Mostrar mensagens com a etiqueta Animal's farm. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Animal's farm. Mostrar todas as mensagens

11.06.2013

Heraclíto [o pombo obscuro]


- De que vale olhar para baixo se de lá já não se mira o céu? 
Migalhas. Pão ressequido pelos dias cinzentos.
Sou Heraclíto, o pombo obscuro, invisível e cansado de dialéticas.

5.01.2012

Sayid, o pardal libanês


Atira-te Sayid porque o mundo é pequeno demais para quem já percorreu os céus. Esgota-se depressa nas palavras repetidas que se despem como pétalas às imagens vividas e a luz começa-lhes a desvanecer, mais pesada, assentando fria nas pedras antigas. Tu Sayid cujo canto já pouco embala o vento que conheces como irmão. Foste o que quiseste, nada mais. Fizeste os dias curtos e os anos pequenos às luas redondas das noites quentes. Seguiste o teu trilho, os teus lugares, os telhados e janelas de quem quiseste espreitar. Nada pediste. E agora Sayid sentes-te preso numa gaiola, eu sei. Soube no teu olhar ter chegado a tua hora. Resta-me agradecer-te as visitas e a despedida desprendida. Adeus amigo Sayid. Atira-te, mas não te deixes cair.

7.15.2011

Andorinha

Conserva essa inocência do olhar mas entrega-te ao que fazes com essa fome voraz. Sem medo. Sem rede. Sem armadura. Sem pele. Apenas braços abertos como asas de andorinha e dedos gentis. Todas as setas que te cravejem no peito serão tão pouco fundas comparadas à inércia do adquirido ou do nunca tentado.

Sabes? É tão difícil manter esse olhar de criança. Ver o mundo assim, sem complicar. Sorrir-lhe. Piscar-lhe o olho. Deitar-lhe a língua de fora, sem racionalizar tudo, sem tudo ter de explicar. Sabes? o coração torna-se por vezes escasso para guardar o que estravasa o corpo e os olhos turvam vezes demais.

Escuta. Ouves a brisa a bater nos beirais? Respira-lhe essa maresia que aquece por dentro. De olhos fechados, assim. Oferece sempre o teu melhor, mas nunca o deixes de fazer por mais que te possas ferir. As andorinhas regressam sempre a casa, não é? Mesmo que seja num voo razante, rápido como uma imagem que aparece do nada, um rasgo dessa tua vida. Mantêm essa sinceridade genuína pois a vida é curta demais para se ser o que não se é. E as amizades nascem assim, dos silêncios sempre presentes e dos ecos que ficam do que não se quer ouvir.

Bate-te por ideias e valores, por mais simples ou impossíveis que te venham a parecer pois serão sempre uma dádiva: essa vontade, esse querer. Com sorte bater-te-ão muitos chamamentos à porta, como um sopro ao ouvido que arrepia.

Sê o que quiseres ser e nunca o que te digam. Aprende a pensar mas nunca ponhas o saber à frente do que sentes sem saber explicar. Aprecia o mundo e a beleza presente em todas as coisas, em todos os lugares. As texturas dos momentos irrepetíveis, tornados eternos.

Na dor recupera a força. Na alegria o humilde agradecimento. Apaixona-te as vezes que forem preciso mas nunca sem te apaixonares ou derramares uma lágrima. E não te arrependas. Reúne-te de algumas pessoas cujo olhar te dispa ou conforte, que mimes e leves contigo mesmo não estando. Estima as rugas, os erros e sobretudo a memória. Cuida-a como um livro vermelho e precioso para a folheares nas pausas dos teus voos. Quando e onde quiseres. Nas saudades que apertam, nos sorrisos que te iluminam o olhar. Nos passados e nos futuros logo ali à esquina desse ar de menina com asas.

E para rematar [que uma história nunca se acaba e as andorinhas são difíceis de apanhar mesmo na escrita], mesmo que em certas alturas não saibas para onde vais, não voes, caminha. Caminha pois já é tanto. Caminha pois hás-de sempre voar.

5.16.2010

Ema, a baleia vagarosa

Quem te fez tão grande e pesada, mas de uma leveza de nuvem demolhada ao mesmo tempo? Quem te moldou suave ao toque, sem nunca te ter tocado? Balançando à tona dos meus olhos, trazendo maresia e levando o meu respirar, fundo, junto ao teu. Quem te entregou, ao mundo, vagarosa, tão certa dos dias e noites, viajando tranquila no azul do silêncio? Nos teus olhos Ema, bebi a sabedoria calada, a gratidão do tempo, as rugas do mar percorrido e ainda por descobrir, a grandeza do teu ser, do teu sal, não do teu tamanho.

11.29.2009

Euler, o bicho de contas

Que feitiço é o teu Euler?
Este, que nos contas, sem nada contares
na tua simplicidade subtil
de bicho de contas?

Fazes de conta que não sabes
que nada contas
que não é nada contigo
Eu sei Euler, já te tive na mão.

Que magia é a tua
que te pára no tempo, enrolado
rolando de mão em mão
do mais velho para o mais novo

Para percorreres uma vida inteira
invisível, até ao dia em que surges
sem nada o fazer prever
rolando, de novo, para outra mão

E nos damos conta
que envelhecemos, também.
Reencontrando-te igual
Igualmente enrolado

Que mistério é esse? O teu Euler?
que ao te deixamos partir
nos deixas preso a uma saudade infinita
enrolada na mão, encostada ao coração

Uma saudade da mão que nos apresentou
Que não mora já cá, que partiu
Que contas são essas meu caro, que já te vais apressado
Que tanto contas tu afinal?

Que contas fazes Euler, que nada me contas ...

8.24.2009

Ámoon, a pantera invisível

Decantavas o cair da noite nos teus movimentos sedosos de silêncio aprisionado. Não te davas a conhecer mas os meus olhos habituaram-se a encontrar os teus. Despidos, como não os mostravas a ninguém. Luas camufladas, habituadas a reflectir, para longe, o calor do sangue que tinhas para dar. Resguardados na tua maldade felina que ocultava uma dócil melancolia frágil. Subtil. Com brilho de poema e rasto de violoncelo, que me sobressaíam, do escuro denso com que te vestias do mundo. Tinhas a estética perfeição da arte nova e aquele respirar fundo das noites frias que fazia apertar o peito. Fotografei-te uma única vez, Ámoon, [ainda que a preto e branco, pois as cores apenas as sentia]. numa noite, talvez de defesas esquecidas, nessa tarefa impossível de captar a tua invisibilidade esguia de beleza cativante. Fizemo-nos confidentes, sem o sabermos, sem nada precisarmos de dizer. Sentíamo-nos próximos e isso bastava, vagueando por gestos e olhares. Á distância. Fotografei-te uma única vez, Ámoon, mas acho que sabes que te guardei para sempre.

3.22.2009

Nasca, o colibri siamês

Conheci-te num dia quente de Primavera: longe de tudo, longe de todos, longe de mim. Longe. Que longe estava de ti.

Apareceste no meu percurso no teu pequeno porte subtil, de aparência inofensiva. E numa rapidez ágil, vinda do nada, mudaste tudo. Tomaste-me, de assalto, o olhar.

Quando o percebi, já era tarde Nasca. Tarde demais. Sem nada poder dizer ou fazer apoderaste-te de mim, na tua delicadeza estranha. Próxima, gémea, siamesa. Colada demais aos meus olhos para te poder arrancar.

Uma imobilidade estática que partiu para dentro de mim. Quente, colorida, de aromas florais.

Passas-te a povoar-me com o néctar dos teus beijos, que alastravam como um incêndio incontrolável. Que polinizavam um mistério na pele queimada, pelo desejo de te ter, entranhando-te no sangue, misturado em mim. Aumentando a pulsação ao limite de ter de te deixar.

Fazia-me mal o tanto que me sabias bem Nasca. Sugaste-me tudo. Tudo, menos esse desejo doentio. Beijei muitos depois de ti, mas nunca senti essa cor estranha e familiar, algures entre o toque e o olfacto. Entre o mar e o céu. Essas linhas de Nasca que me prenderam a ti. Que me amarraram.

Nunca mais te vi. Nunca mais te quis ver. Nunca mais voltaste. Nunca mais. E apesar de viver, todos os dias, sem te ver, sempre serás um mistério. E apesar de viver todos os dias, todas as flores morreram para sempre. Irrecuperavelmente. Para sempre, depois do teu beijo.

3.05.2009

Anakin, a águia intermitente

Pareceu-me ver-te, à janela, ao acordar. Ou seria um sonho Anakin? Conheço-te á muito mais tempo que o momento em que te vi. Ou que acho que te vi. É que, por vezes, tenho esta estranheza Anakin. A estranheza de nunca te ter realmente conhecido mas de sempre estares presente. Lá no alto. Guardião dos céus. Planando numa sombra e desaparecendo num relâmpago, a pique, num piscar de olhos mais distraído. Estarás mesmo lá Anakin? Ou sou apenas eu que te sinto?

Lembro-me sempre de ti junto às pontes. É curioso Anakin. Essas mágicas passagens, que também ligam os seres, para além dos passos. Mesmo os seres que talvez não existam, ou nunca cheguem a existir. Como tu Anakin.

És a ponte. Ponte entre dois mundos. Soube disso quando me vi à beira do abismo. A um pequeno passo. Tão próximo. E lá estavas tu, no teu som, curto e estridente, a ecoar para além do momento. No teu bater de asas, planando em mim, salvando-me do salto. Fazendo a ponte para um prado verdejante. O mais verde que alguma vez vou conseguir imaginar. Um verde infinito, envolto de um sol quente. Âmbar. Profundo. Como os teus olhos Anakin.

Acho que nunca te vi realmente. És, talvez, uma espécie de espírito, que me segue ou acompanha. Mas sei que existes. Fizeste o favor de me deixar esta tua pena real, para o perceber. De águia real. Da qual fiz esta caneta com que te escrevo. Da qual fiz esta chave, da ponte que nos liga. Sem nunca nos termos visto Anakin e, ainda assim, nos vermos tanto.

1.04.2009

Nurayev, o cavalo inquilino

Os teus passos. Nada mais do que os teus passos. Uma escuridão total onde tudo se apaga para os teus passos. Como se o tempo se baralhasse e simplesmente esperasse pelo próximo passo dos teus. Como se fosses descendente de Pégaso, sangue de Medusa, habituado a voar e a nunca os usares em terra firme. Como se quando tocasses o solo o mundo se curvasse em tua atenção. Rendido a teus passos. Rendido ao teu rasto de vento. Foi assim que te senti Nurayev. Assim, tão nítido, sem te mostrares. Foi assim que entraste para nunca mais partir.

12.08.2008

Fogo Posto, o tigre solitário

Dia e noite riscados no teu pelo sedoso. Onde existe um mapa secreto. Envolto num lago de fogo onde, em passos lentos, nos encontrámos rápido demais. Passos precisos e longínquos. Sinistros. Simplesmente porque estava assinalado numa marca. Porque assim tinha de ser.

Olhar magnético que se cruzou e despertou algo adormecido. Esquecido no tempo. Olhos guardiões de um segredo profundo. Onde mora algo meu. Num movimento. Num caminhar. Sono perturbante que me passou a visitar em sonhos. Subindo às árvores. Nadando na corrente.

Chamei-te Fogo Posto. Tigre que ora me prende ora me agarra. Que nada teme e me foge, ao toque, no silêncio nocturno. Que tudo desperta. Que me alastra na pele.

Solitários são os Tigres antes de se cruzarem.

11.09.2008

Sibyl, a gecko butanesa

Calor húmido colado à pele. E um acordar sobressaltado. Um aviso. Um arrepio. Da janela aberta, a noite mansa. Calma. Eterna. E, ao longe, a Gangkhar Puensum, a mais alta montanha nunca escalada. O pico branco dos três irmãos espirituais.

Amanhã seria o dia. O dia em que a tentaria escalar. Em segredo, naquele país longínquo. Misterioso e proibido. A terra do Dragão. O dia em que talvez nunca regressaria. O último ou o primeiro de todos os dias.

Sentia uma presença no quarto. Camuflada mas intensa. Iluminada por um branco tépido de luar atento. Algo espiritual escorria pelo transpirar do corpo. Por entre o calor. E eis que te vi, suspensa, por entre as sedas exóticas. Quase imóvel.

Sibyl, a gecko butanesa, olhando-me fixamente com seu doce veneno. A invadir-me o sangue, nesse ópio de delírios recônditos. Milenares.

Ficámos assim, presos, não sei por quanto tempo. Numa espécie de fotografia roubada ao tempo. Num magnético contacto entre dois mundos, com a montanha de fundo. Que me quererias dizer Sibyl? Quem te enviara? Seriamos nós os três irmãos espirituais? Tu, eu e a montanha?

Nunca o saberei, mas mantenho a tua imagem perturbadora. De hábitos nocturnos. Deixando a presa indefesa. Imobilizando-me nos teus olhos de jade.

Parti cedo. Muito cedo. O tempo mudara. Nevava. Foi o dia mais frio do ano. E nunca mais vi Sibyl, a gecko butanesa.

10.29.2008

Támu, a leoa sem maldade

Salvei-te da morte, ainda criança, mas foste tu que me salvaste. Sem o saberes. Ensinei-te tudo, mas ensinaste-me o que não se ensina e nunca se esquece. Partias em certas noites, no fecundo chamar da savana. Num cio. Num aproximar dos teus. Mas sempre regressavas. Como da primeira vez. Como todas as vezes.

Tinhas todos os instintos felinos Támu, mas faltava-te a subtil maldade natural da sobrevivência. A maldade com que te quis ver partir, sem realmente o querer. Para teu bem, Támu. Para que a vida te sorrisse por inteiro. Longe de mim.

Chorei um dia inteiro. De sol a sol. Ao ver-te partir para sempre. Assim, abatida por mero recreio dos Homens. Esses sim impregnados de mal. Enterrei-te junto à acasia imponente. Onde o sol continua a bater à hora da sesta. Lembras-te das sestas Támu? Onde os meus olhos sempre se perderam. Onde ainda se perdem, por momentos mais ou menos longos, àquela hora secreta. Onde a planície procura o teu espreguiçar atlético e os dias passam. Sem pressa.

8.03.2008

Sir Hellington, o cavalo marinho

Enrolaste-te na minha respiração com a tua lentidão vertical. Como que levitando uma tranquilidade inatingível. Só possível com a experiência da idade. Que aos poucos se apoderava de mim num eco interior. Aos poucos, a tua presença espreguiçava no ritual clássico do inspirar e expirar.

Foste outrora o espião perfeito. Belo e delicado. Enviado pelo Rei dos mares numa sombra mutante. Camuflando, talvez, a tua beleza fulminante. Protegendo-a dos olhares indefesos. Vestido dessa farda híbrida. Absíntica. Delicoespinhosa. Inventei essas palavras Hellington. Perdoa-me. Mas não há palavras possíveis para descreverem essa tua forma fugaz. Uma presença que se sente sem se ver.

Vimo-nos estáticos como medusas petrificadas. Apenas com o movimento do olhar. Como quem se estuda ao milímetro, num respeito silencioso. Agitando histórias ensurdecedoras, de não reveladas. A tua cauda enrolada, Hellington, é o meu dedo no queixo. Tentando perceber toda a sabedoria contida no teu olhar.

6.14.2008

Astrid, a cisne desfocada

Vi em ti a pálida nitidez da certeza. Uma certeza frágil de tão indelével. Frágil mas presente. Como um som grave que perdura para além da música. Por muito tempo. Às vezes por uma vida. Uma gota de chuva que não se diluía na vastidão do lago do parque. Não se deixando afogar. Brilhando quieta. Marcando a sua presença. Ali, desde o primeiro momento.
Desfocavas tudo em teu redor. Até a ti própria Astrid. Desfocavas o certo e o errado. O desejo e a dor. Desfocavas todos os sentidos mas mantinhas essa certeza rara. Límpida apesar de morar para além do racional. Talvez fosses um quadro esquecido apagado pelo tempo à espera do meu olhar mas Astrid vi no teu subtil levantar de rosto e esticar de asas o teu espaço guardado. Escondido de todos. Do mundo. Nele vi essa certeza que não me assusta mas atormenta.

5.15.2008

Francisca, a aranhiça suspensa

Dizem que trazes dinheiro e bom agouro, Francisca. Mas de ti nada quero. Nada me importa, nesses dois companheiros, Francisca. O dinheiro não traz felicidade e a sorte faz-se. Não é o que dizem também, Francisca? Também não me interessa nada o que dizem, se queres mesmo saber. Interessas-me tu, Francisca. Sim. Olhar para ti. Para o teu jeito leve e suspenso. Olhar-te sem que me vejas. Para seres apenas tu mesma. Sem nada interferir nesse teu jeito. Tens o tempo certo, Francisca. E danças com ele, deixando-o consternado. Nessa tua corda suspensa. És a minha trapezista de prata envelhecida, neste circo sem cor em que se encontra o meu olhar, Francisca. És um rabisco de carvão que escapou e se move lentamente em tinta da china. Teceste-me um abraço sem o saberes, Francisca. Invisível mas forte. Tão forte, Francisca. Naquela noite em que desceste pelos meus olhos, para te aventurares pelo silêncio da mesa. Apenas nós dois, Francisca. Nós dois e a respiração. Marcando o tempo, a levitar. Se calhar nem te lembras de mim, Francisca, mas fiquei teu fã, sabes? Fã da tranquilidade mágica da aranhiça suspensa de nome Francisca.

3.30.2008

Baltimore, o morcego guardião

Que idade tens Baltimore? Que descansas do mundo de pernas para o ar. Talvez se veja melhor, de facto, nessa posição. E quem esteja afinal invertido seja ele próprio e não tu Baltimore. Que guardas tu encostado ao peito? Para escolheres apenas a noite mais proibida, mais fria, para abrir asas. Quem foste em tempos Baltimore? De que te cansaste tanto? De que choras calado? Aqueces-te no sangue. Teu sol fugaz. Mas é a ti que te consomes, aos poucos, guardando um segredo. Profano. Só teu.

2.10.2008

Como dar um comprimido ao gato?

1. Pegue o gatinho e aninhe-o no seu braço esquerdo como se segurasse um bebé, tendo o comprimido na palma da mão esquerda. Coloque o indicador e o polegar da mão direita nos dois lados da boquinha do bichano e aplique uma suave pressão nas bochechas. Quando o felino abrir a boca, pegue rapidamente no comprimido da palma da mão esquerda e atire-o lá para dentro. Deixe o gato fechar a boca e engolir.

2. Recupere o comprimido do chão e o gato detrás do sofá. Aninhe o gato novamente no braço esquerdo e repita o processo.

3. Vá ao quarto buscar o gato e deite fora o comprimido meio desfeito.

4. Retire um novo comprimido da embalagem, aninhe o gato no seu braço, segurando firmemente as patas traseiras com a mão esquerda. Obrigue o gato a abrir a boca e empurre o comprimido com o indicador direito até o fundo da boca. Mantenha a boca do gato fechada e conte até dez.

5. Recolha o comprimido de dentro do aquário e o gato de cima do guarda-roupa. Chame um amigo para o ajudar.

6. Ajoelhe-se no chão, com o gato firmemente preso entre os joelhos. Segure as quatro patas. Ignore os rosnados ameaçadores. Peça ao seu amigo que lhe segure firmemente a cabeça e force a ponta de uma régua para dentro da boca do gato. Deixe rolar o comprimido pela régua e esfregue vigorosamente o pescoço do gato.

7. Retire o gato de cima do cortinado e volte a retirar outro comprimido da embalagem. Tome nota de que precisará adquirir outra régua e mandar arranjar o cortinado. Cuidadosamente, varra os cacos das estatuetas e dos vasos do meio da sala e guarde-os para colar mais tarde.

8. Enrole o gato numa toalha grande e peça, ao seu amigo, que se deite por cima dele de forma a que apenas a cabeça do gato apareça por debaixo do seu braço. Instale o comprimido na ponta de um canudinho, obrigue o gato a abrir a boca e mantenha-a aberta, usando um lápis atravessado. Sopre o comprimido pelo canudinho para dentro da boca do gato.

9. Consulte o glossário para verificar se o comprimido do gato não lhe fará mal. Beba uma cerveja para tirar o gosto horrível da boca. Coloque um penso rápido no antebraço e remova as manchas de sangue da carpete com água fria e sabão.

10. Retire o gato da varanda da vizinha. Vá buscar outro comprimido. Abra outra cerveja. Coloque o gato dentro do armário e feche a porta de forma a que apenas a cabeça do gato fique de fora. Force a abertura da boca do gato com uma colher de sobremesa. Com muito jeito, utilize um elástico como fisga para lançar o comprimido pela garganta do gato.

11. Procure uma chave de fendas e ponha a porta do armário novamente no lugar. Beba a cerveja. Procure uma garrafa de Vodka. Melhor, Tequila. Tome um shot. Aplique uma compressa fria na bochecha e verifique a data da sua vacina contra o tétano. Aplique uma compressa de Tequila na bochecha para desinfectar. Tome mais um shot. Deite fora a camisa e procure outra no quarto.

12. Ligue para os bombeiros, pedindo que venham retirar o desgraçado do gato de cima da árvore do outro lado da rua. Peça desculpas ao vizinho que se aleijou a tentar desviar-se do gato em fuga. Retire o último comprimido da embalagem.

13. Amarre as patas da frente às patas de trás do danado e prenda-o firmemente à perna da mesa da sala de jantar. Use luvas de couro bem forte. Puxe a mangueira do quintal. Empurre o comprimido para dentro da boca do gato, seguido de um pedaço de peixe. Segurando firmemente a cabeça desse terror felino, mande-lhe meio litro de água pela goela abaixo, para que o comprimido desça.

14. Beba o que sobrou da garrafa de Tequila até à ultima gota. Peça, ao seu amigo, que o leve ao
hospital mais próximo. Aguente firmemente enquanto o médico lhe cose os dedos e o antebraço e retira os restos do comprimido de dentro do olho direito. Lembre-se: "Um Homem não chora". A caminho de casa, use o telemóvel para falar com algumas lojas de mobilário para se informar do preço de uma nova mesa de jantar.

15. Peça à Liga de Proteção aos Animais que mandem um funcionário com urgência para recolher o raio do gato. Finalize o processo ligando para uma loja de animais perguntando se têm tarântulas para venda.



Não me interpretem mal, pois adoro gatos.

1.24.2008

Pilar, a ave pintada

Quem te pintou Pilar? Que quadro é esse que é o teu Pilar? Um quadro vivo e delicado. Pintado apaixonadamente na minúcia do carinho. Com os dedos lentos e demorados sobre os contornos do rosto.

Para quem te pintaste Pilar? Que cores são as tuas que desfalecem tudo em redor. No tom das searas para te realçarem. Que se movimentam mesmo na tua imobilidade.

Nelas vi a gueixa e o shaman apache. Mas não é nada disso pois não Pilar? As tuas cores não se definem. Observam-se e preenchem os espaços. A alma. Piscaste-me o olho. E isso basta-me Pilar.

1.15.2008

Michele, a gaivota atrevida

Tinha mil adjectivos nas suas penas brancas mas destacava-se-lhe o atrevimento: a roçar o descaramento. Possuía, no entanto, uma graça fora do comum, apenas acessível aos seres pecaminosos. Uma graça que a tornava irresistível fazendo o comum dos mortais tudo lhe perdoar.

Visitava-me sempre à mesma hora, no final da manhã. Ainda um pouco ensonada. Tinha um local predilecto, no parapeito do extenso terraço da piscina do Hotel, onde pousava com a subtileza dos saltos altos e mirava as vítimas esparramadas nas espreguiçadeiras.

Sabia perfeitamente que a observava, mas nascera habituada a ser o centro do universo, destacando-se de todas as outras. Apenas cruzámos uma vez o olhar. Fixamente. Olhos nos olhos, naqueles segundos eternos que por vezes sucedem. Tinha o perigo e a vertigem estampados, adornados por um sorriso. Recordo-me de a ver desfalecer a pique, teatral. Como que morta para logo explodir em vida, soltando uma gargalhada que permanecia pelo entardecer do dia.

12.27.2007

Ming, o peixe Koi

Em ti morava o reflexo quente do sol. Mágico. Magnético. Que sempre me prendia o olhar. Eras o mais lento do lago, duma calma sobrenatural que intimidava o tempo e afastava o interesse de qualquer movimento. Numa dança de fogo molhado. O mundo parava no teu lento agitar das águas, desenhando formas e lugares, enviando histórias na ténue ondulação. Comias à minha mão e sempre comunicámos em silêncios profundos e radiosos.

Assíduos do shaker

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin