8.28.2009

Virar de página

Não me despeço. Não gosto de despedidas. Até porque já o fiz uma vez e voltei. Serviu, talvez, para perceber que “estes espaços” são difíceis de encerrar. Prendem-nos, por serem parte de nós. Por os sentirmos. Por nos expormos, às vezes demais. Por serem quase terapêuticos, estou em crer.

Não me despeço mas estou a precisar de uma paragem. De viajar por outras paragens, talvez. Viajar sem esta bagagem de mim. Começar novos projectos, novos caminhos, dar arranque a novas ideias e descobertas. Alhear-me de passado e de futuro. Mergulhar simplesmente no presente. Viajar pela viajem, não pelo destino. Viajar não por querer tocar mas, para ser tocado pela surpresa das coisas. Pelo acaso. Pelas pessoas. Pelas memórias e pelas sensações.

Não me despeço mas queria dar uma palavra a todos os que me visitaram. Aos que me afeiçoei. Aos que conversei com gosto. Aos que conheci e me despertaram a curiosidade e a admiração. Aos que fiz amigos. Aos que me fizeram sorrir ou emocionar. Aos que aprendi e me ensinaram. Aos que partilhámos a escrita a quatro mãos. Aos que trocámos músicas que eram já nossas antes de as trocarmos. Aos estranhamente cúmplices [desde o primeiro instante, desde a primeira palavra]. A todos os que se me cruzaram.

Não me despeço. Ficaram algumas “sagas” [como gosto de lhes chamar] incompletas . Os “tainted love” menos conhecidos [acabados à pressa], os “animal’s farm” [mesmo com encomendas na calha], os "improvisos gourmet" [apenas praticamente iniciados], os meus "objectos", eternos "poetas", "músicas" e menos abonadas divagações ou piadas parvas.

Não me despeço. Um dia estou em crer que apareço. De surpresa, como gosto. Com um sorriso e muitas saudades. Quem sabe até, noutros locais, em algum dos vossos espaços, quem sabe? Estou certo que um dia apareço [talvez não tão regular, já me está a custar, estão a ver!], nem que seja para um breve “XinXin” e dois dedos de conversa.

A todos um grande bem haja [podem enviar emails], e como disse Sir Cohen no final do último [e grandioso] concerto em Lisboa "Be kind..."


8.27.2009

Gostos Martinescos

Gosto de calças de ganga, de camisas brancas, gosto de botões de punho e de relógios [mas não do tempo], gosto de canetas e de tinta preta, gosto de escolher papel [e de sentir a sua textura], gosto de escrever em moleskines, gosto de música e de livros [o que eu gosto de música e de livros], gosto de cinema e de fotografia a preto e branco [também a sépia ou envelhecida], gosto de oferecer e de escolher minuciosamente o que quero oferecer a quem gosto, gosto de vinho [mais tinto] e da cultura do chá, gosto de café e de gelados [o que eu gosto de café e gelados], gosto de fruta [morangos, cerejas, frutos silvestres, figos], gosto de cozinhar, gosto de fazer jogging e de ténis, gosto de viajar sem destino marcado, gosto de me perder, gosto de tentações, gosto de silêncios sonoros, gosto de quadros e de revistas, gosto de arquitectura e design, gosto de lofts e de casas amplas, gosto de alguns [poucos] objectos de culto, gosto de surpreender e de ser surpreendido, gosto de ser tocado pelas coisas, gosto de piano e de violoncelo, gosto do brilho dos poemas, gosto de lua e de mar, gosto de ti [tanto], gosto de ver as estrelas e as nuvens, gosto de voltar a certos lugares sempre que posso, gosto de andar descalço na relva molhada, gosto de tempestades, gosto de pormenores que fazem toda a diferença [alguns que já não se usam], gosto de ouvir [e de saber primeiro para poder opinar], gosto de tigres, gosto da minha memória, gosto de certos olhares, gosto de mãos e de covinhas [sobretudo a do ladrão], gosto de sorrisos, gosto de batas brancas de botões e fatos escuros [no feminino], gosto de mistério, gosto de lareira e manta escocesa num dia de chuva e frio, gosto de passear numa praia deserta, gosto de pequenos almoços demorados, gosto de arte nova, gosto de coincidências e dejasvus, gosto de sonhar [mas lembro-me infelizmente pouco deles], gosto de descrição e educação, gosto de aprender, gosto de balões de ar quente e de carros antigos, gosto de anémonas, magnólias e buganvílias, gosto de cactos, gosto de desertos, gosto da sonoridade e fragilidade de certas palavras, gosto dos sons ausentes da noite, gosto de misturar peças clássicas com contemporâneas, gosto de abraços, arrepios e de paixão, gosto de gatos, gosto de pontes e de faróis, gosto de momentos que se eternizam, gosto de impossíveis, gosto do cheiro da terra molhada, gosto de spas e de massagens, gosto de azul, gosto de cumplicidades, gosto de especiarias e de ervas aromáticas, gosto de champagne, gosto de anjos e jardins, gosto de estátuas, gosto de lendas e sussurros, gosto do toque da seda, gosto de janelas e da imaginação, gosto de búzios e de quimonos, gosto de viver, de descobrir, de gostar [assim...]


Fica o desafio, para quem gostar de o apanhar

8.26.2009

Limonadas e outros refrescos veraneantes

Para responder a uma ilustre blogger [até porque consta estar de birra, e isso está mal], que questionava qual a melhor limonada do mundo [e apesar de gostar muito], respondo-lhe com o melhor chá gelado do mundo [pelo menos nacional]: Pizzeria Lucca na Avenida de Roma, em Lisboa


* as pizzas e massas também são divinais

Vivemos algures, tantas vezes


O tempo é um assassino. A memória uma prisão. Vivemos algures entre os dois: balançando, oscilando, numa espécie de maré, cobertos por um manto sempre escasso, que se tapa a cabeça, destapa os pés.

Vivemos algures. Entre espadas e paredes. Lâminas afiadas ou superfícies de seda. Entre torpores e sorrisos. Mágoas e vontades abandonadas.

Vivemos tantas vezes. Morrendo e renascendo, numa vida só. Entregando-nos a um tempo sempre em movimento. Sem compaixão. Implacável. O tempo mata e a memória prende. O tempo apaga e a memória recupera.

Vivemos algures, tantas vezes. Mas vivamos. Sempre. Intensamente.

Tainted Love #9




Gustav Klimt, Austria (1862-1918)

Há algo teu na pena de pavão, no ampliar das células. Fragmentos de ti, pedaços, nas escamas, no brilho da madre-pérola. Habitas algures, no fundo do mar, entre limos e corais, mas tens um calor de vulcão. O calor do sol. O calor do sangue. Todas as cores, eram, antes de ti, mais solitárias. Mais despidas, aquando ausentes da tua manta de retalhos, feita de pó de estrelas moídas e magnetismos lunares. Capturas-te o pormenor e inventas-te-lhe sentidos, ampliando ecos que viajam num canto de sereia, embriagando os sentidos, estáticos, petrificados num mergulho implacável, de onde não apetece sair.


Foste amor à primeira vista e paixão interminável. É morar dentro de ti numa constante viagem. Numa maré, nunca igual. Num vento aspirado, que levita para longe.



Acabo, como prometido, com um sobejamente conhecido. O meu favorito, mesmo dos mais conhecidos que não coloquei aqui.


The End

8.25.2009

Apeteceu-lhe chorar

Quando ficava triste gostava de se isolar num local movimentado. Sentava-se, invisível, a ver pessoas passar. E ali ficava, simplesmente, observando-lhes os rostos e movimentos, imaginando-lhes histórias, sonhos, felicidades e desilusões.

Havia alturas, em que o mundo, a essa distância camuflada, lhe parecia um mero jogo de criança mimada, cujos dados gastavam uma poeira de formigas incansáveis ou de cigarras deleitosas, resistindo ao derrube, oscilando, oscilando: - “toma lá uma doença”, “apaixona-te lá, um bocadinho”, “agora sofre, de morte”, “entretém-te com esta novela que te dou”, “sorri, porque ficas bem”, “não gosto de ti”, “irritaste-me, agora”.

Quando ficava triste, olhava muitas vezes o céu: o silêncio no topo dos edifícios, a liberdade dos pássaros. Por vezes via uma formiga que queria ser pássaro e saltava, estatelando-se no chão, impiedoso. Outras vezes, via cigarras que se julgavam donas dos prédios, do mundo, não se apercebendo do poder dos dados birrentos, que lhes traçavam o destino num movimento.

Quando ficava triste, havia alturas, em que o que mais lhe custava não era ver o que via. Era constatar que não se via a si. Ali, naquela lágrima invisível.

8.24.2009

Prémio


Atribuído pela Miss Patrícia. O meu sincero obrigado!

Ámoon, a pantera invisível

Decantavas o cair da noite nos teus movimentos sedosos de silêncio aprisionado. Não te davas a conhecer mas os meus olhos habituaram-se a encontrar os teus. Despidos, como não os mostravas a ninguém. Luas camufladas, habituadas a reflectir, para longe, o calor do sangue que tinhas para dar. Resguardados na tua maldade felina que ocultava uma dócil melancolia frágil. Subtil. Com brilho de poema e rasto de violoncelo, que me sobressaíam, do escuro denso com que te vestias do mundo. Tinhas a estética perfeição da arte nova e aquele respirar fundo das noites frias que fazia apertar o peito. Fotografei-te uma única vez, Ámoon, [ainda que a preto e branco, pois as cores apenas as sentia]. numa noite, talvez de defesas esquecidas, nessa tarefa impossível de captar a tua invisibilidade esguia de beleza cativante. Fizemo-nos confidentes, sem o sabermos, sem nada precisarmos de dizer. Sentíamo-nos próximos e isso bastava, vagueando por gestos e olhares. Á distância. Fotografei-te uma única vez, Ámoon, mas acho que sabes que te guardei para sempre.

Come to me



PJ Harvey, C'mon Billy

[ C'mon Billy
Come to me
You know I'm waitting
I love you endelessly ]

8.23.2009

Saudade(s)

Entra com cuidado. Devagar. Não acendas a luz nem dissipes o silêncio que guardei para ti, pendurado, no meu tecto, para que se solte, lentamente, numa neve frágil. Cálida mas quente, tão quente.

Entra, de olhos abertos ou fechados. Tanto me faz, desde que não digas uma única palavra. Apenas quero os teus gestos. A tua voz conheço-a de cor, e mora algures por aqui. Entra apenas como sempre o fizeste. Com os olhos, com as mãos, com o cheiro e os lábios. Com os sentidos e a alma despida. Com o mar e o céu.

Entra e apaga esta espera, esta doença. Entra neste casulo que quer sentir borboletas. Entra. Em mim, devagar. Entra com cuidado. Com o cuidado de ficares por muito tempo.

8.22.2009

Magnum Photos

"To take a photograph is to align the head, the eye and the heart. It's a way of life."


Henri Cartier-Bresson


Obrigado maninha! Simplesmente delicioso. Daqui

8.19.2009

Quem escreve

Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore. Quem escreve
quer ser terra sobre terra, solidão
adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.


António Ramos Rosa

Ironia suspensa


Os novos 7 pecados mortais: Ironia


O que distingue uma pedra de uma folha pode ser a mera intensidade do seu arremesso


A seriedade suspensa. Arremessada. O questionar subtil mas certeiro. Um sorriso encoberto ou um esbofetear de luva branca. O eco que fica, para lá da frase, corroendo o silêncio, que ficou. És assim: um prazer refinado. A arte da ironia.


Os novos pecados mortais: ironia, também em Andromeda-News

The End

8.17.2009

Arquitectura #7




A magia dum pátio, lindo de morrer, digno das mil e uma noites, contracenando com a serenidade pálida da simetria, branco pérola, arabesca.

[ Casa do estilsta Ellie Saab, Líbano ]

8.16.2009

Regresso

Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo,
Transeunte inútil de ti e de mim
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações…


Álvaro de Campos

E assim, acabam umas férias fantásticas

8.15.2009

Tainted Love #8




Andy Warhol, EUA (1928 - 1987)


Multiplicas o banal num resultado. Perdurando a simplicidade num sentido estético que não existia antes de ti. Todos acham que te podiam imitar facilmente, mas é essa a verdadeira dificuldade - a arte de ser o primeiro. E, para ti, foi tão fácil. Tão natural. O poder do objecto reside, primeiramente, na sua escolha e, depois, no seu silêncio que fala, dissipando-se do próprio para dentro de quem o observa. O poder das tuas cores choc têm o impacto dum primeiro encontro perfeito - jamais se podem esquecer. A arte é o que se sente para lá do obvio e que o mundo, tantas vezes, nos oculta sem esconder.


Lembras-me o brilho das ideias e a irreverência dos impossíveis. É por isso, e por muito mais, que gosto de ti.

PS: Este é sobejamente conhecido, mas foi um pedido, irrecusável .)

8.14.2009

The rhythm of my soul



U2, Moment of surrender


[ To my heart
To the rhythm of my soul
To the rhythm of my unconsciousness
To the rhythm that yearns
To be released from control ]

Ensaio sobre a cegueira*

Onde nasce o amor? Em que momento desperta? Ou incuba, no sangue, procurando o momento preciso para desferir o seu disparo certeiro. Propagando-se, até ao limite de dizimar, num incêndio, tudo em redor. Por onde cresce e floresce? Apertando como trepadeira ou abraço quente. Até se tornar mortífero e indomável. Implacável. Até não se conseguir suster mais num corpo só. Onde se guarda ou se esquece um amor assim?


* da não autoria de Saras nem Magos

8.13.2009

Viver

“A vida são dois dias e o carnaval são três”


A vida pode [de facto] ser vivida, em apenas dois dias. E o carnaval... o carnaval [como disseste, e bem] não interessa nada para o caso.

8.11.2009

Entre nós

Entre nós a inutilidade do tempo
Esvaziado, profanado de sentido

Entre nós o mel das palavras
silenciadas nos olhos presos

Entre nós o brilho dos poemas
Num beijo, no calor das mãos

Entre nós o apagar da noite
Rendida ao aluar dos corpos

Entre nós uma paz aquática
Uma núvem, o azul

Entre nós o reencontro
Nunca uma partida

8.09.2009

Sonata para um homem bom



Sonate Vom Guten Menschen Klavierwerke Band VI, Nº 6-10

É possível o amor no silêncio. Na distância
É possível que ele nasça no mais frio, oco e impenetrável dos seres
É possível crescer nas condições mais extremas
É possível que abrace dois homens diferentes. Pela sensibilidade. Na admiração.
E é possível guardá-lo. Uma vida, inteira.
É possível que ele transforme e faça um homem, melhor


Inspired in the film "The Lives of Others", by Florian Von Donnersmark

8.08.2009

Saliva

Situando-te no meio
desta frase
que equilibra morna
de saliva

distingo a cor do verão
entre este inverno

que é o teu sabor
na minha língua


Maria Teresa Horta

8.07.2009

O escritor a sério

Aqui me encontro, a meio da noite, dormida e revirada. Sobressaltado fulminantemente por uma frase [ou uma imagem, pois há muitas frases que se me misturam com imagens, ou vice-versa, adiante…]. Entre o sono e a atenção, suspensa, do pensamento.

Se dum escritor a sério se tratasse, levantar-me-ia, de imediato, e dirigir-me-ia para a secretária, ou acenderia a luz, pelo menos, puxando o caderno de notas, propositadamente depositado à distância de um braço, para alinhavar ali, naquele preciso momento, a estranheza de tal aparição.

Mas, à inexistência desses dotes ou pretensões, aqui me encontro, tentando convencer apenas a memória a não me apagar, durante o sono, essa frase pintada [ou tela rascunhada?], para poder pegar nela, com a devida atenção, talvez amanhã [já que, também, acho mal não pegar nessas pseudo-ninfetas, que teriam por certo um nome muito mais pomposo e poético se se tratasse, lá está, de um escritor a sério].

Isto, entretanto, se adormecer, já que a dita [seja lá ela o que for ou se chamar] já ganhou corpo, galopando veloz na minha cabeça, cujo corpo clama por conseguir dormir, ao contrário se de um escritor a sério se tratasse, que daria, por certo, pulos de felicidade por tanta inspiração, mesmo que a altas horas da madrugada.

Acontecem-me muito, estas coisas, e quando a memória acede ao meu pedido [poucas vezes, refiro], visitam-me muito, durante o dia seguinte, em flashs ou ecos inesperados como que me lembrando duma tarefa pré-destinada, como que me levando mais peças dum puzzle enigmático, ainda por descobrir.

Não sei se isso acontece aos escritores a sério, mas também suponho que eles não meditem se valerá a pena levantar para ir beber um copo de leite quente para ver se o sono regressa. É que estou certo, que os escritores a sério, têm muito mais em que pensar.

8.06.2009

Sinto muito

Apresentou-se detalhadamente, demasiadamente [no fundo é tão curto mas tão difícil apresentarmo-nos verdadeiramente] mas houve uma frase que ecoo sobre todas as outras. Uma frase que me levantou a orelha daquela cadeira desconfortável, como um cão meio adormecido entre dois mundos, fazendo-me encurtar a distância com aquele homem, que nunca vira mais gordo, e me falava de algo profundamente íntimo.

De tudo o resto pouco [ou nada] retive. Mas aquela frase estremeceu, fazendo parar o corpo à espera do trovão que se lhe seguiria, àquela luz cortante inicial. Àquele aviso: “o meu irmão faleceu num desastre de aviação” e mais tarde, no desfiar da conversa [já canídeo mais desperto], novamente, mas mais camuflado [a precisar de olfacto apurado], numa saudade infinita de infância, numa corrida inocente de jardim que ficou talvez por dar [espelhada num olhar], repleta de sorrisos interrompidos bruscamente por outra frase que logo lhe seguiu.

A dor de perder um irmão ou um filho é uma coisa que ninguém poderá alguma vez estar preparado, ou poderá explicar por palavras [estou certo disso], apenas talvez, se consiga sentir, muito diluída, muito funda, por uma ligeira expressão ou um olhar mais preso, mais calado.

Aquela frase ficou-me vários dias a trovejar, lembrando-me a infância, somando-se a outras, curiosamente, nos dias seguintes, como que premeditadamente arranjadas: “o teu irmão não é o mesmo que saiu de casa”; “quase não fala, parece revoltado”; “não é o mesmo” [continuava a trovejar].

Que nos afastou assim tanto? Em que momento ocorreu? Que muro se nos levantou? Porque me cansei de te procurar sem respostas? De te esperar? Porque é que as forças me abandonaram numa mágoa cálida e silenciosa?

Lembrei-me de ti, hoje, sabes? [às vezes lembro-me muito de ti, mas sinceramente já não estou tão certo se te lembras de mim]. Quando te liguei fiquei uns segundos calado [um tempo milimétrico que me pareceu infinito], à espera do que viria colado na tua voz, às tuas pausas, mas logo após as primeiras frases lembrei-me que afinal sempre existira o tal acidente de viação, de que não me apercebera, que te levou, mesmo aqui tão próximo, que não me permite resgatar-te, trazer-te de volta. Um acidente que me magoa pela indiferença e indisponibilidade e me deixa, às vezes, o tal olhar distante, preso a memórias.

Sinto muito [é bem diferente de “lamento”, estas duas palavras, próximas mas tão diferentes, como nós actualmente, e de facto sinto, muito] Sinto muito, mas também porque nunca o conseguirei pôr por palavras.

Para o meu irmão, algures, muito longe

Assíduos do shaker

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