2.24.2012

Obscuro domínio


Amar-te assim desvelado 
entre barro fresco e ardor. 
Sorver o rumor das luzes 
entre os teus lábios fendidos. 

Deslizar pela vertente 
da garganta, ser música 
onde o silêncio aflui 
e se concentra.

Irreprimível queimadura 
ou vertigem desdobrada 
beijo a beijo, 
brancura dilacerada 

Penetrar na doçura da areia 
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul, 

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,

onde o furor habita 
crispado de agulhas, 
onde faça sangrar 
as tuas águas nuas.

Eugénio de Andrade

2.21.2012

Tua

A minha mão é tua
Faz dela o que quiseres
Talvez o calor da areia ou um arrepio
à deriva na pele despida
Mordida, aberta
Como o poema improvável
que desperta lábios de água-lua

2.20.2012

2.16.2012

Ten new stories [#4 Nuvem]


Video Games, Lana del Rey

Mãe, hoje acordei com uma nuvem amarrotada ao peito. Enrolada à garganta, aqui.
Teima em não se soltar - nem chuva nem algodão - apenas nuvem. Nuvem só. Presa a algures de mim. Deambulando nos meus movimentos, entranhada. E eu com o sopro da tua tristeza doce, colada ao rosto, mãe. E eu com esta nuvem, mãe. Com a nuvem que teima em não partir.


2.15.2012

Zumbido

A cegueira e a obstinação dos homens lembra-me às vezes a cegueira e a obstinação das varejeiras enfrenizadas contra as vidraças. Bastava um momento de serenidade, dez-réis de bom senso, e em qualquer fresta estava a liberdade. Mas o demónio da mosca, quanto mais a impossibilidade se lhe põe diante, mais teima. O resultado é cair morta no peitoril. Não se pode fazer ideia da maravilha de criança que era a filha de um poeta de meia tigela que hoje me lia versos impossíveis, a empurrá-la enfastiado com a mão esquerda, quando ela graciosamente o interrompia. A canção enluarada, a quadra perfeita, o soneto verdadeiro que justificavam aquele homem estavam ali, a brilhar nos olhos da pequenita; e o desgraçado às turras à janela, a zumbir e a magoar-se, sem ver que tinha diante de si o verdadeiro caminho da salvação!

Miguel Torga

2.14.2012

Ten new stories [#3 Manjericão]


Madame Butterfly, Puccini

Os alimentos a entregarem-se aos poucos, a libertarem aromas pela casa. A ganhar novas cores desprendendo a alma em lume brando, numa dança lenta, embalada ao sabor da mão. Girando, num tempo antigo, alheio às rodas que o mundo dá. Perdendo a inquietação que também lhes vive no sabor quieto. Envolvendo-se no arrastar da voz - Puccini em cálice cor de sangue - a acompanhar a espera. Ali, domados. Rendidos ao prazer prolongado do gosto de receber. Um ritual antigo, onde os sentidos contemplam uma conversa sem palavras. O carinho dos gestos lentos, agarrados aos saberes de outrora, outros inatos ou de improviso súbito. De onde virão? Ali, rondando, e com eles tantas lembranças experimentadas no calor de uma colher de pau, amparada pela mão estendida e um corpo curvo que se levanta para receber a luz que aquece, soprada da janela entreaberta.

2.05.2012

Sopro



A voz esguia do silêncio,
deslizando, sedosa
como que a alisar lençois

Dissipando o peso
oculto num leve
semear de girasóis

Brotando sem dono,
sem caminho
Calando o relógio
a pentear a chuva nos beirais

Resgatando a atenção do corpo
para um miar denso e aluado
Um suspiro que se prolonga
e chama pelo nome puxando pela mão

Quando os pássaros poisam
e entregam o canto ao assobio do vento
é o pensamento que se perde
e voa mais alto

Assíduos do shaker

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