5.31.2010

Saudade

Escondia-se atrás de um poema, tapava-se com ele e deixava a música soprar uma brisa, a tocar. Levantava-se pouco, apenas para trocar o CD ou para contemplar o silêncio sapiente das árvores. Às vezes, preparava uma bebida e recordava, surpreso, imagens que aparecem sem bater à porta e nunca se conseguem apagar ou recusar a entrada. Falava-lhes com a voz inaudível que apenas sobrevive a levitar por dentro dos corpos, de tão frágil e sedosa. Mordia os lábios devagar e fechava os olhos com muita força. Adormecia com os teus olhos. Os teus olhos abraçados aos seus, ondulando, no escurinho das pálpebras fechadas.

5.30.2010

Viver sem pressa

Trago os tordos na cabeça desde os campos
d'Atalaia para pôr neste poema -
o vento deixava-nos à porta
ora uma luz rasteira ora um esfarelado
chiar de carros de feno,
dos ramos altos
a tarde caía nos cabelos,
vivíamos sem pressa rente aos lábios.

Eugénio de Andrade

5.29.2010

Be wise but crazy


U2, I'll go crazy if I don't go crazy tonight


[ She's a rainbow and she loves the peaceful life
Knows I'll go crazy if I don't go crazy tonight ]

5.28.2010

Eu e mais 82.999 fomos

Muse em excelente forma: dinâmicos, cheios de ritmo, tocando as músicas mais conhecidas e com um cenário multimédia interessante. Noite fria mas totalmente suportável. Lua cheia "passarinhante", linda de morrer, libertando-se, aos poucos, das nuvens e acabando também ela por ficar em cima do palco. Boa companhia, cantar e dançar do inicio ao fim, casa cheia, boa disposição, apenas pena de não terem tocado esta música e de não ter chegado a tempo do Jorge Palma.

5.26.2010

A neve e a caixa de música

Cai neve e a caixa de música toca devagar. Acumula-se fina, nos ombros da memória, sem ganhar peso ou consistência, enquanto a corda estica, desenrolando o que ainda resta do tempo, perdendo a força dos dias passados, apagando o calor da melodia num sopro mais frio. Parou de nevar e a caixa de música, já calada também, preserva um eco ao ouvido.

5.25.2010

Let's go?

Ando com vontade de pegar numa coisinha destas, repleta de cor, e partir numa viagem a preto e branco para ir colorindo, sem pressa, com momentos que fiquem debotados para sempre na memória.

5.24.2010

Take them to Bruges

Sempre me apaixonarei por sonhos impossíveis à distância de uma vontade, por histórias de amor, por pessoas bonitas mesmo sem as conhecer, com carisma, energia contagiante e coração do tamanho do mundo. Sempre me apaixonarei por pessoas com sorrisos fáceis mesmo nas horas de aflição, com sentido de humor "negro" mas emoções à flor da pele. Sempre me apaixonarei por histórias bonitas, justas. Merecidas.


Força nas canetas, Himalaias de sorte e Evarest contigo [mesmo que seja em Bruges].

Já reservei o meu livro! Ide ide façam já também a vossa reserva Aqui e divulguem

Confio em ti


Rádio Macau, 90 metros


[ Noventa metros
acima no ar
lanço-me
sem
asas
, não vês
noventa metros
confio em ti
para me apanhar
]

5.23.2010

Cara de anjo mau

Encheu as mãos com espuma da barba e colocou-as bem abertas, nas suas costas lindas, macias e despidas. Aproximou-se devagar, por trás, encostando o seu rosto ao dela, num abraço apertado. Sorriu-lhe baixinho, primeiro ao ouvido, depois com os olhos demorando-se dentro dos seus. Com o ar mais sério e malandro, disse-lhe, num timbre pausado, abrindo as portadas dum tempo vivo e luminoso, ainda por entrar pela janela:
- Pronto! Agora que já tens as asas do anjo que és, não digas nada e leva-me contigo ao céu.

5.21.2010

A sépia dos dias

Tudo na vida nos diz
que é num momento fugaz
o tempo de um raio-X
que a gente quer ser feliz
vai ser capaz?


Sérgio Godinho

5.20.2010

Nada se assemelha a um momento perfeito

Lembrai-vos [sempre] que a perfeição é feita de pequenas insignificâncias, e que a perfeição nunca é uma insignificância

adaptado de uma frase de Miguel Ângelo

5.19.2010

O Filosofo


Depois de ouvir um bocadinho [pequeno] do nosso primeiro ministro ontem na TV, veio-me à memória esta frase que ouvi recentemente e me pareceu muito, mas muito bem: "Se estamos mesmo destinados a seguir o caminho dos gregos, então que tal começarmos por envenenar Sócrates com cicuta?"

5.18.2010

Make you breath, make me breath



Garbage, The Trick is to Keep Breathing


[ She's not the kind of girl
Who likes to tell the world
About the way she feels about herself
She takes a little time in making up her mind
She doesn't want to fight against the tide ]

5.17.2010

Canetasutra

Penso ser do conhecimento geral que, finalmente, o nosso ilustre e digníssimo presidente da republica, lá promulgou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O que poucos talvez saibam é que antes de "tão difícil" decisão, e depois de muitas fatias de bolo rei comidas sofregamente perante tais dúvidas existenciais, a sua caneta tenha sido submetida a inúmeros cenários visuais para que fosse mais simples assimilar certos preconceitos "que dividem o país".

Heterosexuais

Homosexuais

Lésbicas

Interacial

Gang-bang

Harém

Menage-à-tróis

Sobredotado

Pouco dotado

Desprotegido

Travesti

69

Pedofilia

Pílula do dia seguinte

Grany

Viagra

Swing

Fetishismo


5.16.2010

Ema, a baleia vagarosa

Quem te fez tão grande e pesada, mas de uma leveza de nuvem demolhada ao mesmo tempo? Quem te moldou suave ao toque, sem nunca te ter tocado? Balançando à tona dos meus olhos, trazendo maresia e levando o meu respirar, fundo, junto ao teu. Quem te entregou, ao mundo, vagarosa, tão certa dos dias e noites, viajando tranquila no azul do silêncio? Nos teus olhos Ema, bebi a sabedoria calada, a gratidão do tempo, as rugas do mar percorrido e ainda por descobrir, a grandeza do teu ser, do teu sal, não do teu tamanho.

5.15.2010

Breath... and feel


Coldplay, White Shadows

I've gotta feeling...



... that today's gonna be a good day*



Jogging matinal, em evento de grupo, muito bem organizado [como sempre], mas pela primeira vez na praia, com direito a lounge ao ar livre, boa música, sumos naturais e espetadas de fruta feitas no momento, seguido de baptismo de surf em aula de grupo com professor

* e foi!

5.13.2010

As searas nas lágrimas

Só de solidão
nos olhos
e um mundo de silêncio
entre os braços
no mar os pescadores
sem barcos
as searas nas lágrimas
as algas
e a louca vontade
de poder dormir


Maria Teresa Horta

5.12.2010

Entrelinhas

Somos virtudes mas também defeitos. Somos memórias, vontades, ecos e silêncios. Somos Eus nem sempre nossos, construídos às vezes, a pulso, no tempo. Somos valores e desilusões. Somos surpresas, abraços, lágrimas e sorrisos. Somos diferentes. Somos iguais. Somos viagens, livros e conversas. Somos descobertas, dejasvus e coisas que nunca mudam. Somos poucos amigos mas valiosos. Somos amor, paixão e entrega, ombros e palavras. Somos dar e receber. Somos sensibilidade e desertos. Somos murros no estômago e agitar de asas de borboleta. Somos pouco sábios e Babilónias. Somos estúpidos vezes de mais. Somos crentes e precipícios. Somos dois e somos um só. Somos laços e estranhas curiosidades. Somos tempo dedicado, somos barcos e lugares. Somos ilhas e pontes, bocas e ouvidos. Somos mar. Somos anjos, sim, às vezes somos anjos.

5.11.2010

A tua falta

Sentir a tua falta. Ouvir a tua voz, ao longe, a ondular em mim. A tua voz abraçada, a fazer festas. Próxima. Presente. Guardar os meus gestos nos teus cabelos e o frio dos teus dedos agarrados no calor das minhas mãos. Dar nomes aos teus sinais, com beijos lentos - um a um - até construir o caminho para os teus lábios, minha casa, meu porto de abrigo, meu ninho. Perder-me na luz do teu arco-íris, nos teus olhos, onde nos fazemos peixes vivos, para nadar num mar de azul, denso, infinito, apenas nosso. Pedir ao teu cheiro um breve e vago assobio na pele, um arrepio no escuro das pálpebras fechadas, para te sentir próxima do meu braço, para te encontrar por lá e puxar-te para aqui, agora, já.

5.10.2010

A água das palavras


De manhã são de terra
as palavras que trago sobre a língua.
Sabem a trigo
ao sangue dos morangos
ao caule das papoilas.
Dizem coisas morenas e germinam.
São de terra. As palavras.

À tarde são de vento
e flutuam na seda das bandeiras
e deslizam na solidão das águias
e adejam ao limiar dos plátanos.
Desabridas desatam véus e medos
e porque são de vento
constroem catedrais e tecem barcos.
Fazem bater janelas do lado do poente
por onde espreita
a ponta de marfim da lua nova.
Depois são música nos teus cabelos de harpa
e desfloram lilazes.

Mas à noite são água.
As palavras são água.

Rosa Lobato Faria

Oração*

Em nome do Sócrates, da distração colectiva temporária e do Banco Espírito Santo, Amén!


* em véspera de visita papal

5.09.2010

Star


The Frames, Star Star

[ Star star teach me how to shine shine
Teach me so I know what's going on in your mind
'Cause I don't understand these people
Who say the hill's to steep
Well they talk and talk forever
But they just never climb ]



Night garden

Há uma calma no nosso silêncio
que só os dedos e lábios alcançam
perdurando num suspiro entrelaçado no olhar

5.08.2010

O que há-de vir

Hoje o rio estava com pressa, todo ele corria, todo ele mexia, e no seu movimento calado, soltava um gemido suspenso, que agitava os pássaros e acordava as plantas. Corria molhando a roupa, colando-a ao peito, dançando na magia simétrica do seu reflexo: água, entre o céu e a terra.

Hoje o rio estava com pressa e descia apressado, sem vontade de olhar para trás, deixando a paisagem imóvel, estática de atenção. Com ele e a sua pressa um rasto de mil texturas e arrepios.

Hoje o rio estava com pressa, arrastando com ele, os seus olhos lentos, mergulhados na sua correnteza, deixando-se levar de azul em azul. Ela e o rio, os dois, de mãos dadas num só, deixando-se ir, na pressa do nada, na pressa do que há-de vir.

Love is...

... the triumph of imagination over intelligence

H. L. Mencken

5.05.2010

Qual o teu personagem de BD favorito?

Tenho vários, mas se tivesse de escolher apenas um, a minha escolha recairia provavelmente no Corto Maltese. E vocês?

5.04.2010

Tatuagem azul


Tento lembrar-me de ti mas são apenas os teus olhos que me aparecem, fixos, redondos de sol, brilhando, num mar infinito de azul turquesa. Olhos onde navegam os meus, sem nada dizerem mas tanto revelarem, num embalo de barco à vela, à deriva mas sem pressa de voltar. Dois olhos vivos, crescendo, luas de água apoiadas sobre os cotovelos, num rosto de boneca atenta, salpicada pelo sal dos beijos ainda não trocados.

Tento lembrar-me de ti mas o branco do teu sorriso abre-me as portadas de uma janela há muito tempo fechada e invade-me, ofuscando a tua imagem com a tua luz. Colhendo-me as pálpebras com dedos finos, deixando-te a levitar em bolhas de sabão invisíveis, livres, dentro de mim.

Tento lembrar-me de ti mas és um som ou uma brisa que sussurra poemas ao ouvido, deixando o teu nome suspenso, sentado no parapeito dos lábios, a baloiçar com as pernas no meu pensamento. És um aroma quente, que abre caminho sem se apagar, tatuado na vontade. Na vontade de te rever e de te preservar na memória de cada ínfimo detalhe do teu azul.

Assíduos do shaker

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