2.14.2012

Ten new stories [#3 Manjericão]


Madame Butterfly, Puccini

Os alimentos a entregarem-se aos poucos, a libertarem aromas pela casa. A ganhar novas cores desprendendo a alma em lume brando, numa dança lenta, embalada ao sabor da mão. Girando, num tempo antigo, alheio às rodas que o mundo dá. Perdendo a inquietação que também lhes vive no sabor quieto. Envolvendo-se no arrastar da voz - Puccini em cálice cor de sangue - a acompanhar a espera. Ali, domados. Rendidos ao prazer prolongado do gosto de receber. Um ritual antigo, onde os sentidos contemplam uma conversa sem palavras. O carinho dos gestos lentos, agarrados aos saberes de outrora, outros inatos ou de improviso súbito. De onde virão? Ali, rondando, e com eles tantas lembranças experimentadas no calor de uma colher de pau, amparada pela mão estendida e um corpo curvo que se levanta para receber a luz que aquece, soprada da janela entreaberta.

1 comentário:

Bárbara disse...

Está giríssimo. :)

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