9.18.2012
Red house [over the sea]
9.27.2010
Agradecer

9.07.2010
Prestoadagiato*
Liszt, "Totentanz" by Valentina Lisitsa
Toca-me e não digas nada. Toca-me apenas, assim, com mãos de piano e ouvidos de arrepio. Tenho no peito as escalas para subires aos cumes do meu mundo e claves de sol no meu abraço apertado. Desertos de pele e gritos de tempestade. Notas de ébano e marfim, para desembrulhar contigo, noite e dia. Por isso toca-me e dança encostado a mim e ao céu estrelado nesta música de água morna.
* escrito no feminino
2.01.2010
Silêncio

7.04.2009
O que mora por detrás do discurso

10.28.2008
10.06.2008
Algures...
8.12.2008
Oito
Por mais que gostasse das palavras a vida é feita de números. Apercebera-se, com o passar dos anos, dessa matemática fatalista das coisas, subtilmente camuflada, mas sempre presente.
Foi difícil aceita-lo mas sabia-o agora, bem. Indubitavelmente bem. Como que uma força do destino. Imparável. A que nada podia fazer frente.
Estava diante da linguagem mais poderosa e universal. Precisa. Milimétrica. Que não permitia trocas, fonéticas ou interpretações. A crua e fria linguagem dos números. Sempre presentes. Sempre escondidos. No mais banal dos acontecimentos.
Decidiu então que teria um número. Sim, um número. Porque não? Assim como quem tem um poema ou uma palavra favorita. Teria um número.
Chegara à conclusão que (estatisticamente, lá está) todos têm um número. Que se sucede mais vezes, por razão aparentemente desconhecida (ou talvez não) nesse misterioso alfabeto vivo dos dez algarismos.
O seu número era o oito. Curvo. Simétrico. De círculos perfeitos, unindo seus corpos num só. Talvez pela sua forma feminina, ou de ampulheta. Talvez por, tombado, tender para infinito.
5.16.2008
Imagens sobrepostas
"Cada imagem é uma recordação e ao vê-la lembramo-nos de sombras e cores, de caras e paisagens, meio apagadas e reconstruídas ao longo dos dias.
Cada imagem mostra o que já não está visível: esquemas e modelos, o significado das coisas, a longa aprendizagem da vida.
Cada quadro compõe-se de camadas sobrepostas: camadas de papel e de pigmentos, opacas e transparentes, formas e linhas que se escondem e reaparecem quando o olhar se fixa nelas.
Cada imagem, cada quadro, é uma janela para dentro: reminiscências, fragmentos e cenários - a permanente reconstrução do mundo."
Alfred Opitz, pintor alemão residente em Portugal
Exposição imagens sobrepostas
É muito assim que vejo a pintura e nela viajo e me perco. Quase sempre.
5.05.2008
Rasto de luz
1.22.2008
Omissões
12.11.2007
Claridade e escuridão
Escuro. Dava-se cada vez melhor no escuro. Na ausência. No nada.Nada já lhe interessava. Nada o comovia. Nada.
O mundo fora perdendo cor e a luz tornara-se, aos poucos, insuportável. Perdera a vontade dos dias. Apenas tacteando os silêncios frágeis da noite. Vazia. Protegida. Sagrada.
O seu corpo tornara-se uma casa inabitada. Inóspita. Apenas visitada por um vácuo antigo que lhe fortalecia os sentidos. Tornando-o num predador de silêncios. Via no escuro a tinta invisível dos dias, protegida dos olhares. Uma inocência perdida, evaporada com o calor do sol. As falsas verdades. A coragem adiada. Os valores esquecidos. Também pairavam no negro enxame do escuro. Na transpiração do dia acabado. Cansava-o essa predisposição pois tornava-o seu escravo. Era, no entanto, apenas o que lhe restava e o prendia a este mundo de claridade e escuridão.
11.04.2007
Nature's scream
11.03.2007
Rasto de luz
A cidade estava vazia. Magicamente vazia. Acordara com uma estranha sensação de silêncio total. Foi à janela e avistou a rua completamente despida. Deserta. Nem carros a circular, nem pessoas, nem mesmo os habituais gatos vadios que costumavam passear junto ao telheiro. Nada. Apenas as luzes e uma espécie de rasto, quase imperceptível, que acenava numa dança ténue e o convidava a descer.
Desceu as escadas e começou a seguir o rasto. Era uma espécie de névoa com brilho musical, que curiosamente desaparecia quando se tocava para voltar a aparecer de seguida.
A cidade, que tão bem conhecia, parecia agora diferente. Sem qualquer sinal de vida ao seu redor. Apenas objectos imóveis, outrora despercebidos, que pareciam querer contar-lhe séculos de existência, aborvidos ao longo do tempo.
Sentia-se o único ser no mundo. Como se todas as formas de vida tivessem escorrido por entre as frestas ressequidas da terra para que algo pudesse ser revelado. Ao passar a ponte, a brisa parou subitamente, sentindo-se ainda mais observado à medida que ia seguindo aquele misterioso rasto. Parecia que conseguia ouvir o barulho das luzes, cada vez mais intensas.
Apesar da situação, uma tranquilidade impossível apoderava-se dos seus sentidos numa enxurrada de pensamentos calmos. Ao fim da estrada, um pequeno vale ocultava um clarão de luz. Percebeu ser o final do rasto. Que segredo lhe estaria reservado?
9.04.2007
Devir animal
Àquela hora naquele lugar. Como que num passo de mágica, as pessoas encarnavam o animal escondido nos seus corpos. Já tinha assistido a muitas manifestações desse fenómeno. Num gesto. Numa feição ou reacção. Num olhar. Aqui ou acolá, neste mundo de semelhanças e eternas repetições. Mas assim. Tão notório, tão explicito. Nunca vira. Naquela combinação astral, de hora e local, misturada talvez, numa outra coordenada indecifrável, algo inacreditável tornava-se na mais pura das evidencias. Indiscutível. Irrefutável. Por breves momentos, um regresso à inocência. Onde a mais vil crueldade humana se dissipava no vento. A mais urgente das pressas estalava em cacos ao sol e um aroma adocicado, de loucura colectiva, pairava algures na folhagem. Por breves momentos, eliminavam-se distâncias e o mundo tornava-se melhor.1.29.2007
O Homem folha
O Homem folha vivia num mundo onde existiam estações. Não de comboios. Mas onde Primavera, Verão, Outono e Inverno não constavam apenas no dicionário.Um mundo de consciências translúcidas, educação verdejante e icebergs sólidos de valores.
Um mundo de conservadores-recebedores em vez de poluidores-pagadores.
Um mundo onde se andava a pé, fazendo o caminho caminhando. Na lentidão harmoniosa do saber esperar para colher.
Um mundo com pandas, tigres da Sibéria, rinocerontes negros e com políticos mesquinhos em vias de extinção.
Um mundo onde a política agrícola comum não era sinónimo de fome e indiferença comum.
Um mundo não de minutos verdes mas de verdes anos.
Um mundo reciclado de reciclagens consumistas.
Um mundo não de petróleo viscoso mas de água cristalina.
Um mundo sem ozono, radiações ou CO2 mas com lufadas de oxigénio para as crianças.
Um mundo sem inundações, secas, fogos e chuvas ácidas mas com tsunamis de esperança num futuro melhor.
O Homem folha não existe. Mas em breve talvez não exista também Homem nem folhas. Lembremos portanto o Homem folha.
10.15.2006
O barulho das luzes
No enssurdecedor movimento da cidade era invisivel, mas intenso, o barulho que ouvia.Por mais que se esforçasse não sabia a sua origem. E já a alguns dias teimava em permaner. Resistia, à vida na grande cidade, que habituara os ouvidos à indiferença. Sobressaía.
Na cidade que nunca dorme, o silêncio não existe, e até a luz parece ter um som, desviando o olhar e camuflando as estrelas no céu. Ele, maestro de renome, habituado às mais complexas melodias, não descortinava agora esse som e no entanto ouvia-o, com uma nitidez invulgar, como um chamamento. Nunca chegou a saber ao certo o que era esse som, talvez fosse a luz da consciência, que não se vê mas tudo ilumina. Mas desapareceu, assim como veio, de repente, no barulho das luzes...




