2.28.2010

Simplesmente mágico

O purismo da dança, o rigor da gestualidade e a arquitectura coreográfica aliadas a uma fascinante musicalidade: este, o fio condutor deste programa simplesmente mágico.



SERENADE
[Coreografia George Balanchine; Música Piotr Ilitch Tchaikovsky]


ADAGIO HAMMERKLAVIER
[Coreografia Hans van Manen; Música Beethoven, Hammerklavier, Sonata nº 29 opus 106]

5 TANGOS
[Coreografia Hans van Manen; Música Astor Piazzolla]

2.27.2010

Instantes

Até o jade se parte,
até o ouro se dobra,
até a plumagem de quetzal se despedaça...
Não se vive para sempre na terra!
Duramos apenas um instante!


Poemas Ameríndios
[traduções por Herberto Helder]

2.26.2010

Poema a Carlos

Ele entrou em mim sem cerimonias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.

Elisa Lucinda

[A Carlos Drumond de Andrade]
Penetração do poema das sete faces

2.25.2010

Problemas masculinos


Choveu a noite toda

Subiu pelo risco do relâmpago e ali se deitou, cansado de si e do mundo, cansado de tudo, viajando, para longe, num turbilhão de nuvens que roçavam os novelos, tentando ganhar posição, a amolecer arestas na áspera densidade magnética que assolava a terra, outrora firme. Contemplava o mar revolto e o descontrolo do vento, castigando a praia deserta em investidas ritmadas. O raio levantara já a âncora, apercebera-se agora - já não podia regressar, já era tarde - podia dormir, sim, porque não? tentar dormir, acima de todas as confusões, ali longe de tudo. Fechou os olhos, por breves segundos, e veio-lhe a imagem de duas gotas de chuva, viajando incertas num vidro fosco, ora afastando-se, ora aproximando-se, cruzando-se até numa só, tentava adivinhar-lhe os seus caminhos, num esforço sempre inglório. A dado momento jurava ter sentido um beijo de boa noite, mesmo ali na bochecha esquerda, ou seria uma das gotas que lhe escapara da imagem? Um estrondo de trovão, surgiu e correu as cortinas sedosas da noite. Choveu a noite toda, dentro e fora de si, choveu tudo o que havia para chover, cães e gatos, sapos, canivetes, gotas nos vidros e beijos húmidos de boa noite. Choveu a noite toda, mas não dormiu.

2.24.2010

2.22.2010

O tempo é meu aliado

O tempo é meu aliado, guarda os meus silêncios numa casa isolada, feita de folhas de Outono, a amarelecerem na memória, a desfazerem-se sopradas, para um ramo alto, longínquo, a diluírem-se no calor do horizonte. Com eles vagueiam também as palavras arrependidas, balançando ao vento, penduradas, que de soltas sem amparo, deixaram algumas pegadas difíceis de desprender, e as que, de ouvidas como lâminas, ainda doem nas cicatrizes.

O tempo é meu aliado, aprisiona tudo dentro da vista dessa casa interior, até que um pestanejar mais fundo virá apagar definitivamente o seu giz, transformando-o num pó que se sopra à varanda e nos deixa de visitar. Abrem-se de novo as pálpebras como um bater de asas leve, longo, deixando respirar o ar frio que aquece numa paz que fica a planar, que perdura tranquila, para além do tempo - o tal, que faz o favor de ser meu aliado.

Violência natural

Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.

Bertolt Brecht


Com o devido respeito pelas vítimas da Madeira, ocorre-me frequentemente esta frase aquando das, cada vez mais frequentes, catástrofes naturais.
Tocou-nos agora a nós.

2.21.2010

Vasta atenção

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.

Herberto Helder

2.20.2010

Objecto desfeito

Rasga o vestido preferido
numa linha de som
E viaja nela, num repentismo infinito
Soluçado
Numa estrada desfiada
que se rasga com ela
Que nasce e morre, ali
Na violência dum afastar de braços
que deixa a nu um desalento fundo
vagueando com ela
dentro dela, num barco à deriva
E no saltitar dos botões
que abraçam lentamente o chão
soltam-se as mãos exaustas
Penduradas
Balançando no eco pegajoso
que se cola ao silêncio
Parte o copo onde se vê.
Em mil brilhos despedaçados
Aguçados, afiados
Estrelas de luz aprisionadas
Pedaços invertidos de céu
percorridos com pés descalços.
Cada ponto? Um novo lugar, adiado
Hipóteses contidas no objecto desfeito

2.19.2010

Lições de vida, para meditar

  1. Quando estiveres em dúvida, dá o próximo passo
  2. Há duas coisas que denotam fraqueza: o calar-se quando é preciso falar e o falar quando é preciso estar calado
  3. Não te armes em vítima e não te comportes como um salvador
  4. Um homem correcto exige tudo de si próprio, um medíocre espera tudo dos outros
  5. Faz a paz com o teu passado, para que ele não estrague o teu presente
  6. Deixa-te guiar pela intuição pessoal em vez de agires sempre sob a pressão do medo
  7. A passagem do tempo deve ser uma conquista, não uma perda

Seleccionadas de um mail recebido, que, de tão correcto, me fez querer partilha-las.
Obrigado M.C.

2.17.2010

Republica das Bananas

Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
Voltou, passados vinte e dois anos, com chaufeur fardado. Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve um enfarte.

Mário Henrrique Leiria



Vivemos num país de novela "amexicanadó-surrealista" com puros momentos de britcom. Algo único, entre o "enfarte" e a piada hilariante inimaginável [é parte do que penso realmente] mas acontece que vou ter de preparar uma apresentação, muito séria, com argumentos credíveis e que transpire confiança sobre o nosso lindo país, pelo que:

1. vou ter de falar de coisas que não acredito, mas tem de ser, e, por vezes, o "ter de ser" tem muita força e

2. quer-me parecer que o título do post, as suas personagens e o texto introdutório não devem ser muito boa opção.

Wish-me luck!

2.14.2010

Feel Good ...


Feel Good Inc., Gorillaz cover by Skye



[ Windmill, Windmill for the land.
Love forever hand in hand
Take it all in on your stride
It is sinking, falling down
Love forever love is free
Let's turn forever you and me
Windmill, windmill for the land
Is everybody in?... ]

2.12.2010

Mãos

As minhas mãos
abrem as cortinas do teu ser
vestem-te com outra nudez
descobrem os corpos do teu corpo
As minhas mãos
inventam outro corpo
para o teu corpo

Octavio Paz

2.10.2010

3.200

Adoro tigres, já escrevi sobre eles e até sou do ano do Tigre. Acho-os animais cativantes, de uma beleza magnética desconcertante. Seres entre este e outro mundo. Adoro as suas cores, o porte atlético mais suave e elegante ao cimo da terra, a sua lentidão sublime de movimentos que atrasam mais o tempo, a sua natureza genética de maior dos felinos que existem entre nós.

Os tigres estão, no entanto, em vias de extinção, a sua população tem reduzido drasticamente nos últimos anos e estima-se que existam actualmente apenas 3.200 tigres em ambiente natural. Sim leram bem, 3.200, impressionante, não é?

Sei que muitos de nós, pensamos sempre que podemos fazer muito pouco, que é um problema dos políticos, dos países mais desenvolvidos, dos activistas e mil e uma desculpas que dizemos para não fazer absolutamente nada.

Gosto muito de tigres e o meu primeiro e modesto contributo que fiz, mal ouvi esta noticia, foi escrever estas pequenas linhas e assinar esta petição, que apesar de manifestamente escassa, perante tão assombrosa visão, é um primeiro passo, uma pequena gota, uma pequena acção.

Deixo-vos este repto meditativo e este número assombroso, que pesa tanto quanto envergonha: 3.200... .

Para mais informação consultar:

Perguntas


Quem somos, de facto? O que nos define? O que nos torna únicos? O que damos relevo, ou queremos, mais do que tudo? O que nos faz ter certezas inabaláveis? O que nos apresenta numa só frase ou numa imagem que perdure por muito muito tempo? De que matéria somos feitos? Que mistura de água, terra e fogo? Em que estado? Em que estágio? O que nos molda alma e sentidos? O que nos flui e o que aprisionamos? Em que momento o conseguimos aferir com a devida nitidez, com a devida distância? Quantas certezas moram dentro de nós? Quanto tempo precisamos para o saber, para o sentir? Um longo período, pensado e mastigado, ou em flashs casuísticos imprevisíveis e impossíveis de controlar? Quantas vezes nos vemos verdadeiramente "nós"? Nós, verdadeiramente... sem filtros, máscaras ou falsos agrados a expectativas alheias, sem pequeninos grãos de areia ou ínfimas mentiras que, tantas vezes, pregamos a nós próprios, que nos chegam quase a convencer, sem passados ou futuros, sem antes ou depois? Nós - eu e eu, tu e tu, aqui, agora! - Quantas vezes? Quantas vezes fomos ou somos verdadeiramente o que somos? O reflexo da imagem que sentimos dentro de nós? Quantas vezes conseguimos ser vistos assim, pelos outros? Quantos nos conseguem ver assim? Quem somos, de facto? O que trazemos do berço e manteremos até morrer? O que descobrimos, todos os dias, que nos vai assentando e tornando parte de nós? O que nos faz mudar ou iniciar um caminho, saber querer dar mais um passo, escolher uma direcção? O que nos prende, às vezes ao solo, tendo em nós todos os conceitos, todas as vontades, todas as asas e certezas? O que sabemos realmente de nós? Quantas vezes escrevemos ou dizemos o que queremos realmente ser ou como gostaríamos de ser recordados após desaparecer? Quantas vezes pensamos nisso, conscientemente? Quantas vezes decidimos tentar? Quantas vezes?

2.08.2010

Uma voz que veio de longe

Hoje ninguém me veio visitar, excepto o vento e uma voz, que veio de longe. Não conheço ambos: o vento é sempre imprevisível, nunca se dá a conhecer, e as vozes, que vêm de longe, deixam sempre pegadas e trilhos para outras se lhe seguirem lançando a confusão.

O vento passa, deixando o rasto da sua passagem, num frio instalado nas mãos, que entretanto se aquecem, sem darmos conta, afagando um gato invisível, que se enrosca na atenção, imóvel, de olhos entreabertos, à caça, da tal voz que veio de longe com pés de lã.

Olho, não a voz, mas o seu reflexo [uma voz nunca se pode olhar, apenas se toca e se sente nos brilhos, nas pausas ou entoações], que por vezes é mais nítido que a própria imagem - traz coisas agarradas, como folhas e troncos velhos descendo num rio - mas agarradas a cuspo, podendo soltar-se a qualquer momento, a qualquer bafejar mais forte de vento.

Vejo o fundo do rio, mas não o da voz. Vejo a janela entreaberta, mas não a força do vento. Hoje ninguém me veio visitar excepto o vento e uma voz, que veio de longe mas já partiu.

2.07.2010

These boots are made for walking


These boots are made for walking, Nancy Sinatra
writen by Lee Hazlelwood
cover by Legendary Tigerman


[ These boots are made for walking, and that's just what they'll do
one of these days these boots are gonna walk all over you ]

Babel, o nome de uma unidade

Apresentada a 6 de Fevereiro [data de nascimento do padre António Vieira, apelidado por Pessoa como o imperador da língua portuguesa] e com data de abertura prevista para 23 de Abril [dia internacional do livro] pela carga simbólica associada às duas datas referidas, o novo "grupo editorial" Babel apresenta-se ao público, com um conjunto de objectivos e premissas que me parecem muito, mas muito bem:

  1. Nome que remete o livro para a língua, numa palavra bonita e universal, que agrega em si mesma o paradoxo e oxímoro, distanciando-se das verdades absolutas e irredutíveis;
  2. Assumpção clara do culto da diferença, referindo que cada livraria terá a sua identidade própria e que não existirão duas iguais;
  3. Conceito de livraria gourmet, agregando o duplo sentido literário e gastronómico;
  4. Aposta em obras como a colectânea Pessoana de David Mourão Ferreira, editada pela Ática como "O rosto e as máscaras", só para citar uma das demais;
  5. Ausência de adjectivos ou colagens "editoriais" ao seu nome, apenas Babel, o nome de uma unidade

Parece-me muito bem! Vou cuscar logo que abra!

2.05.2010

Made in Japan

Pequeno almoço no café, ainda bastante ensonado. Sala repleta de gente, zunzuns generalizados de conversas mas num ambiente sussurrado de relativo silêncio, até que, eis que entra um asiático, de pequena figura e sotaque acentuado, de imagem quase invisível aos olhares ocupados, até proferir o seu pedido, alto e em bom som, à empregada:

- "Éla um calão e uma queca"

O quê? Pára tudo! Por entre meias de leite quase vertidas pelas narinas e bocas surpresas e uma explosão de alegria generalizada e bem disposta, não se falou mais da crise, das gripes A ou das escutas telefónicas. E assim nasceu o sol mais bem disposto, com um sotaque afinado de sorrisos, proveniente duma pequena figura, do país do sol nascente.

2.04.2010

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul

William Ernest Henley

2.03.2010

Brrrrrrrrrr


Tindersticks, Introduction to The Hugry Saw


É já amanhã, em Guimarães, no fabuloso Centro Cultural de Villa Flor, e eu não vou poder ir. Está mal, está muito mal.

Escrita

Se tens algo a dizer ou uma mensagem a comunicar escreve uma carta. Um romance é para contar uma história.

José Luís Borges

Continuo sem vontade de escrever.


2.02.2010

Vamos abrir a noite

Vamos abrir a noite
com música de Jazz
Vamos abrir a noite
Percorrê-la depois
num barco de borracha
Enforcar a memória
Celebrar o segredo
Descobrir de repente
Uma ilha que nasce dentro
do teu vestido
Chamar-lhe madrugada
Adormecer contigo

David Mourão Ferreira

2.01.2010

Silêncio

Afinal o silêncio pode ter um som, ser um som - uma abelha metálica, invisível, esvaindo a sua cor nesse zumbido - trocando a luz pela escuridão, os cheiros pelo vazio que, no entanto, ecoa largo. longe, perto. Largando o seu ferrão na pele, despedindo-se, enquanto dura, nesse som alastrado, nessa morte vagarosa, dentro de nós.

Afinal o silêncio pode ter um corpo, ser encorpado ou complexo como um vinho espesso e maduro. Um corpo que se cola ao próprio corpo, uma cama inviolável, hermética, aquando agitado contra as paredes frágeis gastas pelo tempo, cansadas de caminhar de pé.

Afinal o silêncio pode adormecer todas as palavras, uma a uma, dançar com a alma, chorar para poder voltar a sorrir. Afinal o silêncio não é apenas nosso. Afinal o silêncio é omnipresente, existe e, por vezes, asfixia todos os barulhos, até poder partir.

Arquitectura #15








Gelo redondo? Porque não?

[The Maccallan ice-sphere machine]

Assíduos do shaker

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