10.17.2008

Electrical storm

Massive Attack com phones e três livros do Pedro Paixão [um é manifestamente pouco e sempre preferi a solidária certeza dos números ímpares aos pares]. Café forte na manhã fria [espreguiçando-se, ainda, aos primeiros raios de sol à espreita]. Um cigarro há muito adiado [apenas um, como se fosse o último ou o primeiro] aceso por um isqueiro emprestado por mãos femininas [de click metálico e cheiro a gasolina]. O ligeiro ondular da água do rio contrastando com o cardume apressado para os trabalhos. Fechar os olhos, por breves segundos, sentindo a limpidez do tempo descalço. A passar, sempre indiferente a tudo e todos. Imagem cuidada por fora [fato escuro italiano e uma gravata de seda lisa, sem motivos para distrações e uns óculos escuros não para resguardar do sol mas para proteger o olhar sensível ao mundo], um desarranjo interior imperceptível, sem aparente razão de ser, e a vontade de ali ficar [por tempo indeterminado em busca de algo que se pressente vir]. Telemóvel em silêncio, piscando em tons azulados da cor do céu, fazendo reparar nas nuvens [É tão bom olhar as nuvens, curiosamente melhor quando tanto temos para fazer]. Mil pensamentos advindos de lugares ocultos [no mágico toque das imagens que se colam a nós como o calor de um chá muito quente que passa na garganta para se alojar, confortavelmente, até ao final do dia]. Não fui trabalhar toda a manhã. Porque há dias assim. Estranhos, talvez. Mas profundos. Bebidos de um trago. Corridos, sem parágrafos ou espaços vazios. Como este texto. Dias necessários. Necessários, para seguir em frente em todos os outros dias. Certos dias inexplicavelmente difíceis.

4 comentários:

Andrómeda disse...

Um conselho: há pormenores sem a mínima importância, já lá dizia a Rita Guerra... descubra ao que me refiro e talvez entenda porque tantos o acham interessante pelas razões que acha erradas...

Mlee disse...

Inexplicavelmente importantes.
"É tão bom olhar as nuvens, curiosamente melhor quando tanto temos para fazer."
Não há nada como parar e roubar o tempo todo só para nós, sobretudo quando o trabalho nos chama em catadupas. São as melhores paragens, aquelas que se fazem por impulso e contra tudo e todos. Invejo-te a manhã.

Um beijinho

Doce Veneno disse...

Gostei.

Eu gosto de dias assim, dão-me mais vontade de viver o dia seguinte.

Beijo

Maldito... disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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