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6.10.2009

Poema a 4 mãos

Trouxe-te a luz de todas as manhãs
Devolvida num reflexo de lua prateada
Protegida, no silêncio do meu corpo salgado
Passei a respira-la, devagarinho.
Na lentidão dos gestos sábios
Na suprema lassidão das palavras transparentes
Entrelaçadas, como mãos ofegantes
Sussurrando beijos. Ecoando no escuro.



Escrito a quatro mãos sem ver o lado malévolo .)
Conjugando apenas um pseudo ar de má
com um pretenso sentido de humor .)

1.06.2009

Ecos de Boato

Os novos 7 pecados mortais: Boato


Diz. Diz que disse. Dizem que diz que disse. Que disse que diz que não diz. Um dizer ondulado. Um eco que se propaga, num bater de asas pesado. Difícil de suster. Um eco que se desdobra. Que se multiplica, subindo degraus. Ecoando do alto.

Diz. Diz que disse. Dizem que diz que disse. Que disse que diz que não diz. Um dizer ondulado. Terminando num riso. Um riso fino e subtil. Mas intenso. Que se entranha na vontade de falar. Na vontade do boato.


Os novos pecados mortais: Vingança em Andrómeda-News

10.27.2008

Húmida curiosidade

Os novos 7 pecados mortais: Curiosidade


A eterna busca incessante. Interminável. Sempre inacabada. Um passo à frente, outro para o lado. Nunca um recuo. O oco chamamento do desconhecido a corroer como sal. A desafiar a sede mais funda. O magnético abismo por desvendar. Um novelo caído com uma ponta solta. O caminho sinuoso de serpente em movimento. Escuro. Abnegando paradigmas. Abnegando o previsível. O imediatismo fácil.

És um focinho preto. Labrador. Húmido de sentidos colado à pele. Uma lupa viva. Atenta. Sempre desperta. Que cansa de incansável desejo de descoberta. Tubo de ensaio. Alquimista. Que alimenta uma fome de poço sem fundo.

A curiosidade matou o gato mas é farejar, e sabe bem das suas sete vidas.


Os novos pecados mortais: Ignorância em Andrómeda-News

8.05.2008

Avareza em fumo negro

A aranha trepa meticulosamente a frágil teia da tua alma. Só ela conhece os teus meandros fechados a sete chaves. Porque ficou lá desde que os fechaste. Nunca mais viu a luz do dia. Cheiras a mofo e a escuridão, aí dentro. Há muito que o sol deixou de te querer beijar a pele. És pálido e as tuas olheiras sentem-se em quem de ti se aproxima. Tens as extremidades mirradas do pouco uso que lhes dás. Os lábios secos de nunca beijarem. As pontas dos dedos comidas de nunca se darem. Os pés encolhidos de nunca irem ao encontro de ninguém.

A antítese do prazer é o teu único prazer. O ter. Melhor, a simples hipótese de ter. Sem nunca o concretizar. O ter em teu ser. Espalhando este negro viscoso que te cobre e apaga qualquer necessidade. Um crude espesso que sufoca qualquer vontade. Onde nada respira. Pensas a fundo cada passo. Cada acção. Tudo achas um desperdício. Gostas do som do dinheiro. Do seu tilintar.
Do seu brilho que te ofusca o negro indiferenciado do teu ser. Escondes-te. Arrastas-te no mundo. Amorfo. Negro. Sou AVAREZA, e estou em ti.



Capítulo Quarto: Avareza, escrito em parceria com Andromeda-News

7.22.2008

Gula chocolate sangue

Saciar uma sede. Esta sede de mais. Que nunca sacia. Que nunca dorme. Este bicho faminto, foragido, sem destino. Um poço sem fundo. Um abismo, egoísta. Onde lábios latejantes fendem ecos vazios nos poços profundos do desejo. Quentes por possuir algo mais. Sempre mais. Até não saber mais que desejar. Que possuímos ao certo afinal? Escravos de sabores fugazes. Passageiros de mel. Medonhos. Diluindo-se na boca que perdeu o sabor original. Sou eu quem te domino. Sou eu quem te seco neste castanho tundra. Prendendo-te nas raizes que te enterram nessa morte interior. Lenta. Envolta dessa sede de mal. Sou eu quem te devoro assim, afinal.

Capítulo Terceiro: Gula (aqui publicado) e Vaidade em Andromeda-News

7.07.2008

Preguiça dourada em lume brando

O peso dos ponteiros sobre os ombros nus. Empurrando-o para aquele estado embevecido. Algures entre um sono manso e um olho aberto no corpo imóvel. Despercebido do mundo. Despercebido de tudo. Um espreguiçar na areia quente. Um escorregar do tempo no esquecimento. Pelas ampulhetas sem vidro das suas mãos remexendo passados e futuros sem dar qualquer passo. Sem nada querer ou fazer. Apenas permanecendo. Ali. É complexo, permanecer. Uma eternidade da qual pouco se repara. A primeira e última resistência – o permanecer. Eis que surge uma pequena tentativa de movimento. Quase um esgar. Uma ameaça. Mas não. Ainda é cedo. Mais um pouco deste revirar em lençol de seda. Mais um afago de almofada. Um adiar de realidade. Mais este queimar de pôr de sol, ainda desfocando a vista numa dança dourada de fogo. Os segundos soando numa brasa sem chama. Quente. Irresistível. Um bocejar que se prolonga na pele. Um dia que acaba sem começar. Permaneço. Permaneço. E nada me move. Nada me seduz. Nada brilha mais que esta luz.

Capítulo Segundo: Preguiça (aqui publicado) e Inveja em Andromeda-News

6.25.2008

Luxúria em seda fuchsia

Egoísta salgado
Só o prazer te corrói
a pele árida
gritando deleite

Demónio insaciável
Combustão fluorescente
que vai lavrando em
uivo lascivo

A carne é fraca
E o prazer uma serpente
Esquiva
Crescente

Maça violada
ou lacrada
Ferida de acesso
Tumulto abrupto

Subtil deslizar
de seda fuchsia
nas estradas curvas
da tentação

Egoísta salgado
És torpor, gemido
Absinto
e alucinação

Escuta bem minha voz
Pois estarei contigo
Lenta ou veloz
Tua fiel inimiga


Capítulo Primeiro: Luxúria (aqui publicado) e Ira em Andrómeda-News

6.24.2008

Os 7 pecados mortais

São sete transgressões
Sete tentações
Sete perversões
Em sete estações

São sete manuscritos
Sete discursos ditos
Sete estados de pecar
Que nos iremos debruçar

Desafio lançado por Andromeda

6.08.2008

101

Água Lua Deserto Noite Mar Sonho Sombra Alga Fogo Gesto Pele Mão Coração Cor Silêncio Abraço Torpor Arrepio Paixão Livro Saber Mistério Sentir Acaso Atento Sinal Gato Ponte Música Arte Antigo Memória Fundo Momento Viagem Dar Escutar Cozinhar Emoção Liberdade Respeito Impossível Abismo Beijo Anémona Spa Design Sentidos Pecado Raízes Alma Nada Tudo Levitar Amigo Distante Azul Tempo Lareira Babilónia Jacarandá Lenda Piano Magia Escrita Sangue Lágrima Caminho Dúvida Chuva Cal Cálice Inquietação Invisível Cumplicidade Sim Paz Especiaria Sorriso Feminino Sedução Sopro Sussurro Cacto Tigre Clássico Contemporâneo Seda Anjo Jardim Musa Demónios Fruto Imaginação Novelo Teia Janela Perdido Búzio Quimono Magnólia

* Desafio lançado por Andromeda sobre 101 palavras
com que me identifico de alguma forma.
Está aberto o desafio

11.02.2007

O limo da memória II

Tantas lágrimas ... tantas ... mas tão diferentes. Dantes, quando chorava, parecia-lhe que todas as lágrimas iam parar a um frasco cintilante e fundo, onde se transformavam em brilhantes, diamantes e pedras preciosas verdes, encarnadas, azuis, amarelas, brancas ... reflectindo tantas ou mais cores.

Apesar do sofrimento que lhes dava origem, parecia-lhe que nesse tempo ainda havia algo que as transformava em coisas belas, puras, coloridas, cheias de emoção e sentimentos, como se a sua fábrica de lágrimas conseguisse produzir algo. Agora ... era diferente ... agora parecia-lhe que as mesmas lágrimas eram vazias, sem sentido e ainda mais sofridas, por isso mesmo.

Olhou o limo, piscou os olhos involuntariamente, imitando o bater das pestanas douradas dele, como os apaixonados fazem inconscientemente quando se encontram frente a frente e perguntou-lhe: "Que hei-de fazer com as minhas lágrimas? Como te posso ajudar, se nem eu
sei já o que fazer delas?" E o limo respondeu-lhe numa voz doce e trémula, frágil mas esperançosa, estendendo o fino braço que se dobrou na sua direcção como a haste verde de
uma flor: "Oferece-mas. São como água para mim. Preciso delas para não murchar."

Puxou as mãos do limo, lentamente, na leveza duma carícia, juntando-as numa concha. Olhou-o profundamente nos olhos e ali permaneceu. O tempo dos seus olhos nos dele percorreram mares e desertos, silêncios e tempestades. Uma viagem a um mundo desconhecido mas com um caminho traçado. Como se sempre o tivesse conhecido. Parou num prado verdejante, cortado por um desfiladeiro enorme onde se sentia o vento nos cabelos. Ao olhar para baixo, penetrando na vertigem do espesso negrume, sentiu uma tristeza apoderar-se de si. Como uma hera a crescer, enrolando-se ao corpo. Uma tristeza inimaginável. Do mundo. Séculos de tristeza concentrada.

Não conseguiu aguentar mais tempo e libertou o olhar do limo em lágrimas. Espessas, percorrendo o rosto, corriam magneticamente atraídas para a concha formada pelas mãos do limo.


To be continued...


Em colaboração com Andrómeda

6.26.2007

O limo da memória

Trovejava. De repente um relâmpago iluminou toda a sala, deixando qualquer ruído seguinte em suspenso. Ela olhou pela janela e tremeu, sentindo um arrepio de um suspiro misterioso passar-lhe imperceptivelmente pela memória. Percebeu que a janela do corredor estava entreaberta e, apesar do vento, os cortinados magicamente não mexiam. Estacou a dois milímetros e espreitou pela fresta, vendo um vulto de memória passar-lhe diante dos olhos.
Foi então que o vulto obscuro pareceu ganhar forma, como que a levitar com maior nitidez.
Materializou-se finalmente numa forma verde brilhante, a bailar ao vento. Um verde de infância, com sotaque inglês. “Ajude-me.”, dizia ele.
Era fino e escorregadio como um limo e piscava os olhos de pestanas douradas, muito rapidamente, atarantado. A cada pestanejar uma imagem formava-se na sua mente, surgindo diante dos seus olhos, imagens da sua própria vida, correndo em segundos pela sua cabeça, agora com significados que dantes não tinham.
Nem a chuva as distorcia. Nem a chuva, nem as lágrimas do vulto, que eram os écrans onde elas se espelhavam. Lágrimas e chuva misturadas em memórias, agora tão nítidas e aumentadas, como lupas do passado, que revelam tanto.
Todos somos espelhos do passado e há lágrimas que o tempo nunca apaga.


To be continued...


Em colaboração com Andrómeda

3.30.2007

Elixir de uvas

Veio à terra em forma de semente para rapidamente germinar em forma de uva. Cedo marcou a sua presença pois, já na videira, se destacava das demais pela perfeição da forma e um brilho magnético que atraía desmesuradamente todas as formas de vida. Insectos, pássaros e até chuva e raios de sol persistiam em tentar acorrer aos seus deliciosos chamamentos. Mas tinha tanto de belo como de resistente e persistia, numa força de vida sobrenatural que brotava da sua existência.

Ao seu lado, mirrava o seu oposto. E quanto mais se olhava para a outra, bela e vigorosa, mais dó nos merecia aquela pobre amostra de vida murcha, encarquilhada e desmaiada, que nem o sol parecia querer tocar. Mas eram ambas irmãs, da mesma seiva nascidas. O que a outra tinha de belo, esta tinha de penoso, o que ela tinha de vida, este parecia acrescentar em definhamento. E quanto mais a primeira crescia e desabrochava, mais a outra parecia encolher-se e desistir. No entanto, persistia, teimosamente, num martírio teimoso.

Foi então que algo de estranho aconteceu. A sua sombria existência abandonara o lar para cair à terra numa lentidão frágil, em câmara lenta, como se o mundo parasse para observar. Ao tocar o solo, fez-se um silêncio ensurdecedor. Não se ouvia vivalma e o mundo aguardava como um animal calado mas inquieto, a antever uma catástrofe. E ali ficou, imóvel ao olhar, mas rolando lentamente, na sua forma amorfa e amassada. Numa agoniante viagem, em que os minutos pareciam horas e estas dias, percorreu a encosta até encontrar a parede do casario.


Continuação em

Assíduos do shaker

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