3.30.2010

Mel

Escorres-me dos pensamentos até aos lábios, suspensa no peso da saudade, num mel espesso e vagaroso interior. Fecundo, sedoso, que te arrasta diluída no doce dos sentidos, misturada em mim. Algures, por dentro da pele - entre um brilho de sol nas searas e passos descalços a correr - vagueando nua, em mim, entre músicas e imagens soltas à tua passagem, que te dissolvem no meu lago cristalino, que apenas ondula quando te vai e vem buscar. Lentamente, sem pressa de chegares, aconchegas-te e ficas, na dança do teu sabor. Escorres-me em mel, e em mel te conservo, todo este tempo e o que ainda há-de vir, neste favo da memória, que não parte com as abelhas nem no aroma das flores. Um mel pegado aos dedos, um mel colado a um sopro do coração.

3.29.2010

Serviço Público*


1. Ligar para o operador de internet e dizer que querem saber como dar baixa do serviço porque estão a pensar mudar para o Meo

2. Não vos deixarem acabar de falar, não vos explicarem rigorosamente nada de nada e oferecerem logo, de mão beijada, e com uma voz desesperada, um desconto de 20% na vossa factura

* ou, não é que isto agora é como nos ciganos?

3.28.2010

Comédia grega ou chamem a bruxa sff


1. Mudar a casa de banho e o empreiteiro simplesmente desaparecer, deixando não apenas de atender o telemóvel e a obra a meio, como deixando todo o seu material em minha casa.


2. Acabar a casa de banho e ficar com uma valente infiltração na mesma, fazendo estragos na cozinha e no vizinho de baixo.


3. Verificar que, devido à mudança de banco [por me ter chateado com o meu por incompetência] o novo seguro multi-riscos não cobre infiltrações, apesar de ter solicitado um exactamente igual [a incompetência vem ao de cima normalmente quando surgem os problemas, até lá está normalmente sempre tudo bem].


4. Assumir os estragos [incluindo os do vizinho, que ainda por cima me quer fazer de parvo], partir e arranjar novamente a casa de banho, tudo aparentemente resolvido e... verificar que só se consegue tomar banho a escaldar [ou seja, não se consegue] ou gelado [também não se consegue], ele há coisas fantásticas, não há?


5. Chamar o fornecedor da cabine de duche, que empurra para a marca do esquentador que por sua vez empurra para os senhores da rede de água, que por sua vez empurram em todas as combinações possíveis, numa verdadeira triangulação amorosa, só que ao contrário.


6. Vários telefonemas, facturas, tempo precioso e paciência nos limites, lá se chega à conclusão [aparente] que o problema tem a ver com a pressão da água da rede mas que com um ligeiro acerto no esquentador lá se resolve a coisa.


7. Para arranjar o tecto da cozinha devido às referidas infiltrações o iluminado novo empreiteiro [apesar de ter um escadote com quase 2 metros à frente dos olhos] decide encavalitar-se em cima da bancada da cozinha e, como era elegante, partiu-a, não num mas em dois locais.


8. Semanas infindáveis para vir uma pedra igual, ao que depois afinal não era possível, e escolhida uma nova lá se instala a dita, mas... [há sempre um raio de um mas, brrrrrr] ao tirar a placa eis que fica um cheiro intenso na cozinha, que ao primeiro dia ainda se supõe ser do silicone, mas que ao segundo se comprova ser fuga de gás.


9. Chamada para o piquete do gás. Fuga comprovada e gás cortado.


10. Ligar para empresa certificada para reparar problemas de gás e inspecção técnica obrigatória para atestarem resolução do problema e passarem certificado de conformidade e mais uma factura exorbitante. Nem, ao menos, enviaram a polaca do anúncio [publicidade enganosa, acho mal], mas enfim, lá se resolve a fuga.



Posto isto, e encarando com o humor possível esta tragédia/comédia grega [e tendo a certeza que ainda não ficará por aqui], põe-se a questão pertinente que levou a estas linhas: se conhecerem alguma bruxa de confiança [polaca ou não] façam o favor de avisar.

3.27.2010

Palavras pequenas



Alberto Iglesias, Hable con ella soundtrack


Só as pequenas palavras salvam os amantes. Nadam, despidas, no litoral dos lábios, cerrados, à espera de uma simples braçada, que os entreabra. São pequenas, as palavras que salvam os amantes, mas densas as suas mordaças, ancoradas no tempo, deixando-as morrer ao sol, sufocar lentamente no alastrar de uma ferrugem que corrói e afasta a seda das mãos. Só as pequenas palavras salvam os amantes. Poucas, simples, pequenas. As certas, nunca as guardadas.

World cuisine

Ando numa de world cuisine, mas continuo a preferir os sabores orientais e mediterrânicos

3.23.2010

Cansaço

Acordar com sono e cansado. Nadar 50 piscinas desafiando o cansaço. Tomar um banho quente até não conseguir suportar o calor. Gritar em silêncio. Afogá-lo ali. Sentir os músculos relaxados mas incomodados. Abrir e fechar os olhos repetidamente. Lava-los por dentro, por pouco apetecer ver. Olhar-se no espelho e ser assaltado por breves segundos: “algo me apunhala por dentro e foge sem o conseguir apanhar”. Não fazer a barba. Perfumar-se sem exagerar. Vestir uma camisa branca. Pegar as chaves do carro e sair. Colocar um CD que nunca se ouviu e se comprou, ao acaso, pelo grafismo da capa, já que é assim que se descobrem as coisas. Viajar sem destino, sem pressa, sem tempo ou hora marcada. Novo assalto, desta vez com pré-aviso: “mãos ao ar, tenho saudades tuas”. Quebra-se o vidro em mil pedaços, não o do carro mas o dos olhos, afinal mal lavados. Encostar na estrada do Guincho, junto ao mar. O vento a revistar o corpo, profanado, com as mãos frias por dentro da camisa. Acender um cigarro a custo. Uma voz a seu lado a perguntar-lhe do que queria falar. Não é preciso falar. Salpicos, trazidos pelo vento, espantam a voz, que não chegara a sê-lo, mas se mantivera ali, sentada, a olhar. É tão bom olhar. O carro com um cheiro diferente - resíduos da pólvora ou de ti. O peito furado com um tiro só agora apercebido, que se sente no calor do sangue debotado na camisa. De novo o cansaço com o alastrar da cor. O cansaço e o pôr do sol. E o sangue, a correr para o mar, de mãos dadas com esse cansaço e o pôr do sol. O CD já calado, mas com o barulho duma agulha de um vinil antigo e a voz, novamente sentada no banco do lado, a fazer festas no cabelo revolto, despenteado pelo vento, sem nada dizer, só a olhar. Olhar. Os olhos a fecharem-se, finalmente lavados. Apagados por um beijo dessa voz. O corpo esvaziado aos poucos, cada vez mais cansado mas em paz. Com mais luz. Branca. Mais branca que a camisa, mais branca que a fronha da almofada ou a espuma das ondas a embalar, a embalar. Dormir ao som do mar e de uma voz inaudível, ali ao lado, a olhar.

3.22.2010

Amarrotado



Oasis, Falling Down

Quando entro nos teus olhos

Quando entro nos teus olhos abraço-te e fico calado. Calado a ouvir-te, embalado nos teus sons de sereia, que me chamam e guiam baixinho, flutuando entre o toque da seda e o sol das tuas searas, seguindo um aroma de orquídea, que fiz meu, desde a primeira vez. Mergulho nos teus poemas escondidos e no escuro do teu oceano, iluminado por luas de prata, resgatando o azul que guardas fundo, descansando na luz apagada. De azul em azul sinto as tuas gotas de chuva, pairando, de quando em vez, deslizando da alma como lágrimas - antigas, feridas nas asas - cuja minha língua aprendeu a curar devagar, diluindo esse ardor de sal. Percorro com as mãos o avesso de ti e encontro sempre o caminho de volta, contigo a meu lado, nas tuas algas e teias que separo e limpo o pó. Parto o pão das nossas conversas que se seguem a esse silêncio calado, sempre quente, sempre fecundo. Quando entro nos teus olhos abraço-te e fico calado. Calado, tão calado, calando a tua boca na minha.

3.21.2010

Anti-depressivo

Tiro e queda!


Nota: Mesmo que seja uma mera desculpa, pode ser à mesma a embalagem maior

Allegro Giocoso

Finalmente [e após quase 1 ano] consegui mudar o cartão do GPS, fazer as actualizações e comprar os mapas de Espanha. Devo confessar que, continua a não acertar nas direcções, mas a voz da ArianaIT [Italiana] é de longe muito mais interessante.

3.20.2010

Captura impossível

Se conseguisse descrever em palavras, ou capturar a luz da tua expressão a arranjares-te ao espelho [o esticar das pestanas, o ladear ténue e elevado do rosto à espera dos brincos, o entreabrir dos lábios, antecipando a cor do bâton], não precisaria de mais palavras, não precisaria mais de palavras. Esgotá-las-ia ali, nesse preciso momento, para todo o sempre. Esgotaria-as, por capturar a beleza, matando ali a poesia. Mas sabes? Não existem ainda essas palavras ou frascos para capturar esses gestos mudos de música e mel, que esboçam uma aguarela quente num voo ou num corpo esguio a nadar, a nadar, a nadar preso no meu olhar.

Take my soul


Kings of Leon, Closer

3.18.2010

Mais uma primavera

Como é bela a juventude, que no entanto foge.
Quem quiser ser feliz, que seja: do amanhã não há certeza.

Lourenço Médicis


O meu sincero obrigado, por tudo aquilo que a vida me tem dado

3.17.2010

De noite*

De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia


Eugénio de Andrade

* recordando o melhor do dia

3.16.2010

No more...


Air Traffic, No more running away

[ No more running away
No more running away
No more running away
No more running away
No more running away
No more running away
No more running away
No more running away
No more running away
No more running away ]

3.15.2010

Um poema por dia*


[...] Nenhuma palavra cabe
no gesto de alisar-te os cabelos
toda a música está nas tuas mãos
todo o horizonte nos meus olhos [...]

Rosa Lobato Faria

* todos os dias

3.13.2010

The hardest part




Por vezes, silenciar o que nos vai na alma é um afogar de gatinhos. Uma água, que se agarra, por entre as frestas dos dedos, encostadas fortes, junto ao peito.

3.12.2010

Oftalmologista sádica



Is that alright

Damian Rice, 9 Crimes


[ Is that alright with you?
Give my gun away when it's loaded
Is that alright with you?
If you don't shoot it how am I supposed to hold it
Is that alright with you?
Give my gun away when it's loaded
Is that alright with you?
With you ]

3.11.2010

All beauty must die

A sala escura, negra, o espaço amplo ocupado pela ausência de luz, preenchido pela ausência total de cor e ao fundo um ecrã vivo, incandescente, a lembrar o calor, uma imagem estática mas granulada, com impurezas de ligeiras texturas, tremendo como um lábio, um arrepio a ganhar formas, breves, passageiras. Aparições adormecidas, dissipadas por um ruído de película que se espalha pela sala e atrai como insectos, naquela luz. Fechando os olhos, o escuro a galopar, a galopar, a preencher os espaços, por dentro da própria pele. Ao sair da sala da exposição o grão luminoso transportado, no sobretudo mesclado, apenas quebrado na nitidez da capa de um livro, transportado no bolso. Os passos do regresso, do caminho, estremecendo, abanando o corpo ainda intermitente entre o escuro e aquela luz desconcertante, o poder da imagem e da cor deixados à solta, livres, dentro de si. A arte é tudo o que se transporta por dentro, o que se acorda ou o que descansa e passa a dormir dentro de nós. Chegar a casa e não abrir nenhuma janela, não acender nenhuma luz, conservar o escuro e soltar aquela luz como um peixe, transportado cuidadosamente num saco de água, libertado num aquário, conhecendo aos poucos os cantos à casa. Tentar dormir com o som granulado a esmorecer, aos poucos, absorvido no escuro com o peixe de fogo a nadar, a nadar. Quando acordar já não estará por ali. All beauty must die, all beauty must die.

Preciso de me recordar

Era um daqueles dias em que estava quase a nevar e havia uma espécie de electricidade no ar. Quase que se ouvia. E aquele saco, como que a dançar comigo, como uma criança a pedir-me para brincar com ela. Durante 15 minutos. Foi nesse dia que percebi que havia toda uma vida por detrás das coisas e uma força incrível e benevolente que me fazia entender não haver motivo para ter medo, nunca. O vídeo é uma fraca desculpa, eu sei. Mas ajuda-me a recordar. Preciso de me recordar. Às vezes há tanta beleza no mundo. Sinto que não consigo aguentá-la e que o meu coração está prestes a desmoronar-se.

In American Beauty

3.10.2010

Love...


Jean-Luc Godard

... [sometimes] the capital of sorrow

Antique


Gosto de bairros históricos e de casas antigas. Gosto do seu tempo mais lento e espesso, mais perdido, mais escondido, e da surpresa do moderno que pode morar por detrás duma porta centenária. Gosto de pensar no que as fachadas já presenciaram, nas histórias que guardam, nos segredos que lhe foram confinados, tocando, ao longo do tempo, as suas paredes gastas. Gosto do barulho do soalho e do burburinho nas ruas pequenas, ecoando nos pés-direitos altos. Gosto da luz sépia, que aquece e apetece guardar dentro das gavetas. Gosto dos gatos vadios, entreparados nos telhados anónimos e do vento por companhia. Gosto dos pátios recolhidos para as traseiras, que não se deixam aperceber do exterior, e das varandas viradas para o céu ou para o rio. Gosto de me perder por lá, nos finais de tarde, nas noites estreladas, num cintilar tilintante de gelo num copo ou num respirar mais fundo e demorado, numa fotografia que se guarda nos olhos por muito tempo. Gosto de bairros históricos e de casas antigas, que me levem para longe, que me levem para trás ou para a frente do tempo, que me levem para onde nunca estive ou fui.

3.09.2010

O coração dos frutos

Porque é que os relógios pararam? e o tempo deixou de fazer tanto sentido? Porque é que os braços teimam em não se levantar? e os passos são mais frágeis, mais circulares? Porque é que os olhos andam longe, com os pássaros? e mora no sangue uma dor miudinha, que dói como um corte de folha de papel? Porque é que se olha o som dessa chuva? e o avesso, que lhe está por trás? Porque é que as maças dormem serenas na relva? e no seu descanso bate um coração? Porque é que o mar inunda a minha cama? e não me leva da ilha onde me deixou? Porque é que fecho a mão com tanta força? e as veias reagem mais lentas? Porque é que há pollaroids espalhadas pelo chão? e só uma imagem nasce e renasce e me invade e percorre a alma? como o coração a palpitar dentro dos frutos afinal acordados.

3.07.2010

Silêncio fino

Há silêncios que doem. Que custam, mas que, às vezes, são necessários acorrentar. Há silêncios que ferem, todos os dias, na espera, na ausência. Que afagam ásperos, por dentro, que diluem tatuagens profundas, entranhadas, que nos retiram a pele, deixando-nos em carne viva. Há silêncios que nos apetecem quebrar desde o primeiro segundo, que não se libertam apenas por agrafarmos a boca ao peso do corpo. Há silêncios que podem matar devagar, que entram como punhais e vão abrindo uma ferida, que teima em abrir, abrir, por mais que a agarremos com força, por mais que tratemos dela com imagens, cheiros, memórias. Há silêncios que fazem ecoar mais as saudades, que tocam como sinos, que se deseja que uma palavra as estilhace, as dissipe para longe. Há silêncios cujo mel tarda em amolecer uma garganta rouca de chamar invisível, rouca de nada mais poder dizer. Há silêncios que quase enlouquecem de se saberem sem sentido dentro do sentido que os originou, dentro do sentido que possam ter tido. Um sentido que só o tempo resgatará ou dará perspectiva, um tempo que pode vir tarde de mais. Há silêncios que são contranatura, que apenas se obtêm a ferros, à força de muito contrariar o corpo e a alma, amarrados a âncoras que nunca se tiveram, que nunca existiram, impostas. Há silêncios que fazem falta, talvez, mas o que lhes está por trás ou pela frente faz muito mais falta. Há silêncios que podem deitar tudo a perder, se durarem tempo demais na busca da ferrugem da dúvida e da racionalidade [a que sabe a chuva? A que cheira o vento? Porque chama a lua? Porque partimos com o mar? Somente o corpo limita, cá dentro existe tudo, sem explicações]. Há um silêncio de comboio nocturno, que parte, e de barco à vela que tarda em chegar, naufragando nas horas, à deriva nos minutos, erguendo um braço afogado para acenar no nevoeiro dos dias, no salpicar das ondas, comigo por trás da chuva. Há um silêncio que suspira, que sussurra ao ouvido a chamar as cores para o seu lugar [onde as mãos se desprendem por momentos e tardam em retomar a posição]. Há um silêncio longo demais, limpo e longo, até ao fim do mundo, enlaçando-se num nó apertado, à espera que se levantem as pombas brancas, num beijo, num olhar, que dispense qualquer palavra, num outro tipo de silêncio. Há um silêncio que inventa distâncias onde nunca existiram, que cose o medo e a incerteza à roupa que tarda em despir. Há um silêncio que não nos consola, que não nos pertence. Há um silêncio que nos derrota entre o cimento que asfixia [e as mãos novamente à procura uma da outra, de novo de mãos dadas, na imaginação, não partindo, suspensas nesse silêncio]. Há um silêncio de malas por encher, arrastadas com peso de ar, sem substância, com migalhas para os pardais. Há um silêncio com corredores escuros, com fantasmas e cheios de nada, com uma janela para abrir de par em par. Um silêncio de manto espesso que tenta asfixiar o que ilumina as salas com dedos de poema. Há um silêncio que afasta o litoral da tua boca, que arrasta na corrente. Há um silêncio que arranca as pétalas mas não desfalece o aroma que mora no coração das cerejas. Há um silêncio de cabelos entrelaçados com o vento, impossíveis de afastar de tão enraizados. Há um silêncio pensado que diz não estou quando alguém bate à porta. Um silêncio de dias cinzentos que me debotam de cor e calor. Há um silêncio de espuma a rebentar nas rochas de tanto chamar. Há um silêncio cujo relógio marca outra hora, ontem, agora, que suplica um já [uma barreira calada que espera ser acordada por um grito de gaivota, por um raio de sol]. Há um silêncio de sonata adiada, de madrugada não dormida por não querer acabar. Há um silêncio que ama as palavras guardadas, ainda por dizer. Um silêncio de ave assustada do coração, de sede inesgotável, de cama vazia. Há um silêncio que deixa sempre uma fresta, uma nesga, um túnel que nunca se fecha, uma ponte para seguir o rasto [sabes? os meus olhos, és tu que tens nesse silêncio, e a tua pele? é minha, não ta devolvo]. Há um silêncio de canteiro de jasmim, que fica preso numa textura, na ponta dos dedos, num paladar. Há um silêncio que não sabe o que fazer com as palavras que sobram, com as praias que ainda não vimos, com o que ficou por fazer. Há um silêncio que não é nosso, que nunca morou entre nós.

A single man


Uma dança de imagens lentas, soltando-se envolvidas numa música mágica e num bater de relógio que um dia vai acabar.

Bem me parecia. Muito, muito bom

3.06.2010

A vida é que [ainda] não sabe

Reaprendo o caminho das mãos
através do inútil.

Releio incansavelmente
a tua única carta.

Não choro, penso.

Quero ainda seguir o teu voo
o trilho que soube convidar os teus passos

Sentir o que sentes
levar o coração ao teu destino.

Estendo as mãos para a luz
Ficam acesas como se o teu corpo
as convocasse.

Tecemos um amor indestrutível.

A vida é que não sabe.


Rosa Lobato Faria
Excerto do poema "A gaveta de baixo"

3.05.2010

Uma dor por aí *

Hoje, depois de escrever dez horas seguidas e sentindo-me cansado demais para continuar, levantei-me da mesa e tirei um livro da estante do corredor. Calhou ser Dickens, numa edição barata da Wordsworth. Tempos Difíceis. Abri-o onde resolveu abrir-se e apareceram quatro linhas mágicas: um filho visita a mãe, velha e muito doente. Pergunta
- Sente dores, mãezinha?
e ela responde
- Tenho ideia que anda uma dor por aí mas não estou certa de me pertencer
e fiquei parvo com isto. Entre parênteses adoro ficar parvo com o que os outros escrevem: só costumo ficar parvo comigo, a interrogar-me de onde é que é aquilo saiu, porque não foi de mim com certeza, de maneira que penso que a mão de um anjo substituiu a minha. Tenho ideia que anda uma dor por aí mas não estou certa de me pertencer é uma pérola única. Igual à vida: quantas vezes senti isto, sinto isto, sem ser capaz de o exprimir. As dores que me pertencem são fáceis, as que não estou certo de me pertencerem custam tanto. Viro-as para um lado e para o outro, estudo-as contra a luz, experimento-lhes o cheiro, a consistência, a cor e a dúvida perpétua
- Pertence-me?
a perplexidade, a hesitação, enquanto a dor dói e me faz sofrer para burro. Estamos muito bem na sala e aí anda ela pelos cantos, fazendo de conta que não existe e no entanto a arranhar, a arranhar, ou antes a lacerar-nos todos, a gente para a dor
- És tu?
e não responde, finge que se vai embora e fica, que não nos liga e insiste, que não quer saber de nós e não desanima. Até no meio do prazer, até no meio da alegria permanece, alarga-se, entra mais fundo, com um arzinho distraído, não nos deixa em paz. Para quê falar nisto, o que interessam as minhas dores, de resto? É Agosto e se fosse pequeno estava a caminho de Nelas com a família, não, Nelas em Setembro, em Agosto a praia, o raio de uma praia sem sol, nevoeiro e frio, a vendedora de bolos a passar com o cesto, as ondas cinzentas. Uma casa pequenina, alugada, a gente ao monte lá dentro. Eu lia, comprava o jornal desportivo, compunha versos que deviam ser frescos. E, toda a noite, o cordeiro do mar a balir. A minha mãe em fato de banho, o meu pai aos fins-de-semana, a cheirar a cachimbo, comigo na cama, de tábua nos joelhos, a aperfeiçoar redondilhas. Que diabo de texto é este em que comecei em Dickens e já vou nas redondilhas? A culpa é da esferográfica que vagabundeia sozinha. Nos livros sou disciplinado, nestas prositas divago. A dor, que não estou certo de me pertencer, abranda e depois volta, digo-lhe
- Olá, dor
e não lhe dou confiança. Não se deve dar confiança nem a nós, há que nos pôr em ordem. Põe-te na ordem, António, tu que durante a vida inteira detestaste obedecer. Aliás não te podes queixar, passaste o tempo a fazer o que querias. Agora, sei lá porquê, veio-me à ideia o meu irmão Pedro, o silêncio dele. Gosto de silêncio, de escutar palavras não ditas. Também gosto de pessoas que falam porque me permitem ir embora continuando ali. Elas falam, digo que sim com a cabeça e não estou. Estou onde? Na varanda da Beira a olhar a serra, por exemplo. Ou em parte nenhuma, num esconso interior, sentado no chão, de joelhos na boca, escutando o que não há. Desde que me lembro escuto o que não há, deixo que as coisas se inventem cá dentro, a minha cabeça é uma praia que a água invade e esquece. Neste momento, por exemplo, invadiram-me os travestis do meu bairro, com o seu único par de sandálias, heróicos no passeio, um movimento para diante quando se aproxima um carro, um movimento para trás quando o carro se afasta. Conquistaram duramente o quarteirão às mulheres pagas, após brigas de alto lá com o charuto entre os rapazes que protegem os dois negócios, um ganha-pão
(agrada-me o termo ganha-pão)
trabalhoso porque implica vigilância constante e bofetada fácil, para além dos quilos suficientes para se darem ao respeito. Lá voltam os Tempos Difíceis
(dar-se ao respeito também me agrada)
- Sente dores, mãezinha?
e no caso de se interessarem por mim o que responderia? Talvez, lá no fundo, mas disfarço, garanto. É que existem coisas que não sararam na alma, não hão-de sarar nunca: as árvores de um cemitério de província a tremerem, algumas mortes, a minha violência tantas vezes injusta, patetices, indelicadezas, faltas de atenção com quem o não merecia. Espero ter melhorado, acho que melhorei mas continuo sem me perdoar o egoísmo necessário à escrita que me obrigou a cortar tantos pescoços que se interpunham entre eu e ela. No entanto, aprecio o António: comove-me a sua feroz guerra civil interior, a vulnerabilidade escondida, a compaixão que não mostra. O imenso orgulho que tem nos seus poucos amigos, a admiração por eles, o respeito. Dois homens, quando são homens, estão condenados a entender-se, não é? Agosto e o bairro deserto. Sobro eu, o senhor Cardoso da mercearia, o senhor Miguel do café, pouco mais. Ah, o senhor Varela a quem todos os dias pergunto pela diabetes. Até os pombos se foram, os restaurantes fechados. O senhor Cardoso viaja para a Beira Alta, perto de Seia, perto de mim. Fala da terra numa exaltação que me toca, mostra fotografias de casas e ruas, enquanto a esposa aprova. E o ar, senhor doutor? E a beleza daquilo? Alimento-me dos iogurtes que lhe compro, recebem o meu correio
- Uma encomendazinha do estrangeiro de que a dona Irene corta as guitas com a faca: livros
- Muito livro há-de ter você
acha o senhor Cardoso, cujo filho, ao que parece, lê que se desunha:
- Lê tudo, o meu filho
e a dor que anda por aí e não estou certo de me pertencer amaina. Se a Joana
- Sente dores, paizinho?
afiançava-lhe logo que não, quais dores, que tolice. Dúzias de lugares para automóveis na rua, um casal na esplanada do senhor Miguel, um compincha drogado que a cocaína electriza. Mostra-me as tatuagens das cadeias
(Vale de Judeus, Pinheiro da Cruz)
onde passa temporadas a banhos por assaltar pessoas com um canivete. Garante
- Se fosse preciso matava por si
e desaparece num salto, pobre esqueleto desfeito. Dor nenhuma claro, Joana. Só que de tempos a tempos, mas isso não te digo, o coração num pingo. Não tarda nada passa, julgo eu. Julgo não, tenho a certeza: mais um minuto ou dois e há-de passar.

António Lobo Antunes

* longo mas tão verdadeiro e impossível de ser retalhado

Um corpo

Um corpo para porto de abrigo, para suster tempestades e a força das marés. Um corpo para sair cedo e chegar muito tarde, de madrugada. Um corpo para guardar as feridas e para as lamber com língua de gato, um corpo para sarar setas cravejadas. Um corpo para vestir de beijos, que perdurem como sal, para adornar com abraços, intermináveis, apertados. Um corpo para andar de mãos dadas a olhares fundos e memórias de seda. Um corpo para despir depressa ou devagar, um corpo para lutar contra medos e impossíveis, para combater destinos pré-concebidos. Um corpo com muitas perguntas para ir descobrindo e poucas respostas, por não fazerem falta, um corpo com silêncios e muitos ouvidos e sonoridades. Um corpo para descobrir e ser descoberto. Um corpo para amar sem medo de enlouquecer. Um corpo para doer às vezes, um corpo para chorar e para sorrir. Um corpo com raios de sol, com arco-íris. Um corpo para tocar com mãos de pássaro sem pressa, um corpo com gestos mudos e arabescos. Um corpo para envelhecer devagar, sem pensar, onde não more o tempo e apenas existam as vontades. Um corpo para não deixar envenenar por problemas ou mal entendidos. Um corpo para chegar longe, exausto, cansado mas preenchido. Um corpo para ter cheiro e sabor, para ver e ser visto, um corpo para sentir e recordar, para ter saudades, muitas. Um corpo para sorrir e para rir à gargalhada, um corpo para fazer sorrir o olhar. Um corpo de pombas de porcelana, frágil, mas com garras de felino, um corpo para proteger. Um corpo para abraçar e envolver, para nunca largar. Um corpo para diluir na pele, no sangue, no respirar. Um corpo aberto para o mundo, para o futuro. Um corpo de olhos fechados e braços abertos. Um corpo à espera. Um corpo à espera de ti.

3.02.2010

Medo


Morro e escrevo, cada vez mais. Escrevo para que não me atraiçoe a memória, para verter emoções e aprisionar o momento irrepetível numa película de filme fina, frágil, preciosa. Escrevo para poder eterniza-lo, ali, sempre à mão, para o rever quando quiser. Morro para me tentar esquecer e quando o faço parte sempre para longe algo de mim, que me é confiscado, que viaja com essa mágoa, com essa tristeza, abandonado às mãos do tempo, incontrolável, à deriva, longe da minha mão. Morro assim diluído, mas nunca parte tudo, apesar de morrer. Morro e escrevo, cada vez mais. Às vezes não escrevo o suficiente, outras, deixo-me morrer demais.

a itálico frase de um poema de Tiago Araújo

3.01.2010

Assíduos do shaker

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