5.10.2010

A água das palavras


De manhã são de terra
as palavras que trago sobre a língua.
Sabem a trigo
ao sangue dos morangos
ao caule das papoilas.
Dizem coisas morenas e germinam.
São de terra. As palavras.

À tarde são de vento
e flutuam na seda das bandeiras
e deslizam na solidão das águias
e adejam ao limiar dos plátanos.
Desabridas desatam véus e medos
e porque são de vento
constroem catedrais e tecem barcos.
Fazem bater janelas do lado do poente
por onde espreita
a ponta de marfim da lua nova.
Depois são música nos teus cabelos de harpa
e desfloram lilazes.

Mas à noite são água.
As palavras são água.

Rosa Lobato Faria

3 comentários:

ariana luna disse...

[corre fluida e veloz que nem damos por ela...]

Ato Abstrato disse...

gostei do Blogue... seguindo :)

caminhante disse...

...porque, por vezes, a água, teimosa, escorre pela face... de noite, sempre de noite. quando estamos sós, com nós mesmos.

Assíduos do shaker

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