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6.09.2013

Perdi tanta memória




O silencio é um copo de vidro, tombado por um dedilhar sem pé. 
Fica oscilando com a luz, o encanto frágil das imagens, nadando livres mas amordaçadas. 
Vão e regressam, intermitentes, nas suas longas asas, pesadas. Diluindo as rugas da folha amarrotada para confiscar ao mundo fragmentos de uma frase perdida. Sem eco, sem repetição. 
Partiu-se o silêncio. Morreu. Paz à sua alma.

2.22.2013

Peso indelével


Há poesia a assentar
por dentro do corpo
Quente
Calada
Revirando elíptica 
num remoínho d'água
Escapando aos dedos
Pesada 

10.13.2012

Vida[s]

O que é afinal a vida? O que é? O que foi? O que será ou pode vir a ser? Numa vida há muitas vidas, próprias, alheias, presentes, passadas e futuras. Numa vida há muitos estados, estágios, coisas importantes e pequenas coisas que pareciam insignificantes na altura e que no entanto ficam presentes por toda uma vida. Uma pedra no meio de um bosque distante onde nos sentámos um dia e nunca mais regressámos a um pensamento que foi só nosso, um sorriso, uma noite límpida, um livro devorado pela noite dentro, um dia de sol. Um poema amarrotado, uma garrafa partilhada na companhia de amigos. Um beijo roubado, uma carícia. Um abraço apertado, uma vitória suada, uma corrida terminada. Um desgosto de amor. Um observar o mundo que nos rodeia, um grito do Ipiranga, uma noite ao relento com céu estrelado. Fotografias gravadas na memória. Um livro escolhido a dedo, dedicado. Uma refeição cozinhada com carinho. Uma piada inteligente recebida ao acaso. O amor de uma mãe. O entregar do coração, do corpo, do mais fundo que existe em nós. O adormecer de um filho que se observa horas a fio. O viajar porque é preciso, o regressar porque te amo. O partir de um vidro com a mão. A dor que se guarda sem transparecer. A surpresa, a descoberta. As saudades de quem partiu. Os lugares secretos onde se gosta de regressar de quando em vez. As cartas escritas deixadas na gaveta. O cão, o gato. Uma frase lida que se sente nossa. A exposição que nos deixa imóveis. Os arrepios. O mar que nos ondula, a chuva na pele. O começar de novo. O que não se esquece. O momento irrepetível, o déjà vu. O mistério da própria vida, o deserto, a multidão. Uma casa de pedra com uma árvore no telhado. O caminho sinuoso, o guiar de noite. O velho blusão de pele, a T-shirt branca. Uma música nova que mexe comnosco. Um piano afinado a ecoar pela sala. A 7ª Sinfonia do Beethoven a estremecer. O cálice meio cheio e o outro meio vazio. A esperança roubada. A vontade de tentar de novo. Os teus pés frios a procurar os meus. O barulho da fogueira ateada. O movimento de uma anémona no aquário azul de perder de vista. O balão de ar quente a levitar do mundo. As rugas que sempre hão de contar uma história. As minhas mãos nas tuas, o teu pescoço. Um nome antigo, que já não existe. A sonoridade de certas palavras. O dois cavalos amarelo com a capota aberta e a areia da praia espalhada pelo tapete. Um cigarro no pátio das buganvilias. O pássaro que vinha de noite bater à janela. O colega da primária que morreu de overdose muitos anos depois de o saber. Um olhar em silêncio, meros segundos tornados horas. Os dedos minúsculos apertados no nosso dedo. O teu respirar. O sabor das cerejas, as castanhas quentes a queimar as mãos. O ovo estrelado às altas horas da noite e os ovos mexidos ao pequeno almoço. O dormir todo nu. O adormecer exausto, o acordar dum novo dia. O meu irmão miúdo a correr do enxame de vespas depois ao ir buscar a bola. O carro velho coberto de figos maduros atirados de cima da árvore. Os passeios infindáveis com o Avô. A palavra sincera mas mal medida. A crítica construtiva. O pensamento livre. O que é a vida afinal? Há muitas vidas dentro de uma vida. O que será que está ainda por vir?

* Pela primeira vez sem imagens por ter tantas [mais as que aqui não estão]   

10.04.2012

Black cat


Há dias que nos desiludem. Deixam-nos estranhos, ao abandono do corpo que não sentimos mais nosso. Ali, de dedos cortados rentes para o mundo. E uma espécie de bando de pássaros negros, teimando em nos asfixiar de qualquer poema, de qualquer melodia, num frenesim indecifrável. Há dias que nos desiludem. Que puxam o som para baixo de água, entregando aos lábios um eco vasto, vazio. Deixando nos rostos uma nitidez mais pálida, lenta, quase fotográfica. Ali, diante dos olhos calados na sombra, observando o corpo de fora, como um fantasma que já partiu. Algures, distantes, como uma doença que não se sabe ter mas ficou.

4.16.2012

We


O que te torna único? O que levas sempre contigo debaixo das pálpebras? O que te rouba uma lágrima ou um sorriso? O que te faz correr sem queres parar? O que guardas da leveza de uma imagem, irrepetível? O que te dissolve na brisa nocturna? O que te ondula no olhar e te agita no silêncio? O que te arrepia a pele ou te embala a dor? O que te une a alguém? O que te separa? O que desenhas com os dedos num traço invisível? O que te sussura a lua e os ecos das palavras? O que te amarra ao instinto? O que descobres para fazeres teu? O que atas a uma pedra e deixas afundar? O que vale uma vida? O que lhe entregas de ti? 

2.20.2012

Precisão

Começar é preciso
Acabar é preciso
Derivar Levitar Cair Levantar
Desafiar a dúvida é preciso

9.24.2011

C minor


Dá-me a música dos teus dedos
Nadando nua p´los meus sentidos
Trazendo a noite esguia nos cabelos
e a tempestade forte que arrepia

Dá-ma e foge
em seda, em dança à chuva aluada
pois nela te trago ao ouvido
pois nela corro para ti

6.18.2011

Uma vida e uma palavra

Se não fosses tu quem abriria os espelhos?
aconchegando barulho da chuva aos lençois

Se não fosses tu quem inventaria este mar?
de todas as cores, de todas as vontades

Se não fosses tu quem distrairia a noite do seu silêncio?
p'ra ser mão e gemido suspenso na saliva

Se não fosses tu onde assassinaria esta saudade?
Infinita, onde todos os relógios avançam e depois o mundo submerge

Talvez numa vida...
Uma vida e uma palavra

5.03.2011

A palavra mais simples

A água quente cai com o mesmo barulho que a água fria e a sombra de todas as cores esconde-se num mesmo eco trémulo e vagaroso, que afugenta a matéria do olhar dando-lhe voz. Diluí dos objectos uma certa ferrugem macia, invisível talvez de improvável. Quase impossível, de tão distante do toque mas de passos tão chegados.

Os sussurros da noite são sempre um mistério indesvendável, assim como as tuas mãos que resgatam o calor do sol, aquecendo mais a alma do que a própria pele. Não sei nada para além do que sinto. Será muito ou pouco? Não sei. As crianças é que têm sempre a razão, até porque ela só nasceu adulta para tudo estragar.

Ando tantas vezes, assim, entretido à conversa com o silêncio, fazendo nascer palavras no ventre, que gatinham pelo seu próprio pé até à boca, até não se poderem mais suster. Até perderem o pé no meu corpo e nadarem, livres, para ti. Deixo-te, desta vez uma, colada na saliva de um beijo, ao ouvido. A que tu já sabes de tanto ta dizer de tantas formas. A palavra mais simples mas que apenas a ti te pertence.

3.02.2011

Inside

Saudades de tropeçar num texto longo ou em algo alto, invisível ao olhar, viajando algures dentro de mim, longe de tudo, envolto dum tempo tépido sem pressa de me arrancar de lá.

2.07.2011

Inside


Massive Attack, Sam

Onde sentes a alma? Na cabeça? No peito? Em frio ou calor? Abraçada, por dentro, na quietude mais fina e tranquila ou num movimento de nuvem irrequieta? Onde sentes a alma? Quanto mostras do que dela mora em ti?

10.05.2010

Crescer

Crescer,
no sábio vaguear d'uma árvore
para que dos meus ramos de silencio
ecoem frutos bravos
vermelhos de sumo e de sol
Onde, quem os quiser colher
tenha em si a vontade de morder por dentro
e de partir no cantar dos pássaros
Onde, quem vier sinta o conforto
de poder adormecer à sua sombra

6.15.2010

Nos teus olhos


Madrugada, Only when you're gone


Despes-me com as palavras que guardas por detrás dos teus olhos. Não chego a perceber se as conheces bem ou se as afastas por um medo antigo qualquer, mas não preciso de ouvir a tua boca para te sentir. Dela, emanas os seus ecos frágeis e brilhos infinitos, no rasto húmido de um beijo ou num toque de mãos demoradas, que deixam velas acesas pelo corpo quando te vais. Não me canso de olhar para ti. Falamos sempre tanto. Tanto, sem nada precisarmos de dizer.

5.26.2010

A neve e a caixa de música

Cai neve e a caixa de música toca devagar. Acumula-se fina, nos ombros da memória, sem ganhar peso ou consistência, enquanto a corda estica, desenrolando o que ainda resta do tempo, perdendo a força dos dias passados, apagando o calor da melodia num sopro mais frio. Parou de nevar e a caixa de música, já calada também, preserva um eco ao ouvido.

4.29.2010

Então?

Foi um "então?" lento e demorado. Daqueles inocentes mas profundamente genuínos, que não se esperam, que não se podem quebrar com nenhuma palavra. Que antes se apertam, em silêncio contra o peito, adiando a resposta na dança do seu som. Daqueles que apetece tirar a roupa e entrar. Esticar, esticar ao limite, dissipando o carinho morno e sedoso por todo o corpo. Daqueles que nos abraçam com os dois braços, num eco espraiado na pele. Foi um "então?" enrrolado em muitas coisas, nuns breves segundos: ondas de mar, sotaque de anjo mau, criança atenta, gato, suspiro, música, varanda com nevoeiro, nuvem a viajar ao vento, sorriso, poema. Tudo isso nessa simples pergunta: tão simples, tão lenta, tão tua.


4.02.2010

Aperto

A noite é fria
mas existes tu

Depois queimamos
fogueiras, devagar

Permaneces
para além do abraço

Num aperto que mia
por baixo da pele

3.07.2010

Silêncio fino

Há silêncios que doem. Que custam, mas que, às vezes, são necessários acorrentar. Há silêncios que ferem, todos os dias, na espera, na ausência. Que afagam ásperos, por dentro, que diluem tatuagens profundas, entranhadas, que nos retiram a pele, deixando-nos em carne viva. Há silêncios que nos apetecem quebrar desde o primeiro segundo, que não se libertam apenas por agrafarmos a boca ao peso do corpo. Há silêncios que podem matar devagar, que entram como punhais e vão abrindo uma ferida, que teima em abrir, abrir, por mais que a agarremos com força, por mais que tratemos dela com imagens, cheiros, memórias. Há silêncios que fazem ecoar mais as saudades, que tocam como sinos, que se deseja que uma palavra as estilhace, as dissipe para longe. Há silêncios cujo mel tarda em amolecer uma garganta rouca de chamar invisível, rouca de nada mais poder dizer. Há silêncios que quase enlouquecem de se saberem sem sentido dentro do sentido que os originou, dentro do sentido que possam ter tido. Um sentido que só o tempo resgatará ou dará perspectiva, um tempo que pode vir tarde de mais. Há silêncios que são contranatura, que apenas se obtêm a ferros, à força de muito contrariar o corpo e a alma, amarrados a âncoras que nunca se tiveram, que nunca existiram, impostas. Há silêncios que fazem falta, talvez, mas o que lhes está por trás ou pela frente faz muito mais falta. Há silêncios que podem deitar tudo a perder, se durarem tempo demais na busca da ferrugem da dúvida e da racionalidade [a que sabe a chuva? A que cheira o vento? Porque chama a lua? Porque partimos com o mar? Somente o corpo limita, cá dentro existe tudo, sem explicações]. Há um silêncio de comboio nocturno, que parte, e de barco à vela que tarda em chegar, naufragando nas horas, à deriva nos minutos, erguendo um braço afogado para acenar no nevoeiro dos dias, no salpicar das ondas, comigo por trás da chuva. Há um silêncio que suspira, que sussurra ao ouvido a chamar as cores para o seu lugar [onde as mãos se desprendem por momentos e tardam em retomar a posição]. Há um silêncio longo demais, limpo e longo, até ao fim do mundo, enlaçando-se num nó apertado, à espera que se levantem as pombas brancas, num beijo, num olhar, que dispense qualquer palavra, num outro tipo de silêncio. Há um silêncio que inventa distâncias onde nunca existiram, que cose o medo e a incerteza à roupa que tarda em despir. Há um silêncio que não nos consola, que não nos pertence. Há um silêncio que nos derrota entre o cimento que asfixia [e as mãos novamente à procura uma da outra, de novo de mãos dadas, na imaginação, não partindo, suspensas nesse silêncio]. Há um silêncio de malas por encher, arrastadas com peso de ar, sem substância, com migalhas para os pardais. Há um silêncio com corredores escuros, com fantasmas e cheios de nada, com uma janela para abrir de par em par. Um silêncio de manto espesso que tenta asfixiar o que ilumina as salas com dedos de poema. Há um silêncio que afasta o litoral da tua boca, que arrasta na corrente. Há um silêncio que arranca as pétalas mas não desfalece o aroma que mora no coração das cerejas. Há um silêncio de cabelos entrelaçados com o vento, impossíveis de afastar de tão enraizados. Há um silêncio pensado que diz não estou quando alguém bate à porta. Um silêncio de dias cinzentos que me debotam de cor e calor. Há um silêncio de espuma a rebentar nas rochas de tanto chamar. Há um silêncio cujo relógio marca outra hora, ontem, agora, que suplica um já [uma barreira calada que espera ser acordada por um grito de gaivota, por um raio de sol]. Há um silêncio de sonata adiada, de madrugada não dormida por não querer acabar. Há um silêncio que ama as palavras guardadas, ainda por dizer. Um silêncio de ave assustada do coração, de sede inesgotável, de cama vazia. Há um silêncio que deixa sempre uma fresta, uma nesga, um túnel que nunca se fecha, uma ponte para seguir o rasto [sabes? os meus olhos, és tu que tens nesse silêncio, e a tua pele? é minha, não ta devolvo]. Há um silêncio de canteiro de jasmim, que fica preso numa textura, na ponta dos dedos, num paladar. Há um silêncio que não sabe o que fazer com as palavras que sobram, com as praias que ainda não vimos, com o que ficou por fazer. Há um silêncio que não é nosso, que nunca morou entre nós.

2.10.2010

Perguntas


Quem somos, de facto? O que nos define? O que nos torna únicos? O que damos relevo, ou queremos, mais do que tudo? O que nos faz ter certezas inabaláveis? O que nos apresenta numa só frase ou numa imagem que perdure por muito muito tempo? De que matéria somos feitos? Que mistura de água, terra e fogo? Em que estado? Em que estágio? O que nos molda alma e sentidos? O que nos flui e o que aprisionamos? Em que momento o conseguimos aferir com a devida nitidez, com a devida distância? Quantas certezas moram dentro de nós? Quanto tempo precisamos para o saber, para o sentir? Um longo período, pensado e mastigado, ou em flashs casuísticos imprevisíveis e impossíveis de controlar? Quantas vezes nos vemos verdadeiramente "nós"? Nós, verdadeiramente... sem filtros, máscaras ou falsos agrados a expectativas alheias, sem pequeninos grãos de areia ou ínfimas mentiras que, tantas vezes, pregamos a nós próprios, que nos chegam quase a convencer, sem passados ou futuros, sem antes ou depois? Nós - eu e eu, tu e tu, aqui, agora! - Quantas vezes? Quantas vezes fomos ou somos verdadeiramente o que somos? O reflexo da imagem que sentimos dentro de nós? Quantas vezes conseguimos ser vistos assim, pelos outros? Quantos nos conseguem ver assim? Quem somos, de facto? O que trazemos do berço e manteremos até morrer? O que descobrimos, todos os dias, que nos vai assentando e tornando parte de nós? O que nos faz mudar ou iniciar um caminho, saber querer dar mais um passo, escolher uma direcção? O que nos prende, às vezes ao solo, tendo em nós todos os conceitos, todas as vontades, todas as asas e certezas? O que sabemos realmente de nós? Quantas vezes escrevemos ou dizemos o que queremos realmente ser ou como gostaríamos de ser recordados após desaparecer? Quantas vezes pensamos nisso, conscientemente? Quantas vezes decidimos tentar? Quantas vezes?

11.04.2009

Destino


Que a música nunca me abandone. Que as imagens fervilhem cores, nunca vistas, e guardem cheiros. Que dancem com ela. Que levitem sentimentos à flor da pele, sem nunca os questionar ou deixar cair. Que gestos e silêncios consigam falar alto. Que o coração palpite e que do escuro renasçam luas de prata. Magnéticas de água e poesia. Que os dias pareçam pequenos e as noites frágeis infinitos. Que as mãos tenham caricias e força para lutar. Que ecoem sorrisos e se recordem algumas lágrimas. Que se aprenda sempre e ensine algo. Que este estranho mundo valha a pena ser vivido para ser contado. Que acabe de repente, sem estar à espera. Quando tiver de ser. Quando o destino chamar.

10.30.2009

O reflexo das cores

O mundo é tão diferente quando visto deitado para o céu. Mil pensamentos deambulam, fugindo como nuvens. Diluindo-se no som dos pássaros ou na frescura da relva mas ficando, sem pressa, numa leveza frágil vinda de um lugar estranho, talvez esquecido.

Os ramos das árvores despidas, acenando ao vento. Diluindo a sua teia de finas ramificações pelas artérias e veias. Trespassando o próprio corpo, descendo até às raízes mais fundas, cravejadas na terra. Criando um elo de respiração. Uno. Um pulsar consanguíneo. Um fechar de olhos mais demorado, absorvendo o frio da terra e o calor do sol numa tinta invisível, derramada, à deriva no corpo.

E um mar das coisas vividas a ecoar ao ouvido. Coisas que vi. Que conheci. Num mundo onde tudo parece estar já escrito, onde tudo parece ter que ter um sentido, uma certeza. Adormeço feliz. Guardo espumas e reflexos.

Assíduos do shaker

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