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1.20.2011

Tempo [de mudar o tempo]

Vive-se cada vez mais num tempo que nos foge como água nas mãos. Um tempo que é o mesmo que sempre foi mas que deixou de ser verdadeiramente nosso. Por mais conscientes ou atentos, deixámos o tempo partir. Permitimos que sumisse de solidão, de falta de conversa ou afecto, deixando-o à deriva e ao seu relógio que sussurra para todos sem se deixar ouvir.

Vive-se num tempo pelo qual passamos tantas vezes alheados das verdadeiras questões ou de nós próprios. Tantas vezes quase sem tempo para pensar ou questionar o mundo, desejos ou vontades, nesta estúpida velocidade que inventámos sem darmos conta.

Vive-se mais de idade mas viver-se-à melhor? Indubitavelmente menos, estou em crer. Num tempo que observa atónito a nossa loucura colectiva, correndo para tudo, competindo por falsas urgências ou velocidades tão vãs que acrescentam afinal tão pouco.

Vive-se no tempo dos assassinos do tempo. Num tempo sem tempo, arrastados na correnteza e carneirada, impotentes, perdidos, algures longe de nós. Por isso paremos. Paremos para pensar e para apreciar o que se desfoca na velocidade estonteante. Paremos e olhemos o tempo de frente e o tempo que nos rodeia - o que passou, o que se vive, o que virá. Paremos para dizer ao tempo que ainda é tempo de mudar o tempo.

11.11.2010

Oração

Escuta os arrepios do corpo e o balançar da ondulação
Envelhece sem a pressa de partir mas na vontade do dia que se segue
Pesa a beleza das palavra nos ecos mais simples, destapados ao silêncio
Respira fundo até teres a lua dentro de ti e mia-lhe baixinho com o calor das mãos
Nada despido de preconceitos
Pensa por ti e pensa nos outros
Ama, entrega-te e faz sorrir
Aperta o passado ao futuro para seres brindado por momentos irrepetíveis
Abraça com a força com que te dás
Agradece o saber da idade e o poder da loucura
Dorme de bem com a consciência
Apaga a luz mas mantêm-te sempre aceso para o mundo

7.17.2008

Infedilidade

Para o jogging de verão, deixei os fiéis Nike de sempre para voltar a uma velha paixão de adolescência (que já não encontrava há muito tempo). Claro que não resisti e comprei também uns para os casual days.

7.02.2008

Paquete estrelado

Este espaço vai mudar de porto. Anda demasiado “lamechas”, não tem um único palavrão e não contem palavras difíceis de pronunciar ou suficientemente eruditas. Promete-se que serão banidas quaisquer lamechices otorrinolaringológicas e permitidos os mais hediondos vernáculos vicentinos. Informa-se que serão permitidas a bordo desde marinheiras Gaultier a Estrelas de Cannes (não de Hollywood) dispensando-se apenas Provedores ou Edites. All aboard.

3.14.2008

Escapadela

Fugir. Mudar de ares. Depressa. Agora. Algures, por aí. Por parte incerta. Pouca bagagem. Uns jeans, uma camisa branca, óculos escuros, calções de praia, uma muda de roupa, i-pod, música variada, cartão de crédito e livros. Sim livros. Muitos livros. Como alimento de primeira necessidade. Pouca poesia (consome-se demasiado depressa). Desta vez homens contemporâneos portugueses: Pedro Paixão, José Luís Peixoto, Miguel F. Tavares, Sousa Tavares, Lobo Antunes (pronto um não tanto contemporâneo, mais encorpado, ideal para acompanhar um bom tinto a olhar o mar). Mar ou deserto? Ainda não sei. Logo se vê. Confio no acaso. E ambos contêm a vastidão e o silêncio que trazem a suave intimidade com o tempo. Café forte. Dias de sol. Noites frias. Um cigarro, talvez. Não muito tempo. O suficiente.

2.05.2008

Certeza

Ninguém presta à sua geração maior serviço do que aquele que, seja pela sua arte, seja pela sua existência, lhe proporciona a dádiva de uma certeza.

James Joyce



Queria a certeza. Nada mais. Exterminar a mais pequena dúvida com as próprias mãos. Por asfixia. Por ausência de espaço. Leva-las, uma a uma ao rebentar de bolha de sabão. Ao vácuo despido da certeza absoluta. Vazio. Tranquilo. Sem caminhos sinuosos. Sem cinzentos. Apenas a certeza geométrica. Preto no branco. Respirar fundo. Outra vez. Respirar fundo e enfim prosseguir.

10.09.2007

Cor de mundo novo

Apetecia-me pintar o mundo de novo
Num tom mais intenso
Denso. Propenso ao calmo contemplar
Uma cor de grito
Que fizesse parar
O distraído. O apressado. O insensível
A que ninguém fosse indiferente.
Uma cor de apreço e respeito
Maga no sussurrar das aves
Coladas ao peito

Apetecia-me pintar o mundo de novo.
Começar nas coisas simples
e nelas pernoitar
numa cor de grilo na noite fria
Destapando o cheiro da terra molhada
Uma árvore de astros e elementos
Onda em movimento
Sem arcas nem Noés
Deuses ou Moisés
Apenas cor de sonhos e afectos

Apetecia-me pintar o mundo de novo
Num tom de tigre
Insaciável por futilidades e inutilidades
Que as espremesse num sumo mais vivo
Laranja pôr do sol.
Um mundo novo
Que ao brilhar
nessa cor
Fosse de novo
Um mundo melhor

7.02.2007

Medos

Medo da morte
Medo da vida
Medo da sorte
De ficar esquecida

Medo de viajar
Medo de arriscar
de conduzir
e parir

Medo do cão
Medo do rato
da solidão
Do assalto

Medo do futuro
Medo do escuro
Do avião
ou da grande paixão

Medo do oculto
Medo de um vulto
terrorismos
e fanatismos

Medo da altura
Medo da doença
Falta de bravura
Quebra de crença

Medo do fim do mundo
Medo fecundo
Apoderando-se sem modos
De tudo e de todos

Entre os demais
Dois a reter
Medo do próprio medo
E medo de não o ter

6.21.2007

Reencontro

A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez.

Miguel Torga


Ali estavam finalmente. Um reencontro nunca foi fácil quando tanto se quer.
Tantos anos. Tantos caminhos. Tantos encontros e desencontros. Alegrias e tristezas distantes, sem nunca se perderem nos labirintos da memória.

Ali estavam novamente. Olhos nos olhos, buscando feições perdidas, de outrora, à distância de um abraço. Já agarrados, num silêncio caloroso sobre os ombros, prolongado ao limite não disseram uma única palavra mas ecoou bem alto uma voz conjunta: envelhecemos bem mas tão depressa.

5.23.2007

Curioso sentimento

Curioso sentimento
a saudade do nunca conhecido
que sussurra lento
ao ouvido

Curioso sentimento
essa saudade inexplicável
que se espalha em incenso
interior, inflamável

Curioso sentimento
Ser refém
desse invisível chamamento
de sereia d’ além

Curioso sentimento
Que leva parte de mim
Ao sabor do vento
Para local sem fim

Curioso sentimento
essa saudade de passado ou futuro
Fruto escondido mas atento
por detrás dum muro

Curioso...

3.03.2007

O caminho

Um caminho. Sempre um caminho. E opções, escolhas, direcções.
Caminhos que se cruzam, que se distanciam. Caminhos que se separam. Temporariamente. Definitivamente. “O caminho faz-se caminhando”, quantas vezes envolto num nevoeiro cerrado ou noite escura. Quantas vezes sem nos apercebermos que já tomámos outro atalho. Em direcções tão diferentes das inicialmente traçadas. Mas talvez o mais intrigante e inquietante, deste caminho, é que a mais inconsciente direcção poderá mudar totalmente o rumo da viagem. E a outra, deixada para traz, já não volta, e poderia ter sido totalmente diferente. Melhor? Pior? Quem sabe? Mas passou. Inconscientemente. Imperceptivelmente, ao sabor do acaso. Como uma gota de água que escorre por uma parede, para local incerto.
Este caminho é a vida e é isso que a torna tão interessante.

1.08.2007

Mecenas do nunca tentado

"Uma das grandes lições da vida é que os tolos às vezes estão certos"

Winston Churchill


Erre e volte a errar
Nunca desista
sem antes tentar.
Vibre. Persista

Sorria ao impossível
pois nunca é tarde para sonhar
Tudo é simples, exequível
Basta apenas acreditar

Troque verdades absolutas
pelas coisas mais loucas
e aos derrotistas
faça orelhas moucas

Pisque o olho ao nunca tentado
Vá em frente. Exprimente,
Seja ousado
mas nunca indiferente

E já agora, não fique apenas
neste mundo cinzento
Divirta-se como mecenas
em todo e cada momento

1.03.2007

Tempo

Pendurado no tempo toquei o deserto areoso do óbvio para me vir perder em mares de impossíveis. A relatividade do tempo é sobretudo o que dele fazemos.

11.01.2006

Tarantula


"Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana"

Marguerite Yourcenar


Na teia dos meus pensamentos
percorri o passado num cálice de Porto
descendo o rio
com a brisa vagarosa da noite.

Escorreguei em espelhos de água
danças de flashs, imagens.
Derrotas mais importantes que vitórias
beijos de veludo, cumplicidades, amigos.

O passado é uma tarantula
macia ao toque, venenosa
se por lá ficamos, embalados
agarrados ao que não volta.

Passado o calor no peito.
Presente o património da memória
o futuro permanece escondido,
na teia de uma tarantula.

10.25.2006

Perspectivas incertas

Sempre me habituei a ouvir. Escutar, questionar, observar, fazem parte de mim. A realidade nunca é plana e precisa, possui sempre relevo, inclinações. Nunca é directa nem estática. Escorrega-nos, por vezes no denso nevoeiro das aparências imediatistas e conclusões precipitadas. De tantas curvas, tomamos quantas vezes, atalhos fáceis, não subindo ao cume, à mínima vertigem. Quem não quer ouvir ou se recusa falar não pode ambicionar toda verdade, pois a dualidade de perspectiva é a miragem mais certa de todas as incertezas.

10.07.2006

O tempo de um charuto

"O tempo é aquilo que dele fazemos"

Slogan da Citizen


O tempo é, de facto, relativo. Como aliás, quase tudo na vida.

Não fumo, mas aprecio, de quando em vez, um bom charuto."O que não mata engorda", diz a voz popular, mas eu estou elegante e não será, por certo, um "Cubano" que me encurtará essa preciosidade que dá pelo nome de tempo.

Quando o fumo, sinto na perfeição a sua relatividade. Desde o corte, ao lento acender, aos travos espaçados, esticamos o tempo, quase ao infinito.

É impressionante o que percorremos ao olhar as estrelas com um bom charuto.
É bom parar a olhar as estrelas, ver o quanto somos pequeninos, no meio da sua imensidão e confundir o tempo, no tempo de um charuto.

Assíduos do shaker

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