4.30.2008

Estupidamente

Se me acontecesse uma coisa grave quem me iria ver ao Hospital? Eu que detesto Hospitais. Melhor ainda. E o que diriam ou omitiriam? Dei por mim, inexplicavelmente (espero), a pensar nesta questão. Suficientemente estúpida para merecer reflexão, quando tenho milhares de coisas para fazer e para me preocupar. Mas, às vezes, quanto mais estúpidas melhores ou mais chatas, pelo menos. O que não é necessariamente o caso. Mas voltando à questão refiro-me a um caso verdadeiramente grave. Habble con Ele. Pronto. Estão enquadrados? - sempre gostei do Almodovar -. Imaginem que estão ali numa imobilidade vegetal. Sem reacção aparente. Mas por divina ou demoníaca vontade, atentos que nem uma esponja. Não me interessa logicamente as visitas da praxe nem as de obrigação. As conversas e os dizeres politicamente correctos. Tenho curiosidade sim em saber se algumas pessoas iriam. As suas reacções e o que me diriam a sós. E as ausências. E que outras pessoas, não esperaria, e ali estariam. Atente-se. Não sei se me agradaria mais ouvir o bem ou o mal. A alegria ou a tristeza. Nem sequer se mais me agradariam as palavras ou os gestos. Já fiz coisas cheias de intenção (sem nada querer, pelo simples gosto de oferecer), sendo interpretado como estranho. Pois parece que agora já ninguém pode dar nada a ninguém sem querer nada em troca. E não se pode receber nada sem pensar que vamos ficar em falta. Que é que este tipo quer? Mas também já fiz coisas que me arrependo. Acho que em certos momentos, como este (mesmo em Espanhol e com excelente banda sonora), tudo isso deve vir à tona e será talvez tarde. Tão tarde, para dizer certas coisas que há tanto se querem dizer e se guardam. Essas sim tão estupidamente.

4.28.2008

My red mistery

À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.


Sophia de Mello Breyner Andresen

4.26.2008

Chamamento

Os dedos quentes nas teclas frias de um piano. O respirar da noite lá fora. À escuta. Envolta num mar de luzes. Atenta. Esperando a próxima nota. A próxima melodia. O tempo suspenso. A pairar. Uma pausa para a bebida. Um afago demorado na madeira polida. Espelho sensual de curvas femininas. Que reflecte ela diferente do som? Talvez a alma seja maior que todos os sentidos. As mãos e as teclas novamente entrelaçadas em beijos tácteis. Soltando um éter invisível. Ameno. Que assenta, aos poucos, nas paredes. Nas cadeiras arrumadas. No chão. Uma espécie de pó arrefecendo em morte lenta, no calar do eco. Lá fora a noite e a cidade misturando-se cada vez mais. Num vulto de mulher vestida de seda e colar de pérolas. Aproximando-se, aos poucos, com os sapatos nas mãos. Abrindo uma fresta da vidraça enorme. Aproximando-se em silêncio daquele piano.

4.25.2008

Liberdade

A liberdade não faz sentido por si só
A liberdade requer respeitos e deveres
A liberdade não é una. É plural
A liberdade tem memória e consciência
A liberdade não é propriedade. É passagem
A liberdade não é dada. É merecida
A liberdade não se define. Pratica-se
A liberdade é frágil e imperfeita
A liberdade precisa de sol, água e carinho
A liberdade não é cravo
A liberdade é terra árida por semear


Para lembrar o quão murcha anda a nossa liberdade

4.24.2008

Drive



Smack, crack, bushwhacked
Tie another one to the racks, baby

Hey kids, rock and roll
Nobody tells you where to go, baby

What if I ride? What if you walk?
What if you rock around the clock?
Tick-tock, tick-tock
What if you did? What if you walk?
What if you tried to get off, baby?

Hey kids, where are you?
Nobody tells you what to do, baby

Hey kids, shake a leg
Maybe you're crazy in the head, baby

Maybe you did, maybe you walked
Maybe you rocked around the clock
Tick-tock, tick-tock
Maybe I ride, maybe you walk
Maybe I drive to get off, baby

Ollie, ollie
Ollie, ollie, ollie
Ollie, ollie in come free, baby

Smack, crack, shack-a-lack
Tie another one to your back, baby

Hey kids, rock and roll
Nobody tells you where to go, baby, baby, baby

REM, Drive

4.23.2008

Olhos verdes

Habituara-se cedo a distinguir a cor das árvores. Cada uma diferente na sua nobreza delicada. Na simplicidade perfeita das folhas, dos ramos. Na dança das sombras. A singularidade das texturas e dos silêncios. Seculares. Esguios. Mas naquele dia um verde de olhos tristes cruzara o seu olhar num brilho magnético. Numa espécie de pedrada na água soltando ondas. Um arrepio repentino que logo se fez calor, como quem conhece uma pessoa e fica amigo de infância. Essa árvore passou a ter nome e raízes profundas que sempre apertam. Lá no alto. Algures entre a folhagem de olhos verdes.

4.21.2008

Garras dos sentidos

Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.

Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos

Não quero cantar amores
Nem falar dos meus motivos
Agustina Bessa Luís

Ditado popular

Toma lá para não seres parvo ou Toma lá para aprenderes. Tanto faz. Já tomei

4.20.2008

Black & White

Aqui estou no meio do silêncio fecundo. Naquele deserto fundo que só a noite destapa. Algures, entre a inquietude do pensamento e a tranquilidade do nada querer. Aqui estou, acompanhado desta vela que se consome. Com este cigarro, entre os dedos, por acender. Com este suave fumo que se dissipa e mistura no escuro. Lá longe há alguém assim. Ou talvez não. Talvez já tenha partido ou ainda esteja para chegar. A vida tem destas ironias: acasos e des jas vous. Momentos importantes que sempre nos passarão ao lado. Aqui estou neste espesso nada que apura os sentidos. Que alimenta. Nesta surda aflição. Num búzio de escutas. Aqui estou com receio desta caneta e com esta folha branca que fere.

4.19.2008

Beatriz



Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

Maria João e Mário Laginha,
letra de Edú Lobo e Chico Buarque

Sim, me leva para sempre...

4.18.2008

As mãos

Era um desejo antigo. As mãos. Dar as mãos. Só as mãos. Não olhar, não falar, não explicar, não pretender saber nada. Dar as minhas mãos a um desconhecido numa sala de cinema. Ou numa sala de teatro, tanto faz, desde que fosse numa sala pouco iluminada, onde só uma ténue luz encobrisse tudo através de uma mão. De duas mãos dadas. Dois desconhecidos de mãos dadas. As mãos de dois desconhecidos a contarem histórias uma à outra, a rirem-se uma com a outra, a rirem-se muito, a não terem medo uma da outra nem de nada, a não saberem nada uma da outra, nem do que era aquilo nem do que viria depois, a pousarem uma sobre a outra e a esquecerem juntas este cansaço da vida.


Pedro Paixão

Oferecido, em tempos, a uma ilustre desconhecida (má apenas de nome). Relembrado agora com a esperança de, sem nada perguntar, sem nada aconselhar, conseguir que esqueça um pouco este cansaço que, por vezes, dá pelo nome de vida e tenha sempre as mãos abertas, nunca fechadas.

4.17.2008

O toque das palavras

Nenhum poeta ficará contente se ficar só com a dança e o modo de tocar nos vivos, e se perder a maneira como o ouvido gosta que as palavras toquem umas nas outras.


Francisco M. Tavares

4.16.2008

Fenómeno

Era tão convencida, tão convencida, tão convencida, que se julgava um fenómeno só por ser do Entroncamento

4.15.2008

Receita milagrosa

Respirar fundo
Não esboçar uma palavra
Colocar "aquele" olhar
Esperar um pouco
Mais um pouco
Voltar a respirar fundo
Repetir o processo

Em casos mais graves usar a técnica exemplificada no video

4.14.2008

Palco

É impressão minha ou de repente todos viraram actores e cantores - ou as duas coisas ao mesmo tempo - só porque descobriram que têm boca e acham que sabem gesticular. Pena que usem tão pouco os olhos, ouvidos e sobretudo o tacto.

4.13.2008

O reino

Sentia-se a fúria do tempo. A vontade voraz de libertação. As plantas. As marés. As estações. Tudo e nada ao mesmo tempo. Numa corrida silenciosa que talvez só ele soubesse o final. Um caminho longo e solitário. O tempo é um cavalo alado. Preto. Sedoso. Cujas longas asas agitam o cair das noites e da sua pele escorregam os dias impotentes. O seu respirar tem o calor do abraço e o frio da perda e nunca olha para traz. Sentia-se a sua presença. Mais que em qualquer local. Mais que em qualquer outra altura. Estávamos próximo. Estávamos a chegar.

4.12.2008

Another kind of Fever



Never know how much i love you
never know how much i care
when you put your arms around me
I give you fever that's so hard to bare

you give me fever
when you kiss me
fever when you hold me tight
Fever
In the morning
Fever all through the night

Sun lights up the day time
moon lights up the night
I light up when you call my name
and you know i'm gonna treat you right

you give me fever
when you kiss me
fever when you hold me tight
Fever
In the morning
Fever all through the night

Everybodies got the fever
That is somethin you all know
Fever is'nt such a new thing
Fever start long ago

Romeo love Juliet
Juliet she felt the same
When he put his arms around her
He said Julie baby your my flame

Now give me fever
When were kissin
Fever with that flame in you
Fever
I'm a fire
Fever yeah i burn for you

Captain smith and pocahontas
had a very mad affair
When her daddy tried to kill him
She said daddy oh don't you dare

He gives me fever
With his kisses
fever when he holds me tight
Fever
I'm his misses
Daddy won't you treat him right

Now you listened to my story
Here's the point that i have made
Chicks were born to give you fever
Be it fair and have a sense of game

They give you fever
when you kiss them
Fever if you really learned
Fever
Till you sizzlen
But what a lovely way to burn

But what a lovely way to burn
But what a lovely way to burn
But what a lovely way to burn



Peggy Lee

4.11.2008

Sinónimos

Esses que pensam que existem sinónimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuances de uma cor.

Mário Quintana

4.10.2008

O meu silêncio

Não falamos há tanto tempo.

O meu silêncio não é falta de interesse. De querer saber como estás. De querer saber dos teus problemas. De querer novidades. De te querer escutar. Longa e pausadamente. O meu silêncio é um esforço. Uma luta. O meu silêncio é aprendizagem e amor próprio. É até um pouco de mágoa pela tua falta de interesse. O meu silêncio é, talvez, um falso acreditar que seja distração. O meu silêncio é uma ave branca. Presa ao chão. O meu silêncio é sobretudo nada querer cobrar. O meu silêncio é uma mão aberta que tapa a boca de uma palavra.

Não falamos há tanto tempo.

4.09.2008

Confesso...

... que o número crescente de vídeos neste espaço virtual é proporcional à decrescente posse de tempo no espaço real. Resta-me a esperança que os frutos das acções resultantes sejam mais sumarentos que o interesse dos meus conteúdos e que o meu valor esteja bem mais além da minha imagem.

4.07.2008

Come undone

Mine, immaculate dream, made breath and skin, Ive been waiting for you,
Signed, with a home tattoo, happy birthday to you was created for you.

(cant ever keep from falling apart.. at the seams)
(cant I believe youre taking my heart.. to pieces)

Ahh, itll take a little time, might take a little crime to come undone
Now well try to stay blind, to the hope and fear outside,
Hey child, stay wilder than the wind
And blow me in to cry.

Who do you need?
Who do you love?
When you come undone.

Words, playing me deja vu, like a radio tune I swear Ive heard before,
Chill, is it something real, or the magic Im feeding off your fingers

(cant ever keep from falling apart.. at the seams)
(can I believe youre taking my heart.. to pieces)

Lost, in a snow filled sky, well make it alright, to come undone,
Now well try to stay blind, to the hope and fear outside,
Hey child, stay wilder than the wind -
And blow me in to cry.

Fade...

Duran Duran, Come undone

4.06.2008

Viva a CP

Vou-vos confessar uma coisa. Não andava num comboio suburbano desde os meus tempos de faculdade, e já lá vão uns anitos (que não revelo sob pena de me lembrar quantos). Sou frequente utilizador de Alfas pendulares e até de intercidades (menos) mas (chamem-me tio) o termo suburbano é definitivamente contra a minha natureza ( urbana, lá está). De qualquer forma notei melhorias significativas do progresso, que espantem-se os mais incrédulos, também se dão na CP. Em primeiro lugar os ditos comboios (lá estou eu, deixem-me controlar) cresceram, havendo lugar para todos, para grande satisfação dos desgraçados habitantes de algumas localidades que ficavam sempre de pé. Depois têm mais conforto, apesar de confessar um certo saudosismo dos evoluidíssimos, mas curiosamente incompreendidos, bancos ortopédicos (leia-se de pau). No entanto, o que mais me impressionou nem foi a maior frequência de viagens nem os seguranças nas estações. Fiquei deveras impressionado, não com a voz da menina a indicar a próxima paragem (como no metro) mas sobretudo pela delicadeza com que se referiu à chegada de Chelas: "Próxima paragem Chelas. Cuidado com o degrau”. Fantástico. Sou mesmo preconceituoso. Perdoem-me as pessoas de Chelas, é que sempre tive em mente (erradamente estou a ver) que em Chelas tinha de ter cuidado com os assaltos. Não com os degraus. Viva o progresso. Viva a CP.

4.05.2008

Tudo se funde

Tudo se funde. Os móveis do salão que falam no escuro das noites frias. A ferida aberta que demora a sarar. O corpo inanimado. Exausto. A nudez pálida da lua. A árvore desmembrada, estalando na lareira. Soltando memórias. Incandescentes. Julgadas extintas. Também se funde a memória. E a prata dos talheres. E o cheiro do jasmim. Tudo se funde. O nosso amor. O bem e o mal até. Como a saudade num beijo. Como o calor da minha mão na tua pele.

4.03.2008

A exaltação da pele

Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem o gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias


Natália Correia

4.02.2008

Slug



Don't want to lose my shirt
Don't want to dig the dirt
Don't want you to get hurt
Can't help but I'm a flirt
Don't want to take your drugs
Don't want to be a slug
Don't want to overdress
Don't want to make a mess
Don't want you to confess
Not under duress
Don't want be untrue
I want to be with you
Don't want to lose my nerve
Don't want to throw the curve
Don't want to make you swerve
Don't want what I deserve
Don't want to change the frame
Don't want to be a pain
Don't wanna stay the same

U2, Slug, 2001: A Space Odyssey OST

Assíduos do shaker

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