3.23.2012

Phantom in your fingers


I'm the ghost in your house
Calling your name
My memory lingers
You'll never be the same
I'm the hole in your heart
I'm the stain in your bed
The phantom in your fingers
The voices in your head


Depeche Mode, Ghost

3.21.2012

Poesia


"A poesia é uma espécie de salvação. Nela afasto-me de tudo, para voltar a aproximar-me, de uma forma muito mais profunda".


Tonino Guerra 
(poeta italiano que se despediu hoje, dia mundial da Poesia, aos 92 anos de idade)

3.20.2012

Wings


Be as a bird perched on a frail branch
that she feels bending beneath her .
still she sings away all the same ,
knowing she has wings


Victor Hugo

3.16.2012

Estranho desencontro


Este estranho desencontro de vivermos sem sermos realmente nós. De nos apressarem os passos e nos deixarmos ir, sem questionar ou parar para pensar. Da entrega total à absurda aritmética das coisas, que tudo exige para continuar a somar. Do desfalecer dos corpos exaustos à inabalável importância de tudo. Tecidos gastos, desfiados da cor. Do livro entreaberto que se solta da mão ao fechar dos olhos. Do definhar do tempo, da reflexão, da disponibilidade para os outros. Este estranho desencontro de vivermos no mesmo mundo, distantes de quase tudo.



3.02.2012

Breve cantilena [a pau de giz]


Junta o sorriso à leveza desse gesto despido
Suspenso, adormecido 
na cantilena do amadurecer dos frutos
Junta-os assim, nesse teu jeito distraído
Sem te aperceberes 
Já viste como iluminam?
Junta-os, como um acidente antigo  
feito a traço de giz
Firme, algures na memória 
mas desprendendo-te ao vento
Todos os dias
Todos os anos
Todos os invernos
Calor, tocando o meu rosto frio 




2.24.2012

Obscuro domínio


Amar-te assim desvelado 
entre barro fresco e ardor. 
Sorver o rumor das luzes 
entre os teus lábios fendidos. 

Deslizar pela vertente 
da garganta, ser música 
onde o silêncio aflui 
e se concentra.

Irreprimível queimadura 
ou vertigem desdobrada 
beijo a beijo, 
brancura dilacerada 

Penetrar na doçura da areia 
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul, 

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,

onde o furor habita 
crispado de agulhas, 
onde faça sangrar 
as tuas águas nuas.

Eugénio de Andrade

2.22.2012

2.21.2012

Tua

A minha mão é tua
Faz dela o que quiseres
Talvez o calor da areia ou um arrepio
à deriva na pele despida
Mordida, aberta
Como o poema improvável
que desperta lábios de água-lua

2.20.2012

Precisão

Começar é preciso
Acabar é preciso
Derivar Levitar Cair Levantar
Desafiar a dúvida é preciso

2.16.2012

Ten new stories [#4 Nuvem]


Video Games, Lana del Rey

Mãe, hoje acordei com uma nuvem amarrotada ao peito. Enrolada à garganta, aqui.
Teima em não se soltar - nem chuva nem algodão - apenas nuvem. Nuvem só. Presa a algures de mim. Deambulando nos meus movimentos, entranhada. E eu com o sopro da tua tristeza doce, colada ao rosto, mãe. E eu com esta nuvem, mãe. Com a nuvem que teima em não partir.


2.15.2012

Zumbido

A cegueira e a obstinação dos homens lembra-me às vezes a cegueira e a obstinação das varejeiras enfrenizadas contra as vidraças. Bastava um momento de serenidade, dez-réis de bom senso, e em qualquer fresta estava a liberdade. Mas o demónio da mosca, quanto mais a impossibilidade se lhe põe diante, mais teima. O resultado é cair morta no peitoril. Não se pode fazer ideia da maravilha de criança que era a filha de um poeta de meia tigela que hoje me lia versos impossíveis, a empurrá-la enfastiado com a mão esquerda, quando ela graciosamente o interrompia. A canção enluarada, a quadra perfeita, o soneto verdadeiro que justificavam aquele homem estavam ali, a brilhar nos olhos da pequenita; e o desgraçado às turras à janela, a zumbir e a magoar-se, sem ver que tinha diante de si o verdadeiro caminho da salvação!

Miguel Torga

2.14.2012

Ten new stories [#3 Manjericão]


Madame Butterfly, Puccini

Os alimentos a entregarem-se aos poucos, a libertarem aromas pela casa. A ganhar novas cores desprendendo a alma em lume brando, numa dança lenta, embalada ao sabor da mão. Girando, num tempo antigo, alheio às rodas que o mundo dá. Perdendo a inquietação que também lhes vive no sabor quieto. Envolvendo-se no arrastar da voz - Puccini em cálice cor de sangue - a acompanhar a espera. Ali, domados. Rendidos ao prazer prolongado do gosto de receber. Um ritual antigo, onde os sentidos contemplam uma conversa sem palavras. O carinho dos gestos lentos, agarrados aos saberes de outrora, outros inatos ou de improviso súbito. De onde virão? Ali, rondando, e com eles tantas lembranças experimentadas no calor de uma colher de pau, amparada pela mão estendida e um corpo curvo que se levanta para receber a luz que aquece, soprada da janela entreaberta.

2.05.2012

Sopro



A voz esguia do silêncio,
deslizando, sedosa
como que a alisar lençois

Dissipando o peso
oculto num leve
semear de girasóis

Brotando sem dono,
sem caminho
Calando o relógio
a pentear a chuva nos beirais

Resgatando a atenção do corpo
para um miar denso e aluado
Um suspiro que se prolonga
e chama pelo nome puxando pela mão

Quando os pássaros poisam
e entregam o canto ao assobio do vento
é o pensamento que se perde
e voa mais alto

Assíduos do shaker

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