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5.08.2013

Ainda há tempo


Ainda há tempo para roubar um sorriso, para descobrir o acaso
Ainda há tempo para rolar na relva, para dar a mão à poesia
Ainda há tempo para entrar na noite escura e acenar ao passado
Ainda há tempo para ser simples e inteiro, baralhar e dar de novo
Ainda há tempo para repartir e dividir, para fechar os olhos e tudo ter
Ainda há tempo para poisar nos teus cabelos, respirar, dormir na tua sombra
Ainda há tempo para o mar, para o arrepio, para bossanova
Ainda há tempo para sacodir as palavras, espantá-las livres como pássaros 
Ainda há tempo para amar a vida
Amar, sem medo, sem pé, como quem se inunda de facas


4.01.2013

Certeza [do que há-de vir]



Resta-me pouco tempo! Pressenti-o ao acordar mas não to revelei. Achei, talvez, que te iria assustar sem aparente razão, que te teria para sempre para to poder contar ou que, ao invés, não me deixarias sair, ou mesmo sem o saberes, pressentirias algo nos meus olhos e me darias um beijo mais longo, um carinho mais demorado. 

Apesar de não ter voltado a esse pensamento, fiquei assim, com essa sensação colada ao corpo, como que com um peso morto sentado ao ombro, acentuando a gravidade num movimento mais arrastado, mais fotográfico para o mundo

Resta-me pouco tempo! Mesmo sem o ouvir sentia-o nas conversas irrelevantes, nos problemas urgentes, nos telefones a tocarem, silenciados pela cadência do sangue, pelo respirar. Talvez porque numa vida nos reste sempre tão pouco tempo, no desfiar dos dias, adiando o essencial sem nos darmos conta, sem o pavor consciente de que pode não haver tempo.

Uma vida é uma só. Irremediável, irrepetível. Sem tempo a perder, apenas o que existe - pegar ou largar. E eu hoje com tão pouco para ficar aqui na conversa com o papel.

Cheguei mais cedo e no percurso agradeci o tempo vivido na plenitude do verbo, o dado e o recebido dos que me são mais queridos, mais meus,  das pequenas coisas efémeras que também compõem tanto uma vida. 

Toquei à campainha só para vires à porta e entre um beijo aluado e um abraço de anémonas lentas pensei para comigo - talvez o tempo não interesse nada!

1.08.2013

Entardecer


Apertaram-se com força e deixaram os rostos encostados, âncorados, balanceando na ondulação. Sem nada dizer, sem convidar as palavras, sem levantar vela.

A saudade é uma cicatriz invisível, que envelhece no avesso do corpo mas cujos dedos sempre reencontram no escuro, aflitos de lhe perder os laivos dourados do entardecer. 

Tocaram-se ao de leve e demoraram o olhar. Percorreram rugas e imaginaram as ruas estreitas das suas vidas, sem nada dizer, sem nada perguntar, sem nunca se cruzar. 

Apenas aquela brisa a rodopiar, sem levantar vela, com força.



11.02.2012

Words like violence


Hoje as palavras não chegaram a ver o sol. Ameaçaram simplesmente, sucumbindo de imediato como neve sensível ao calor do papel. Palpitavam, soltas, na simplicidade universal do inglês, deixando pequenos rastos duma dança. Pegadas, aqui ou acolá. Nada de muito firme ou fácil de seguir, apenas frágeis fragmentos, intermitências que se sentem na pele. Hoje as palavras não deram as mãos, não voaram nem ficaram a assobiar pelo corpo. Tão somente cresceram como árvores caladas para o mundo, despidas de folhas e frutos. Soltando apenas, por descuido ou malvadez, uma espécie de grito extenso que espanta os pássaros, única prova da sua existência. Hoje as palavras morreram baixinho, longe da boca, ao relento do coração.


9.04.2012

A tua pele


Abel Korzeniowski, Clouds



Levitar e cair, numa gota de chuva, sem fundo, sem tempo, sem barreiras.
Engrossando numa viagem de sentidos. De olhos fechados e mãos abertas.
Até alcançar, por fim, a tua pele.

8.13.2012

Azul


Enche-me assim, do teu azul feito de água, não do céu. O céu é demasiado distante e os teus olhos cruzam-se no meu horizonte, tingindo-me por dentro como peixes vivos. Azul, onde flutuo despida de tudo e me deixo embalar no tempo de um suster de respiração. Neste teu beijo demorado, salgado de imagens, que guardo na pele e me devolves nessa tua maré. Azul, simples mas intenso azul. Feito de água, não do céu.

10.14.2011

The Devil



Pego no silêncio e amarroto o dia, o mundo, as palavras. Tudo condeno, tudo assassino. Tudo mando amordaçar. Tudo, excepto o arrastar daquela guitarra, desenrolando o seu longo véu sedoso, livre como um peixe vermelho na noite despida. Vermelho, no acender de um cigarro, vermelho como o diabo.

"Wait for god... fall for me... Wait for love... wait for me... The devil will come"

[Anna Calvi, The Devil]

7.31.2011

Ébano e marfim

Percorro-te no escuro, afagando o teu cansaço adormecido. Por entre a brisa calma dos dedos esguios e um morno oscilar da respiração. Vagarosamente, sem pressa alguma. Numa maré de seda, sem tempo ou lugar. Apenas tu.

O teu corpo é um poema aluado, que as minhas mãos interpretam como notas soltas de piano antigo, ficando a ecoar neste silêncio despido, soltando folhas de outono e sorrisos. Trazendo este tom sépia de fotografia que se quer guardar para todo o sempre e a tua alma aos meus lábios. Num beijo, um beijo só. No teu beijo da próxima manhã.

12.25.2010

All you need is now


[Duran Duran, All you need is now]


Querer aprisionar o mundo numa fotografia, para lhe sorver e conservar intactas todas as subtilezas e pequenos nadas invisíveis ao nosso tempo. Olha-las à distância e acariciar-lhes os cabelos infinitos. Trazer-lhe as sombras outrora ocultas no bolso das calças e puxá-las ao calor do dia numa nova luz. Observá-lo como quem trinca uma fruta sumarenta, sedosa e escorrida. Absorver-lhe o líquido que não é água nem sangue mas se mistura com o corpo - matéria invisível contida num olhar ou gesto apagado. Avivado dum nada que sempre caminhou ao nosso lado, destapando um cheiro ou uma imagem. Viver o momento intensamente, em todos os lugares e um dia, quem sabe, talvez regressar.


Já não escrevia há muito tempo. Já não ouvia estes meninos há muito também.

12.04.2010

Em ti

Durmo, na tua sombra
sem que o meu peso te invada
o calor suspirado à pele

10.07.2010

Beginning workout


The Strokes, Heart in a Cage


beginning workout. respira. outra vez, mais uma. sente o céu, o rio, a liberdade. corre até não poderes mais. deixa a chuva tocar a tua pele, misturar-se com o teu suor, apaziguar por momentos o palpitar do coração, o pulsar do sangue. morde a paisagem com os olhos, toca as árvores sem as tocares e deixa voar os pensamentos. testa os teus limites. descobre novos lugares. respira. outra vez, mais uma. corre com a música que te invade o corpo. corre até à lua e volta outra vez. corre contra o dia que passou e pelo dia que há-de vir. Vicia-te. Sê o teu melhor inimigo. Solta o coração da jaula do teu corpo e corre. corre até não poderes mais. workout completed.

9.15.2010

Era sempre assim

Trazia-a sempre consigo, colada ao interior da pele. Quando tinha de a deixar doía-lhe baixinho uma maré e entregava-lhe as anémonas do seu corpo, suspensas num azul antigo, até ao regresso das suas mãos. Quando se encontravam beijavam-se muitas vezes e tocavam-se como na primeira vez. Era sempre assim. Sempre, assim.

6.23.2010

Tatuagem de sol

Há cabelos teus e silêncios, espalhados pela casa. Brilhos moídos das searas que deixaste ligadas por pontes e marés, que sussuram o teu nome na pele, como um sol, tatuado nos meus dias.

5.31.2010

Saudade

Escondia-se atrás de um poema, tapava-se com ele e deixava a música soprar uma brisa, a tocar. Levantava-se pouco, apenas para trocar o CD ou para contemplar o silêncio sapiente das árvores. Às vezes, preparava uma bebida e recordava, surpreso, imagens que aparecem sem bater à porta e nunca se conseguem apagar ou recusar a entrada. Falava-lhes com a voz inaudível que apenas sobrevive a levitar por dentro dos corpos, de tão frágil e sedosa. Mordia os lábios devagar e fechava os olhos com muita força. Adormecia com os teus olhos. Os teus olhos abraçados aos seus, ondulando, no escurinho das pálpebras fechadas.

5.08.2010

O que há-de vir

Hoje o rio estava com pressa, todo ele corria, todo ele mexia, e no seu movimento calado, soltava um gemido suspenso, que agitava os pássaros e acordava as plantas. Corria molhando a roupa, colando-a ao peito, dançando na magia simétrica do seu reflexo: água, entre o céu e a terra.

Hoje o rio estava com pressa e descia apressado, sem vontade de olhar para trás, deixando a paisagem imóvel, estática de atenção. Com ele e a sua pressa um rasto de mil texturas e arrepios.

Hoje o rio estava com pressa, arrastando com ele, os seus olhos lentos, mergulhados na sua correnteza, deixando-se levar de azul em azul. Ela e o rio, os dois, de mãos dadas num só, deixando-se ir, na pressa do nada, na pressa do que há-de vir.

3.10.2010

Antique


Gosto de bairros históricos e de casas antigas. Gosto do seu tempo mais lento e espesso, mais perdido, mais escondido, e da surpresa do moderno que pode morar por detrás duma porta centenária. Gosto de pensar no que as fachadas já presenciaram, nas histórias que guardam, nos segredos que lhe foram confinados, tocando, ao longo do tempo, as suas paredes gastas. Gosto do barulho do soalho e do burburinho nas ruas pequenas, ecoando nos pés-direitos altos. Gosto da luz sépia, que aquece e apetece guardar dentro das gavetas. Gosto dos gatos vadios, entreparados nos telhados anónimos e do vento por companhia. Gosto dos pátios recolhidos para as traseiras, que não se deixam aperceber do exterior, e das varandas viradas para o céu ou para o rio. Gosto de me perder por lá, nos finais de tarde, nas noites estreladas, num cintilar tilintante de gelo num copo ou num respirar mais fundo e demorado, numa fotografia que se guarda nos olhos por muito tempo. Gosto de bairros históricos e de casas antigas, que me levem para longe, que me levem para trás ou para a frente do tempo, que me levem para onde nunca estive ou fui.

2.22.2010

O tempo é meu aliado

O tempo é meu aliado, guarda os meus silêncios numa casa isolada, feita de folhas de Outono, a amarelecerem na memória, a desfazerem-se sopradas, para um ramo alto, longínquo, a diluírem-se no calor do horizonte. Com eles vagueiam também as palavras arrependidas, balançando ao vento, penduradas, que de soltas sem amparo, deixaram algumas pegadas difíceis de desprender, e as que, de ouvidas como lâminas, ainda doem nas cicatrizes.

O tempo é meu aliado, aprisiona tudo dentro da vista dessa casa interior, até que um pestanejar mais fundo virá apagar definitivamente o seu giz, transformando-o num pó que se sopra à varanda e nos deixa de visitar. Abrem-se de novo as pálpebras como um bater de asas leve, longo, deixando respirar o ar frio que aquece numa paz que fica a planar, que perdura tranquila, para além do tempo - o tal, que faz o favor de ser meu aliado.

2.08.2010

Uma voz que veio de longe

Hoje ninguém me veio visitar, excepto o vento e uma voz, que veio de longe. Não conheço ambos: o vento é sempre imprevisível, nunca se dá a conhecer, e as vozes, que vêm de longe, deixam sempre pegadas e trilhos para outras se lhe seguirem lançando a confusão.

O vento passa, deixando o rasto da sua passagem, num frio instalado nas mãos, que entretanto se aquecem, sem darmos conta, afagando um gato invisível, que se enrosca na atenção, imóvel, de olhos entreabertos, à caça, da tal voz que veio de longe com pés de lã.

Olho, não a voz, mas o seu reflexo [uma voz nunca se pode olhar, apenas se toca e se sente nos brilhos, nas pausas ou entoações], que por vezes é mais nítido que a própria imagem - traz coisas agarradas, como folhas e troncos velhos descendo num rio - mas agarradas a cuspo, podendo soltar-se a qualquer momento, a qualquer bafejar mais forte de vento.

Vejo o fundo do rio, mas não o da voz. Vejo a janela entreaberta, mas não a força do vento. Hoje ninguém me veio visitar excepto o vento e uma voz, que veio de longe mas já partiu.

2.06.2010

Poema a quatro gomos

No suor das sílabas
Na nudez do silêncio
Vivo e flutuo, gomo a gomo
na embriaguez de ti

Assíduos do shaker

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