11.30.2008

Querer

As pessoas querem ir para casa cedo, ver televisão. Ou sair até de madrugada na procissão dos locais-in do costume.
As pessoas querem chegar sempre mais depressa. E correm. E ficam presas nas filas. E usam relógio. E "já te ligo que estou atrasada".
As pessoas querem telemóveis último modelo, carros desportivos, roupa de marca.
As pessoas querem grandes repastos. Barbecues no jardim. Se possível sem sujar as mãos. Sem muito trabalho. E depois fazer dieta. Ir ao ginásio.
As pessoas querem ganhar mais dinheiro. Subir na carreira. Mesmo que fiquem sem tempo para o gastar.
As pessoas querem relações duradouras. Imbeliscáveis e perfeitas. Para toda a vida.
As pessoas querem apenas a felicidade extrema. Num comprimido milagroso. Nada mais.
As pessoas querem que tudo lhes seja servido numa bandeja de prata.
As pessoas querem que lhes digam o que fazer. Respostas fáceis. Receitas para tudo.
As pessoas querem que as ouçam sempre mas escutam tão pouco.
As pessoas querem ser urbanas e ultramodernas. Rejeitam o campo, acham saloio a terra e as origens.
As pessoas dizem-se liberais mas seguem caminhos conservadores: estudo, emprego, casamento, filhos. Por esta ordem precisa. Exacta.
As pessoas querem acreditar apenas no que faz sentido. E no que lhes chega aos ouvidos. No que é notícia e como tal paradigma. Sem investigar fontes ou procurar o contraditório. Opiniões já mastigadas. Prontas a usar.
As pessoas querem férias na praia. Destinos de ócio sem história ou descoberta.
As pessoas querem ganhar o Euromilhões. Fazer compras no shopping e futebol ao Domingo.
As pessoas querem ser como as estrelas de cinema ou top models mas são cada vez mais iguais.
As pessoas vibram com o Cristiano Ronaldo, suspiram pelo Brad Pitt e comovem-se com a Lady Di e passa-lhes, muitas vezes, ao lado o Dolstoievsky, o Fellini, a Maria Callas ou a Madame Curie.
As pessoas querem planos futuros traçados ao milímetro. Sem paragens. Sem desvios. Linhas rectas profundamente cinzentas. Investindo tempo e energia em futilidades que nada acrescentam. Tão menores ao pé do saber dum carvalho secular.
As pessoas querem, e deve ser bom querer assim. E atentem. Não sou melhor nem pior. Apenas estou em crer, repito, que deve ser bom esse querer. Sinceramente, sem ironias. Assim tão certo. Tão exacto. Apenas queria, um pedacinho, que fosse, desse querer. Desse inabalável querer que as pessoas tanto querem.

5 comentários:

GUERREIRO disse...

NAO TENHO PALAVRAS,PARABENS.
OU SEJA AS PESSOAS QUEREM TUDO MAS NA MAIORIA DAS VEZES NAO SE ESFORÇAM O MINIMO QUE SEJA PARA ALCANSAR O TAL OBJETIVO.
CONTINUA......

Pearl disse...

Creio sem querer que tu decerto tenhas os teus quereres, os teus momentos de crença em acreditar que o teu querer pode ser um tanto diferente dos queres urbanos e sem cor!

beijo grande

Sandrine disse...

Excelente texto! Excelente conclusão! Tão Isso Mesmo!!
Eu também queria um bocado desse querer...

najla disse...

A vida é de facto, curiosa, no minimo!
Vivo num meio onde esses quereres por vezes passam para níveis secundários. Até porque o próprio meio nos limita. Não venham com teorias ocas do querer muito, tudo se consegue. Não!
Por vezes, nestes meios ainda se olha para a tal árvore secular, para um pôr-do-sol "divino", fechamos os olhos para sentirmos o ar e ele se entranhar em nós, ouvimos a chuva....sim, ouvimo-la!
Enfim, acredito que haja muita gente que por alguns minutos esqueceriam todos esses quereres, para sentirem por outros breves minutos, outros quereres mais reais!
Beijos

Dry-Martini disse...

Este texto não é bom nem mau. Não é um exercício de palavras. Não é para felicitar ou dar os parabéns. Não é uma crítica. Nem nada espera. É simplesmente e tão só uma "inveja" desses quereres tão simples, tão alegres, tão suficientes. Uma "inveja" de quem se levanta com um tão nítido querer.

Assíduos do shaker

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