1.31.2008

Night fall

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos...

Oh! Antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses,

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!


Antero de Quental

1.30.2008

Quero falar-te dos meus sentimentos

“Quero falar-te dos meus sentimentos”. Foi assim que a comunicação começou.
Comunicar é como jogar andebol. Eu atiro a bola e tu apanha-la. Depois, tu atiras a bola e eu apanho-a . E, outra vez, eu atiro a bola...
“Quero falar-te dos meus sentimentos.” Foi assim que a comunicação começou.
Tal como precisamos de atirar a bola para trás e para a frente para jogar andebol, precisamos de falar uns aos outros dos nossos sentimentos para comunicar.

Se estamos demasiado perto ou excessivamente afastados uns dos outros, não é fácil jogar andebol. A comunicar é o mesmo. Se estivermos muito perto ou demasiado afastados dos nossos amantes ou dos nossos amigos ou de um filho ou dos nossos pais, não será fácil comunicar com eles. A comunicação não começa com ambas as pessoas a falar ao mesmo tempo. O primeiro gesto tem de partir de uma delas. Alguém tem de atirar a primeira bola. Mas você pode não querer ser o primeiro a atirar a bola – pode querer esperar que alguém lha atire. (Porque quando a atira e ninguém tenta apanhá-la, fica infeliz.)

Há alturas em que se sente inesperadamente rejeitado. Há alturas em que atira a bola, querendo jogar andebol com outra pessoa, e acaba por ver essa pessoa atirar a bola a uma terceira. Habituamo-nos desde cedo a que algumas pessoas não ouçam o que lhe queremos dizer. “Agora estou ocupado”, dizem elas. “Falaremos mais tarde, está bem?” E assim, acabamos por pensar “Afinal o que eu digo não interessa”. É por isso que é preciso ter a coragem para ser o primeiro a atirar a bola. Algumas vezes, quando finalmente arranjamos coragem para atirar a bola a outra pessoa, ela desvia-a para o lado. Alguma vez isto lhe aconteceu? Ou lançamos uma bola com toda a nossa alma, e a pessoa a quem atiramos devolve-a com um pontapé... Alguma vez isso lhe aconteceu? Ou atiramos uma bola muito rica e muito grande, que nos é devolvida muito mais magrinha... Alguma vez isso lhe aconteceu?

Já alguma vez disse a si próprio, “Em vez de atirar a bola eu mesmo, e ser infeliz, é melhor não a atirar nunca e esperar que alguém ma atire”? Mas e se ninguém a atira...?
Você não é o único a ser inesperadamente rejeitado, a receber a bola de volta, intocada, a ser infeliz. Talvez dê também pontapés nas bolas algumas vezes, e faça alguém infeliz, sem saber que o está a fazer! Todos nós queremos que as bolas que atiramos sejam aceites. Todos nós queremos ter alguém que ouça o que temos para dizer. Todos nós queremos que os outros saibam que existimos. Mas quem é que realmente está pronto para aceitar todos aqueles que querem que os outros dêem por eles? Se a pessoa a quem atiramos uma bola com toda a nossa alma a apanhar, e se nós apanharmos a bola que essa pessoa nos lança de volta, então um acto de comunicação acontece. Mas às vezes sentimos, “Ele não a apanha do modo como eu queria que o fizesse!” Ou, “Não há maneira de eu poder apanhar a bola que ele me atirou!”

Há sempre infelizmente muitas tentativas de comunicação que não chegam a concretizar-se. Quando as comunicações não concretizadas se acumulam, as nossas emoções tornam-se instáveis. Tornamo-nos tristes , preocupados, zangados, preconceituosos, pouco amigáveis. E, de vez em quando, explodimos... Então, pouco a pouco, chegamos a um ponto em que não sentimos nada... E mais tarde ou mais cedo, estamos sós.
Se a pessoa a quem atirámos a bola não a apanhou como queríamos não a culpemos por isso. Talvez seja simplesmente porque ela não é uma boa jogadora de andebol. Talvez seja só porque estava nervosa e a mão lhe escorregou. Talvez seja só porque a nossa bola era demasiado pesada.
Se o seu patrão ou os seus pais ou o seu parceiro nunca o deixam dizer de sua justiça, como é que isso o faz sentir-se? Se, pelo contrário, lhe atiram três ou quatro bolas ao mesmo tempo, como é que isso o faz sentir-se?

A sua capacidade de comunicar pode ser avaliada pela reacção da pessoa com quem está a tentar comunicar. Mesmo que você não o queira admitir. Há uma boa e uma má maneira de comunicar.
Trocar comunicação é uma boa maneira de comunicar. Não trocar comunicação é uma má maneira de Comunicar. É igualmente mau trocar alguma coisa que parece Comunicar – mas que, na verdade, o não é.
O que significa parecer comunicar? Falar somente sobre o tempo, ou sobre desportos, ou sobre o sexo oposto é parecer comunicar. Falar somente do papel que desempenhamos na vida (como alguém mais velho, como professor, como jovem, como marido, como esposa) é parecer comunicar. Quando se trocam banalidades apenas parecidas com comunicar não se corre o risco de aparentar solidão ou sentir dor. Não temos de nos preocupar com sentimentos ou raciocínios inesperados. Mas também não experimentamos a alegria súbita e irresistível – ou o sentimento de estarmos realmente vivos.

Se o comportamento da pessoa com quem se está a comunicar não muda, quer dizer que não houve realmente qualquer comunicação entre vós. Houve apenas jogos sociais. A verdadeira comunicação gera sempre um novo comportamento. Há uma diferença entre comunicar com pessoas e simplesmente confirmar relações existentes entre elas. As relações tornam-se rígidas. Comunicar pode mudar isso.
Que tipo de relações quer ter? Uma das dificuldades que há em comunicar é que sempre que dizemos que queremos ser amigos de alguém estamos, na verdade, apostados em mostrar a essa pessoa que somos um pouco melhores do que ele ou ela é.
Que espécie de relacionamentos quer ter com outra pessoa? Um relacionamento unilateral? Querem ignorar-se um ao outro? Jogar com brutalidade? Ou esconder os vossos sentimentos? “Se ao menos eu fosse melhor do que ele ou ela” diz você. Sem nos apercebermos disso, usamos muitas vezes a comunicação como um meio de competir. Lembre-se porém: Só se atinge um novo nível de comunicação com aquilo a que pode chamar-se compreensão. As pessoas mudam o seu comportamento quando se sentem compreendidas.

Gostar de outra pessoa não é necessariamente compreende-la. Se há uma pessoa de quem simplesmente não goste, esforce-se por conhecer primeiro o “eu” que não gosta dessa pessoa. A forma como conhecemos outra pessoa coincide inteiramente com a forma como nos conhecemos a nós próprios. Conhecer é saber ouvir o que a outra pessoa está a dizer.
“Quero falar sobre os meus sentimentos”, pode você dizer, “mas ninguém me ouve.” Não é o único que pensa isto muitas vezes. De facto, isso é o que acontece sempre que as pessoas tentam usar a comunicação para competir, em vez de conhecer. Enquanto pensar que a capacidade para comunicar idêntica à capacidade para falar, nunca experimentará um sentimento de união com outra pessoa. A capacidade para comunicar depende da capacidade para fazer a outra pessoa falar – e da sua capacidade para ouvir o que ela está a dizer. Só se ouve verdadeiramente quando se ouve tudo o que a pessoa está a dizer sem julgar, ou negar, ou comparar essa pessoa connosco.

Se se está verdadeiramente a ouvir, e se está preparado para compreender, será fácil para a outra pessoa falar. Mesmo que a bola seja difícil de apanhar, ou tenha sido atirada debilmente,
se fizer o seu melhor para a apanhar... consegue! Não conseguirá apanhar nenhuma bola se se limitar a esperar. Se está pronto realmente para conhecer, dê um passo em frente. Use o seu corpo todo. Estenda a sua mão e descubra o que está mesmo à sua frente. Se pensa que compreender outra pessoa significa concordar com tudo o que ela diz e faz, a compreensão não será fácil.

Conhecer significa ouvir tudo o que a outra pessoa tem para dizer a tomar o que a outra pessoa diz pelo seu valor facial. Se há compreensão, pode ter-se pensamentos diferentes, interesses diferentes, sentimentos diferentes – e ainda assim estar juntos. Quando o conhecimento ocorre, atinge-se um outro patamar de comunicação. Quando um determinado patamar de comunicação se cumpre, sentimo-nos um pouco aliviados. Quando duas pessoas se encontram pela primeira vez, ambas estão nervosas. O problema não é o nervosismo. O problema está em tentar escondê-lo.

Às vezes, você preocupa-se tanto em atirar bem a bola que esquece a preocupação e age como se nada estivesse errado. Ou preocupa-se tanto em apanhar bem a bola que esquece a preocupação e age como se nada estivesse errado. No próprio instante em que deixa de agir como se nada estivesse errado, começa a conhecer-se a si mesmo. Somente depois de você se conhecer a si mesmo pode ocorrer a verdadeira comunicação.

“Quero falar-te dos meus sentimentos.” No momento em que começar a sentir deste modo, começa a atirar bolas que são fáceis de apanhar. (É impossível que alguém que não tenha jogado
muitas vezes andebol apanhe bolas rápidas e em curva, mesmo que queira muito consegui-lo. Se a pessoa com quem está a jogar não estiver pronta para o conhecer, atire-lhe uma bola que seja fácil de apanhar.)

Vivemos graças à comunicação. Quando a nossa comunicação com alguém se altera, a nossa relação com os outros muda também. Tal como muda a nossa relação com o trabalho e a nossa relação com a vida. Até a nossa relação connosco mesmos mudará igualmente.

“Quero falar-te dos meus sentimentos.”
É assim que a comunicação começa.


Mamoru Itoh


Para uma menina não desistir nunca de comunicar.
Para algumas pessoas a quem estou cansado de enviar bolas, sem retorno. Para mim próprio. Para quem quizer...

1.28.2008

The devil legs

Nas tuas pernas andam demónios e param acidentes. Beleza obscena de teia, que apetece morder. No seu cruzar de riscar de fósforo inflama a mais sublime sedução. Lenta. Letal.

Nas tuas pernas mora o premeditar animal da tempestade. O esticar do silêncio que antecipa as grandes catástrofes. O abismo. O perigo. O infinito.

Nas tuas pernas espreguiça-se o diabo ensonado preparando os primeiros passos da, já quente, manhã.

1.25.2008

1.24.2008

Pilar, a ave pintada

Quem te pintou Pilar? Que quadro é esse que é o teu Pilar? Um quadro vivo e delicado. Pintado apaixonadamente na minúcia do carinho. Com os dedos lentos e demorados sobre os contornos do rosto.

Para quem te pintaste Pilar? Que cores são as tuas que desfalecem tudo em redor. No tom das searas para te realçarem. Que se movimentam mesmo na tua imobilidade.

Nelas vi a gueixa e o shaman apache. Mas não é nada disso pois não Pilar? As tuas cores não se definem. Observam-se e preenchem os espaços. A alma. Piscaste-me o olho. E isso basta-me Pilar.

1.23.2008

Mahler revisitado

Acordara cansado. Do peso dos sonhos talvez. Sonhos ou pesadelos? Não o sabia, pois raramente conseguia lembra-los. Apenas a certeza dos ter tido nessa noite. Intensos e em catadupa, tinham-se sucedido, uns atras dos outros, quase aos empurrões, tentando, por certo, dizer-lhe algo importante.

Tentava permanecer naquele estado de embriaguez sonolenta, algures entre este mundo e o outro. Esticando ao máximo o que ainda o podia ligar a eles. Imóvel, para ver se os enganava. Em vão. Tentava lembrar-se, mas nada. O esforço inglório apenas aumentava o cansaço.

Permanecera assim, estranho e cansado, todo o dia. Envolto numa música em espiral, quase indecifrável, com o corpo desprovido de movimentos. Em câmara lenta, visitado momentaneamente por flashes de imagens familiares que logo se despediam numa espécie de riso irritante. Não os sentia bons ou maus o que aumentava fortemente a sua indisposição. Que lhe queriam dizer? Será que alguma vez o iria saber?

1.22.2008

Omissões

Mais difícil do que dizer certas coisas é, muitas vezes, não as dizer. Calá-las. Humedecer-lhes a voz. Guarda-las em nós, por tempo indeterminado, para não ferir alguém. Alguém a quem queremos bem. Alguém que nos magoa de não as perceber, tão evidentes. Fingindo que não as sentimos. Ocultando-as. Fazendo parecer que está tudo bem quando apetece libertá-las num pássaro. Resistir-lhes. Amordaça-las. Acorrentá-las em nós. Contorcermo-nos com elas sem pestanejar. Sem as fazer transparecer no olhar. Há um acto de amor profundo em certas omissões. Pena que, por vezes, sejamos tão bons actores. Pena que por vezes não nos leiam os sinais. Pena. Deixa lá, são os meus olhos, não a minha boca.

1.21.2008

A incerteza da demência

"Se me esquecer de ti, Jerusalém que seque a minha mão direita"


Em que é que está a pensar meu caro?
Em que é que está a pensar? A resposta verdadeira a esta questão apenas poderia ser conhecida pelo próprio, não havia partilha possível. Todos podiam mentir e portanto todos podiam estar seguros. No entanto, o assustador dessa pergunta era o oposto: nenhum dos doentes poderia provar que dizia a verdade. Como provar que se está a pensar num determinado assunto? O Doutor Gomperz só poderia acreditar, aceitar como verdadeiro, sem prova.
Assim, em última análise, a cura completa, que depois de ter passado pelos actos do doente terminava nos pensamentos, era determinada por um evidente puro arbítrio. Gomperz teria que acreditar que o doente dizia a verdade sobre os seus pensamentos, e que portanto não pensava em nada perigoso ou fora do normal; fixava-se assim em assuntos úteis e concretos.
No doutor Gomperz havia ainda uma espécie de moralismo mínimo infiltrado nos seus julgamentos sobre o estado do doente. Gomperz por vezes atrevia-se mesmo a colocar a um paciente a seguinte questão: sabes em que deves pensar? Tal como o professor de matemática ou gramática, fazia uma pergunta concreta sobre um determinado conteúdo, Gomperz fazia esta pergunta como se o outro estivesse num exame e só existisse uma resposta certa. Até para as pessoas saudáveis era perturbante.
Mesmo para Theodor Busbeck - habituado aos labirintos mentais em que doente e médico por vezes entravam - aquela pergunta era inaceitável, ou pelo menos ameaçadora.
Em que deve pensar um homem? Para onde deve o homem dirigir o seu pensamento?

Gonçalo M. Tavares in Jerusalém.


Sem dúvida um livro perturbante e surpreendente. Obrigado Joana, pelo despertar da curiosidade.

1.20.2008

Raio de sol

O sol desceu os seus braços de luz, desfalecendo em vapor no teu corpo deserto. Nómada de tudo, sussurrou-lhe a chama e a tempestade. Percorrendo dunas e vales. Conhecendo-lhe a calma nocturna e a agitação da areia. Embaciou a vidraça do mundo dum calor tépido resguardado dos dias no interior dos frutos quentes e maduros para se revelar apenas nos lábios. Nunca foi fácil descrever o teu corpo. Talvez um raio de sol.

1.18.2008

Green eyes




Honey you are a rock
Upon which I stand
And I come here to talk
I hope you understand

That green eyes, yeah the spotlight, shines upon you
And how could, anybody, deny you

I came here with a load
And it feels so much lighter, now I’ve met you
And honey you should know, that I could never go on without you

Green eyes

Honey you are the sea
Upon which I float
And I came here to talk
I think you should know

That green eyes, you’re the one that I wanted to find
And anyone who, tried to deny you must be out of their mind

Cause I came here with a load
And it feels so much lighter, since I met you
Honey you should know, that I could never go on without you

Green eyes
Green eyes

Ohohohohooooo
Ohohohohooooo

Ohohohohooooo
Ohohohohooooo

Honey you are a rock
Upon which I stand
Coldplay

1.17.2008

O gato

O gato chega à porta do quarto onde escrevo.
Entrepara... hesita... avança...

Fita-me.
Fitamo-nos.

Olhos nos olhos...
Quase com terror!

Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias
Que fossem feitas cada uma por um Deus diferente.


Mário Quintana

1.16.2008

Special





Perdi-te? ou Perdeste-me?
Que importa…
Há uma vida normal. Lá fora.
À espreita.
Insuportavelmente normal.
À espreita
A chuva cai, corrida a vento.
A estrada continua escura e a chuva cai.
Miudinha. Corrida a vento.
Perdi-te? ou Perdeste-me?
Que importa…

1.15.2008

Michele, a gaivota atrevida

Tinha mil adjectivos nas suas penas brancas mas destacava-se-lhe o atrevimento: a roçar o descaramento. Possuía, no entanto, uma graça fora do comum, apenas acessível aos seres pecaminosos. Uma graça que a tornava irresistível fazendo o comum dos mortais tudo lhe perdoar.

Visitava-me sempre à mesma hora, no final da manhã. Ainda um pouco ensonada. Tinha um local predilecto, no parapeito do extenso terraço da piscina do Hotel, onde pousava com a subtileza dos saltos altos e mirava as vítimas esparramadas nas espreguiçadeiras.

Sabia perfeitamente que a observava, mas nascera habituada a ser o centro do universo, destacando-se de todas as outras. Apenas cruzámos uma vez o olhar. Fixamente. Olhos nos olhos, naqueles segundos eternos que por vezes sucedem. Tinha o perigo e a vertigem estampados, adornados por um sorriso. Recordo-me de a ver desfalecer a pique, teatral. Como que morta para logo explodir em vida, soltando uma gargalhada que permanecia pelo entardecer do dia.

1.14.2008

Underwater

Via-se a si próprio reflectido no escuro. Nada mais em redor. Apenas o seu corpo envolto em vácuo. Comprimido, no silêncio inatingível das profundezas. A sua imagem distorcida era, curiosamente, mais nítida de si. Como se a sua alma boiasse e o olhasse nos olhos. Simétrica mas diferente. Um espelho vivo.

Sempre lhe quisera dizer das boas. Mas limitava-se a contempla-la e a escutar-lhe a pequena ondulação, permanecendo o máximo tempo possível debaixo de água. Tentava chegar-se o mais próximo que conseguia, usando o mínimo de movimento para se deslocar. Avançando num agitar de peixe. Quase se tocavam.

O seu corpo era, no entanto, uma rocha porosa. Pesado. Afundando-se com o tempo. Afastando-se desse leve ondular. Preso a algas intransponíveis que o puxavam para o fundo. O corpo é uma casa muito pequena e estanque. Com pouco ar. Deveria acompanhar sempre a evolução da alma e nadar. Nadar sem barreiras. Sem ossos ou pele. Nadar em todas as direcções. Nadar.

1.13.2008

Anoitece

...

anoitece devagar. anoitece sobre os ombros. anoitece onde não estou e em redor de meu corpo, anoitece por dentro dos objectos que evocam a tua presença. a penumbra invade a casa, corrói tudo o que é sólido.
dantes, a solidão vergava-me, mas com o passar dos anos povoei-a com sorrisos, corpos, pequenos gestos que aderem à memória e me dizem que existo, que continuo vivo onde pressinto o coração a arder. é o ouro que se ganha quando se aprendeu a estar sozinho, tem-se tudo e não se possui nada. o que restava da memória foi partilhado ou foi abandonado para sempre. tudo está constantemente presente e vibra sob a luminosidade imperceptível de ser eterno na fracção de segundo.
se morresse agora não deixava nada, porque bebi toda a minha sede, esvaziei-me, devorei noites esse amargo que têm as coisas antes de nos pertencerem. teu corpo, por exemplo custou-me tanto inventar-lhe formas consistentes, um reflexo, uma sombra que se lhe adaptasse e o acompanhasse. teu corpo vive hoje dentro do espelho onde se perdeu o meu.

...

Al Berto

1.10.2008

Silver wings

Uma sala vazia
Uma vista do mar
Uma calma insegura
Uma sombra de nada
Uma frescura de lábio
Uma textura de céu
Uma brisa de palavra
Uma ferida que doi
Uma pégada de música
Uma imagem esquecida
Uma semente de sal
Uma folha que cai
Uma mão amputada
Uma visita do tempo
Uma cinza nebulada
Uma asa metálica

1.08.2008

Pena

Queria reencarnar a pena. Cor pavão. Cantão de brilho quente eloquente. Klimt envolvente de laivos de mel. Que te tomasse os olhos por inteiro em teus jardins suspensos. E te saciasse a sede de voar, na leveza da queda. Assim poderia morrer em paz. Pena, novamente. Feliz por te ter tido e sido, aparo nas tuas mãos.


1.07.2008

Animais carnívoros

Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.

Herberto Hélder

1.06.2008

Segredo

Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega


David Mourão Ferreira

1.03.2008

The end of the world





That's great, it starts with an earthquake, birds and snakes, an aeroplane - Lenny Bruce is not afraid. Eye of a hurricane, listen to yourself churn - world serves its own needs, regardless of your own needs. Feed it up a knock, speed, grunt no, strength no. Ladder structure clatter with fear of height, down height. Wire in a fire, represent the seven games in a government for hire and a combat site. Left her, wasn't coming in a hurry with the furies breathing down your neck. Team by team reporters baffled, trump, tethered crop. Look at that low plane! Fine then. Uh oh, overflow, population, common group, but it'll do. Save yourself, serve yourself. World serves its own needs, listen to your heart bleed. Tell me with the rapture and the reverent in the right - right. You vitriolic, patriotic, slam, fight, bright light, feeling pretty psyched.

It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it and I feel fine.

Six o'clock - TV hour. Don't get caught in foreign tower. Slash and burn, return, listen to yourself churn. Lock him in uniform and book burning, blood letting. Every motive escalate. Automotive incinerate. Light a candle, light a motive. Step down, step down. Watch a heel crush, crush. Uh oh, this means no fear - cavalier. Renegade and steer clear! A tournament, a tournament, a tournament of lies. Offer me solutions, offer me alternatives and I decline.

It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it and I feel fine.

The other night I tripped a nice continental drift divide. Mount St. Edelite. Leonard Bernstein. Leonid Breshnev, Lenny Bruce and Lester Bangs. Birthday party, cheesecake, jelly bean, boom! You symbiotic, patriotic, slam, but neck, right? Right.

It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it.
It's the end of the world as we know it and I feel fine...fine...
(It's time I had some time alone)


REM

1.01.2008

Imobilismo

"Paradoxalmente a aceleração do tempo é uma forma de imobilização: vivemos hoje mais anos que alguma vez vivemos, mas num pânico permanente de que aparentamos mais do que trinta anos e no terror de nos pensarmos (como indivíduos e como sociedades) como organismos mortais. Por isso usamos a História como anestésico, enquanto mergulhamos no passado como destino cumprido e inelutável, evitamos pensarmo-nos como sujeitos actuantes da História que nos coube e fugimos da projecção num futuro necessariamente angustiante, porque incluirá o nosso regresso ao pó".


Inês Pedrosa sobre “Breve História do Futuro” de Jacques Attali

Assíduos do shaker

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