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9.18.2012

Red house [over the sea]


There was a time when our eyes followed the autumn leaves dancing in circles. A time stretched to the limits, until it sounds like snow hitting the roof of our thoughts. Waiking whispers and old stories. Lazing the skin, flying with the birds. A time of deserts and a red house, lost over the sea. There was a time that does not seem to return. A time with blankets in nowhere. Mixing the warm of blood in the cold of the nigh. A time of a child holding hands with a missing grandfather. A time with many colors, many smells and dreams. There was a time we must keep closer, hard in our heart. A time to come back sometimes, a time to never forget.   

9.27.2010

Agradecer

Agradecer o que se tem - não forçosamente tudo - o essencial.
Agradecer o que se teve e se guardou fundo e precioso, na película mais fina e delicada.
Agradecer o que se pode ainda ter: os trambulhões, os recomeços, as surpresas e os impossíveis, as coisas mágicas e as mais simples.
Agradecer o ontem, o hoje e o amanhã.
Agradecer a vida.
Agradecer o tempo.
Agradecer o que nos toca e o que nos fica.
Agradecer o que sempre nos vai acompanhar.
Agradecer o que somos.
Agradecer o que podemos ser.


9.07.2010

Prestoadagiato*

Liszt, "Totentanz" by Valentina Lisitsa


Toca-me e não digas nada. Toca-me apenas, assim, com mãos de piano e ouvidos de arrepio. Tenho no peito as escalas para subires aos cumes do meu mundo e claves de sol no meu abraço apertado. Desertos de pele e gritos de tempestade. Notas de ébano e marfim, para desembrulhar contigo, noite e dia. Por isso toca-me e dança encostado a mim e ao céu estrelado nesta música de água morna.

* escrito no feminino

2.01.2010

Silêncio

Afinal o silêncio pode ter um som, ser um som - uma abelha metálica, invisível, esvaindo a sua cor nesse zumbido - trocando a luz pela escuridão, os cheiros pelo vazio que, no entanto, ecoa largo. longe, perto. Largando o seu ferrão na pele, despedindo-se, enquanto dura, nesse som alastrado, nessa morte vagarosa, dentro de nós.

Afinal o silêncio pode ter um corpo, ser encorpado ou complexo como um vinho espesso e maduro. Um corpo que se cola ao próprio corpo, uma cama inviolável, hermética, aquando agitado contra as paredes frágeis gastas pelo tempo, cansadas de caminhar de pé.

Afinal o silêncio pode adormecer todas as palavras, uma a uma, dançar com a alma, chorar para poder voltar a sorrir. Afinal o silêncio não é apenas nosso. Afinal o silêncio é omnipresente, existe e, por vezes, asfixia todos os barulhos, até poder partir.

7.04.2009

O que mora por detrás do discurso

Passou a ter um narrador na cabeça, que lhe descrevia o mundo numa voz pausada e vagarosa. Uma voz sedutora e amena que passara a fazer parte de si e o fizera quase renunciar à sua própria. Proferia cada vez menos palavras. Preservava-as na sua essência frágil. Escolhia-as a dedo, delicadamente consciente da sua vida fugaz.

Passou a ser visitado por essa voz que lhe explicava com mais nitidez certos momentos que eternizava como fotos. Esculturas gravadas na pedra da memória que gostava de preservar para sempre. Passara a viver na profundidade dos olhares e no silêncio dos livros. Mergulhado, numa delicada distância oceânica. Vasta mas límpida e cristalina.

Uma pessoa devia poder ser apresentada pela sua biblioteca, pensava [ele que ainda não tinha tido o tempo devido ou o engenho necessário para organizar convenientemente esses pedaços de alma que deixava espalhados ao acaso, por vários lugares]. Poupava-nos tanto tempo sermos vistos apenas assim, sem generalizações ou fáceis clichés, e no fundo, está lá realmente tanto de nós espelhado.

Relia certos livros que lhe passaram pelas mãos talvez cedo demais. Livros que o apaixonaram pelo som e pelo movimento das palavras na língua, mas ainda desprovido do pó da idade. Para lhe poderem assentar, mais fiéis. Um livro relido, com o peso do tempo, nunca é o mesmo. Evolui, como um vinho que precisa de envelhecer para maturar e ganhar corpo.

Cansara-se dum mundo que apenas evoluía cientifica e tecnologicamente, mas que, no fundo, parara no conhecimento do Homem e do sentido da vida. Não se sabe mais agora que um sábio de há vinte mil anos atrás. Via em certos textos milenares mais verdade e conhecimento sobre a profundidade humana que actualmente. Raramente se encontra isso no mundo actual.

Começava a habituar-se a essa voz oculta mas sempre presente dentro de si. Desconhecida e preservada do mundo. Oferecia a algumas pessoas de quem gostava quase dolorosamente alguns dos seus livros predilectos [o melhor que se pode oferecer, estava em crer]. Algumas pessoas que amava continuadamente como um rio, apesar dos percursos sinuosos da vida, mas passara apenas a corresponder-se, com elas, por livros. Livros usados, gastos pelas mãos. Com uma breve dedicatória e muitas anotações em certas passagens.

Esperava poder dizer-lhes, um dia pessoalmente: É a tua cara. É como te sinto e te continuo a ver no pensamento [talvez até com o calor de uma carícia ou um beijo adiado]. Dizia-lhes com a tal voz silênciosa e um olhar despido de tudo, sem barreiras. Dizia-lhes com a tal voz que dispensa todas as palavras.

10.06.2008

Algures...


[Handel, Sarabande]

Sinto-me, algures, assim ...
com demasiada vida e morte interior
Algures...
Nestes sons
Nestes tons
Nestes mares e desertos
Algures...
Num jardim secreto
Desconhecido e reservado
e, não sabendo até quando
lá vou estar
não me apetece escrever

8.12.2008

Oito

Por mais que gostasse das palavras a vida é feita de números. Apercebera-se, com o passar dos anos, dessa matemática fatalista das coisas, subtilmente camuflada, mas sempre presente.

Foi difícil aceita-lo mas sabia-o agora, bem. Indubitavelmente bem. Como que uma força do destino. Imparável. A que nada podia fazer frente.

Estava diante da linguagem mais poderosa e universal. Precisa. Milimétrica. Que não permitia trocas, fonéticas ou interpretações. A crua e fria linguagem dos números. Sempre presentes. Sempre escondidos. No mais banal dos acontecimentos.

Decidiu então que teria um número. Sim, um número. Porque não? Assim como quem tem um poema ou uma palavra favorita. Teria um número.

Chegara à conclusão que (estatisticamente, lá está) todos têm um número. Que se sucede mais vezes, por razão aparentemente desconhecida (ou talvez não) nesse misterioso alfabeto vivo dos dez algarismos.

O seu número era o oito. Curvo. Simétrico. De círculos perfeitos, unindo seus corpos num só. Talvez pela sua forma feminina, ou de ampulheta. Talvez por, tombado, tender para infinito.

5.16.2008

Imagens sobrepostas

"Cada imagem é uma recordação e ao vê-la lembramo-nos de sombras e cores, de caras e paisagens, meio apagadas e reconstruídas ao longo dos dias.

Cada imagem mostra o que já não está visível: esquemas e modelos, o significado das coisas, a longa aprendizagem da vida.

Cada quadro compõe-se de camadas sobrepostas: camadas de papel e de pigmentos, opacas e transparentes, formas e linhas que se escondem e reaparecem quando o olhar se fixa nelas.

Cada imagem, cada quadro, é uma janela para dentro: reminiscências, fragmentos e cenários - a permanente reconstrução do mundo."


Alfred Opitz, pintor alemão residente em Portugal
Exposição imagens sobrepostas




É muito assim que vejo a pintura e nela viajo e me perco. Quase sempre.

5.05.2008

Rasto de luz



Aquela luz acompanhava-o há muito. À medida que avançava sabia-o agora. Sentia-a cada vez mais presente. Mais intensa. Cada vez mais entranhada na pele. Como uma parte de si só agora revelada. Era uma luz estranha. De cabelos brancos. Uma serpente de lua suspensa. Como se sempre tivesse estado ali. A seu lado. Tão próxima mas oculta. Como que a parte mais distante de si. Dando-lhe apenas pequenos sinais, através de algumas imagens soltas. Perfeitas. Que recordava. Daquelas que prendem a alma a outro mundo sem sabermos porquê. No entanto, nunca se tinha apercebido do seu leito de amante. Como um espelho que finalmente se quebrava em mil pedaços. Deixando de reflectir. Abrindo-se num brilho de lâmina finalmente retirado do peito. Lembrava-se agora dela, numa dança de flashes fotográficos. Sensual. Com uma nitidez insuportável. Que quase o embriagava de tanta beleza. Aquela luz era o amor impossível. Uma anémona acorrentada à escuridão. Uma fénix de asas cortadas que o chamava para se despedir. Para a despedida. Há tanto estendida. Há tanto adiada. Esperara o último adormecer dos corpos. O último silêncio aveludado. O último mar diluindo a noite no seu balançar. O último cansaço. Para o guiar até ali. Àquele local. Beijando o seu olhar sofregamente. Uma última força. Num brilho diferente. No brilho mais intenso que um dia desceu.

1.22.2008

Omissões

Mais difícil do que dizer certas coisas é, muitas vezes, não as dizer. Calá-las. Humedecer-lhes a voz. Guarda-las em nós, por tempo indeterminado, para não ferir alguém. Alguém a quem queremos bem. Alguém que nos magoa de não as perceber, tão evidentes. Fingindo que não as sentimos. Ocultando-as. Fazendo parecer que está tudo bem quando apetece libertá-las num pássaro. Resistir-lhes. Amordaça-las. Acorrentá-las em nós. Contorcermo-nos com elas sem pestanejar. Sem as fazer transparecer no olhar. Há um acto de amor profundo em certas omissões. Pena que, por vezes, sejamos tão bons actores. Pena que por vezes não nos leiam os sinais. Pena. Deixa lá, são os meus olhos, não a minha boca.

12.11.2007

Claridade e escuridão

Escuro. Dava-se cada vez melhor no escuro. Na ausência. No nada.
Nada já lhe interessava. Nada o comovia. Nada.
O mundo fora perdendo cor e a luz tornara-se, aos poucos, insuportável. Perdera a vontade dos dias. Apenas tacteando os silêncios frágeis da noite. Vazia. Protegida. Sagrada.
O seu corpo tornara-se uma casa inabitada. Inóspita. Apenas visitada por um vácuo antigo que lhe fortalecia os sentidos. Tornando-o num predador de silêncios. Via no escuro a tinta invisível dos dias, protegida dos olhares. Uma inocência perdida, evaporada com o calor do sol. As falsas verdades. A coragem adiada. Os valores esquecidos. Também pairavam no negro enxame do escuro. Na transpiração do dia acabado. Cansava-o essa predisposição pois tornava-o seu escravo. Era, no entanto, apenas o que lhe restava e o prendia a este mundo de claridade e escuridão.

11.04.2007

Nature's scream



Sometimes if we stay quiet and in silence we can ear the voice of nature whispering. Claiming for our nonsense’s.

11.03.2007

Rasto de luz




A cidade estava vazia. Magicamente vazia. Acordara com uma estranha sensação de silêncio total. Foi à janela e avistou a rua completamente despida. Deserta. Nem carros a circular, nem pessoas, nem mesmo os habituais gatos vadios que costumavam passear junto ao telheiro. Nada. Apenas as luzes e uma espécie de rasto, quase imperceptível, que acenava numa dança ténue e o convidava a descer.

Desceu as escadas e começou a seguir o rasto. Era uma espécie de névoa com brilho musical, que curiosamente desaparecia quando se tocava para voltar a aparecer de seguida.

A cidade, que tão bem conhecia, parecia agora diferente. Sem qualquer sinal de vida ao seu redor. Apenas objectos imóveis, outrora despercebidos, que pareciam querer contar-lhe séculos de existência, aborvidos ao longo do tempo.

Sentia-se o único ser no mundo. Como se todas as formas de vida tivessem escorrido por entre as frestas ressequidas da terra para que algo pudesse ser revelado. Ao passar a ponte, a brisa parou subitamente, sentindo-se ainda mais observado à medida que ia seguindo aquele misterioso rasto. Parecia que conseguia ouvir o barulho das luzes, cada vez mais intensas.

Apesar da situação, uma tranquilidade impossível apoderava-se dos seus sentidos numa enxurrada de pensamentos calmos. Ao fim da estrada, um pequeno vale ocultava um clarão de luz. Percebeu ser o final do rasto. Que segredo lhe estaria reservado?

9.04.2007

Devir animal

Àquela hora naquele lugar. Como que num passo de mágica, as pessoas encarnavam o animal escondido nos seus corpos. Já tinha assistido a muitas manifestações desse fenómeno. Num gesto. Numa feição ou reacção. Num olhar. Aqui ou acolá, neste mundo de semelhanças e eternas repetições. Mas assim. Tão notório, tão explicito. Nunca vira. Naquela combinação astral, de hora e local, misturada talvez, numa outra coordenada indecifrável, algo inacreditável tornava-se na mais pura das evidencias. Indiscutível. Irrefutável. Por breves momentos, um regresso à inocência. Onde a mais vil crueldade humana se dissipava no vento. A mais urgente das pressas estalava em cacos ao sol e um aroma adocicado, de loucura colectiva, pairava algures na folhagem. Por breves momentos, eliminavam-se distâncias e o mundo tornava-se melhor.


Inspirado num quadro de Paula Rêgo

1.29.2007

O Homem folha

O Homem folha vivia num mundo onde existiam estações. Não de comboios. Mas onde Primavera, Verão, Outono e Inverno não constavam apenas no dicionário.
Um mundo de consciências translúcidas, educação verdejante e icebergs sólidos de valores.
Um mundo de conservadores-recebedores em vez de poluidores-pagadores.
Um mundo onde se andava a pé, fazendo o caminho caminhando. Na lentidão harmoniosa do saber esperar para colher.
Um mundo com pandas, tigres da Sibéria, rinocerontes negros e com políticos mesquinhos em vias de extinção.
Um mundo onde a política agrícola comum não era sinónimo de fome e indiferença comum.
Um mundo não de minutos verdes mas de verdes anos.
Um mundo reciclado de reciclagens consumistas.
Um mundo não de petróleo viscoso mas de água cristalina.
Um mundo sem ozono, radiações ou CO2 mas com lufadas de oxigénio para as crianças.
Um mundo sem inundações, secas, fogos e chuvas ácidas mas com tsunamis de esperança num futuro melhor.
O Homem folha não existe. Mas em breve talvez não exista também Homem nem folhas. Lembremos portanto o Homem folha.

10.15.2006

O barulho das luzes

No enssurdecedor movimento da cidade era invisivel, mas intenso, o barulho que ouvia.
Por mais que se esforçasse não sabia a sua origem. E já a alguns dias teimava em permaner. Resistia, à vida na grande cidade, que habituara os ouvidos à indiferença. Sobressaía.
Na cidade que nunca dorme, o silêncio não existe, e até a luz parece ter um som, desviando o olhar e camuflando as estrelas no céu. Ele, maestro de renome, habituado às mais complexas melodias, não descortinava agora esse som e no entanto ouvia-o, com uma nitidez invulgar, como um chamamento. Nunca chegou a saber ao certo o que era esse som, talvez fosse a luz da consciência, que não se vê mas tudo ilumina. Mas desapareceu, assim como veio, de repente, no barulho das luzes...

6.18.2006

Olhares

Os olhos dos outros prendem sempre os nossos.
Seja porque atraem,
perturbam ou comovem,
Seja porque intimidam,
magoam ou irritam
É impossível ficar indiferente ao que transmite
o olhar dos outros.

Assíduos do shaker

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