11.16.2011

Pollaroid

A vida é a sucessiva insignificância de momentos vãos, tantas vezes anónimos, que de quando em vez nos tropeçam e se conseguem aprisionar, por breves momentos, na sua magnitude. Sorvendo-os como um fruto sumarento, magnético, um ar frio que se induz no corpo quente e tudo transforma à sua passagem. Demoradamente. De olhos fechados. Breves segundos frágeis e irrepetíveis. É por isso que pode existir mais poesia numa pollaroid tirada ao acaso e deixada numa folha em branco que em tudo o que se possa colocar por palavras. A vida é o acontece todos os dias. É o que é, não o que poderia ter sido, mesmo quando não darmos por ela, ali parada, sem pressa a olhar para nós.

11.14.2011

Labirinto [ou alguns lugares de amor]


O outono
por assim dizer
pois era verão
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras mãos que lentas barcas
vai-se aproximando a água

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
tão fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo
e é branco


Eugénio de Andrade

11.13.2011

Envelhecer

ele dizia-lhe amor com os dedos que se perdiam nos cabelos como vento nas searas. ela abaraçava-o muito forte e encostava-lhe nos lábios balões de ar quente que levitavam no avesso da pele. olhavam-se num ondular fundo e demorado, como dois pássaros livres poisados no beiral do seu telhado. Todas as noites era assim. Lentamente, como uma árvore a crescer.

11.09.2011

Ecos

"Há muitas coisas que percebo que não sou, mas dizer exactamente o que sou não consigo. Tento, dia a dia, ganhar o título de ser uma pessoa. E já não é pouco."


José Luis Peixoto

Azul sereia


De ti quero o azul
debotado à noite
pela espuma dos poemas
Para que inundes tudo
e ondules em mim
como música cintilante

Assíduos do shaker

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