegou ainda a crise da meia idade para querer o Porche. No entanto devido ao facto de ter quebrado (tristemente) a chama pelo Bentley Continental (por razões já descritas) decidi encontrar e formalizar ao mundo um substituto apenas com o cuidado de não ser atractivo aos jogadores de futebol e se possível (please!!!) a nenhum “espécimen” como o anterior (ainda não me saiu da cabeça, estão a ver o trauma). Pois bem, sem ter pensado muito no tema (pois há coisas muito mais interessantes para me debruçar), e com mais duas ou três hipóteses perfeitamente plausíveis (da mesma época), pode ser, deixem ver, um E-Type Jag de 1961. Está dito.

7.02.2008

Paquete estrelado

Este espaço vai mudar de porto. Anda demasiado “lamechas”, não tem um único palavrão e não contem palavras difíceis de pronunciar ou suficientemente eruditas. Promete-se que serão banidas quaisquer lamechices otorrinolaringológicas e permitidos os mais hediondos vernáculos vicentinos. Informa-se que serão permitidas a bordo desde marinheiras Gaultier a Estrelas de Cannes (não de Hollywood) dispensando-se apenas Provedores ou Edites. All aboard.

7.01.2008

A planície do esquecimento

Lembro-me menos de mim antes de ti. Mas também lembro o que não existiria se não houvesse um nós.


Esquece-me. Dissera-lhe. Carinhosamente, sabia-o. Pois não lho dissera nos olhos e as palavras têm essa faceta escorregadia – a de poderem tornar a mais desnudada e polida das estátuas numa pedra áspera, seca – quando desprovidas dum olhar. Esquece-me. É melhor para ambos. Como se houvesse bem ou mal nesses estranhos acasos. Como se fosse possível esquecer o som do mar. Um cheiro. Uma expressão que assentou no respirar. Que lhe pedia? Que apagasse parte de si? Que se partisse em menos um pedaço? Que escurecesse um recanto íntimo? Que secasse aquele fruto sumarento? Que lhe pedia? Como se fosse possível separar uma imagem dum livro que se conhece de cor. Que se percorreu vezes sem conta. Tocando-o com a mão. Na textura tépida do papel. Sabia partir como as aves. Separar momentos e lugares das vontades mais vorazes. Mais demoníacas. Por mais que custassem. Por mais que doessem ao ouvido. Sabia até abdicar do todo para manter parte. Ínfima que fosse. Por mais que gostasse há coisas que não conseguia fazer. Que não lho podiam pedir. Era esse o seu estranho dom. O de perder tudo menos a memória. Tudo menos o esquecimento.

Assíduos do shaker

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