1.29.2009

As últimas vontades

Deixa ficar a flor,
a morte na gaveta,
o tempo no degrau.

Conheces o degrau:
o sétimo degrau
depois do patamar;
o que range ao passares;
o que foi esconderijo
do maço de cigarros
fumado às escondidas...

Deixa ficar a flor.

E nem murmures. Deixa
o tempo no degrau
a morte na gaveta.

Conheces a gaveta:
a primeira da esquerda,
a que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
pela janela fora?
Na batalha do ódio,
destruam-se, fechados,
sem tréguas, os retratos!

Deixa ficar a flor.

Não digas nada. Ouve.
Não ouves o degrau?

Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...

Não digas nada. Ouve:
é com certeza alguém,
alguém que traz a chave.

Deixa ficar a flor.

David Mourão-Ferreira

4 comentários:

pepita chocolate disse...

Bem Bonito!
Desconhecia!
Bjs

Daniel Silva (Sair das Palavras) disse...

Também não conhecia este poema dele. Bela partilha. Obg Dry martini

© disse...

muito bonito!
:)

Afrika disse...

Epa, não deixo, pronto!

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