9.20.2008

Sorriso assassino

A praça estava cheia. Vestida numa dança de sentidos, cores vivas, sons e movimento. E ela gostava daquela sensação que não sabia explicar completamente. Uma espécie de encenação do destino dos homens nas mãos dos deuses. Sob o seu olhar atento. O confronto da vida e da morte desafiando-se na arena, assim como na vida. O cheiro a terra, o calor do sangue, o eco dos aplausos.

Também ela, se sentira observada na noite anterior. Num arrepio sensual inexplicável. Num perverso adiar do prazer duma forma distante, mas tão presente ao mesmo tempo. A segurança da atenção envolta dum certo mistério não revelado.

A fiesta fazia-a oscilar entre a vida e as suas viagens interiores duma forma quase subconsciente. Não se revia na palidez dos cinzas, nos meios termos ou nos “assim assim”. Gostava de uma vida condimentada e era frontal. Quase transparente. Sentia demasiadamente as coisas. Talvez fosse isso. E não gostava de as aprisionar. Preferia solta-las como um levantar de pássaro. Um ímpeto que cada vez mais tentava controlar, por alguns dissabores. Causados por alguma falta de preparação do mundo para a verdade.

Aquela dança sensual, e ao mesmo tempo arriscada, entre a capa vermelha, rodopiando, e o touro imponente, investindo incansável era como uma metáfora da sua luta interior. A mulher fatal, quase assassina, e menina que não queria crescer. O medo da solidão e a impossibilidade de tudo. O vermelho da paixão, o negro do desconhecido, num perverso jogo, que lhe cativava o olhar e acelerava a pulsação.

Preferia o risco do sofrimento a uma vivência vegetal. Sem sede ou sabor. E ali percorria esses pensamentos naquela dança. Sem saber como ou quando apaixonara-se pela paixão, mais que pelas pessoas. E ficava, por vezes profundamente despida. Frágil, como um cálice deixado na praia. Talvez pela estúpida contradição de se saber capaz de tudo por essa paixão apesar da consciência da sua morte inevitável. Pré-anunciada. Apenas sem data marcada.

A paixão fazia parte de si, corria-lhe nas veias como um veleiro silencioso. Numa sede de abismo ao ponto de ter dias em que se julgava enlouquecer. De lhe apetecer largar tudo. Fugir. Saltar para aquela arena e evaporar-se num sopro. Que mesmo comprimido entre a espada e o touro não libertaria um único palavrão. Apenas um sorriso.


Para uma menina com um brilho especial, algures entre o sorriso e a lâmina mais assassina. Apesar de não gostar de touradas :)

2 comentários:

Mlee disse...

Que texto delicioso e dedicado ainda por cima ... bravo!
Mil vezes o risco do sofrimnto a uma vivência vegetal!

Xinxin

Maria Manuela disse...

Isto mais parce uma sublime e fantástica declaração de amor...

:)

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