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8.19.2009

Ironia suspensa


Os novos 7 pecados mortais: Ironia


O que distingue uma pedra de uma folha pode ser a mera intensidade do seu arremesso


A seriedade suspensa. Arremessada. O questionar subtil mas certeiro. Um sorriso encoberto ou um esbofetear de luva branca. O eco que fica, para lá da frase, corroendo o silêncio, que ficou. És assim: um prazer refinado. A arte da ironia.


Os novos pecados mortais: ironia, também em Andromeda-News

The End

5.15.2009

Orgulho em estilhaços

Os novos 7 pecados mortais: Orgulho


A boca seca sem ir ao ribeiro, que continua a correr. Tão perto e tão longe, ao mesmo tempo. Um cume inóspito. Inacessível. À distância de um passo que não se dá. À distância de uma campainha que toca e não se atende. Até esmorecer e deixar de tocar. O ribeiro a correr. Ouves? Por baixo de uma camada de gelo. Translúcida. Que permite ver e ouvir mas não se quebra. Um fantasma branco, de vento revolto. Preso de movimentos. Uma dor engasgada. Que se come com pão, para ajudar a descer. Para se diluir, algures, nessa gruta interior onde só os pingos ecoam. Sós.

Os novos pecados mortais: Flirt em Andrómeda-News 

1.06.2009

Ecos de Boato

Os novos 7 pecados mortais: Boato


Diz. Diz que disse. Dizem que diz que disse. Que disse que diz que não diz. Um dizer ondulado. Um eco que se propaga, num bater de asas pesado. Difícil de suster. Um eco que se desdobra. Que se multiplica, subindo degraus. Ecoando do alto.

Diz. Diz que disse. Dizem que diz que disse. Que disse que diz que não diz. Um dizer ondulado. Terminando num riso. Um riso fino e subtil. Mas intenso. Que se entranha na vontade de falar. Na vontade do boato.


Os novos pecados mortais: Vingança em Andrómeda-News

10.27.2008

Húmida curiosidade

Os novos 7 pecados mortais: Curiosidade


A eterna busca incessante. Interminável. Sempre inacabada. Um passo à frente, outro para o lado. Nunca um recuo. O oco chamamento do desconhecido a corroer como sal. A desafiar a sede mais funda. O magnético abismo por desvendar. Um novelo caído com uma ponta solta. O caminho sinuoso de serpente em movimento. Escuro. Abnegando paradigmas. Abnegando o previsível. O imediatismo fácil.

És um focinho preto. Labrador. Húmido de sentidos colado à pele. Uma lupa viva. Atenta. Sempre desperta. Que cansa de incansável desejo de descoberta. Tubo de ensaio. Alquimista. Que alimenta uma fome de poço sem fundo.

A curiosidade matou o gato mas é farejar, e sabe bem das suas sete vidas.


Os novos pecados mortais: Ignorância em Andrómeda-News

8.05.2008

Avareza em fumo negro

A aranha trepa meticulosamente a frágil teia da tua alma. Só ela conhece os teus meandros fechados a sete chaves. Porque ficou lá desde que os fechaste. Nunca mais viu a luz do dia. Cheiras a mofo e a escuridão, aí dentro. Há muito que o sol deixou de te querer beijar a pele. És pálido e as tuas olheiras sentem-se em quem de ti se aproxima. Tens as extremidades mirradas do pouco uso que lhes dás. Os lábios secos de nunca beijarem. As pontas dos dedos comidas de nunca se darem. Os pés encolhidos de nunca irem ao encontro de ninguém.

A antítese do prazer é o teu único prazer. O ter. Melhor, a simples hipótese de ter. Sem nunca o concretizar. O ter em teu ser. Espalhando este negro viscoso que te cobre e apaga qualquer necessidade. Um crude espesso que sufoca qualquer vontade. Onde nada respira. Pensas a fundo cada passo. Cada acção. Tudo achas um desperdício. Gostas do som do dinheiro. Do seu tilintar.
Do seu brilho que te ofusca o negro indiferenciado do teu ser. Escondes-te. Arrastas-te no mundo. Amorfo. Negro. Sou AVAREZA, e estou em ti.



Capítulo Quarto: Avareza, escrito em parceria com Andromeda-News

7.22.2008

Gula chocolate sangue

Saciar uma sede. Esta sede de mais. Que nunca sacia. Que nunca dorme. Este bicho faminto, foragido, sem destino. Um poço sem fundo. Um abismo, egoísta. Onde lábios latejantes fendem ecos vazios nos poços profundos do desejo. Quentes por possuir algo mais. Sempre mais. Até não saber mais que desejar. Que possuímos ao certo afinal? Escravos de sabores fugazes. Passageiros de mel. Medonhos. Diluindo-se na boca que perdeu o sabor original. Sou eu quem te domino. Sou eu quem te seco neste castanho tundra. Prendendo-te nas raizes que te enterram nessa morte interior. Lenta. Envolta dessa sede de mal. Sou eu quem te devoro assim, afinal.

Capítulo Terceiro: Gula (aqui publicado) e Vaidade em Andromeda-News

7.07.2008

Preguiça dourada em lume brando

O peso dos ponteiros sobre os ombros nus. Empurrando-o para aquele estado embevecido. Algures entre um sono manso e um olho aberto no corpo imóvel. Despercebido do mundo. Despercebido de tudo. Um espreguiçar na areia quente. Um escorregar do tempo no esquecimento. Pelas ampulhetas sem vidro das suas mãos remexendo passados e futuros sem dar qualquer passo. Sem nada querer ou fazer. Apenas permanecendo. Ali. É complexo, permanecer. Uma eternidade da qual pouco se repara. A primeira e última resistência – o permanecer. Eis que surge uma pequena tentativa de movimento. Quase um esgar. Uma ameaça. Mas não. Ainda é cedo. Mais um pouco deste revirar em lençol de seda. Mais um afago de almofada. Um adiar de realidade. Mais este queimar de pôr de sol, ainda desfocando a vista numa dança dourada de fogo. Os segundos soando numa brasa sem chama. Quente. Irresistível. Um bocejar que se prolonga na pele. Um dia que acaba sem começar. Permaneço. Permaneço. E nada me move. Nada me seduz. Nada brilha mais que esta luz.

Capítulo Segundo: Preguiça (aqui publicado) e Inveja em Andromeda-News

6.25.2008

Luxúria em seda fuchsia

Egoísta salgado
Só o prazer te corrói
a pele árida
gritando deleite

Demónio insaciável
Combustão fluorescente
que vai lavrando em
uivo lascivo

A carne é fraca
E o prazer uma serpente
Esquiva
Crescente

Maça violada
ou lacrada
Ferida de acesso
Tumulto abrupto

Subtil deslizar
de seda fuchsia
nas estradas curvas
da tentação

Egoísta salgado
És torpor, gemido
Absinto
e alucinação

Escuta bem minha voz
Pois estarei contigo
Lenta ou veloz
Tua fiel inimiga


Capítulo Primeiro: Luxúria (aqui publicado) e Ira em Andrómeda-News

6.24.2008

Os 7 pecados mortais

São sete transgressões
Sete tentações
Sete perversões
Em sete estações

São sete manuscritos
Sete discursos ditos
Sete estados de pecar
Que nos iremos debruçar

Desafio lançado por Andromeda

Assíduos do shaker

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