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4.25.2010

Igual não... parecido

O meu primeiro carro foi um destes: velhinho, velhinho. velhinho, mas devidamente restaurado e pintado com uma cor viva, quente e alegre. Ainda hoje tenho saudades dele: das viagens de capota aberta, óculos escuros e vento no cabelo, das parvoíces do trio vocal habitué [de pé, no banco de trás, a cantar o "nós somos Duarte e Companhia", de conduzir de pés descalços e dos bancos cheios de areia das toalhas de praia espalhadas, da valente amolgadela no capô por um dos tais habitués se ter achado super elegante para se sentar por lá, de me esquecer de pôr gasolina por parecer nunca se gastar, do abrigo mais quentinho de sempre [molhado até aos ossos] à saída da primeira e última festa da espuma a que compareci, e de tantas outras histórias que ficaram tatuadas e gravadas na memória. Ainda hoje viro o olhar quando vejo passar um igual. Igual, quer dizer... parecido.

3.09.2009

Bico de Lacre

Recordar-se-ia, para sempre, do seu aroma quente e delicado de romã. Exótica, com uma suavidade madura e sumarenta. Que permanecia no sangue e alucinava. Guardá-la-ia no chilrear subtil dos despertares sonolentos. Demorados. Num nome de pássaro simples. Numa bicada funda, lacrando, na memória, as asas do desejo.

2.28.2009

Mágicos recantos

Mágicos recantos d'água e luz. Duma paz cálida, ondulando em vagens de silencios. Mágicos recantos de ruas de carvão, adormecidas num preto e branco de árvores despidas. Mágicos recantos de casas antigas, apalaçadas, que entranham histórias nos poros da pele. Mágicos recantos nocturnos. Fugidos do tempo. Fugidos de tudo, de todos. Mágicos recantos duma cidade deleitada em me aprisionar o olhar. Guardando seus quadros vivos, amarinhando por mim, como as tuas mãos frias. Que sempre me embalam, também. Que sempre me aquecem.


Desculpa-me o dia mau. Obrigado por me revelares esses mágicos recantos.
Um beijo imenso. Do tamanho do Douro. Com vista do Bogani.

11.28.2008

Bar aberto

Este espaço esteve encerrado uma semana. É curioso como pode ser muito tempo uma semana. Teve, não a morte anunciada [pois alerto quero morrer de repente sem despedidas], mas uma paragem meditada e decidida. Por longo tempo. Por tempo indeterminado. Talvez para sempre. Por um propósito descoberto. Por um fechar de ciclo.

No entanto um novo propósito foi descoberto. Rápido e surpreso. Como as melhores coisas normalmente acontecem. Recentemente li também, num blog por onde passo, que estes espaços não se deviam fechar, podiam ter pausas [isso sim], mas não deveríamos “matar” parte de nós. Em certa parte concordo e ajuda a reforçar a ideia.

Continua, no entanto, a ser válido tudo o que disse. Não gosto de incoerências, apesar de também as cometer. Faz parte da imperfeição humana que gosto de ter. Continuas a fazer parte dele. A ser teu, por direito próprio [pelo menos até ao post anterior]. E continuarás, por certo, a estares diluída nalgumas passagens, nalguns quadros ou cores, cheiros ou sonoridades, pois continuas a correr-me no sangue.

No entanto quiseste que continuasse por aqui e encontrámos uma forma de o poder fazer. De me sentir em paz. Obrigado por isso.

Volta assim o Dry-Martini, agora com um primo mais novo, Gin-Tónico, que manterá os seus contos, quem sabe se com a colaboração de alguns dos leitores mais assíduos. Quem sabe se com novos propósitos ainda por descobrir. Rápidos e surpresos. Como gosto.


Façam o favor de ter um bom fim-de-semana.
XinXin

10.26.2008

O Quadro

Os teus olhos passarão a visitam-me todas as noites como luas de prata. Falando naquele brilho silencioso do embalar calmo das águas. Que descobrimos morar em nós. Milenar. Roubando as horas ao tempo. À meia luz.

Com eles passeiam mil frases soltas. Descalças. Ligadas numa imagem, num cheiro, num beijo que se prolonga, revelamdo-se apenas aos poucos. Frases e gestos despidos de preconceitos. Duma intimidade cúmplice. Que fere de assombrosa. Preenchendo todos os poros d’alma sem verter uma única palavra.

O toque da tua pele pelas minhas mãos famintas. A firmeza do teu corpo. Os contornos e contrastes. Os sinais que baptizei como estrelas. O teu cheiro venenoso. Os quadros pintados. Guardados na galeria mais funda de mim. Cravados. Iluminando tudo.

Amámo-nos como tinta em papel. E agora estás entranhada na minha pele. No meu respirar. Na minha sede.

7.25.2008

Doença

Ouvia os ponteiros de Kronos há muito. Matemáticos, como um bater de asas, aos ouvidos. E os longos véus da doença e da desgraça, sacerdotisas do mal, acenando-lhe. Pairando-lhe à vista como leques lentos. Era-lhes, no entanto, completamente indiferente, enfrentando-os sem temor. Sem expressão. Como quem passa por uma fera assustadora, não lhe mostrando a mínima fraqueza. Com a certeza, porém, de que nunca lhes poderia ganhar. Era apenas um adiar duma viagem, que sabia já marcada.

E assim se passaram alguns anos. Naquela ambígua cumplicidade de vivência distante e, no entanto, tão próxima. Até que, numa manhã de inverno, o cansaço estendeu-se-lhe como uma massa fina. Aos poucos, sem se aperceber. Em camadas quase transparentes, inotáveis. Dia a dia. Com a lentidão veloz dum cancro fatal. Ramificando tudo em redor com a sua farinha seca e sem cor. Pó indiferenciado. Cinza, onde nada mais se edifica ou constrói.

Dos campos outrora verdes tudo sufocara num amarelo desértico. Calado, pelos ainda segundos metálicos, mais ténues, como um eco a esvair-se. Eis que o corpo já não obedece à vontade e parece distante. Uma leveza sublime disperta. Como que um papel queimado que se levanta no ar. Algo paira envolto nos ditos véus que se misturam num todo e levitam.


Em memória de alguem que já partiu e sempre me faz falta.

6.22.2008

Fotografia daquele jardim

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.


Sophia de Mello Breyner Andersen

7.12.2007

Um sorriso teimoso

Uma casa
Quando a pedra é Douro
Pingando música
A nadar ao luar
Nua mas não tua

Uma noite
Quando a lua é companheira
De lentos desalentos. Revoltos
Envoltos em seda antiga
Suave cantiga

Um cansaço
Quando o gato é persa
Negro espreguiçar
De pores-do-sol
Escondidos. Teimosos

Uma lágrima
Quando a batuta. Astuta
Aponta finalmente para o futuro
E a transforma em água
Lagos de sorrisos esquecidos



Para a Rosselini se esquecer, às vezes, da Isabela

6.01.2007

Amora morena

A tempestade de areia parecia ter aumentado à chegada. Exaustos, da longa caminhada, tinham vencido o deserto inóspito. Um calor abrasador, de delírios dantescos, escorria pelos corpos bronzeados. Avistava-se, a custo, a entrada do templo. Imponente.

À medida que entravam um silêncio profundo entranhava-se nos ossos, protegido do exterior por espessas pedras alinhadas, corroidas pelo tempo. Os animais assustados recusaram entrar. Já a pé avançaram pequenos e observados por figuras gigantes de Deuses animais. Tudo parecia colocado a régua e esquadro, no local exacto, como se não existisse alternativa possível, na imensidão de hieróglifos espalhados pelas paredes.

Olhando em redor, abandonado pelos membros da equipa, que se concentravam num par de sarcófagos de tonalidade turquesa e dourada, presentia que o maior tesouro não estava ali. Sentia-o desde a chegada. Fechava os olhos e era como se voasse algo em seu redor. Beleza colorida em movimento, deixando um perfume indiscritível.

Abriu os olhos, de repente, com a passagem de um escaravelho que avançava lentamente, como que à sua espera. Seguiu-o, dirigindo-se para um recanto mais escuro, quase invisível ao olhar. À medida que se aproximava o aroma era cada vez mais intenso. Laivos de Sol ansiosos e uma tranquilidade de Nilo correndo para si.

Na total escuridão esticou a mão e sentiu uma folhagem alta. Invisível, de textura aveludada. Percorrendo-a numa caricia fecunda, parou num pequeno fruto carnudo. Ao arrancá-lo, trazendo-o para a luz, uma pequena amora morena surgia inocente mas sábia. Numa trajectória de astro colocou-a na boca. Ao trincá-la todo o templo estremeceu de cor. Deuses dançando aos ventos do Suão. Mil séculos de saberes ancestrais giraram num segundo. Sementes brotaram, nas margens férteis do Nilo e árvores cresceram em pássaros. Morte e nascimento de mãos entrelaçadas. Faraós e multidões de sentidos. Nunca sentidos.

Amora morena sabes-me bem. Tu tens um cheiro, que mais ninguém tem.


Inspirado numa música do Jorge Palma dedicado a uma escaravelha que se esconde sempre no escuro

2.06.2007

Scarlett

Escarlate lilás
Que vento traz
essa cor
de silvestre calor?

Pintura e retrato
no teu fato.
Magenta, carmim
em pós de perlimpimpim

Violenta
Violeta
Framboesa
Camponesa

És borrão de tinta
Que finta
tempo e espaço
num só abraço

Escarlate lilás
Que vento te traz?
És rosa de vinho
que não é sangue nem espinho

12.21.2006

A minha sereia

A minha sereia ainda não canta mas encanta como ninguém.
Fala na vóz dos peixes e respira sol no olhar. Suas lágrimas são meu mar, seu sorriso a vela esticada que rasga horizontes. Sua fome é minha sede, suas mãos meu alento. Na sua pele, o calor da areia fina. No seu buzio a paz dos anjos.

Não sei o que pensa a minha sereia, mas sou naufrago, prisioneiro do seu olhar.

12.05.2006

A hora do lobo

Espero por ti
na hora do lobo
quando as
nossas sombras são iguais

Luis Represas


Na nossa hora
alcateias de palavras,
juntas,
para saciar
uma fome voraz
Pela densa floresta
desbravam caminhos
deixando pegadas na neve

Na nossa hora
escalam montanhas
e, na despedida,
apenas um eco
esbatido
dum uivo
que como feitiço
se faz luar


Para uma feiticeira que se fez lobo na hora certa.

11.06.2006

Deusa grega

Pelo teu salto
subi à brancura das nuvens
para te trazer de volta
em passadeira vermelha.

Deusa Grega,
a forma do teu sapato.
Prada que se fez prado
numa tacada de golf.

Bola incandescente
a perder de vista,
na inquietude
das nossas conversas.

10.16.2006

Blue bird

Voou de repente, sem nada o fazer prever. Com uma alegria de criança a correr na praia misturada com o dissipar de uma dor espessa, rochosa, que se agarrara à sua alma veranil como um mexilhão, tornando-a inverno.

É quando menos se espera que tudo fica claro, e nesse preciso momento via o horizonte, em toda a sua plenitude, sem núvens, ruído. Apenas o seu bater de asas, há muito presas no passado.

Acordas-te ao ritmo flamenco do bater das palmas, num tango com cores de Almodovar, que te vive no sangue e, nesse ápice, que nos afasta a cegueira, fizeste-te azul, de pássaro a voar em liberdade.

Para a gotinha de água que se tornará pássaro mais cedo do que julga.

10.01.2006

Arranha céus

Era uma vez uma arquitecta. Não uma arquitecta qualquer.
Estou a falar da arquitecta que arranha céus com os seus poemas.
Era modesta, esta arquitecta, e nem sei, ao certo, se alguém se apercebia da altura dos seus poemas.

Se fossem dela, as twin towers, não haveria avião que chegasse aos últimos andares e o museu guggenheim poderia ter a mesma forma bizarra, moderna e ousada, mas não seria em Bilbao, porventura, na Lua.

Gostei de conhecer uma arquitecta capaz de ultrapassar as margens da folha de papel e sem vertigens, apenas um pouco modesta. Mas como vos disse, não é uma arquitecta qualquer. É a arquitecta que arranha céus, com os seus poemas.

Perdoa-me mas não resisti a partilhar...


Faz
De mim a tua tela,
Pinta-me
Com as cores
Com que o meu ser
Se esbate,
Traça em mim
A alma da tua arte.

Dá-me traços
Curvos e longos
Rectos ou escassos,
Dá-me perspectivas
Pontos de fuga
Breves espaços.
Serei abstracta
Ou digna do puro realismo?
Indiferente!
Pinta somente,
Compõe em cinco actos
O meu surrealismo.

Faz
De mim a tua tela,
Faz
De mim o teu teorema.
Eu farei de ti o meu poema.



M.

9.19.2006

Café em Coimbra

"A realidade é a cores mas o preto e branco é mais realista"

Wim Wenders

O dia acordou cedo. E a sede do descobrir reclama um café.
Escuro, forte, amargo ou doce, conforme os dias.
Mas sempre o aroma intenso e o ritual da dança dos dedos sobre as palavras.
Um cigarro que se fuma, pausadamente, entre os pensamentos.
O olhar que se prende a uma fugaz banalidade, na rua ainda despida.
A sua cor é a dos estudantes, mas branco é o veleiro dos seus sonhos.
Saudades e tristezas vêm à tona, de quando em vez, como golfinhos a respirar, no travo de cada gole. Mas logo a gargalhada de criança, voa alto e aquece o companheiro de mesa.
Acabou o café, o jornal, a conversa. Coimbra tem mais encanto na hora da despedida.

Para a Joana nunca dizer que não a conheço.

9.17.2006

A fada

"Seek the wisdom of ages, but look at the world though the eyes of a child". Para a menina que me desviou o olhar e me lembrou os contos de fadas...


Branca.
Descalça.
Pé ante pé tocava o chão
como gotas de orvalho.

E o seu sorriso
de dentes de leite,
ofuscava
de tanta luz.

A sua dança
era como a brisa.
Passava
e fazia festas.

Sardas estreladas
Olhos de infinito
Inocência imaculada
de amendoeiras em flor.

Neve
Lua
Branca
Fada.

Assíduos do shaker

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