11.29.2009

Euler, o bicho de contas

Que feitiço é o teu Euler?
Este, que nos contas, sem nada contares
na tua simplicidade subtil
de bicho de contas?

Fazes de conta que não sabes
que nada contas
que não é nada contigo
Eu sei Euler, já te tive na mão.

Que magia é a tua
que te pára no tempo, enrolado
rolando de mão em mão
do mais velho para o mais novo

Para percorreres uma vida inteira
invisível, até ao dia em que surges
sem nada o fazer prever
rolando, de novo, para outra mão

E nos damos conta
que envelhecemos, também.
Reencontrando-te igual
Igualmente enrolado

Que mistério é esse? O teu Euler?
que ao te deixamos partir
nos deixas preso a uma saudade infinita
enrolada na mão, encostada ao coração

Uma saudade da mão que nos apresentou
Que não mora já cá, que partiu
Que contas são essas meu caro, que já te vais apressado
Que tanto contas tu afinal?

Que contas fazes Euler, que nada me contas ...

Ata-me, com o teu olhar

Como um laço o poema
não repete reflecte

Gastão Cruz

11.28.2009

Sir. Cohen in my Secret Garden

Thank you so much friends... I was… I was having a drink with my old teacher, he is 102 now [risos]… and… this was… it was about 1997… by the time, and he click my glass and he said: excuse-me for not dying. I’ve kind a feel the same way [risos]. I want to thank you not just… for this evening, but for the many years you capture my songs alive… I appreciate it

Leonard Cohen


Levantou-se cedo, para correr, como fazia todos os fins-de-semana, religiosamente. O dia estava frio, com um ligeiro nevoeiro, como gostava. As ruas ainda, ensonadas, quase desertas, envoltas numa luz fotográfica, fazendo as coisas mais lentas, mais nítidas.

Saiu acompanhado por um álbum escolhido a preceito - Leonard Cohen live in London – não sabendo se gostava mais da voz, da música, das letras ou se dos seus comentários antes de iniciar a próxima música. Gostaria de envelhecer assim… naquela voz prolongada, melódica e com um sentido de humor ternamente humilde, próximo do fim.

Chegado ao seu secret garden [onde as corridas ganham sempre diálogos com as imagens e os pensamentos rebentam em bolhas transportadas dos cheiros e das texturas.], a meio do percurso habitual, foi obrigado a parar pela perfeição das imagens e do som. Tão abissais que o obrigaram a parar.

O rio imóvel misturado no céu pela neblina, deslocava-o para dentro do rio. Uma espécie de nuvem ou de quadro vivo, onde aquela música absorvente, dançava, viajante. No meio da neblina, um corvo marinho rompia ou remadores, vindos do nada, ganhavam posição a um tronco de árvore boiando no rio. Os nomes dos barcos colados como beijos nas bochechas, ao passar na marina, o velho catamarim abandonado, os pontões de pedra e madeira envelhecida pelo tempo, o orvalho suspenso nos pinheiros ou nas teias de aranha. Tudo transpirava uma beleza simples mas inspiradora que se absorvia no ar frio que se aconchegava ao calor interior.

Chegou com a sensação de, mesmo não ter corrido quase nada, ter sido a sua melhor corrida de sempre. Pousou o iPod e pensou: Quando for correr, em dias frios de nevoeiro, não me posso fazer acompanhar por Sir Leonard Cohen, é que se chega com muito calor e cansado. Cansado da cabeça.

11.27.2009

Mãmã, o que sinifica "virgem"? Muito educativo!


Deve ser de ser sexta feira, isto anda mesmo mesmo aparvalhado. A gerência deseja a todos um bom fim-de-semana, se possível sem perguntas difíceis!

XinXin

Zen

Era um tipo tão zen, tão zen, mas tão zen, que os ovos estrelados saíam-lhe sempre assim.

My hands

O que a minha mão segue
tem mais perplexidade que moral
nunca é só triste nunca é só alegre
é o instante da curva desigual
a seta desferida
pela gratuitidade acontecida

Mário Cesariny

11.26.2009

Divergências BD

Sabem porque é que a mulher do Hulk pediu o divórcio?
Consta que queria um homem mais maduro.

Brilhos

1.
" [...] Meu Deus, a pouco e pouco vamo-nos tornando sótãos onde o passado amarelece, a pouco e pouco os sótãos invadem a casa que somos, principiamos a mover-nos entre sombras truncadas de gente, emoções, memórias. Lentamente tiram-nos tudo, o presente afunila-se, o futuro uma parede. E nós, apesar de adultos, tão crianças, assustados, perdidos, juntando pedaços dispersos para nos reconstruirmos de novo, continuarmos. Na direcção de quê? Para onde? Quem nos espera ainda? [...] "

2.
" [...] não escrevi uma linha, passei as poucas horas livres a olhar para o tecto e a pensar numa frase de Einstein: devemos fazer tudo o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente que isso. O raio da frase não me largou toda a semana, na certeza de que me havia de servir não entendia para quê, enquanto ela se transformava em mim, crescia, se ramificava, principiava a dar botões, se me dissolvia no sangue. Há-de chegar à mão, há-de sair, não sei de que maneira, numa página qualquer, ou então atravessar as páginas todas. Devemos fazer tudo o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente que isso: que grande cabrão que acertou em cheio. "


António Lobo Antunes


Sempre que leio as crónicas deste senhor, apetece-me transcrevê-las na íntegra, com cada palavra, vírgula, silêncios e respirações incluídos [sem tirar nem por]. Pela profundidade que se desenrola de cada frase simples mas perfeita, pelas imagens com embalo de mar [que deambulam: para os lados, para o passado, para o futuro, para dentro e fora de nós], pela beleza no seu estado mais puro. Tenho um poeta de eleição e tenho o António, na prosa. Corrijo [na prosa não], em tudo: nos "rabiscos, aguarelazitas, ou desenhos no papel", tanto faz. Tenho dito. Tenho-o dito. E não me canso de o dizer.

11.25.2009

Polaroid dream


Gloomy Sunday, by Portishead



[ Dreaming, I was only dreaming
I wake and I find you asleep
on deep in my heart, dear ]

Agenda esburacada mas nunca furada

Ora vamos lá ver se a gente se entende... está certo que fui a alguns, está bem, mas tanta coisa interessante ao mesmo tempo? Está mal! É que não dá para ir a todos [nem tempo, nem orçamento]. Vamos lá ver os que ainda se pode participar e os que já estão a surgir no primeiro trimestre de 2010.


Outubro:
Amália Hoje, 5 de Outubro
"La Traviata" de Verdi, 23 de Outubro
Rodrigo Leão e Cinema Ensemble, 30 de Outubro

Novembro:
Skunk Anansie, 3 de Novembro
Kings of Convinence, 3 de Novembro
"A Pastoral" de Beethoven, 6 de Novembro
"Carmina Burana" de Orf, 6 e 7 de Novembro
Gilberto Gil, 10 de Novembro
Depeche Mode, 14 de Novembro
Massive Attack, 21 e 22 de Novembro
Muse, 29 de Novembro
"Concerto para poemas", 30 de Novembro

Dezembro:
Franz Ferdinand, 2 de Dezembro
Pedro Burmester Solo, 3 de Dezembro
Nouvelle Vague, 4 de Dezembro
The Prodigy, 7 de Dezembro
"Matriz" de Teresa Salgueiro & Lusitânia Ensemble, 7 de Dezembro

Inicio de 2010:
Air, 16 de Janeiro
"A música de Marguerite Duras", 21 a 25 de Janeiro
Cranberries, 10 de Março
Spandau Ballet, 14 de Março

11.24.2009

Devagar

o estomago ganha peso e afunda-se. vejo-te dobrado sobre esse caos de pedra, órgão sensível a angústia. observo-te como a um duplo lado a lado no mesmo auto-retrato. não comeste nada desde a manhã, cruzas os climas entre o jejum e a náusea. conforto-te sem que me ouças: uma vida longa para quem nunca se descobre. como uma maldição que se cumpre devagar.


Tiago Araújo

11.23.2009

A magia de um livro


Um livro é sempre uma descoberta, do mundo, de nós.
Um livro é sempre um lento escorrer de sons e imagens, tatuadas na pele, guardadas no fechar das pálpebras.
Um livro é sempre uma mão invisível que nos afaga o corpo.
Um livro é sempre uma luz, um incêndio, um torpor.
Um livro é sempre um passo, um caminho.
Um livro é sempre um sussurro, uma brisa, um arrepio.
Um livro é sempre um livro. Um livro é sempre o alimento, o sumo dos dias.

11.22.2009

Verónica decide viver

O rio agitado, com a água a falar, aflita. Movimentos revoltos, sinais indecifráveis arrepiando a pele, silenciados apenas pelo fio do horizonte, cortando-lhes repentinamente a perspectiva, afastando a atenção para longe. A tempestade distante, avançando num galope pausado e pesado, sentindo-se a proximidade a cada passada, a cada tremer da terra, a cada eco, cada vez mais próximo [mais rápido que o trovejar dos pensamentos, baralhados por aquela presença], bafejando um vento esguio, colado ao corpo, tocando-o numa frieza estranha, a seu bel-prazer, soltando-lhe os cabelos numa dança indecifrável de movimentos anárquicos.

Verónica atónita, sem reacção, estática na sua falta de vontade, deixando cair a mala e o corpo, com a mesma indiferença, com o mesmo pesar. Verónica perdida onde lhe transportava o olhar, embalada naquele galope, naquele ritmo alado de maré, algures no meio dum nada que se sente tão presente. Verónica sem palavras ou adjectivações, apenas Verónica, no seu nome familiar sussurrado ao ouvido, vezes sem conta, e uma estranha sensação de se diluir aos poucos nesse som, nessa presença agitada, nesse estender de mão invisível, cada vez mais próximo, mais presente.

E as árvores atentas, às suas ínfimas acções, paralisadas, acenando-lhe silêncios, e as nuvens paradas, sustendo a respiração. Verónica de pernas cruzadas e mãos recostadas no velho banco metálico, enferrujado pelo verdete do tempo ou, talvez, por aquele avesso de beleza, atípica mas indomável. Verónica à mercê das investidas daquele íman inquietante, daquela fonética visual, que lhe acelerava o sangue e a prendia sem defesas.

A um raio com brilhos de mil espelhos moídos seguiu-se um estrondo abrupto, próximo e demorado, assinalando a chegada daquela voz sinistra mas meiga, vestida de tempestade, agora troteando, já a pequenos passos de si [segundos eternizados num tempo mais lânguido, em câmara lenta].

Verónica estremeceu, ao ouvir pela última vez o seu nome ao ouvido e ao sentir-se tocada no rosto e despida de tudo, com aquele eco, no mais fundo de si. Uma voz melodiosa que lhe arrepiava o avesso da pele, instalando-se em cada contorno ou esconderijo mais recôndito, preenchendo os espaços que julgava impossível de descobrir.

Pertenças, memórias, fés ou saberes. Passados ou futuros, tudo escorreria para fora de si, com a chuva copiosa que rebentara e algumas lágrimas que não conseguira suster. Uma leveza de paz sublime, há muito esquecida, aquecia-lhe a alma e o corpo ainda imóvel e ensopado.

Levantou-se como que se libertando de um sopro estranho. Partiu com essa voz guardada, muito apertada, dentro de si. Não se ouvia há tanto tempo e não se dava a ouvir há mais ainda. Partiu com a certeza de que há coisas estranhas que nos sussurram o nome e que não interessam perceber ou saber explicar.

11.21.2009

Sushita-te?

Jantar de sushi diferente. Preparado em casa de amigos. Bom vinho branco [mesmo bom, apesar de gostar mais do tinto], boa conversa, boa música, boa varanda [com vista de lua]. Reviver algumas caras e alguns sorrisos, regressar na hora exacta, mesmo antes de os realmente bons apreciadores de vinho branco poderem estragar uma noite bem passada.

11.20.2009

Buenas Vistas mas em Buenos Aires*


Buena Vista Social Club, Chan Chan


Este espaço anda muito calado [de letras e palavras] e a precisar de música


* não me apetece Cuba

11.19.2009

Outono*

O outono
por assim dizer
pois era verão
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras mãos que lentas barcas
vai-se aproximando a água

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
tão fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo
e é branco

Eugénio de Andrade


* com laivos de verde e branco

Magic places #1





Onde fica o paraíso?
Talvez num sonho. Num sonho passível de se tornar realidade.


Guilin, China

11.18.2009

Selecção Internacional

Para além da selecção nacional que acompanho regularmente [já com as devidas escolhas pessoais para as naturalizações como se fossem da família], acrescento para o resto do mundo, deixa ver... hummm... assim sem pensar muito pode ser [sem qualquer ordem lógica ou preferencial]:

Luis Sepulvela;
Paul Theroux;
Mia Couto;
Joseph Conrad;
Philip Roth;
Haruki Murakami;
James Joyce;
Tomas Man;
Ernst Hemingway;
E.E.Cummings;
Milan Kundera;
Renata Pallottini;
T.S.Eliot;
Thomas Moore;
Johann Goethe;
Pablo Neruda;
Alexandro Baricco;
Vladimir Nabokov;
Gabriel Garcia Marquez e
Jorge de Sena;


De alguns sou fã incondicional. Outros, leio sempre com agrado. Alguns li apenas um ou dois livros, outros apenas passei os dedos em algumas passagens que me ficaram. Um ou dois nunca li nada [ainda... mas lá irei], mas ouvi-os em entrevistas, recomendara-me de uma forma apaixonada ou chamaram-me numa referência de outro livro ou autor, ou em algo que li aqui ou acolá, deixando-me uma extrema vontade de os conhecer. Tenho por todos uma enorme curiosidade e até uma certa ansiedade por ser sempre escasso o tempo para os conhecer em toda a sua vasta obra por inteiro. Constam portanto na minha quase interminável lista de próximos livros. Difícil difícil será, estou em crer, escolher.

Guarda-fatos #2

Já me esquecia dos chinelos...
... que não façam de si um cinzentão

11.17.2009

Guarda-fatos

Só para não dizerem que os homens não "riscam" nada no assunto, na minha modesta opinião num guarda-fatos masculino [básico], deverá constar, pelo menos, um blazer, umas calças de ganga, um conjunto de camisas brancas de bom algodão, um par de sapatos pretos clássicos de atacador [sem esquecer de os engraxar devidamente], uns ténis "casual", um fato escuro de corte simpático, acessórios diversos [cintos, cachecóis, gravatas, óculos escuros, botões de punho e relógio], um blusão de pele de linhas clássicas, e um roupão preto para usar por casa.


[algures numa conversa fútil sobre guarda-fatos "atascanhados" de roupa e o eterno drama feminino de não apetecer vestir uma única peça].

Bom dia

Sempre adorei começar o dia com a minha refeição favorita servida sem pressa, devidamente a preceito e com uma boa dose de sentido de humor.


E assim começa mais outra "saga"

11.16.2009

Are you ready for a long journey?

Deparei-me ontem com um um autor e um dos seus livros [editado em Português, apenas em Abril de 2009, pela Quetzal] que me apaixonou de imediato.

Em primeiro lugar pelo local mágico a que reporta. Local que sempre me atraiu e seduz: a Patagónia.

Em segundo, pelo entrelaçar de simplicidade e magnetismo da história: um homem que sente a vontade [ou pura necessidade] de partir [para viajar; para escrever; "para se conhecer verdadeiramente temos de deixar a casa para trás"], escolhendo o local mais distante [que poderia aceder de onde vive - Boston] por via terrestre - a Patagónia.

Em terceiro lugar, por o fazer de comboio, remetendo-me de imediato para os ambientes "Orient Express".

E também, porque não, pela ideia que me deu de fazer uma nova saga sobre "Places in my essence", magic places que escolheria para fazer o mesmo, guardando o local já referido para a terminar.

Paul Theroux, "The Old Patagonian Express", um dos meus próximos livros. Shall we travel?

11.15.2009

O teu sorriso

Na maneira mais hábil
de sorrires
há o capricho hábil
duma faca
o sentido da lâmina
ou a marca
que deixas no rosto
sem sentires

Maria Teresa Horta

11.14.2009

11.13.2009

Waitinng for the night


Mr. Dave... Tu livra-te!!! É que, mesmo sendo fã incondicional, já são duas vezes que me pregas a partida e não me apetece nadinha mesmo uma terceira. Estamos esclarecidos? Muito bem!

Arquitectura #12

O foco no essencial e na essência. A paixão e a perfeição numa busca incessante pelas melhores imagens: que falam, respiram e transpiram emoções. O preto saliente num branco infinito. Num piso, algures, a contar vindo do céu.

Adoro fotografia a preto e branco e adoro esta marca

11.12.2009

"Pum, Pum", em curta metragem



Toma lá um tiro, "Pum", para ver se aprendes. Aprende-se sempre com um tiro, sabes? Ou então não, não se tem simplesmente tempo para aprender ou voltar a errar. Também há as facas é certo, mas estou cansado de sushi e japongas e se queres que te diga estou cansado já nem sei bem do quê, desta monotonia sem tiros, talvez. É mesmo só um tirinho que te quero dar carinhosamente. "Pum". Toma lá outro. Não é um tiro qualquer, atenta. Dos certeiros, é mesmo um bom tiro, daqueles que permitem mais. Dois tiros conversam sempre melhor, mas também não há duas sem três. "Pum", outro, pronto. Ainda mexes? Assim mesmo, lindo menino, vejo que estás a gostar. "Pum" "Pum" "Pum" sempre gostei de meias dúzias, é algo de revivalismo dos tempos das mercearias, não sei explicar. Não puxes por mim que ainda tento a alfarroba. "Pum" pronto, só mais um que o sete dá-me sorte. Com tanto fumo lembrei-me agora do Marlboro Man, morreu de um tiro, sabes? não acredites em tudo o que ouves. Apetece-me agora um cigarro, estás a ver. Foi tão bom para ti como foi para mim? "Pum", ups!!! Enganei-me no isqueiro.


Estupidez advinda após os repetidos massacres norte americanos, normalmente terminados com suicídio

Brand New World

Gosto de ir a conferências. Inscrevo-me, sempre que posso por minha livre iniciativa e custeio e aproveito todas as hipótese que tenho para o fazer [profissionalmente ou quando surge um convite ou oportunidade, já que não posso ir a todas as que gostava pelos custos serem, tantas vezes proibitivos].

Quase nunca dou por mal empregue o tempo e dinheiro pois sou exigente e criterioso nas escolhas [não ficando a matutar que o podia ter empregue naquele gadjet ou naquela viagem], apesar de, por vezes [reconheço] ficar boquiaberto e um pouco “lixado” com a diferença abissal para com alguns dos oradores nacionais.

Sou contudo incapaz [mesmo quando oferecidas ou pagas por outrem] de não estar atento e não absorver ideias priveligiadas como uma esponja [e faz-me uma certa confusão quem desperdiça essas oportunidades].

Faço-o, [não só] mas sempre que mudo de área profissional ou de função, tentando assimilar conceitos, tendências e novos modelos de negócio ou paradigmas emergentes, antes de começar a comprar uma panóplia de livros técnicos sobre os temas que mais me despertam atenção e curiosidade.

Hoje tive o prazer de assistir a um dos Gurus da Economia do conhecimento, inovação, tecnologia e competitividade, Soumitra Dutta, que apesar dos seus créditos reconhecidos e notoriedade se apresenta com a humildade de “ter nascido na Índia, estudado nos EUA e vivido na Europa”, fazendo de si a imagem de “mero” homem global.

Sai com a sensação estranha de que existe um mundo a evoluir noutra divisão, numa velocidade diferente da nossa [talvez pequenez], fascinante mas que nos passa ao lado [mesmo que nos achemos informados], apesar de estar, também, cada vez mais ali ao lado.

Deixou-me, entre outras, uma pergunta complexa a ecoar [apesar de nos ter dado as suas reflexões e conclusões e concordar com parte delas]: “Technology makes us better humans?” e uma afirmação surpreendente que também faz pensar: "Produzem-se actualmente mais transístores que bagos de arroz".

Gosto de afirmações surpreendentes, mas gosto tanto de boas perguntas.

11.11.2009

Time out

Há quanto tempo não tocas a textura de uma árvore? Na sua imponência imóvel, transpirando sapiência, na sua indiferença para contigo, esmagando-te pelo seu tempo interminável, pela tua pequenez, em breve de todos esquecida.

Há quanto tempo não inspiras fundo, até à alma? O aroma da terra molhada e a paleta de aromas em teu redor? Há quanto tempo não perdes o olhar na vastidão do rio, arrepiado pelo vento, correndo a teu lado sem nada dizer mas dizendo-te tanto?

Há quanto tempo não te pintas das cores das papoilas ou dos jacarandás? Dos raios de sol? Há quanto tempo não admiras os desenhos deixados pelas patas de gaivotas despreocupadas ou o adiado levantar de um pato bravo rasante?

Há quanto tempo não andas a sós com os pensamentos? Não te deixas escolher por um trilho ao acaso? Não descobres um canto escondido, onde prometes voltar? Há quanto tempo não descansas dentro de um quadro vivo?

Há quanto tempo não sais, aconchegando o frio da manhã no calor interior? Há quanto tempo não regressas cansado das pernas mas leve no respirar?

Há quanto tempo não me sabia tão bem.

11.10.2009

Arquitectura #11




Enquanto não me decido pela de duas rodas [antiga para remodelar a preceito], parece-me muito bem esta de quatro para junto da secretária.


[Scients Vespa, by Belybel Estudi Creatiu], raptado daqui


11.09.2009

Berlim

Contra os muros, todos: físicos e os que ainda residem em tantas cabeças.


Lembrando-me sempre um dos meus filmes favoritos e uma das suas músicas [que também adoro] fica a minha pequena homenagem a um dos grandes acontecimentos deste século.


20º aniversário da queda do Muro de Berlim (1961-1989)

11.07.2009

Carta para Leonor* no dia em que faz anos

Só tem valor o que não se pode comprar. Podem-se comprar pêssegos mas não podemos comprar os pêssegos em flor no campo que floresce. Isto não tem a ver com dinheiro. Pode-se dar dinheiro por coisas que têm valor. Uma fotografia, por exemplo, tem um custo, mas o seu valor está onde ela não está, de mistura com o que nos agarra quando a vemos. É assim também o amor.

É sempre preciso regressar à banalidade das coisas. O espírito é só o contraste que revela. Somos pesados como água e leves como o vento. Não paramos de passar. E o mistério das coisas não está nelas, nem em nós. O mistério existe em tudo. E se quisermos saber tudo ficamos logo cegos. A bondade é o que há de mais belo, Leonor, e não se sabe o que é. É urgente aprenderes a viajar.

E não voltamos nunca. E vamos acabar. O que nos espera não espera por nós. Ficaremos cansados de qualquer maneira, e não há nada a fazer e isso já o sabíamos no começo e no fim não nos podemos queixar. E no entanto vale a pena este lugar, este tempo, esta vida, que é um erro. Vale a pena esperar, não esquecer o que nunca está presente. Vamos indo, aos poucos, a um encontro secreto. Leonor, não tenhas medo.

A maldade turva o olhar, não é o dos outros, mas o nosso. Não é preciso ter em conta as consequências, é no próprio fazer que a culpa se mede. Olha para os teus olhos antes de olhares para os dos outros. O que os teus olhos vêem vem da luz que tens em ti. Foge do escuro, foge. Sobretudo foge das sombras do teu olhar. O mais precioso, por mais ténue, vale mais do que tudo o resto. Todo o tempo é precioso. Dorme menos.

De pouco vale dormir com um homem com quem se dorme. O prazer vem só com o que o acompanha da melhor maneira. De resto está só em passar e não há caixa em que se guarde que depois se possa oferecer. Só o longo trabalho salva. E o amor precisa de mais cuidados do que um jardim. Todos os dias é preciso regar o nosso amor. E podar os ramos mortos. Trabalhemos pois, Leonor, que o amor requer trabalho e o trabalho precisa de amor.

Nunca saberemos o que nos une. Nem o que nos separa. Foi sempre assim. É a simples grandeza que nos distingue. Só nisso somos todos iguais. O homem do lixo vale mais do que eu. A ideia que temos do que somos ou seremos é uma luz incerta e vaga. O mais das vezes enganamo-nos. Mais ainda quando julgamos acertar, felizmente. Temos sempre de recomeçar e é nisso que somos eternos. Louvemos pois o que nos separa e nos une, isso mesmo a que é preciso agradar.

E quando o corpo cansa e a alma entristece não faças caso. De vez em quando o mundo também precisa de descansar. Admira as árvores e as nuvens e a sua indiferença por ti. Não queiras ser o centro de nada. À tua volta descobre o que não és. A frivolidade gasta a alma numa inútil correria. Sê humilde e sensata. Se for preciso torna-te pesada como uma pedra que, embora pisada, não se levanta contra ninguém. E se for preciso sê como o chicote que corta, doce e alegre Leonor.


Pedro Paixão

* e para quem se revir

11.06.2009

Viciantemente bom


Ando viciado nisto!!! Servir fresco, num copo bonito, apenas com umas framboesas flutuantes


Pleno SUYO, Romã e Bagas Vermelhas

A maravilha que deve ser escrever um livro

(...) a maravilha que deve ser escrever um livro: a invenção dentro da memória; a memória dentro da invenção; e toda essa cavalgada de uma grande fuga, todo esse prodígio de umas poligâmicas núpcias, secretas e arrebatadas, com a feminina multidão das palavras: as que se entregam, as que se esquivam; as que é preciso perseguir, seduzir, ludibriar; as que por fim se deixam capturar, palpar, despir, penetrar e sorver, assim proporcionado, antes de se evaporarem, as horas supremas de um amor feliz. Não há matéria mais carnalmente incorpórea; nem outra mais disposta a por amor ser fecundada.
Como se pode interpretar de outro modo esse velho lugar-comum de ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro? Só se em todos os casos se tratar de grandes e inevitáveis actos de amor: com a Mulher, com a Terra, com a Língua. Mas de plantar árvores e ter filhos haverá sempre muita gente que se encarregue. De destruir árvores também; de estragar filhos igualmente. Em compensação, um livro, um livro que viva, multiplicado, durante alguns anos ou alguns séculos, e que depois vá morrendo, sem ninguém dar por isso, mas nunca de uma só vez, até ser enterrado na maior discrição ou até se ver de súbito renascido, inesperadamente ressuscitado, um livro com semelhante destino - luminoso por mais obscuro, obscuro por mais luminoso -, isto é que foi sempre o que me empolgou.


David Mourão Ferreira

11.05.2009

Se um dia a juventude voltasse

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição

Al Berto

11.04.2009

Destino


Que a música nunca me abandone. Que as imagens fervilhem cores, nunca vistas, e guardem cheiros. Que dancem com ela. Que levitem sentimentos à flor da pele, sem nunca os questionar ou deixar cair. Que gestos e silêncios consigam falar alto. Que o coração palpite e que do escuro renasçam luas de prata. Magnéticas de água e poesia. Que os dias pareçam pequenos e as noites frágeis infinitos. Que as mãos tenham caricias e força para lutar. Que ecoem sorrisos e se recordem algumas lágrimas. Que se aprenda sempre e ensine algo. Que este estranho mundo valha a pena ser vivido para ser contado. Que acabe de repente, sem estar à espera. Quando tiver de ser. Quando o destino chamar.

11.03.2009

É que até sou "Tridente" de zodiaco



Maserati Gran Cabrio


Apesar de não ser daqueles "maluquinhos" por carros, preferir [como sabem] a sóbria elegância dos modelos antigos [de uma ou duas marcas britânicas e apenas uma alemã] fazia um "jeitinho" a este novo modelo italiano apresentado no salão automóvel de Frankfurt [também gosto de alguns modelos italianos, pronto]. Dá pelo nome [muito legítimo] de Gran Cabrio e volta a trazer a marca do tridente aos soberbos carbios desportivos. Parece-me bem, muito bem mesmo.

Dizem

Sobrevoava a cidade num cansaço vagaroso. Elevado. Fazia-o na dormência de quem quer chegar a algum local, talvez a casa, mas precisa de libertar um último gesto, uma última carícia, ou um suspiro com o olhar. Planava sobre o rasto de luz dos carros em movimento, e deixava-se levar, pela corrente. Pairava sobre os prédios imóveis, que se transformavam em pontos pequenos, sobre a linha do horizonte. Voltava a descer, prendendo-se numa janela entreaberta, aqui, acolá. Sentia os abraços, as lágrimas ou os sorrisos, na distância segura de não ser visto, de não participar. Ouvia a beleza do eco de algumas palavras, que rebentavam nas paredes como bolhas frágeis, etéreas, sempre fugazes. Aquecia-se com o calor dos corpos a fazerem amor, protegendo-se da brisa suave que o voltava a puxar. Sentia-se pesado e caía como uma folha de Outono. Lentamente, em movimentos zonzos, circulares. Aterrou num riacho de lua, que seria música se não fosse água. Dizem que foi dar ao mar. Dizem que por lá ficou. Dizem, mas não se sabe ao certo.

11.02.2009

Ando muito musical...



[ Hello image
Sing me a line from your favourite song
Twist and turn
But you're trapped in the light
All the directions were wrong ]


... e a puxar para temas antigos

Confissão

Sou absolutamente fã do "Câmara Clara" e acho-a uma das mulheres mais interessantes [e bonitas] em Portugal.

11.01.2009

Gran torino

Que se sabe da vida e da morte?





Gosto do Clint Eastwood. Curiosamente apenas após a sua faceta de realizador. Enquanto actor não me dizia muito, agora cativa-me na sua imagem de herói sereno cansado. No seu olhar, fundo. Prendendo-me às suas histórias, simples mas densas, agarrando-me aos seus rasgos de humor, soltos num ar serissimo e à sua sensibilidade escondida numa carapaça rude de durão inabalável.

Ainda não tinha visto o seu último filme. Gostei.

Assíduos do shaker

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