2.3.12

Breve cantilena [a pau de giz]


Junta o sorriso à leveza desse gesto despido
Suspenso, adormecido 
na cantilena do amadurecer dos frutos
Junta-os assim, nesse teu jeito distraído
Sem te aperceberes 
Já viste como iluminam?
Junta-os, como um acidente antigo  
feito a traço de giz
Firme, algures na memória 
mas desprendendo-te ao vento
Todos os dias
Todos os anos
Todos os invernos
Calor, tocando o meu rosto frio 




24.2.12

Obscuro domínio


Amar-te assim desvelado 
entre barro fresco e ardor. 
Sorver o rumor das luzes 
entre os teus lábios fendidos. 

Deslizar pela vertente 
da garganta, ser música 
onde o silêncio aflui 
e se concentra.

Irreprimível queimadura 
ou vertigem desdobrada 
beijo a beijo, 
brancura dilacerada 

Penetrar na doçura da areia 
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul, 

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,

onde o furor habita 
crispado de agulhas, 
onde faça sangrar 
as tuas águas nuas.

Eugénio de Andrade

22.2.12

Food for kids

Entrada

Prato

Sobremesa

Isto de cozinhar para crianças tem o que se lhe diga...

21.2.12

Tua

A minha mão é tua
Faz dela o que quiseres
Talvez o calor da areia ou um arrepio
à deriva na pele despida
Mordida, aberta
Como o poema improvável
que desperta lábios de água-lua

20.2.12

Precisão

Começar é preciso
Acabar é preciso
Derivar Levitar Cair Levantar
Desafiar a dúvida é preciso

16.2.12

Ten new stories [#4 Nuvem]


Video Games, Lana del Rey

Mãe, hoje acordei com uma nuvem amarrotada ao peito. Enrolada à garganta, aqui.
Teima em não se soltar - nem chuva nem algodão - apenas nuvem. Nuvem só. Presa a algures de mim. Deambulando nos meus movimentos, entranhada. E eu com o sopro da tua tristeza doce, colada ao rosto, mãe. E eu com esta nuvem, mãe. Com a nuvem que teima em não partir.


15.2.12

Zumbido

A cegueira e a obstinação dos homens lembra-me às vezes a cegueira e a obstinação das varejeiras enfrenizadas contra as vidraças. Bastava um momento de serenidade, dez-réis de bom senso, e em qualquer fresta estava a liberdade. Mas o demónio da mosca, quanto mais a impossibilidade se lhe põe diante, mais teima. O resultado é cair morta no peitoril. Não se pode fazer ideia da maravilha de criança que era a filha de um poeta de meia tigela que hoje me lia versos impossíveis, a empurrá-la enfastiado com a mão esquerda, quando ela graciosamente o interrompia. A canção enluarada, a quadra perfeita, o soneto verdadeiro que justificavam aquele homem estavam ali, a brilhar nos olhos da pequenita; e o desgraçado às turras à janela, a zumbir e a magoar-se, sem ver que tinha diante de si o verdadeiro caminho da salvação!

Miguel Torga

14.2.12

Ten new stories [#3 Manjericão]


Madame Butterfly, Puccini

Os alimentos a entregarem-se aos poucos, a libertarem aromas pela casa. A ganhar novas cores desprendendo a alma em lume brando, numa dança lenta, embalada ao sabor da mão. Girando, num tempo antigo, alheio às rodas que o mundo dá. Perdendo a inquietação que também lhes vive no sabor quieto. Envolvendo-se no arrastar da voz - Puccini em cálice cor de sangue - a acompanhar a espera. Ali, domados. Rendidos ao prazer prolongado do gosto de receber. Um ritual antigo, onde os sentidos contemplam uma conversa sem palavras. O carinho dos gestos lentos, agarrados aos saberes de outrora, outros inatos ou de improviso súbito. De onde virão? Ali, rondando, e com eles tantas lembranças experimentadas no calor de uma colher de pau, amparada pela mão estendida e um corpo curvo que se levanta para receber a luz que aquece, soprada da janela entreaberta.

5.2.12

Sopro



A voz esguia do silêncio,
deslizando, sedosa
como que a alisar lençois

Dissipando o peso
oculto num leve
semear de girasóis

Brotando sem dono,
sem caminho
Calando o relógio
a pentear a chuva nos beirais

Resgatando a atenção do corpo
para um miar denso e aluado
Um suspiro que se prolonga
e chama pelo nome puxando pela mão

Quando os pássaros poisam
e entregam o canto ao assobio do vento
é o pensamento que se perde
e voa mais alto

29.1.12

Carpe Diem

"O mundo é conduzido por loucos e ambiciosos, que só têm em mira o êxito e o lucro, estão-se nas tintas para as preocupações dos poetas, que são como toda a gente sabe, seres da utopia sem a qual não há progresso"

Eugénio de Andrade

22.1.12

Ten new stories [#2 Hometown glory]


Hometown glory, Adele

Sente as palavras a embater na pele. A aconchegarem-se cómodas em calor de gato. Dando voltas sobre si próprias, até se instarem aos pés. Sente e afaga, esse cheiro familiar a embalos de searas e a castanhas de inverno, enroladas em papel de jornal. Que te desenrolam sussurros e te sacodem o pó a mil imagens esquecidas, presas, ao virar da esquina. Sente a música como lâminas, propagando ondas de arrepios. Cavalos alados em ventos do Suez, voltando de quando em vez. Partindo, com um beijo na testa.

4.1.12

Ten new stories [#1 Angelene]


Angelene, PJ Harvey


Os dias permanecem iguais e no entanto deixa-se tanto com eles. Tanto de nós, deixado para trás. Tanto. Todos os dias. O corpo a gastar-se, a diluir-se na água da chuva, na tinta da caneta. Tanto de nós a pentear o vento no respirar. Tanto, a soltar-se nos gestos mudos, repetidos vezes sem conta. Tanto de nós, afogado em mais uma braçada que teima em iludir o cansaço. Iguais, tão iguais. "Two thousand miles away... Two thousand miles away... Rose is my color, and white, pretty mouth and green my eyes... My first name's Angelene". Os dias permanecem iguais, a cor é obra dos olhos e do acaso.

30.12.11

Echos


"Existem diferentes tipos de filmes. Alguns você vê para saber como termina. Mas eu vou contra isso"

Há a boa e a má Hollywood e depois há isto [para ouvir bem alto e deixar entranhar os ecos fotográficos por baixo da pele]

Melancholia, by Lars von Trier

27.12.11

Nuvem [tocada por um vento de lábios azuis]

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".

E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.

Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

Assíduos do shaker

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