11.26.2009

Brilhos

1.
" [...] Meu Deus, a pouco e pouco vamo-nos tornando sótãos onde o passado amarelece, a pouco e pouco os sótãos invadem a casa que somos, principiamos a mover-nos entre sombras truncadas de gente, emoções, memórias. Lentamente tiram-nos tudo, o presente afunila-se, o futuro uma parede. E nós, apesar de adultos, tão crianças, assustados, perdidos, juntando pedaços dispersos para nos reconstruirmos de novo, continuarmos. Na direcção de quê? Para onde? Quem nos espera ainda? [...] "

2.
" [...] não escrevi uma linha, passei as poucas horas livres a olhar para o tecto e a pensar numa frase de Einstein: devemos fazer tudo o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente que isso. O raio da frase não me largou toda a semana, na certeza de que me havia de servir não entendia para quê, enquanto ela se transformava em mim, crescia, se ramificava, principiava a dar botões, se me dissolvia no sangue. Há-de chegar à mão, há-de sair, não sei de que maneira, numa página qualquer, ou então atravessar as páginas todas. Devemos fazer tudo o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente que isso: que grande cabrão que acertou em cheio. "


António Lobo Antunes


Sempre que leio as crónicas deste senhor, apetece-me transcrevê-las na íntegra, com cada palavra, vírgula, silêncios e respirações incluídos [sem tirar nem por]. Pela profundidade que se desenrola de cada frase simples mas perfeita, pelas imagens com embalo de mar [que deambulam: para os lados, para o passado, para o futuro, para dentro e fora de nós], pela beleza no seu estado mais puro. Tenho um poeta de eleição e tenho o António, na prosa. Corrijo [na prosa não], em tudo: nos "rabiscos, aguarelazitas, ou desenhos no papel", tanto faz. Tenho dito. Tenho-o dito. E não me canso de o dizer.

4 comentários:

Tulipa disse...

Bom dia!Também leio as crónicas do Lobo Antunes. Muito bom e sem comentários. kiss

Sandrine disse...

Não poderia concordar com mais contigo, não poderia senti-lo mais na pele!!!
Fica-se com uma sensação de 'overwhelming', de inundação, quase de naufrágio tal é a falta de palavras com que nos deixa... a falta mesmo de ar!
fazem-me sentir sempre pequena demais por estar perante um Senhor que é grande demais!!

Ana disse...

Como te compreendo. Assim q comecei a ler reconheci logo e deu-me para sorrir. O q o António escreve é de outra dimensão e a mim faz-me ir bem longe.
Gosto tanto. *

um perfeito estranho disse...

:)

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