4.18.2008

As mãos

Era um desejo antigo. As mãos. Dar as mãos. Só as mãos. Não olhar, não falar, não explicar, não pretender saber nada. Dar as minhas mãos a um desconhecido numa sala de cinema. Ou numa sala de teatro, tanto faz, desde que fosse numa sala pouco iluminada, onde só uma ténue luz encobrisse tudo através de uma mão. De duas mãos dadas. Dois desconhecidos de mãos dadas. As mãos de dois desconhecidos a contarem histórias uma à outra, a rirem-se uma com a outra, a rirem-se muito, a não terem medo uma da outra nem de nada, a não saberem nada uma da outra, nem do que era aquilo nem do que viria depois, a pousarem uma sobre a outra e a esquecerem juntas este cansaço da vida.


Pedro Paixão

Oferecido, em tempos, a uma ilustre desconhecida (má apenas de nome). Relembrado agora com a esperança de, sem nada perguntar, sem nada aconselhar, conseguir que esqueça um pouco este cansaço que, por vezes, dá pelo nome de vida e tenha sempre as mãos abertas, nunca fechadas.

2 comentários:

ariana luna disse...

Este Pedro Paixão é apaixonante. [Ou melhor, a sua escrita.]

Lilazdavioleta disse...

As mãos fechadas são punhos.
Mãos ... só abertas.
Daí, gostar tanto de mãos .

Assíduos do shaker

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