
1.20.2011
Tempo [de mudar o tempo]

11.11.2010
Oração

7.17.2008
7.02.2008
Paquete estrelado
Este espaço vai mudar de porto. Anda demasiado “lamechas”, não tem um único palavrão e não contem palavras difíceis de pronunciar ou suficientemente eruditas. Promete-se que serão banidas quaisquer lamechices otorrinolaringológicas e permitidos os mais hediondos vernáculos vicentinos. Informa-se que serão permitidas a bordo desde marinheiras Gaultier a Estrelas de Cannes (não de Hollywood) dispensando-se apenas Provedores ou Edites. All aboard.
3.14.2008
Escapadela
2.05.2008
Certeza
Ninguém presta à sua geração maior serviço do que aquele que, seja pela sua arte, seja pela sua existência, lhe proporciona a dádiva de uma certeza. 10.09.2007
Cor de mundo novo
Num tom mais intenso
Denso. Propenso ao calmo contemplar
Uma cor de grito
Que fizesse parar
O distraído. O apressado. O insensível
A que ninguém fosse indiferente.
Uma cor de apreço e respeito
Maga no sussurrar das aves
Coladas ao peito
Apetecia-me pintar o mundo de novo.
Começar nas coisas simples
e nelas pernoitar
numa cor de grilo na noite fria
Destapando o cheiro da terra molhada
Uma árvore de astros e elementos
Onda em movimento
Sem arcas nem Noés
Deuses ou Moisés
Apenas cor de sonhos e afectos
Apetecia-me pintar o mundo de novo
Num tom de tigre
Insaciável por futilidades e inutilidades
Que as espremesse num sumo mais vivo
Laranja pôr do sol.
Um mundo novo
Que ao brilhar
nessa cor
Fosse de novo
Um mundo melhor
7.02.2007
Medos
Medo da morteMedo da vida
Medo da sorte
De ficar esquecida
Medo de viajar
Medo de arriscar
de conduzir
e parir
Medo do cão
Medo do rato
da solidão
Do assalto
Medo do futuro
Medo do escuro
Do avião
ou da grande paixão
Medo do oculto
Medo de um vulto
terrorismos
e fanatismos
Medo da altura
Medo da doença
Falta de bravura
Quebra de crença
Medo do fim do mundo
Medo fecundo
Apoderando-se sem modos
De tudo e de todos
Entre os demais
Dois a reter
Medo do próprio medo
E medo de não o ter
6.21.2007
Reencontro
Miguel Torga
Ali estavam finalmente. Um reencontro nunca foi fácil quando tanto se quer.
Tantos anos. Tantos caminhos. Tantos encontros e desencontros. Alegrias e tristezas distantes, sem nunca se perderem nos labirintos da memória.
Ali estavam novamente. Olhos nos olhos, buscando feições perdidas, de outrora, à distância de um abraço. Já agarrados, num silêncio caloroso sobre os ombros, prolongado ao limite não disseram uma única palavra mas ecoou bem alto uma voz conjunta: envelhecemos bem mas tão depressa.
5.23.2007
Curioso sentimento
Curioso sentimentoa saudade do nunca conhecido
que sussurra lento
ao ouvido
Curioso sentimento
essa saudade inexplicável
que se espalha em incenso
interior, inflamável
Curioso sentimento
Ser refém
desse invisível chamamento
de sereia d’ além
Curioso sentimento
Que leva parte de mim
Ao sabor do vento
Para local sem fim
Curioso sentimento
essa saudade de passado ou futuro
Fruto escondido mas atento
por detrás dum muro
3.03.2007
O caminho
Um caminho. Sempre um caminho. E opções, escolhas, direcções.Caminhos que se cruzam, que se distanciam. Caminhos que se separam. Temporariamente. Definitivamente. “O caminho faz-se caminhando”, quantas vezes envolto num nevoeiro cerrado ou noite escura. Quantas vezes sem nos apercebermos que já tomámos outro atalho. Em direcções tão diferentes das inicialmente traçadas. Mas talvez o mais intrigante e inquietante, deste caminho, é que a mais inconsciente direcção poderá mudar totalmente o rumo da viagem. E a outra, deixada para traz, já não volta, e poderia ter sido totalmente diferente. Melhor? Pior? Quem sabe? Mas passou. Inconscientemente. Imperceptivelmente, ao sabor do acaso. Como uma gota de água que escorre por uma parede, para local incerto.
Este caminho é a vida e é isso que a torna tão interessante.
1.08.2007
Mecenas do nunca tentado
1.03.2007
Tempo
11.01.2006
Tarantula

"Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana"
Na teia dos meus pensamentos
percorri o passado num cálice de Porto
descendo o rio
com a brisa vagarosa da noite.
Escorreguei em espelhos de água
danças de flashs, imagens.
Derrotas mais importantes que vitórias
beijos de veludo, cumplicidades, amigos.
O passado é uma tarantula
macia ao toque, venenosa
se por lá ficamos, embalados
agarrados ao que não volta.
Passado o calor no peito.
Presente o património da memória
o futuro permanece escondido,
na teia de uma tarantula.
10.25.2006
Perspectivas incertas
Sempre me habituei a ouvir. Escutar, questionar, observar, fazem parte de mim. A realidade nunca é plana e precisa, possui sempre relevo, inclinações. Nunca é directa nem estática. Escorrega-nos, por vezes no denso nevoeiro das aparências imediatistas e conclusões precipitadas. De tantas curvas, tomamos quantas vezes, atalhos fáceis, não subindo ao cume, à mínima vertigem. Quem não quer ouvir ou se recusa falar não pode ambicionar toda verdade, pois a dualidade de perspectiva é a miragem mais certa de todas as incertezas.
10.07.2006
O tempo de um charuto
"O tempo é aquilo que dele fazemos"O tempo é, de facto, relativo. Como aliás, quase tudo na vida.
Não fumo, mas aprecio, de quando em vez, um bom charuto."O que não mata engorda", diz a voz popular, mas eu estou elegante e não será, por certo, um "Cubano" que me encurtará essa preciosidade que dá pelo nome de tempo.
Quando o fumo, sinto na perfeição a sua relatividade. Desde o corte, ao lento acender, aos travos espaçados, esticamos o tempo, quase ao infinito.
É impressionante o que percorremos ao olhar as estrelas com um bom charuto.
É bom parar a olhar as estrelas, ver o quanto somos pequeninos, no meio da sua imensidão e confundir o tempo, no tempo de um charuto.

