4.30.2009

Uma janela


Uma janela aberta 
Para dentro e para fora
Para o mundo e para mim

Uma janela aberta
Para entrar e sair
Parar e partir 

Uma janela aberta
onde luas curiosas 
espreitem sorrindo

Uma janela aberta
onde a alma dance
em núvens e veleiros

Uma janela aberta
Para mim
Para quem quiser

Why?



Morrissey, I have forgiven Jesus


[ Why did you give me
so much desire?
when there is nowhere I can go
to offload this desire
Why did you give me
so much love
in a loveless world
when there is no one I can turn to
to unlock all this love
Why did you stick me in
self-deprecating bones and skin
Jesus - do you hate me?
Why did you stick me in
self-deprecating bones and skin
do you hate me? do you hate me?
do you hate me? do you hate me? ]

My advertisings #23

Os "My Advertisings" passam, agora também, dos videos às imagens estáticas.
Começo com esta. Sigo com outras. Isoladas ou em campanhas.
Brevemente...

VW
The Beatles

Private: Obrigado Michelle .)

4.29.2009

Sementes de pérolas caídas

Sinto-me mal com as palavras

Todas

Com o silêncio das coisas

Atentas

a ecoarem polidas

Sinto-me mal 

com perguntas iguais

pouco sentidas

Distantes

Mecânicas da circunstância

Sinto-me mal

comigo mesmo

por ser assim

Disponivel

aparentemente bem

Sementes de pérolas caídas

que não deram fruto


O texto que tomei para mim

Tomei um texto para mim. Queria-o tanto, meu, que mesmo sabendo-o de alguém, que não eu, não quis saber. Tomei-o para mim sem pedir licença. Guardei-o, como se guarda um bem frágil. Precioso. Uma anémona, liberta, no meu oceâno. O texto que tomei para mim.

Percorri-lhe cada frase, vezes sem conta. Na claridade e no escuro. Lentamente, refiz da escrita os teus gestos. A tua imagem, apagada. Senti, com as mãos, a textura de cada palavra. Como uma cicatriz antiga, lembrada delicadamente. A cada pausa, o teu respirar. Próximo. Presente.

Era um texto pequeno. Simples, mas infinito. O texto que tomei para mim. O texto que passou a viajar e a dormir comigo. Que diluí na pele. Que passei a saber de cor. Tudo isso mora nesse texto. O texto que quiz só meu, O texto que tomei para mim.

4.28.2009

Descansar...

"Está-me mais próximo o que leio, do que eu de mim próprio. 
É uma grande vantagem poder passear por outras mentes e descansar da sua."

Pedro Paixão

Tainted Love #6



Steven N. Meyers (... -...)


Radiografias coloridas. Sombras sensíveis. Subtis. Despidas ao vento. Inversões do real. Imagens delicadas. Solarizadas. Vegetais negativos e positivos, esbatidos. Preâmbulos de vida envoltos de brisa. Polinizados em tons calmos. Fantasmas sedosos. De toque aveludado. Fotosínteses de sentidos, onde apetece andar descalço. Onde apetece tirar a roupa e entrar.


Não gosto particularmente de quadros florais. Mas gosto de entrar na tua túnica bucólica. Onde subo ramo a ramo, folha a folha, textura a textura.


Quase a acabar os 10 escolhidos, ainda apenas uma pessoa conquistou o doce prometido

4.27.2009

Cafuné

Os dedos no teu cabelo
dedilhando o tempo 

embevecidos
do teu prazer
do teu calor

dançando leves
numa valsa lenta
num queimar de vela

Os dedos no teu cabelo
quase perdidos

adormecendo-te 
o corpo
o cansaço

agarrados 
para lá do toque
raizes em ti

Os dedos no teu cabelo
respirando-te fundo

num embalar de mar
num barco sem pé
a navegar

Devagar

Há frases que nos visitam sem bater à porta. Entram, como uma corrente de ar. Sem convite ou pré-aviso e instalam-se confortáveis. Como se nos conhecessem desde sempre. Como se tivéssemos de as conhecer também. Como se conhecem de cor os cantos à casa. Sem pressa de se revelarem, ficando por ali a remoer. A libertar a ferrugem do seu sentido, tantas vezes não directo ou imediato. Dormem connosco. Agarradas ou suspensas. Sussurram-nos, por baixo da pele, ao longo do dia. Nos momentos e lugares mais imprevisíveis. 

Há frases que permanecem muito tempo. Tempo demais. E num dia, quando já nos habituámos a elas, quando parece que já fazem parte de nós, eis que se revelam em pleno, numa espécie de luz de final de tarde. Esgotando-se, breves, numa paz sublime, numa beleza difícil de igualar. Nessa altura, partem como entraram. Desprendidas. Com pés descalços. Sem um beijo de despedida ou palavra a acrescentar. Com uma mão quente, esguia, que se liberta da nossa. Devagar. 

4.26.2009

O peso da tua sombra

O peso da tua sombra, leve, no meu corpo. Uma nuvem escura, trazida por um vento do sul. Quase a diluir-se em chuva, sobre mim. Adiando o seu toque. O seu cair. Simplesmente pairando. Apagando a luz. Tacteando o peito com uma brisa de mãos frias. Lentas. Segredando pós de vidro magnéticos aos ouvido. Cor de lua.

O peso da tua sombra, leve, no meu corpo. Algures escondida  mas sentindo-te por inteiro. A tua presença esguia percorrendo-me como um véu invisível. Despertando a pele num arrepio. Encostando-se a medo. Inquieta. À distância de segurança. Pronta a partir.

O peso da tua sombra, leve, no meu corpo. Uma sombra escura como os teus olhos, vendados nos meus.

Plenitude

Gostar verdadeiramente é não pretender novas conquistas... mas sim repetir várias vezes a mesma. Até porque, seduzir é fácil... Amar, na plenitude, demonstrando-o todos os dias, é dificílimo.


Adaptado daqui, um espaço de que gosto verdadeiramente

4.25.2009

Shop Shop

Apesar de não ser muito fiel a marcas ou lojas, considero que existem algumas com que nos identificamos, ou simplesmente gostamos de visitar.

O desafio é simples: 

1. Identificar 5 lojas que habitualmente visitamos com prazer, revelando desta forma um bocadinho dos nossos gostos e futilidades.

2. Convidar meia dúzia de bloggers para participarem no desafio (podem ser mais ou menos).


Assim, dando arranque ao desafio, as escolhas Martinescas, sem pensar muito no tema são:

1- Massimo Dutti 
(trapinhos e costura)



2- Area*
(apesar de gostar de misturar com peças clássicas)


3 - Häagen & Dazs 
(sem ser em centros comerciais)


4 - Fnac 
(bens de primeira necessidade)


5 - Club del Gourmet do El Corte Inglés 
(uma das razões para o jogging matinal de fim-de-semana)




Os nomeados são (é a parte sempre difícl do desafio):
2. (c)
4. Mlee
6. Vanity

... e logicamente quem quiser participar


* ex habitat por não ter encontrado foto

Snowing notes



Ryuichi Sakamoto, Happy End

O dia da liberdade

"Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser"

Johann Goethe


O dia da liberdade é apenas uma memória. Dum dia dos melhores propósitos sem conseguir objectivar os fins. De Homens destemidos e de gratidão infinita. Pintada a céu azul e raios de sol.

O dia da liberdade é apenas um ténue aroma floral que ficou no ar. Debotado da essência. Da cor viva do querer colectivo e das nobres ambições. Do sangue não derramado. Imaculado. Cujas pétalas nos abandonaram, aos poucos. Frágeis. Cansadas. Sucumbindo à ganância extrema e à dormência de valores. À falta de solidariedade, de educação. Uma balança demasiado inclinada de direitos e escassas obrigações.

O dia da liberdade é apenas uma frase bonita. Evocada nos livros e discursos pomposos, mas pouco sentida como se quis. Sem conteúdo para os mais jovens. Um rio que secou. Que não corre para os outros dias. Um balão preso a um corpo amorfo com uma mão pesada, que não o deixa subir. Cerrada, mas com dedos de individualismo, egoísmo, comodismo, facilitismo e falta de civismo.

O dia da liberdade é um falhanço. Uma vergonha aos Homens bons. Às próximas gerações. Uma vergonha da tal memória imaculada. A que muitos sofreram na pele. A que muitos se entregaram de corpo e alma. A que tantos já nem conhecem ou nada diz.

O dia da liberdade é um dia distante. O dia da liberdade está a morrer.

4.24.2009

Velório

Acabei de chegar do velório do Explorer. Foi uma cerimónia simples
e mais rápida do que pensava. Foi "cromado".

Animais

Depois de ter assistido ontem ao debate da SIC sobre os direitos e protecção dos animais constatei apenas que se fizeram, de facto, representar por algumas das “pessoas” presentes. Vivemos ainda numa sociedade muito retrógrada.

4.23.2009

Gravatas tristes (3rd act)

Então não é que a menina das gravatas tristes voltou ao estaminé onde passo, de quando em vez, e se voltou a meter comigo. Eu acho que ela já topou que o meu ar de sobriedade séria não é coadunante com o meu sorriso e por algumas respostas dadas, que a fazem também sorrir. Mas é que em todas as idas à loja (que, por sinal, não é de roupa) vem à baila o "é hoje que me deixa escolher a gravata?". Juro que por simpatia até lhe comprava uma (mesmo já tendo comprado a única que se enquadrava minimamente nos meus modestos gostos e não estando muito seguro da sua escolha) mas preferi, educadamente, lançar um desafio (que julgo impossível) para ver como se vai safar- como é tão boa vendedora, será quando colocar uma num deputado do bloco de esquerda. E não é demagogia... sou muito sério.

Continuação de posts anteriores

Infusão

Adoro esta palavra. Traz-me uma vastidão de outras atrás. No vapor.

4.22.2009

Necessidade

Necessidade de partir. Não muito tempo. O possível.
Necessidade de sol. Vastidão de paisagem. Chás no deserto. De céu e de chão.
Necessidade de livros. Muitos. Sorvidos como alimento. Como o último ou o primeiro.
Necessidade de noites longas. De fogueiras. Estrelas e lua. Uivos distantes e silêncios sonoros.
Necessidade de quilómetros. De distância. Estradas perdidas por descobrir.
Necessidade de Sul. De Oriente. De encontros, sem haver ninguém.
Necessidade de uma língua estranha. Musical. Envolta de insenso e delírios.
Necessidade de diluir instintos. Sensações. À flor da pele. 
Necessidade de deixar assentar a poeira dos dias. Que enevoa o olhar.
Necessidade de tatuar invisibilidades. Ao contrário. Por dentro da pele.
Necessidade de adormecer ao relento. De afastar visitantes no vento quente do Suez.
Necessidade de proximidades. Calmas. Sábias. Chamamentos presentes.
Necessidade de mim. No vácuo. Desprovido de tudo. Rarefeito do nada.
Necessidade de não pensar em nada. De ir para voltar.
Necessidade simples. 
Necessidade. Urgente.


Vou ali. Mas acho que volto

2me


U2, Walk On


With no words... With all words


Estou a precisar de "Walk on"
Estou a precisar de "Fly, for freedom"
Estou a precisar de "Leave it behind"

4.21.2009

Radiografia

Existe mais ADN em certos parágrafos, ou em alguns olhares silenciosos, que em todas as células de um corpo. Que em todo o sangue ou fio de cabelo. É por isso que nenhum cientista conseguirá explicará a unicidade frágil da vida. É por isso que a razão sempre sucumbirá ao instinto. É por isso que a dúvida ou um sorriso sempre fascinarão mais que qualquer certeza ou radiografia.

A ver vamos...

Este espaço já recebeu alguns prémios. Sempre os guardei e agradeci, sentidamente, mas nunca os publiquei. Não sou muito de prémios, sabem? Gosto de os receber, não pelo "prémio" em si ou pelo "pseudo orgulho" (que, sinceramente, não despoleta minimamente em mim) mas pelo que possivelmente representaram em quem os envia. 

A curiosidade de saber que, de alguma forma, algo meu as tocou. Isso é para mim o verdadeiro prémio. Que algo foi importante ao ponto de levar a uma acção. Por mais pequena. Um ténue sinal de afecto. Um pequeno calor. É esse o milagre da comunicação. É esse um dos prazeres da partilha, do que aqui se publica. 

Confesso, que sempre me surpreendo, por simplesmente nunca os esperar. Confesso que, na maioria das vezes, até me sinto um pouco incomodado (no bom sentido), por achar, na larga maioria das vezes, não o merecer. 

Escrevo simplesmente e somente o que sou. O que me diz algo. O que sinto. O que me transporta. E, estou em crer nada haver a permear no que é, tão somente, natural. Escrevo para mim (pelo menos assim comecei),  mas cada vez mais, estou em crer, também, que escrevemos sempre para alguém (mesmo que subconscientemente). Alguém que por vezes nem existe. 

Escrevo porque me dá prazer. Escrevo coisas reflectidas e outras puramente instintivas, às vezes sem pretenso sentido. Parvas até. Escrevo, muitas vezes, por mera necessidade. Por urgência do corpo. Porque tem de ser. O tem de ser tem (de facto) muita força. Sabem? Estou em crer que sim. Que o sabem muito melhor que eu. Que tantas vezes nada sei. 

Obrigado pelos vosso prémios carinhosos. Não levem a mal não os publicar. Blog que é blog tem que ter prémios, já me disseram. Vou fazer uma coisa. Pelo menos tentar. Oferecer uns quantos. A ver vamos...

4.20.2009

Anatomia de um poema

Abri um poema. Entrei. Remexi. Palavras nevavam na pele. Quente. Despida. Numa cadência inconstante. Durando para lá do efémero da sua existência. Ritmos e pausas conduziram-me a um jardim nocturno. Despercebido do mundo. Cor de fresco descalço. Com laivos de lua. Sentei-me, num banco de madeira, envelhecido pelo tempo. A falar com o silêncio. Exausto de beleza. Desnudado de mim. Tirei um fruto, num esticar de braço, e mordi o sabor da tua boca ao sair do mar. Perdi-me num barco à vela e deixei-me levar. Lento. Ondulando, de nuvem em nuvem. Num azul de Creta. Num embalar de vento. Quando o fechei senti o barulho a ecoar e o pó da capa a dissipar-se na luz. Quando o fechei senti-o preso, em mim, e não me deixou acordar.

Para repetir

É certo que não tem o glamour dos clubes Londrinos mas confesso que me soube muito bem uma partida de ténis, após quase dez anos de ausência, num tennis club com muita pinta, seguido de uma sauna e uma bebida aprimorada com dois dedos de boa conversa.

4.19.2009

Tarde demais

Diz-se. Dizem. Ouve-se dizer. Que importa o que se diz, se vem por mensageiro ou distância. As palavras são sempre voláteis. Escorregadias e muito frágeis. Necessitam de mãos e olhares porque rebentam como bolhas de sabão ou armas carregadas. Partem-se e partem para sempre do seu sentido. Pelo menos como se disseram. Como se queriam dizer. Morrem sem ar. Gravitam, algures, sem poderem ser abraçadas do seu calor. Sabes? As palavras serão sempre órfãs. Pois falamos com palavras, com silêncios e com entoações. E o papel será sempre branco. E a distância será sempre longa. E o tempo será sempre tarde. Tarde demais.

Wings

Levo-me no voo das minhas asas. Ao sabor do vento. Viajo, num bater largo. Pausado. Na corrente. Esticando o sentir ao limite da intensidade. Um planar infinito. Os olhos abertos, absorvendo as coisas frágeis como se estivessem fechados. Permaneço em lugares distantes. Refugios secretos. Que se diluem nos gestos. Na voz. Na segurança do andar. Regresso às vezes para te buscar. Num beijo. Num agarrar polido. Num tocar demorado. Parto agora mesmo. Dá-me a tua mão.

4.18.2009

Acordar

Rádio Macau, Acordar


[ Não parti mas já não sei voltar
Ando às voltas a esquecer quem sou
Bebo a noite até o Sol chegar
Ele sempre me encontrou ]

Inquietação


quero-me inquieta
de sol

a intrangiência da vida
penetrou-me
bastarda de mim mesma

noites incompletas
onde me exijo urgência

Maria Teresa Horta

4.17.2009

Victoria's Secret

Pronto, gosto mais desta, mas era segredo .)

Tower of song

Leonard Cohen, Tower of Song


[ I was born like this, I had no choice
I was born with the gift of a golden voice
And twenty-seven angels from the great beyond
They tied me to this table right here
In the tower of song ]

Palpite

Não pondo em causa a minha clara preferência por Victoria’s Secrets e Intimissimi, assumo a excelente escolha desta menina para a campanha da marca Triumph em Portugal. Apenas acrescentaria à “Rainha da Preguiça”, “Rainha do Surf” e “Rainha da Sedução” a “Rainha dos acidentes de viação", a julgar pelo outdoor gigante à entrada da 2ª circular. É um palpite.

4.16.2009

Amar, num tempo irrecuperável

Quem escreve em mim é um que já morreu. Há um que continua a viver, a andar, a falar, a beijar e o outro está a ver tudo isso acontecer e a transportar tudo para dentro de palavras. A única coisa que faz é escrever-se. É a maneira que tem de se resguardar. Para poder continuar. Os escritores suicidam-se vinte vezes mais do que em qualquer outra profissão. Nenhum cientista se mata. Nenhum filósofo. Quem escreve mistura-se perigosamente com a vida. Talvez seja isso. O escritor, que eu não quero ser, ama ao matar, mata ao amar. O meu amor falecido num corpo que continua vivo. De vez em quando telefona, diz-me que sou horrível em não a visitar e eu sem conseguir explicar. Não lhe posso dizer: amo-te num tempo irrecuperável.


Pedro Paixão

Memória é...

Wittgenstein

4.15.2009

Percorro-te no pensamento

Percorro a lentidão do teu corpo com o pensamento.
Um veleiro, ondulando nas tuas curvas
deixando o rasto lânguido dos lábios à deriva
Descendo húmidos, vestidos de sal, ancorados em ti

Percorro a lentidão do teu corpo com o pensamento.
Guiado pelos sinais da pele, que guardei como estrelas
Rosa-dos-ventos das minhas mãos na escuridão
E no entanto vejo-te tão nítida no pensamento

Percorro a lentidão do teu corpo com o pensamento.
Passo a passo. Paragem a paragem. Num ritual minucioso
Diluindo-me nos gemidos porosos
Absorvendo cada estremecer de prazer

Percorro a lentidão do teu corpo com o pensamento.
E quando nos revirmos não precisarei mais de olhos
para me guiar por todos os caminhos
que descobri em ti

Far Away, so close


Tanto faz o meio ... a forma... o percurso... Tanto faz o tempo

"Ama como a estrada começa"
[Mário Cesariny]

4.14.2009

Caminhos de papel

Agrada-me, cada vez mais, uma escrita menos compartimentada. Menos rígida ou estruturada. Uma escrita não labiríntica, mas menos hermética ou amarrada a um princípio, meio e fim. Demasiado presa a uma história. Uma escrita não estanque mas antes difusa, de portas abertas. Uma escrita não destituída de várias interpretações.

Gosto também, cada vez mais, de escrever para os lados. Para fora do papel. De deixar pontas soltas, para serem puxadas mais tarde ou para alguém as agarrar como suas. Podendo interagir.

Gosto de hiatos e de saltos, no tempo e no espaço. De abrir janelas. De uma maresia ou nevoeiro melómano. Uma espécie de musicalidade com vida própria. Que desaparece e aparece de surpresa. Quando menos se espera. Com uma simples nota ou acorde familiar. Voltando ao tema principal ou tocando-o apenas ao de leve. Uma sonoridade de maré. Indo e vindo. Que permanece escondida mas que sempre regressa. Sempre presente. Sempre. Passeando, nessa escrita.

Gosto de uma escrita molhada. Um lago espelho. Onde imagens, dançam, salpicadas por gotas de chuva. Dissipando-se em pequenos movimentos ondulares. Diluídas em ecos incertos. Aqui. Acolá. Mais ou menos intensos para os diferentes leitores. Para os diferentes momentos da mesma leitura.

Não há momentos repetíveis. Nada é passível de ser capturado plenamente no papel. É um terreno movediço. Poroso. E o tempo é sempre escasso. Curto. Sempre perecível. Sempre passado, aquando transposto.

Gosto de uma escrita com sabores a frutos. Intensos, mas apenas apreendidos, de uma forma súbtil. Ténues da sua essência. Como o sabor de um vinho. Prolongado, no palato. Mas inevitavelmente impossibilitado de perdurar para sempre. De ser sentido na plenitude do que o originou.

Gosto de uma escrita que volta no cair das noites. Que nos revisita. Uma escrita com calor de cama matinal. De onde não apetece sair. Mas que sempre se tem de largar. Há sempre coisas a fazer e outras a abandonar. Coisas por descobrir e por esquecer. Coisas. A cada visita, dessa escrita.

Gosto, cada vez mais, de escrever com histórias dentro da história. Desconhecendo qual a mais importante. Qual a que quer sobresair. Histórias inacabadas. Prontas a recomeçar ou partir. Prontas a entrelaçar-se num braço. Numa mão aberta. Num respirar mais demorado.

Gosto desse tipo de escrita. Gosto. Cada vez mais. E tenho escrito tão pouco.

4.13.2009

Golden Skans




Clã, Golden Skans



[ Light touch my hand, in a dream of Golden Skans, from now on.
You can forget our future plans.
Night touch my hand with the turning Golden Skans,
From the night and the light, all plans are golden in your hand ]

4.12.2009

Almoço de Páscoa

Confirma-se! Fui trocado no Hospital

Tarde bem passada


1. Jogging matinal envolto no "Songs of Faith and Devotion" dos Depeche Mode (no My Secret Garden, claro está)


2. Banho estupidamente demorado, barba irrepreensivelmente bem feita, vestes leves e descontraidas.


3. Preparação do almoço, sem horários e com boa música, depois de abrir uma garrafa de tinto fenomenal que me ofereceram nos anos (obrigado G. era mesmo boa, de facto).


4. Espetada de frango com uvas (temperado com especiarias e sumo de limão), acompanhado de uma salada de rúcula, alface verde e roxa, tomate cherry, bocadinhos de pão torrado e um (muito ligeiro) molho de iogurte com cebolinho.


5. Óculos escuros e Pedro Paixão, numa esplanada recatada com vista de mar, desencantando algum sol acompanhado de café exemplar.

6. Ronha de final de tarde no sofá com filme há muito adiado, Nespresso e Magnuns after dinner (para compensar o jogging matinal)

7. Recusa de convite em ir ver o Benfica, mesmo sendo em boa companhia e num camarote pomposo

4.11.2009

(Um) silêncio

Um silêncio lento. Assassino. Não sei se difícil se inconsciente. Um silêncio de mãos finas, frias, estrangulando, aos poucos. Esvaziando o ar. Um silêncio, outrora perceptível, mas que ultrapassou o prazo. A razoabilidade. Levantando dúvidas onde nunca existiram. Um silêncio branco que faz esquecer o que se gostou. O que se sentiu próximo. Questionando o antigamente tão certo. Tão cúmplice. Um silêncio indiferente. Não sei se áspero se desprovido de textura. De aromas. Um silêncio autista. Frio. Cómodo ou apaziguador, talvez. Não o sei. Um silêncio egoísta. Que corrói, alastrando como uma ferrugem metálica. Indiferente. Pela negação de uma simples conversa. Única que fosse. Pela falta de interesse. Um silêncio que não permite um telefonema sobre uma qualquer coisa banal. Um silêncio que não condiz com a imagem e por isso custa mais. Um silêncio que quebrei demasiadas vezes, sem resposta, para o tentar sacudir. Para o tentar salvar. Um silêncio que me faz também partir, cansado. Em silêncio também. Certo de tudo ter feito. Triste, ainda assim. Um silêncio de despedida. De adeus, essa palavra que pouco consumo. Que detesto. Tudo isso habita nesse silêncio. Tudo isso lhe preenche as frestas feridas. Tudo isso mora no teu silêncio.

O (teu) nome é legião

"As minhas amizades foram sempre instantâneas.
A gente conhece uma pessoa e fica amigo de infância. É curioso."

"As pessoas de quem gostamos e que já cá não estão
vão mudando dentro de nós"

"O amor das coisas belas"



António Lobo Antunes


Idêntifico-me com estas frases, assim como mil outras, de um dos meus escritores favoritos. Que admiro pela obra e como homem. Pela sua presença. Pela sua sabedoria reservada. Brilhante. Difícil de igualar. Vejo, de quando em vez, a sua entrevista (obrigado Gi, foi no teu blog que a revi) aquando do lançamento de um dos seus últimos livros. Uma entrevista notável (apesar de não gostar particularmente do entrevistador), pela sua humildade, pela sua sensibilidade, pela sua inteligência. Gosto muito do António (permite-me que te trate assim). Também me habituei, como referes, a não ter dificuldade, medo ou timidez de o dizer abertamente. Também me sinto teu amigo de infância. Sabes? À distância próxima de um livro, ou destas sábias palavras.

Obrigado António. Por seres simplesmente como és.

4.10.2009

Tainted Love #5




Brent Lynch, Canadá (? - ...)




Desde que existe arte existe um contador de histórias. E eu gosto das tuas: visuais, figurativas, estampando estados de alma, envoltas de uma luz e côr misteriosa. Um contador de histórias, por vezes, provocador e dramático. Repleto de símbolos icónicos, metáforas e imaginário. A história nasce do teu pincel mas prolonga-se para fora da tela. Desemoldura-se para dentro de mim. Transporto-as, transporto-me com elas.

Take a moment. Take some stories from the storyteller.

O calor do olhar

Tão diferente o mundo sem pressa. Largar uma semente e aguardar a trepadeira a encaracolar. Os frutos carnudos, amadurecendo doces, por colher. Tão pequena a distância entre o santo e o assassino. Ao nosso lado. Diluídos no movimento. Um estranho pode ser tão próximo, sem nunca o descobrirmos. Por receio da irracionalidade, do ridículo. Tão diferente o mundo sem os seus ruídos superficiais. Destapando sonoridades marinhas. Presas a fios de algas. Num tempo de cabelos a envelhecer. Absorvendo histórias como esponjas. A morte sempre à espreita. Guardiã do etéreo. O momento é tudo o que existe ou existiu. Tão diferente o mundo sem palavras. Ou declamado em línguas diferentes. Distantes. Tão circular o que medeia entre um beijo e o esquecimento branco. Adiado, pelo que se baptizou memória. Um nome vão. Esticado. Tão diferente o mundo sem poesia. Sem perspectiva ou relatividade. A mudança toca-se constantemente e reinventa-se. Incessantemente. Até à exaustão. Tão diferente o mundo sem dejasvus. Sem o arrepio da música. Sem o calor do olhar.

4.09.2009

Acusação no vento

acusaram-me as mãos
na loucura das luas
inclinadas na cintura
das noites

a angústia das aves
só duas
em horizontal no coração
das gôndolas
celebraram a paixão
dos amantes sem lábios

rarearam os pianos
nos sonhos

nos espelhos
a angústia
tomou a forma
duma mulher
vestida de encarnado

paixões desencontradas
ao som dos violinos
mortos pelo vento

pântanos na vertigem
das princesas

deslealdade
das luzes de néon
entornadas nos lagos

acusaram-me os arbustos
nos cabelos


Maria Teresa Horta

4.08.2009

Dormia


Conhecia todas as suas pausas e movimentos. Tomara-os, um a um, numa ínfima atenção. Tornando-os cúmplices extensões dos seus sentidos. Da sua pele.

Cada gesto. Cada feição. Cada olhar. Todos, ondulando próximos. Mais ou menos agitados. Mais ou menos previsíveis.

Apaixonara-se, curiosamente, pela ausência de todos eles. No seu corpo adormecido. Numa beleza criminosa. Distante deste mundo. Para lá da matéria. Para lá de qualquer pensamento. Algures, na perfeição das coisas lentas e inexplicáveis.

Nunca o soube. Dormia e não a quisera acordar.

4.07.2009

Cansaço



A sala vazia. O silêncio polido dos objectos. Gritando. Pedindo calor. A mão vagueando pela estante. Numa carícia infinita. Interminável. Parando num livro que lembra uma pessoa importante, que quase esquecera. Como outras. Que será feito dela? Delas? Escondidas, num verso volátil, destapado. Pedras, mostrando uma terra húmida, adormecida. Outrora quente.

Memórias folheadas, diluídas no papel rugoso. Nenhum papel é igual. Mesmo o que nada contém. Corta-se as memórias, de repente. Tira-se-lhes o ar no barulho do seu fechar. Que ecoa por toda a sala. Soltando um pó espesso. Pesado. Que assenta, grão a grão, trespassado pelos raios de sol.

Parte a mão, novamente. Levitando, algures, no espaço. Num chamamento magnético, moldando-lhe o movimento. Imobiliza-se agora nos discos antigos. Escolhendo um, sem que se consiga aperceber ou pensar. Coloca-o, num ritual melómano. Sagrado. A agulha risca o silêncio, antecipando uma Callas que chora por si, enquanto se perde na janela.

A mão baixa, exausta. Pousada na mesa fria que lhe absorve o calor do sangue. Os objectos sugando-lhe vida, num cansaço dormente. Os objectos presos. Falando alto, em silêncio.

Assíduos do shaker

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