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7.05.2009

De onde nunca parti

Era pátio interior, abandonado. Guardado por quatro paredes e um céu de noite infinita. Esquecido, talvez pelo mundo apressado. Descoberto, ao acaso, há muito tempo atrás. Era um pátio com abóbadas redondas e pilares antigos, de texturas atentas e azulejos coloridos. Um pátio com paredes gastas, cobertas de uma frescura de trepadeira misturadas na velha fonte central. Um pátio nocturno de noites quentes de verão, iluminado a lua e a danças lentas de velas ao vento. Um pátio com pouca gente, comungando em silêncio ao som de trastes de guitarra clássica. Vibrando, nas peles bronzeadas. Arrepiando a alma num gesto inexistente mas presente. Era um pátio de uma tranquilidade impossível. Inatingível. De encher os corpos. De paz. Um pátio que guardo até hoje de uma noite perfeita. Um pátio que creio, nunca ter realmente partido. Que, de quando em vez, me visita a memória para me trazer de volta uns pés descalços e uma relva molhada sob um céu infinito. Estrelado. Era um pátio perfeito. Onde apetece entrar e mergulhar despido, mas nunca, nunca mais partir.

4.22.2009

Necessidade

Necessidade de partir. Não muito tempo. O possível.
Necessidade de sol. Vastidão de paisagem. Chás no deserto. De céu e de chão.
Necessidade de livros. Muitos. Sorvidos como alimento. Como o último ou o primeiro.
Necessidade de noites longas. De fogueiras. Estrelas e lua. Uivos distantes e silêncios sonoros.
Necessidade de quilómetros. De distância. Estradas perdidas por descobrir.
Necessidade de Sul. De Oriente. De encontros, sem haver ninguém.
Necessidade de uma língua estranha. Musical. Envolta de insenso e delírios.
Necessidade de diluir instintos. Sensações. À flor da pele. 
Necessidade de deixar assentar a poeira dos dias. Que enevoa o olhar.
Necessidade de tatuar invisibilidades. Ao contrário. Por dentro da pele.
Necessidade de adormecer ao relento. De afastar visitantes no vento quente do Suez.
Necessidade de proximidades. Calmas. Sábias. Chamamentos presentes.
Necessidade de mim. No vácuo. Desprovido de tudo. Rarefeito do nada.
Necessidade de não pensar em nada. De ir para voltar.
Necessidade simples. 
Necessidade. Urgente.


Vou ali. Mas acho que volto

11.02.2008

Mediterrâneo

Não gosto de catedrais, do peso das pedras, da dimensão excessiva das naves, da mitologia de um Deus em cujo nome foram construídas e aqui convoca e esmaga os seus crentes. Não gosto da profusão de altares de castiçais de talha dourada, de sacrários e cânticos e painéis. Não gosto da arquitectura que não é à escala humana, nem nos meios utilizados nem nos fins que representa.

Prefiro a extensão plana das mesquitas, o seu jogo de colunas e sombras, o despojamento geométrico dos seus azulejos. Prefiro mil vezes a herança do mundo árabe morto em Granada do que os símbolos da reconquista cristã que o sepultou.

Mil vezes a leveza do mundo mediterrâneo do que o sufoco das catedrais e castelos do Sacro Império Romano-Germânico. Mil vezes os templos gregos, entre resina e mar e a quietude das oliveiras, do que os Castelos de Inglaterra e as florestas de bétulas do Norte. Mil vezes as kesbahs de Marrocos do que os castelos feudais da Europa, mil vezes Granada que Versalhes.

E antes um Olimpo de Deuses de cada coisa que um Deus único, antes o Al Andaluz do que os Reis Católicos, antes Roma do que o Papado, antes a luz e a democracia gregas do que a escuridão medieval.

Falo da nossa herança, o Mediterrâneo - a mais extraordinária civilização humana, a civilização da luz, da arte, da arquitectura, da democracia, do direito, da nevegação e da descoberta, do mar e do deserto, das ilhas e dos golfos, das vinhas, dos olivais e dos pinhais, das estátuas profanas, das colunas e dos azulejos, dos pátios, dos terraços e das varandas, da cal, do branco e do azul. É a civilização do Egipto, de Creta, de Atenas, de Roma, de Volubilis, de Tânger. Das cidades portuárias de Alexandria a Lisboa e das Ilhas Gregas, da Sicília, de Malta, de Chipre, da Sardenha. São três mil anos a contemplar as estrelas do céu, a ouvir o som da água nas fontes e a tentar decifrar o mistério da morte.

Antes que a ideia de Deus esmagasse os homens, antes dos autos de fé, das perseguições religiosas da Inquisição e do fundamentalismo islâmico, O Mediterrâneo inventou a arte de viver. Os homens viviam livres dos castigos de Deus e das ameaças dos Profetas: na barca da morte até à outra vida, como acreditavam os egípcios. E os deuses eram, em vida dos homens, apenas a celebração de cada coisa: a caça, a pesca, o vinho, a agricultura, o amor. Os deuses encarnavam a festa e a alegria da vida e não o terror da morte.

Antes da queda de Granada, antes das fogueiras da Inquisição, antes dos massacres da Argélia, o Mediterrâneo ergueu uma civilização fundada na civilização da vida, na beleza de todas as coisas e na tolerância dos que sabem que, seja qual for o Deus que reclame a nossa vida morta, o resto é nosso e pertence-nos - por uma única, breve e intensa passagem. É a isso que chamamos liberdade - a grande herança do mundo Mediterrâneo.

Miguel Sousa Tavares


Este fim-de-semana andei por estas bandas. Por livros, lugares, cores, sons e cheiros. Nesta fantástica civilização que tanto me encanta e atrai. Escolhi este texto para dar inicio a uma nova rúbrica. Para viajar mais por esses recantos.

Assíduos do shaker

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