
Migalhas. Pão ressequido pelos dias cinzentos.
Sou Heraclíto, o pombo obscuro, invisível e cansado de dialéticas.




Decantavas o cair da noite nos teus movimentos sedosos de silêncio aprisionado. Não te davas a conhecer mas os meus olhos habituaram-se a encontrar os teus. Despidos, como não os mostravas a ninguém. Luas camufladas, habituadas a reflectir, para longe, o calor do sangue que tinhas para dar. Resguardados na tua maldade felina que ocultava uma dócil melancolia frágil. Subtil. Com brilho de poema e rasto de violoncelo, que me sobressaíam, do escuro denso com que te vestias do mundo. Tinhas a estética perfeição da arte nova e aquele respirar fundo das noites frias que fazia apertar o peito. Fotografei-te uma única vez, Ámoon, [ainda que a preto e branco, pois as cores apenas as sentia]. numa noite, talvez de defesas esquecidas, nessa tarefa impossível de captar a tua invisibilidade esguia de beleza cativante. Fizemo-nos confidentes, sem o sabermos, sem nada precisarmos de dizer. Sentíamo-nos próximos e isso bastava, vagueando por gestos e olhares. Á distância. Fotografei-te uma única vez, Ámoon, mas acho que sabes que te guardei para sempre.
Conheci-te num dia quente de Primavera: longe de tudo, longe de todos, longe de mim. Longe. Que longe estava de ti.
Apareceste no meu percurso no teu pequeno porte subtil, de aparência inofensiva. E numa rapidez ágil, vinda do nada, mudaste tudo. Tomaste-me, de assalto, o olhar.
Quando o percebi, já era tarde Nasca. Tarde demais. Sem nada poder dizer ou fazer apoderaste-te de mim, na tua delicadeza estranha. Próxima, gémea, siamesa. Colada demais aos meus olhos para te poder arrancar.
Uma imobilidade estática que partiu para dentro de mim. Quente, colorida, de aromas florais.
Passas-te a povoar-me com o néctar dos teus beijos, que alastravam como um incêndio incontrolável. Que polinizavam um mistério na pele queimada, pelo desejo de te ter, entranhando-te no sangue, misturado em mim. Aumentando a pulsação ao limite de ter de te deixar.
Fazia-me mal o tanto que me sabias bem Nasca. Sugaste-me tudo. Tudo, menos esse desejo doentio. Beijei muitos depois de ti, mas nunca senti essa cor estranha e familiar, algures entre o toque e o olfacto. Entre o mar e o céu. Essas linhas de Nasca que me prenderam a ti. Que me amarraram.
Nunca mais te vi. Nunca mais te quis ver. Nunca mais voltaste. Nunca mais. E apesar de viver, todos os dias, sem te ver, sempre serás um mistério. E apesar de viver todos os dias, todas as flores morreram para sempre. Irrecuperavelmente. Para sempre, depois do teu beijo.
Pareceu-me ver-te, à janela, ao acordar. Ou seria um sonho Anakin? Conheço-te á muito mais tempo que o momento em que te vi. Ou que acho que te vi. É que, por vezes, tenho esta estranheza Anakin. A estranheza de nunca te ter realmente conhecido mas de sempre estares presente. Lá no alto. Guardião dos céus. Planando numa sombra e desaparecendo num relâmpago, a pique, num piscar de olhos mais distraído. Estarás mesmo lá Anakin? Ou sou apenas eu que te sinto?
Lembro-me sempre de ti junto às pontes. É curioso Anakin. Essas mágicas passagens, que também ligam os seres, para além dos passos. Mesmo os seres que talvez não existam, ou nunca cheguem a existir. Como tu Anakin.
És a ponte. Ponte entre dois mundos. Soube disso quando me vi à beira do abismo. A um pequeno passo. Tão próximo. E lá estavas tu, no teu som, curto e estridente, a ecoar para além do momento. No teu bater de asas, planando em mim, salvando-me do salto. Fazendo a ponte para um prado verdejante. O mais verde que alguma vez vou conseguir imaginar. Um verde infinito, envolto de um sol quente. Âmbar. Profundo. Como os teus olhos Anakin.
Acho que nunca te vi realmente. És, talvez, uma espécie de espírito, que me segue ou acompanha. Mas sei que existes. Fizeste o favor de me deixar esta tua pena real, para o perceber. De águia real. Da qual fiz esta caneta com que te escrevo. Da qual fiz esta chave, da ponte que nos liga. Sem nunca nos termos visto Anakin e, ainda assim, nos vermos tanto.
Os teus passos. Nada mais do que os teus passos. Uma escuridão total onde tudo se apaga para os teus passos. Como se o tempo se baralhasse e simplesmente esperasse pelo próximo passo dos teus. Como se fosses descendente de Pégaso, sangue de Medusa, habituado a voar e a nunca os usares em terra firme. Como se quando tocasses o solo o mundo se curvasse em tua atenção. Rendido a teus passos. Rendido ao teu rasto de vento. Foi assim que te senti Nurayev. Assim, tão nítido, sem te mostrares. Foi assim que entraste para nunca mais partir.
Dia e noite riscados no teu pelo sedoso. Onde existe um mapa secreto. Envolto num lago de fogo onde, em passos lentos, nos encontrámos rápido demais. Passos precisos e longínquos. Sinistros. Simplesmente porque estava assinalado numa marca. Porque assim tinha de ser.
Enrolaste-te na minha respiração com a tua lentidão vertical. Como que levitando uma tranquilidade inatingível. Só possível com a experiência da idade. Que aos poucos se apoderava de mim num eco interior. Aos poucos, a tua presença espreguiçava no ritual clássico do inspirar e expirar.
Foste outrora o espião perfeito. Belo e delicado. Enviado pelo Rei dos mares numa sombra mutante. Camuflando, talvez, a tua beleza fulminante. Protegendo-a dos olhares indefesos. Vestido dessa farda híbrida. Absíntica. Delicoespinhosa. Inventei essas palavras Hellington. Perdoa-me. Mas não há palavras possíveis para descreverem essa tua forma fugaz. Uma presença que se sente sem se ver.
Vimo-nos estáticos como medusas petrificadas. Apenas com o movimento do olhar. Como quem se estuda ao milímetro, num respeito silencioso. Agitando histórias ensurdecedoras, de não reveladas. A tua cauda enrolada, Hellington, é o meu dedo no queixo. Tentando perceber toda a sabedoria contida no teu olhar.
Dizem que trazes dinheiro e bom agouro, Francisca. Mas de ti nada quero. Nada me importa, nesses dois companheiros, Francisca. O dinheiro não traz felicidade e a sorte faz-se. Não é o que dizem também, Francisca? Também não me interessa nada o que dizem, se queres mesmo saber. Interessas-me tu, Francisca. Sim. Olhar para ti. Para o teu jeito leve e suspenso. Olhar-te sem que me vejas. Para seres apenas tu mesma. Sem nada interferir nesse teu jeito. Tens o tempo certo, Francisca. E danças com ele, deixando-o consternado. Nessa tua corda suspensa. És a minha trapezista de prata envelhecida, neste circo sem cor em que se encontra o meu olhar, Francisca. És um rabisco de carvão que escapou e se move lentamente em tinta da china. Teceste-me um abraço sem o saberes, Francisca. Invisível mas forte. Tão forte, Francisca. Naquela noite em que desceste pelos meus olhos, para te aventurares pelo silêncio da mesa. Apenas nós dois, Francisca. Nós dois e a respiração. Marcando o tempo, a levitar. Se calhar nem te lembras de mim, Francisca, mas fiquei teu fã, sabes? Fã da tranquilidade mágica da aranhiça suspensa de nome Francisca.
Tinha mil adjectivos nas suas penas brancas mas destacava-se-lhe o atrevimento: a roçar o descaramento. Possuía, no entanto, uma graça fora do comum, apenas acessível aos seres pecaminosos. Uma graça que a tornava irresistível fazendo o comum dos mortais tudo lhe perdoar.
Em ti morava o reflexo quente do sol. Mágico. Magnético. Que sempre me prendia o olhar. Eras o mais lento do lago, duma calma sobrenatural que intimidava o tempo e afastava o interesse de qualquer movimento. Numa dança de fogo molhado. O mundo parava no teu lento agitar das águas, desenhando formas e lugares, enviando histórias na ténue ondulação. Comias à minha mão e sempre comunicámos em silêncios profundos e radiosos.