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4.25.2013

A escultura da pele


A mão percorre, de olhos fechados, a escultura de linhas aguçadas. São punhais que afaga, não arte. Desliza lentamente, apertando-a com a força suficiente. Até sangrar, sem que a dor lhe aumente ou transforme a alma. Apenas uma mão cerrada, sem pressa de partir, sem nome, sem lugar. O sangue a escorrer, espesso e delicado, tomando caminhos esquecidos daquela mão imóvel, tingindo o seu calor pela pele. Tudo é possível de sentir com os olhos fechados. Tudo é possível agarrar ao avesso da luz. Tudo. Abertos os olhos a mão volta à rotina. O corpo recupera algo de antigo, amputado por breves momentos. A mesma dor no entanto, incauta, algures pela copa das árvores a acenar ao vento.

2.23.2013

9.07.2012

Heartbeat


Há um tempo em que tudo se cala e se ouve o coração. Escuta-se, ali, a palpitar no lugar onde sempre esteve. Tão nosso, tão presente e no entanto tantas vezes amordaçado ao vazio do corpo, escondido, longe, dos olhos, longe do pousar da mão. Um tempo em que o seu ritmo abafa os relógios e o cantar dos pássaros nos beirais. Um tempo que nos resgata do mundo e faz mergulhar dentro de nós, no pulsar do sangue, na respiração. Um tempo que nos conta histórias e nos faz viajar. Um tempo que nos trás e nos rouba. Ali, no palpitar da vida que fomos. Na vida que nos resta.    

6.02.2012

Misturo-me [no teu calor]


Misturo-me no teu calor e na tua pele dissipo a lisura das mãos. Navegam por ti, soltas, brancas, antigas. Como que polidas pelo mar. A tua beleza fere como a manhã mais luminosa, ali adormecida, ondulando em mim. Flutua comigo, no sangue, na respiração. E por ali fico a noite toda, abraçado a ti, encaixado nesse silêncio cúmplice, náufrago desse teu calor. Nessa dança aluada, nessa cantiga, preso ao cheiro dos teus cabelos.
Misturo-me no teu calor, abrigado da chuva na curva das tuas pálpebras fechadas que me fazem ver a simplicidade na imensidão. 

5.20.2012

Your mouth


Your mouth will be always 
where my voice fall a sleep
to stretch the sin   
with a wisper

5.15.2012

Querer


Apaga a luz porque a luz gasta as pessoas.
Queima-lhes algo dócil e mais audível
Afasta-lhes uma espécie de mistério esquecido
Um mar ora calmo, ora a bater nos rochedos


Apaga a luz e deixa-a ficar assim, 
a esvoaçar do mundo
Tudo calado. Tudo mais redondo
Tudo falível aos juízos 
à geometria monótona das coisas. 


Ouves-lhes a voz como chuva?


Apaga a luz porque o tempo de nada vale
Porque aqui, agora 
os teus olhos são o que a minha mão quiser 

2.05.2012

Sopro



A voz esguia do silêncio,
deslizando, sedosa
como que a alisar lençois

Dissipando o peso
oculto num leve
semear de girasóis

Brotando sem dono,
sem caminho
Calando o relógio
a pentear a chuva nos beirais

Resgatando a atenção do corpo
para um miar denso e aluado
Um suspiro que se prolonga
e chama pelo nome puxando pela mão

Quando os pássaros poisam
e entregam o canto ao assobio do vento
é o pensamento que se perde
e voa mais alto

10.31.2011

Equilibrio

Deitado no chão o corpo é um arrepio
Arrasta-se como um pássaro ferido na asa
para que o ouvido não guarde a sua dor

8.06.2011

Algures [num só]


Há imagens que nos tocam sem sabermos porquê. Sem nunca as termos visto ou espelharem algo familiar. Tocam-nos simplesmente para nos prenderem e levarem no seu trote vagaroso. Sussurram-nos, desde a primeira vez, assim de repente, como um cair da noite, que se faz. Cobrem-nos os sentidos e entranham-se nos poros. Aparecem aqui e acolá como pingos de chuva na pele, fazem-nos luz. Há imagens que nos tocam guiando-nos, algures, num só.


5.16.2011

A vida

A vida é um suceder de acidentes, uns atrás dos outros. sem os controlares. e tu não percebes nada. tu nunca percebes nada. mas também ninguém disse que a vida é para ser percebida. é apenas para ser vivida, assim. sentida, mordida, respirada ou chorada até às entranhas, mesmo sem a perceber. uma vida apenas é manifestamente insuficiente para a poder perceber. e tu nunca percebes nada. tu nunca percebes nada. chegas, tantas vezes, a evitar um abismo sem sequer o vislumbrar ou a tocar no destino como se ele estivesse ali, escrito, a estender-te a mão. e tu dando-lhe a tua, sem perceber nada. tu sem nunca perceber nada de nada. e quando, avançando na idade, te achas quase quase capaz de a perceber um pouco melhor, estás talvez apenas conformado sem o admitir. até que, finalmente, um acidente te colha de frente. mesmo em cheio. toma! pum! e com ele, se a tiveres vivido bem, num rebobinar de longos segundos brancos, essa sensação estranha de ter valido a pena chumbar no exame sem nunca a ter copiado pelo colega do lado.

3.04.2011

Mel-and-Cia*

Uma coisa nunca é apenas o que é. Varia na forma e no lugar. Varia no tacto, no carinho e no que de nós lhe cunhamos. Varia na lentidão do tempo reservado e na palavra emprestada. Varia no olhar e nos olhos fechados. Varia no simples prazer da oferta, na reacção, no sorriso que ilumina as salas e no tocar dentro do escuro. Varia nos silêncios e na imaginação. Uma coisa nunca é apenas o que foi. Varia. Chega a ser o que ainda não foi. Chega a ser o que dela fica para sempre. Uma coisa nunca é apenas uma coisa só. Varia, nos teus lábios, nos teus gestos, na tua música por detrás de todas as coisas.


* Sementes e colheres variavelmente dispensáveis

1.28.2011

As imagens


As imagens passam umas atrás das outras, aleatórias, dispersas, sem qualquer pressa ou razão. Passam apenas, por um qualquer desígnio universal, empurradas como por uma cadência plástica de projector de slides que surpreende o escuro por já não se usar, arrumado numa caixa perdida na arrecadação.

As imagens passam. Passam, com o que nunca se apercebeu e com o que nunca se verá plenamente. Passam com o que de nós lhes entregámos e com o que nunca se viveu ou viverá e no entanto está lá estampado, impregnado.

Passam, numa leveza estranha, quase poética, que se faz pesada e afunda em música no corpo, dissipando um tempo que se sente a textura, que mesmo aprisionado se agita até se revelar noutras imagens que lhe seguem automáticas, imprevisíveis, nascidas dum lugar distante mas tão próximo ao mesmo tempo.

Com o tempo despedimo-nos das coisas reais e conhecidas para abrirmos as portadas da alma a andorinhas de cal, que nos pintam as pálpebras por dentro do escuro em imagens que passam, umas atrás das outras, sem qualquer pressa ou razão.

9.20.2010

Night beach


Tindersticks, All the love


Tocam-me as ondas e a brisa noturna.
A lua acendendo velas estreladas, dançando nua por entre sombras azuis.
Toca-me o peso da beleza e a brevidade dos gestos - os corpos deitados.
Toca-me o calor das tuas mãos como uma fogueira lenta numa noite que fizemos sem fim.

6.18.2010

Esquinas de mar

Escolhe-se uma varanda, acende-se um cigarro e levita-se para lá das nuvens, para lá da lua, mergulha-se para lá do tempo, para lá de nós. O mundo parece tão pequeno, insuficiente, as perspectivas transforma-se e fica-se mais leve, mais lesto, mais ausente. Vê-se a vida em câmara lenta. Recordam-se cheiros e imagens, fragmentos guardados e esquecidos, alguns que passaram despercebidos, outros sempre presentes, apenas à espera de um braço para os puxar. Tudo noutra velocidade, noutro tempo. Um oceano infinito inunda-nos e deixamo-nos viajar em movimentos de anémonas. O próximo parece longe, o distante uma sombra das nossas vontades, ainda imóveis, por descobrir. O mar também tem esquinas, mas sempre será vasto e cantará ao ouvido os seus caminhos.

5.02.2010

Desconcentras-me, sabes?

Desconcentras-me, sabes?
Algures entre os olhos e o sorriso,
enquanto encobres na lentidão dum gesto
o brilho estrelado das tuas sardas

4.19.2010

Jardim de anémonas


Hoje oscilam imagens difusas dentro de mim. Espalhadas por um sopro quente do suez, sem nome nem idade, percorrendo o corpo soltas, à deriva. Imagens ténues e esbatidas, tentando assentar. Aparições do sangue e da alma, viajando livres numa corrente sanguínea, num novelo enrrolado na lividez do deserto. Imagens com passos de lã, descalças, encontrando outras e dando as suas mãos, ganhando um breve sentido, numa escassa nitidez momentânea - breves segundos, infinitos nos ecos. Imagens trazidas dum tempo alado: desconhecido ou esquecido, talvez um tempo que ainda não existiu mas que se sente já nosso sem saber porquê. Imagens rebentando em ondas de maré, que sempre levam o que trazem, mas que sempre deixam a areia da pele molhada num vasto jardim de cactos e anémonas: a crescer, a crescer, a dançar, ondulando, ligadas por um silêncio suave que nos sussurra ao ouvido. Hoje oscilam imagens dentro de mim, acendem e apagam, agarram e largam nas suas ventosas macias. Escutam, arrepiam e dizem coisas, muitas coisas, mesmo escorregadias, mesmo fugidias.

3.22.2010

Quando entro nos teus olhos

Quando entro nos teus olhos abraço-te e fico calado. Calado a ouvir-te, embalado nos teus sons de sereia, que me chamam e guiam baixinho, flutuando entre o toque da seda e o sol das tuas searas, seguindo um aroma de orquídea, que fiz meu, desde a primeira vez. Mergulho nos teus poemas escondidos e no escuro do teu oceano, iluminado por luas de prata, resgatando o azul que guardas fundo, descansando na luz apagada. De azul em azul sinto as tuas gotas de chuva, pairando, de quando em vez, deslizando da alma como lágrimas - antigas, feridas nas asas - cuja minha língua aprendeu a curar devagar, diluindo esse ardor de sal. Percorro com as mãos o avesso de ti e encontro sempre o caminho de volta, contigo a meu lado, nas tuas algas e teias que separo e limpo o pó. Parto o pão das nossas conversas que se seguem a esse silêncio calado, sempre quente, sempre fecundo. Quando entro nos teus olhos abraço-te e fico calado. Calado, tão calado, calando a tua boca na minha.

3.20.2010

Captura impossível

Se conseguisse descrever em palavras, ou capturar a luz da tua expressão a arranjares-te ao espelho [o esticar das pestanas, o ladear ténue e elevado do rosto à espera dos brincos, o entreabrir dos lábios, antecipando a cor do bâton], não precisaria de mais palavras, não precisaria mais de palavras. Esgotá-las-ia ali, nesse preciso momento, para todo o sempre. Esgotaria-as, por capturar a beleza, matando ali a poesia. Mas sabes? Não existem ainda essas palavras ou frascos para capturar esses gestos mudos de música e mel, que esboçam uma aguarela quente num voo ou num corpo esguio a nadar, a nadar, a nadar preso no meu olhar.

12.27.2009

Deserto luminoso

Só as mãos interpretam
essa espécie de ruído
depois virão os lábios
ler o texto acendido

excerto de um poema de Gastão Cruz


Que deserto é este?
É uma luz invisível aos olhos
onde me perco, onde me encontro.

É um texto soprado, sussurrado
onde não se ouvem as palavras
onde o tempo passa, devagar

Assíduos do shaker

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