3.11.2010

All beauty must die

A sala escura, negra, o espaço amplo ocupado pela ausência de luz, preenchido pela ausência total de cor e ao fundo um ecrã vivo, incandescente, a lembrar o calor, uma imagem estática mas granulada, com impurezas de ligeiras texturas, tremendo como um lábio, um arrepio a ganhar formas, breves, passageiras. Aparições adormecidas, dissipadas por um ruído de película que se espalha pela sala e atrai como insectos, naquela luz. Fechando os olhos, o escuro a galopar, a galopar, a preencher os espaços, por dentro da própria pele. Ao sair da sala da exposição o grão luminoso transportado, no sobretudo mesclado, apenas quebrado na nitidez da capa de um livro, transportado no bolso. Os passos do regresso, do caminho, estremecendo, abanando o corpo ainda intermitente entre o escuro e aquela luz desconcertante, o poder da imagem e da cor deixados à solta, livres, dentro de si. A arte é tudo o que se transporta por dentro, o que se acorda ou o que descansa e passa a dormir dentro de nós. Chegar a casa e não abrir nenhuma janela, não acender nenhuma luz, conservar o escuro e soltar aquela luz como um peixe, transportado cuidadosamente num saco de água, libertado num aquário, conhecendo aos poucos os cantos à casa. Tentar dormir com o som granulado a esmorecer, aos poucos, absorvido no escuro com o peixe de fogo a nadar, a nadar. Quando acordar já não estará por ali. All beauty must die, all beauty must die.

2 comentários:

Clara disse...

"A arte é tudo o que se transporta por dentro, o que se acorda ou o que descansa e passa a dormir dentro de nós."

Gostei.

Beijinhos

Dry-Martini disse...

Clara: Que bom .)

XinXin

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