5.05.2009

Um incêndio que nos afoga

Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga. 

José Luis Peixoto

2 comentários:

M disse...

Fingir que está tudo bem... Quando fingimos sozinhos, tão bem que ao espelho nos acreditamos. Fingir que está tudo bem, sorrir, dizer sim, dizer não há problema, contar os minutos, consumir o que nos resta de nós, engolir em seco uma, duas, três vezes...
(Este teu post cai que nem uma luva no meu dia de hoje... Daí a verborreia...)

ângela disse...

Subscrevo o que foi dito acima por M.
Além disso AMO José Luís Peixoto, e tal como os seus escrito, estas passagens que transportas para esta CASA, são o meu aconchego, o meu tónico para aguentar os dias maus e o complemento da minha alegria dos dias bons.
Obrigada Dry cá bem do fundo.
Um Xinxin para ti com um bom líquido do Dão para quem gosta, claro.
Beijo

Assíduos do shaker

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