7.31.2011

Ébano e marfim

Percorro-te no escuro, afagando o teu cansaço adormecido. Por entre a brisa calma dos dedos esguios e um morno oscilar da respiração. Vagarosamente, sem pressa alguma. Numa maré de seda, sem tempo ou lugar. Apenas tu.

O teu corpo é um poema aluado, que as minhas mãos interpretam como notas soltas de piano antigo, ficando a ecoar neste silêncio despido, soltando folhas de outono e sorrisos. Trazendo este tom sépia de fotografia que se quer guardar para todo o sempre e a tua alma aos meus lábios. Num beijo, um beijo só. No teu beijo da próxima manhã.

7.15.2011

Andorinha

Conserva essa inocência do olhar mas entrega-te ao que fazes com essa fome voraz. Sem medo. Sem rede. Sem armadura. Sem pele. Apenas braços abertos como asas de andorinha e dedos gentis. Todas as setas que te cravejem no peito serão tão pouco fundas comparadas à inércia do adquirido ou do nunca tentado.

Sabes? É tão difícil manter esse olhar de criança. Ver o mundo assim, sem complicar. Sorrir-lhe. Piscar-lhe o olho. Deitar-lhe a língua de fora, sem racionalizar tudo, sem tudo ter de explicar. Sabes? o coração torna-se por vezes escasso para guardar o que estravasa o corpo e os olhos turvam vezes demais.

Escuta. Ouves a brisa a bater nos beirais? Respira-lhe essa maresia que aquece por dentro. De olhos fechados, assim. Oferece sempre o teu melhor, mas nunca o deixes de fazer por mais que te possas ferir. As andorinhas regressam sempre a casa, não é? Mesmo que seja num voo razante, rápido como uma imagem que aparece do nada, um rasgo dessa tua vida. Mantêm essa sinceridade genuína pois a vida é curta demais para se ser o que não se é. E as amizades nascem assim, dos silêncios sempre presentes e dos ecos que ficam do que não se quer ouvir.

Bate-te por ideias e valores, por mais simples ou impossíveis que te venham a parecer pois serão sempre uma dádiva: essa vontade, esse querer. Com sorte bater-te-ão muitos chamamentos à porta, como um sopro ao ouvido que arrepia.

Sê o que quiseres ser e nunca o que te digam. Aprende a pensar mas nunca ponhas o saber à frente do que sentes sem saber explicar. Aprecia o mundo e a beleza presente em todas as coisas, em todos os lugares. As texturas dos momentos irrepetíveis, tornados eternos.

Na dor recupera a força. Na alegria o humilde agradecimento. Apaixona-te as vezes que forem preciso mas nunca sem te apaixonares ou derramares uma lágrima. E não te arrependas. Reúne-te de algumas pessoas cujo olhar te dispa ou conforte, que mimes e leves contigo mesmo não estando. Estima as rugas, os erros e sobretudo a memória. Cuida-a como um livro vermelho e precioso para a folheares nas pausas dos teus voos. Quando e onde quiseres. Nas saudades que apertam, nos sorrisos que te iluminam o olhar. Nos passados e nos futuros logo ali à esquina desse ar de menina com asas.

E para rematar [que uma história nunca se acaba e as andorinhas são difíceis de apanhar mesmo na escrita], mesmo que em certas alturas não saibas para onde vais, não voes, caminha. Caminha pois já é tanto. Caminha pois hás-de sempre voar.

7.04.2011

Revisited


Um suceder de murros no estômago com algumas frases inesperadas de uma profundidade incrível. Vermo-nos despidos em flashs quotidianos certeiros. Memórias, futuros, certezas e incertezas. Pairando, à espera de nos acertar. Revermo-nos no que não vivemos. Pensar que podíamos muito bem ser nós. Apercebermo-nos do que realmente importa e do acessório que nos preenche os dias. A vida crua. Sem tirar nem pôr. A vida como ela é.


Six Feet Under [revisto do inicio ao fim]

7.03.2011

Assíduos do shaker

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