12.31.2007

12 passas


1. Saúde

2. Paz de espírito (nova lei do arrendamento)

3. Tempo (sobretudo para os outros)

4. Nunca perder o humor e contagiar o sorriso

5. Entusiasmo e ideais

6. Acreditar em anjos, fadas, sereias e sobretudo em impossíveis

7. Acompanhar, educar e aprender com as crianças

8. Errar. Voltar a errar mas nunca deixar de tentar

9. Aprender continuamente

10. Emocionar-me com silêncios brilhantes

11. Passa... (este guardo para mim)

12. Que “crentes e extremistas” cuidem do mar e da terra se almejam o céu


Bom ano a todos, se possível melhor que o meu.

12.30.2007

Sacode as nuvens

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.


Sophia de Mello Breyner

12.29.2007

Pernoitas em mim

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória...amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes


Al Berto

12.28.2007

Two shots of happy, one shot of sad

Alegria triste. Tristeza alegre. Dançaram abraçadas pelo velho gira-discos. Soando à imagem do teu corpo. Sorrindo, no quente da areia. O afagar dos teus lentos cabelos erradiando luz e alegria. Alimentam-me. Quero-te bem. O melhor. Mas nesse canto minotauro não pude deixar de sentir a tristeza das agulhas arranhabdo o vinil desejo de te ter. Perdoa-me a sinceridade. Two shots of happy, one shot of sad.


Two shots of happy, one shot of sad
You think I'm no good, well I know I've been bad
Took you to a place, now you can't get back
Two shots of happy, one shot of sad

Walked together down a dead end street
We were mixing the bitter with the sweet
Don't try to figure out what we might of had
Just two shots of happy, one shot of sad

Two shots of happy, one shot of sad
I'm not complaining, baby I'm glad
You call it a compromise, well what's that
Two shots of happy, one shot of sad

Two shots of happy, one shot of sad

U2

12.27.2007

Ming, o peixe Koi

Em ti morava o reflexo quente do sol. Mágico. Magnético. Que sempre me prendia o olhar. Eras o mais lento do lago, duma calma sobrenatural que intimidava o tempo e afastava o interesse de qualquer movimento. Numa dança de fogo molhado. O mundo parava no teu lento agitar das águas, desenhando formas e lugares, enviando histórias na ténue ondulação. Comias à minha mão e sempre comunicámos em silêncios profundos e radiosos.

12.26.2007

Sometimes






There's a storm outside, and the gap between crack and thunder
Crack and thunder, is closing in, is closing in
The rain floods gutters, and makes a great sound on the concrete
On a flat roof, there's a boy leaning against the wall of rain
Aerial held high, calling "come on thunder, come on thunder"

Sometimes, when I look deep in your eyes,
I swear I can see your soul
Sometimes, when I look deep in your eyes,
I swear I can see your soul

It's a monsoon, and the rain lifts lids off cars
Spinning buses like toys, stripping them to chrome
Across the bay, the waves are turning into something else
Picking up fishing boats and spewing them on the shore

The boy is hit, lit up against the sky, like a sign, like a neon sign
And he crumples, drops into the gutter, legs twitching
The flood swells his clothes and delivers him on, delivers him on

Sometimes, when I look deep in your eyes,
I swear I can see your soul
Sometimes, when I look deep in your eyes,
I swear I can see your soul

There's four new colors in the rainbow
An old man's taking polaroid’s
But all he captures is endless rain, endless rain
He says listen, takes my head and puts my ear to his
And I swear I can hear the sea

Sometimes, when I look in your eyes I can see your soul
(I can reach your soul)
(I can touch your soul)
Sometimes

James

12.25.2007

Dias

Há dias em que morremos um pouco. Um pouco mais rápido. Um pouco mais certos na incerteza. Um pouco mais. Dias em que se crava fundo o frio da decepção e se entranha o manto branco do desalento. Onde as forças se afundam e levitam memórias. Percorrendo, em segundos, uma vida que quase não se deu conta passar. Dias onde o relógio invisível se faz notar. Onde se deixa ir na corrente. Algures. Para longe de nós. Dias pálidos. Dias em que morremos. Um pouco mais.


O que me abate verdadeiramente é não conseguir estar à altura para esbater o sofrimento dos que me são mais chegados. Desculpa-me.

12.22.2007

A crise

Cliente (C): Boa tarde. Podia dizer-me o preço destes botões de punho? Não estão marcados.

Funcionária (F): Botões de punho? Isto não são botões de punho. São... são... Ó colega o que é "isto"? São... Uma coisa que ficou ai.

C: Desculpe, mas são botões de punho.

F: Ó colega quanto é que “isto” custa? Deixe ver... Não está registado no sistema...

C: Se quiser oferecer-mos eu aceito.

F: Por mim...

C: Tudo bem deixe estar, quero zelar pelo seu posto de trabalho. Boas Festas!

Apenas não pedi o livro de reclamações pois estamos no Natal e temos que compreender que o comércio em Portugal anda mesmo mau. É da economia. Que havemos de fazer...

12.21.2007

12.19.2007

Pequenas diferenças

O mundo está cada vez mais igual. Avançando aos poucos, pé ante pé. Camuflado no frenesim do movimento. Imperceptível aos menos atentos. Cobrindo tudo duma tinta espessa. Pastosa. Asfixiando as cores, esbatendo as luzes num tom uniforme. Insuportavelmente igual.

Globalizam-se gostos e desejos. Estereotipam-se estilos. Moldam-se causas e vontades. Acentuam-se desigualdades e injustiças. A informação é comprada em pacotes e disseminada em modas, sem o devido tratamento ou juízos de valor. Tudo se aceita. Nada se contesta se nos deixamos embalar no seu cavalgar.

O verdadeiro poder é reservado e corporativo. Oculto. Move-se discretamente na sombra das ilusões lançadas. Tomando as rédeas deste mundo uniforme.

Não podemos mudar o mundo, mas devemos procurar o conhecimento, a exigência e os valores que nos permitirão, talvez, não deixar fugir as pequenas diferenças.

12.18.2007

Folha branca

O tempo e o espaço concentrados no infinito branco da folha despida. Simplicidade vazia que tudo absorve e permite. Lago de silêncios magnéticos ávidos de aparos e afagos. Textura impaciente. Sempre expectante. Cálida nudez sedutora de partidas ou destinos. Nunca de chegadas. Caminho incerto. Cama. Desfilamento.

A felina necessidade da escrita. Rugindo. Afiando as unhas. Aproximando-se lentamente da pele. O peso da necessidade. Palavras soltas que correm para um amplo largo empedrado. Ecos que levantam voo. Respirar. Arrepios. Uma droga que se espalha escorrendo da alma. Talvez. Depositando o seu corpo cansado na insuportável brancura da folha. Branca. Branca. Tão branca.

12.17.2007

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

12.13.2007

A thousand kisses deep.





The ponies run, the girls are young,
The odds are there to beat.
You win a while, and then it's done -
Your little winning streak.
And summoned now to deal
With your invincible defeat,
You live your life as if it's real,
A Thousand Kisses Deep.

I'm turning tricks, I'm getting fixed,
I'm back on Boogie Street.
You lose your grip, and then you slip
Into the Masterpiece.
And maybe I had miles to drive,
And promises to keep:
You ditch it all to stay alive,
A Thousand Kisses Deep.

And sometimes when the night is slow,
The wretched and the meek,
We gather up our hearts and go,
A Thousand Kisses Deep.

Confined to sex, we pressed against
The limits of the sea:
I saw there were no oceans left
For scavengers like me.
I made it to the forward deck
I blessed our remnant fleet -
And then consented to be wrecked,
A Thousand Kisses Deep.

I'm turning tricks, I'm getting fixed,
I'm back on Boogie Street.
I guess they won't exchange the gifts
That you were meant to keep.
And quiet is the thought of you
The file on you complete,
Except what we forgot to do,
A Thousand Kisses Deep.

And sometimes when the night is slow,
The wretched and the meek,
We gather up our hearts and go,
A Thousand Kisses Deep.

The ponies run, the girls are young,
The odds are there to beat.
You win a while, and then it's done -
Your little winning streak.
And summoned now to deal
With your invincible defeat,
You live your life as if it's real,
A Thousand Kisses Deep.


Leonard Cohen

12.12.2007

Mar revolto

Queria dizer-te o mar revolto que um dia aprisionei. Maré contida mas indomável. Bater incessante que sempre volta em busca de uma fresta de palavra para se libertar. Fome voraz de passado esquecido. Que sempre flui para ti.

No contorno dos lábios ondula esse mar. Ancorado. Depositando o sal e a espuma dos dias guardados. Levantando a poderosa tempestade que sempre se agita no silêncio profundo do nosso olhar.

De nada serve falar a este nível de abstracção. O mar é sempre vasto e incerto. Sem principio nem fim e eu já me habituei a ele. Revolto.

12.11.2007

Claridade e escuridão

Escuro. Dava-se cada vez melhor no escuro. Na ausência. No nada.
Nada já lhe interessava. Nada o comovia. Nada.
O mundo fora perdendo cor e a luz tornara-se, aos poucos, insuportável. Perdera a vontade dos dias. Apenas tacteando os silêncios frágeis da noite. Vazia. Protegida. Sagrada.
O seu corpo tornara-se uma casa inabitada. Inóspita. Apenas visitada por um vácuo antigo que lhe fortalecia os sentidos. Tornando-o num predador de silêncios. Via no escuro a tinta invisível dos dias, protegida dos olhares. Uma inocência perdida, evaporada com o calor do sol. As falsas verdades. A coragem adiada. Os valores esquecidos. Também pairavam no negro enxame do escuro. Na transpiração do dia acabado. Cansava-o essa predisposição pois tornava-o seu escravo. Era, no entanto, apenas o que lhe restava e o prendia a este mundo de claridade e escuridão.

12.10.2007

Eu quero morrer no mar

Olha os meus olhos morena
porque a aventura é ficar
se a minha terra é pequena
eu quero morrer no mar.

Lençóis de algas e peixes
de barcos a menear
no dia em que tu me deixes
eu quero morrer no mar.

E se o negro é a tua cor
respirando devagar
depois de amor meu amor
que quero morrer no mar.

António Lobo Antunes

12.07.2007

Fragmentos divinos

Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência?
Ou impõe-se devagar, como as coisas que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?

Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.

Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.

Nuno Júdice


Apesar de não ser crente parece-me uma curiosa visão divina.

12.06.2007

Sometimes blood sings





Sometimes blood sings.
When blood sings you ear strange voices inside your body. Whispering you softly images and words like Champaign bobbles. Blowing warm emotions around your skin.
When blood sings you dance embedded in his rhythm.
When blood sings your have no doubts that you are not alone. Someone or something is trying to tell you a secret. It’s pure magic when blood sings and it happens always when you are not expecting. Sometimes blood really sings.

12.04.2007

O anjo da escada

Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando
clamando...

Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros...
com os meus caminhos...
com as minhas nuvens...


Mário Quintana

12.02.2007

12.01.2007

O encantador de almas

"Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida"

António Gedeão


O encantador de almas alimenta-se de sonhos. Atordoa-os com músicas celestiais invisíveis e ceifa-os para sempre dos vastos campos, não os deixando crescer e voar. Dizem que se veste da noite e tem a brancura inóspita da lua nos seus cabelos. Penso que nunca ninguém o viu mas consta que os tritura num círculo perfeito. Da medida do ser. Reduz a sua essência a um pó mágico. Brilhante, com que alimenta o ego. Cuidado com os seus encantos e preces derrotistas. Protejam bem os vossos sonhos e não desistam há primeira pois o encantador de almas vai sempre voltar.

11.30.2007

O inquilino II

Ali estava diante de mim. Imponente. Altivo. Marcando a sua distância volátil numa imobilidade de estátua. Apenas marcava a sua presença no seu respirar ofegante daquele final de tarde fria.

Parecia calmo. Mostrando-se numa espécie de lago gelado. Reflectindo-se de tudo. Protegendo a sua aparição. Frágil. Pronto a quebrar a qualquer momento.

Fitava-me com os seus olhos enormes de noite sem fundo. Infinita. Absorvente. Misteriosa. Guardiões de outros mundos. Observámo-nos mutuamente numa claridade venenosa de desconfiança e respeito. Numa aproximação ténue a testar terreno.

Desapareceu num raio de luz nunca visto. Intenso. Deixando a percepção da fuga no voar dos pássaros e num trovão de relincho cortante que perdurou até ao cair da noite. Choveu e em cada gota espessa senti a sua presença.

11.25.2007

Oscar, o cão observador

Oscar era um focinho com orelhas. Do seu pequeno porte e pelo rasteiro era isso lhe transparecia. Como que num íman gravitacional as orelhas caíam-lhe tapando-lhe toda a cabeça onde se avistava apenas o seu focinho húmido, colado ao chão, e um andar vagaroso que não conhecia o tempo.

Conhecia todos os cheiros e ruídos. Pressentia o futuro com um arregalar do olho esquerdo, sempre desconfiado ou andando aflito, em círculos, quando antevia uma desgraça.

Ficava frequentemente para traz, distraído com algo e preservava sempre uma certa distância nas suas alegres caminhadas.

Apaixonei-me para sempre pelo seu estado híbrido, algures entre o dormir acordado e uma sonolência de orelha levantada.

11.24.2007

Dia de chuva

A primeira coisa que deves fazer em Paris é passear à chuva.
Em Paris nunca se usa chapéu de chuva. É proibido.
Há um cheiro doce quando chove em Paris. É dos castanheiros. Sabias?

in Sabrina, Sidney Pollack

Estou a precisar de andar à chuva...

11.23.2007

O anjo mudo

Mar
Nunca conseguiu viver longe do mar.
A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.
Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meio cegos a vastidão incendiada do oceano - e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.
Aprendera, também, que o mar, aquele mar - tarde ou cedo - só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.
Depois, partiu para longe. E durante anos recordou, em sonhos, o mar avistado pela última vez ao fundo das ruas. Procurou-o sempre por onde andou, obsessivamente - mas nunca chegou a encontrá-lo.
Certa noite de bruma fria, em Antuérpia, no "Zanzi-Bar", julgou ouvir o mar que perdera na voz dum jovem marinheiro grebo. Mas não, o marulho que aquela voz derramava, junto à sua orelha, era de outro mar - fechado, calmo - propício aos amores inquietos e à lassidão embriagante do sol e do vinho.
Anos mais tarde, em Delos, haveria de reconhecer a voz do marinheiro no rebentar das ondas, em redor da ilha, como um eco: "onde te vi despir regresso agora / para adormecer ou chorar" e a noite caiu subitamente sobre ele, sobre a ilha e sobre o sonolento coração das leoas em pedra.
Uma outra vez, perto de Gibraltar, uma mulher idosa quis ler-lhe as linhas emaranhadas da mão. Já não se lembra o que lhe contou a mulher, acerca da vida e dos rumos da paixão. Recorda somente o que ela lhe disse ao separarem-se:
- Tens nos olhos a cor triste do mar que perdeste.
E passou bastante tempo antes que o homem voltasse ao seu país. Quando o fez, foi ao encontro do mar. Largou a cidade e os amigos, a casa, o conforto, a noite, o trabalho e tudo o mais. Viajou em direcção ao sul, com a certeza de que jamais encontraria o mar perdido, em lugar incerto, a meio da sua vida.
Sabia agora que nenhum mar existia fora do seu corpo, e que tinha sido na perda irremediável de um mar que adquirira um outro onde, por noites de inquietante insónia, podia encontrar-se consigo mesmo e envelhecer sem sobressaltos; afastado da vã alegria dos homens e da pobreza do mundo.
Ao chegar junto do mar sentou-se no cimo da duna, como dantes, e esperou. Esperou que o mar guardado no fundo de si transbordasse, e fosse ao encontro daquele que perdera e se espraiava agora à sua frente.
Ainda hoje permanece sentado, no mesmo lugar - esperando o instante em que os dois mares se dissiparão um no outro, para sempre.
Está cansado da guerra com as palavras e do veneno dos homens, tem os olhos queimados pelo sal. Os dedos adquiriram a rugosidade da areia e dos rochedos; da sua boca solta-se um marulhar surdo, muito antigo, que os dias e a solidão arrastam devagar para a luminosa euforia das águas.
Nunca mais o lembraremos
Um dia, em frente ao mar, ele pensou:
Se me apagasse neste preciso instante, o mundo pouco se importaria com isso. No entanto, deixaria de ser o mesmo: seria um mundo com todas as coisas que conheci e toquei, mas sem mim. E eu, algures na morte, é pouco provável que levasse comigo alguma coisa do mundo. Seria um homem morto, sem mundo, definitivamente só.
Depois, não lhe agradou saber que o mundo, apesar da sua morte, conservaria por muito tempo os vestígios da sua passagem. Desejou, uma vez mais, que tudo o que escrevera até àquele instante se apagasse também, e que do seu nome não restasse uma sílaba.
Pensou em tudo isto sem amargura, porque havia nele dois mistérios insolúveis: viver e escrever. E ambos estavam tão intimamente ligados que, provavelmente, se conseguisse desvedar um deles, o outro sê-lo-ia também.
Mas acontece que tinha tentado fazer da sua vida uma obra tão intensa quanto a obra escrita. Por vezes diluiam-se uma na outra, confundiam-se, tão próximas ou afastadas estavam. E tanto na vida como na escrita, um mesmo desejo o animava: caminhar em direcção à sabedoria última do silêncio - a memória total do mundo.
O pior é que sempre que avançava alguns passos na direcção certa, desiludia-se. A harmonia com o mundo e com o seu próprio corpo continuava inacessível; e outras ignorâncias surgiam, oturas trevas o cegavam. O que parecia estar perto, repentinamente, ficava fora do alcance.
Apesar de tudo, com o avançar lento da idade pressentia, algures dentro de si, um ser de lume - um anjo mudo que o iluminava, revelando- lhe aquilo que devia ou não silenciar.
E quando esse ser o fazia sentir árvore ou pássaro, todo o talendo da árvore e o nocturno voo do pássaro escorriam em si. E se a sensação de mar lhe era transmitida, ele sabia que era um mar muito mais remoto e vasto que aquele que diante de si se movia.
Respirava fundo, tinha medo, e escrevia como uma condenação - e nessa condenação encontrava um breve alívio para a dor das coisas vivas e mortas que o rodeavam. E o corpo, sempre apaixonado, tremeluzia quando o estranho anjo mudo lhe punha uma voz no coração.
Talvez seja por tudo isto que um dia nunca mais o lembraremos, nunca mais. Mas neste preciso instante ele acabou de acordar, abre os olhos, arde, é jovem ainda, e diz-me a sorrir:
- Aqui tens o inocente revólver para a eternidade.


Al Berto

Cor de alento

Estiquei o horizonte ao limite de tanto torcer por ti.
Pedi às nuvens para te invadirem o respirar da mais cálida tranquilidade e ao céu para te cobrir de esperança, afastando a noite densa que te envolveu.
Que o sol te dê o calor do meu abraço e te mostre este lindo dia que apenas espera o teu sorriso.

11.22.2007

Another day





Say
Goodbye
Sunshine
Daylight
'Cause it's just another day
You will lose it anyway

Kiss
The time
That goes
Away
'Cause it's just another day
You will lose it anyway

You
You lust
In Space
In Time
'Cause it's just another day
You will lose it anyway

Air

11.21.2007

Coisa amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
Manuel Alegre

11.20.2007

A estaca

Que os meus valores sejam firmes como uma estaca cravada na terra. Sólidas raízes com olhos de universo. Que tenham sempre a sensibilidade de absorver os elementos e se entusiasmar com impossíveis. Que acreditem num mundo melhor. Que do passado bebam futuro. Que dos erros tirem ensinamentos. Que na sua seiva corram sempre sorrisos e afectos. Onde o Tu se destaque do Eu. Que saibam perdoar e gozar as pequenas magias. Que as águas paradas da injustiça e do cinismo não os belisquem ou desgastem. Que mantenham as cores, rugas e texturas, não deixando transformar-se na pedra fria e polida. Cinzenta, oca, vazia. Que nunca se curvem. E se olharem, em algum momento para baixo, que seja apenas para ver o reflexo do céu.

11.18.2007

Mesquinhez

Um espírito mesquinho é como um microscópio: aumenta as pequenas coisas, mas impede de ver as grandes

Philip Chesterfield

11.16.2007

Child flame

"Nasci adulta e morrerei criança"

Augustina Bessa Luis



The Eyes of Truth
are always watching you
Alsyn Gazryn Zeregleenn
Aduu shig mal shig torolzonoo khuoo
In the distance the mirage stands out like horses and cattle.
Very glad to see my beloved son.
[Sandra's whispers]
Je me regarde
Je me sens
Je vois des enfants
Je suis enfant !
I look at myself
I feel myself
I see the children
I am a child!


Enigma

11.15.2007

Bússula

De todos os caminhos
De todos os destinos
De todos os encontros
De todos os desencontros

De todas as partidas
De todas as chegadas
De todas as pressas
De todas as esperas

De todos os ânimos
De todos os cansaços
De todos os sonhos
De todos os dogmas

De todas as dúvidas
De todas as certezas
De todas as fugas
De todas as descobertas

De todos os sorrisos
De todas as dores
De todos os dias
De todas as noites

De todos os voos
De todas as quedas
De todos os fósseis
De todas as pegadas

Apenas duas certezas
A terra será sempre redonda
E a minha bússola interior

11.14.2007

Degraus

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
os deuses, por trás das suas máscaras,
ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo.


Mário Quintana

11.13.2007

Folha de Outono

De toda a beleza da vida
Escolhi a da folha
Para me despedir

No seu leve cair
Acenei ao luar
Pelo brilho dos dias

E pisquei o olho
Ao céu pelo pitéu
da chuva vadia

Nesse breve momento
Revivi árvore e semente
Desde o cume à raiz

Curiosamente
nada me ocorreu
do que fiz

Dos verdes campos
Às rugas de Outono
Apenas o teu desfolhar

Beijo a beijo
Folha a folha
Respirar

Naquela folha
a palma da tua mão
Aberta. Desperta

Textura de pele
e carícia num espinho
Frágil. Profundo

Folha caída assim me desfaço
E desfaleço neste manto
De Outono que guardei para ti

11.09.2007

Tentação

Olho-te
Encaro-te
Enfrento-te
Resisto-te

..........sempre em vão

Ilumina-me
Descobre-me
Relembra-me
Decifra-me

..........esta atracção

Desejo-te
Respiro-te
Amo-te
Odeio-te

..........brusca palpitação

Toma-me
Percorre-me
Acode-me
Consome-me

..........esta tentação

11.08.2007

Sympathy for the Devil




Please allow me to introduce myself
I'm a man of wealth and taste
I've been around for a long, long years
Stole many a man's soul and faith

And I was 'round when Jesus Christ
Had his moment of doubt and pain
Made damn sure that Pilate
Washed his hands and sealed his fate

Pleased to meet you
Hope you guess my name
But what's puzzling you
Is the nature of my game

I stuck around St. Petersburg
When I saw it was a time for a change
Killed the czar and his ministers
Anastasia screamed in vain

I rode a tank
Held a general's rank
When the blitzkrieg raged
And the bodies stank

Pleased to meet you
Hope you guess my name, oh yeah
Ah, what's puzzling you
Is the nature of my game, oh yeah
(woo woo, woo woo)

I watched with glee
While your kings and queens
Fought for ten decades
For the gods they made
(woo woo, woo woo)

I shouted out,
"Who killed the Kennedys?"
When after all
It was you and me
(who who, who who)

Let me please introduce myself
I'm a man of wealth and taste
And I laid traps for troubadours
Who get killed before they reached Bombay
(woo woo, who who)

Pleased to meet you
Hope you guessed my name, oh yeah
(who who)
But what's puzzling you
Is the nature of my game, oh yeah, get down, baby
(who who, who who)

Pleased to meet you
Hope you guessed my name, oh yeah
But what's confusing you
Is just the nature of my game
(woo woo, who who)

Just as every cop is a criminal
And all the sinners saints
As heads is tails
Just call me Lucifer
'Cause I'm in need of some restraint
(who who, who who)

So if you meet me
Have some courtesy
Have some sympathy, and some taste
(woo woo)
Use all your well-learned politesse
Or I'll lay your soul to waste, um yeah
(woo woo, woo woo)

Pleased to meet you
Hope you guessed my name, um yeah
(who who)
But what's puzzling you
Is the nature of my game, um mean it, get down
(woo woo, woo woo)

Woo, who
Oh yeah, get on down
Oh yeah
Oh yeah!
(woo woo)

Tell me baby, what's my name
Tell me honey, can ya guess my name
Tell me baby, what's my name
I tell you one time, you're to blame

Oh, who
woo, woo
Woo, who
Woo, woo
Woo, who, who
Woo, who, who
Oh, yeah

What's my name
Tell me, baby, what's my name
Tell me, sweetie, what's my name

Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Oh, yeah
Woo woo
Woo woo


The Rolling Stones

11.07.2007

Ondas

Que
Eu tenha a perseverança da onda do mar,
Que faz de cada recuo um ponto de partida, para um novo avanço !


Gabriela Mistral


Pedido emprestado e amavelmente cedido para poder assinar por baixo.

11.06.2007

Aquela música

Eu ouço música como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo...

Eu ouço música como quem está morto
e sente

um profundo desconforto
de me verem ainda neste mundo de cá...

Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!

Eu ouço música como um anjo doente
que não pode voar.

Mário Quintana

11.05.2007

Ecos de água

Fecho os olhos num silêncio de concha vazia.
Um eco de gota sobre água parada percorre-me ondulante.
Escorrego lentamente por pedras polidas, cobertas de musgo.
Húmidas de cheiros e sal.
Visitam-me reflexos que se espantam em meu espelho de mar.
O meu destino é seguir a maré
Acordo cansada


11.04.2007

Nature's scream



Sometimes if we stay quiet and in silence we can ear the voice of nature whispering. Claiming for our nonsense’s.

11.03.2007

Rasto de luz




A cidade estava vazia. Magicamente vazia. Acordara com uma estranha sensação de silêncio total. Foi à janela e avistou a rua completamente despida. Deserta. Nem carros a circular, nem pessoas, nem mesmo os habituais gatos vadios que costumavam passear junto ao telheiro. Nada. Apenas as luzes e uma espécie de rasto, quase imperceptível, que acenava numa dança ténue e o convidava a descer.

Desceu as escadas e começou a seguir o rasto. Era uma espécie de névoa com brilho musical, que curiosamente desaparecia quando se tocava para voltar a aparecer de seguida.

A cidade, que tão bem conhecia, parecia agora diferente. Sem qualquer sinal de vida ao seu redor. Apenas objectos imóveis, outrora despercebidos, que pareciam querer contar-lhe séculos de existência, aborvidos ao longo do tempo.

Sentia-se o único ser no mundo. Como se todas as formas de vida tivessem escorrido por entre as frestas ressequidas da terra para que algo pudesse ser revelado. Ao passar a ponte, a brisa parou subitamente, sentindo-se ainda mais observado à medida que ia seguindo aquele misterioso rasto. Parecia que conseguia ouvir o barulho das luzes, cada vez mais intensas.

Apesar da situação, uma tranquilidade impossível apoderava-se dos seus sentidos numa enxurrada de pensamentos calmos. Ao fim da estrada, um pequeno vale ocultava um clarão de luz. Percebeu ser o final do rasto. Que segredo lhe estaria reservado?

11.02.2007

O limo da memória II

Tantas lágrimas ... tantas ... mas tão diferentes. Dantes, quando chorava, parecia-lhe que todas as lágrimas iam parar a um frasco cintilante e fundo, onde se transformavam em brilhantes, diamantes e pedras preciosas verdes, encarnadas, azuis, amarelas, brancas ... reflectindo tantas ou mais cores.

Apesar do sofrimento que lhes dava origem, parecia-lhe que nesse tempo ainda havia algo que as transformava em coisas belas, puras, coloridas, cheias de emoção e sentimentos, como se a sua fábrica de lágrimas conseguisse produzir algo. Agora ... era diferente ... agora parecia-lhe que as mesmas lágrimas eram vazias, sem sentido e ainda mais sofridas, por isso mesmo.

Olhou o limo, piscou os olhos involuntariamente, imitando o bater das pestanas douradas dele, como os apaixonados fazem inconscientemente quando se encontram frente a frente e perguntou-lhe: "Que hei-de fazer com as minhas lágrimas? Como te posso ajudar, se nem eu
sei já o que fazer delas?" E o limo respondeu-lhe numa voz doce e trémula, frágil mas esperançosa, estendendo o fino braço que se dobrou na sua direcção como a haste verde de
uma flor: "Oferece-mas. São como água para mim. Preciso delas para não murchar."

Puxou as mãos do limo, lentamente, na leveza duma carícia, juntando-as numa concha. Olhou-o profundamente nos olhos e ali permaneceu. O tempo dos seus olhos nos dele percorreram mares e desertos, silêncios e tempestades. Uma viagem a um mundo desconhecido mas com um caminho traçado. Como se sempre o tivesse conhecido. Parou num prado verdejante, cortado por um desfiladeiro enorme onde se sentia o vento nos cabelos. Ao olhar para baixo, penetrando na vertigem do espesso negrume, sentiu uma tristeza apoderar-se de si. Como uma hera a crescer, enrolando-se ao corpo. Uma tristeza inimaginável. Do mundo. Séculos de tristeza concentrada.

Não conseguiu aguentar mais tempo e libertou o olhar do limo em lágrimas. Espessas, percorrendo o rosto, corriam magneticamente atraídas para a concha formada pelas mãos do limo.


To be continued...


Em colaboração com Andrómeda

11.01.2007

"Queria só falar contigo". Só! Porque é que os seres humanos acham que falar com alguém é uma insignificância?

Miguel Esteves Cardoso

10.31.2007

O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.


Natália Correia

10.28.2007

Curva

"The curve is the nicest line from a point to another"


Mae West


Sempre soube curva a distância entre os nossos pontos. Que bom.


Continuação do post "Ponto final"

Assíduos do shaker

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