
4.25.2010
Igual não... parecido

3.09.2009
Bico de Lacre
2.28.2009
Mágicos recantos
11.28.2008
Bar aberto
No entanto um novo propósito foi descoberto. Rápido e surpreso. Como as melhores coisas normalmente acontecem. Recentemente li também, num blog por onde passo, que estes espaços não se deviam fechar, podiam ter pausas [isso sim], mas não deveríamos “matar” parte de nós. Em certa parte concordo e ajuda a reforçar a ideia.
Continua, no entanto, a ser válido tudo o que disse. Não gosto de incoerências, apesar de também as cometer. Faz parte da imperfeição humana que gosto de ter. Continuas a fazer parte dele. A ser teu, por direito próprio [pelo menos até ao post anterior]. E continuarás, por certo, a estares diluída nalgumas passagens, nalguns quadros ou cores, cheiros ou sonoridades, pois continuas a correr-me no sangue.
No entanto quiseste que continuasse por aqui e encontrámos uma forma de o poder fazer. De me sentir em paz. Obrigado por isso.
Volta assim o Dry-Martini, agora com um primo mais novo, Gin-Tónico, que manterá os seus contos, quem sabe se com a colaboração de alguns dos leitores mais assíduos. Quem sabe se com novos propósitos ainda por descobrir. Rápidos e surpresos. Como gosto.
Façam o favor de ter um bom fim-de-semana.
10.26.2008
O Quadro
Com eles passeiam mil frases soltas. Descalças. Ligadas numa imagem, num cheiro, num beijo que se prolonga, revelamdo-se apenas aos poucos. Frases e gestos despidos de preconceitos. Duma intimidade cúmplice. Que fere de assombrosa. Preenchendo todos os poros d’alma sem verter uma única palavra.
O toque da tua pele pelas minhas mãos famintas. A firmeza do teu corpo. Os contornos e contrastes. Os sinais que baptizei como estrelas. O teu cheiro venenoso. Os quadros pintados. Guardados na galeria mais funda de mim. Cravados. Iluminando tudo.
Amámo-nos como tinta em papel. E agora estás entranhada na minha pele. No meu respirar. Na minha sede.
7.25.2008
Doença
Ouvia os ponteiros de Kronos há muito. Matemáticos, como um bater de asas, aos ouvidos. E os longos véus da doença e da desgraça, sacerdotisas do mal, acenando-lhe. Pairando-lhe à vista como leques lentos. Era-lhes, no entanto, completamente indiferente, enfrentando-os sem temor. Sem expressão. Como quem passa por uma fera assustadora, não lhe mostrando a mínima fraqueza. Com a certeza, porém, de que nunca lhes poderia ganhar. Era apenas um adiar duma viagem, que sabia já marcada.
E assim se passaram alguns anos. Naquela ambígua cumplicidade de vivência distante e, no entanto, tão próxima. Até que, numa manhã de inverno, o cansaço estendeu-se-lhe como uma massa fina. Aos poucos, sem se aperceber. Em camadas quase transparentes, inotáveis. Dia a dia. Com a lentidão veloz dum cancro fatal. Ramificando tudo em redor com a sua farinha seca e sem cor. Pó indiferenciado. Cinza, onde nada mais se edifica ou constrói.
Dos campos outrora verdes tudo sufocara num amarelo desértico. Calado, pelos ainda segundos metálicos, mais ténues, como um eco a esvair-se. Eis que o corpo já não obedece à vontade e parece distante. Uma leveza sublime disperta. Como que um papel queimado que se levanta no ar. Algo paira envolto nos ditos véus que se misturam num todo e levitam.
6.22.2008
Fotografia daquele jardim
7.12.2007
Um sorriso teimoso
Quando a pedra é Douro
Pingando música
A nadar ao luar
Nua mas não tua
Uma noite
Quando a lua é companheira
De lentos desalentos. Revoltos
Envoltos em seda antiga
Suave cantiga
Um cansaço
Quando o gato é persa
Negro espreguiçar
De pores-do-sol
Escondidos. Teimosos
Uma lágrima
Quando a batuta. Astuta
Aponta finalmente para o futuro
E a transforma em água
Lagos de sorrisos esquecidos
6.01.2007
Amora morena
A tempestade de areia parecia ter aumentado à chegada. Exaustos, da longa caminhada, tinham vencido o deserto inóspito. Um calor abrasador, de delírios dantescos, escorria pelos corpos bronzeados. Avistava-se, a custo, a entrada do templo. Imponente.À medida que entravam um silêncio profundo entranhava-se nos ossos, protegido do exterior por espessas pedras alinhadas, corroidas pelo tempo. Os animais assustados recusaram entrar. Já a pé avançaram pequenos e observados por figuras gigantes de Deuses animais. Tudo parecia colocado a régua e esquadro, no local exacto, como se não existisse alternativa possível, na imensidão de hieróglifos espalhados pelas paredes.
Olhando em redor, abandonado pelos membros da equipa, que se concentravam num par de sarcófagos de tonalidade turquesa e dourada, presentia que o maior tesouro não estava ali. Sentia-o desde a chegada. Fechava os olhos e era como se voasse algo em seu redor. Beleza colorida em movimento, deixando um perfume indiscritível.
Abriu os olhos, de repente, com a passagem de um escaravelho que avançava lentamente, como que à sua espera. Seguiu-o, dirigindo-se para um recanto mais escuro, quase invisível ao olhar. À medida que se aproximava o aroma era cada vez mais intenso. Laivos de Sol ansiosos e uma tranquilidade de Nilo correndo para si.
Na total escuridão esticou a mão e sentiu uma folhagem alta. Invisível, de textura aveludada. Percorrendo-a numa caricia fecunda, parou num pequeno fruto carnudo. Ao arrancá-lo, trazendo-o para a luz, uma pequena amora morena surgia inocente mas sábia. Numa trajectória de astro colocou-a na boca. Ao trincá-la todo o templo estremeceu de cor. Deuses dançando aos ventos do Suão. Mil séculos de saberes ancestrais giraram num segundo. Sementes brotaram, nas margens férteis do Nilo e árvores cresceram em pássaros. Morte e nascimento de mãos entrelaçadas. Faraós e multidões de sentidos. Nunca sentidos.
Amora morena sabes-me bem. Tu tens um cheiro, que mais ninguém tem.
2.06.2007
Scarlett
12.21.2006
A minha sereia
A minha sereia ainda não canta mas encanta como ninguém.12.05.2006
A hora do lobo
na hora do lobo
quando as
nossas sombras são iguais
alcateias de palavras,
juntas,
uma fome voraz
Pela densa floresta
desbravam caminhos
deixando pegadas na neve
escalam montanhas
e, na despedida,
apenas um eco
esbatido
que como feitiço
se faz luar
11.06.2006
Deusa grega
10.16.2006
Blue bird
Voou de repente, sem nada o fazer prever. Com uma alegria de criança a correr na praia misturada com o dissipar de uma dor espessa, rochosa, que se agarrara à sua alma veranil como um mexilhão, tornando-a inverno.É quando menos se espera que tudo fica claro, e nesse preciso momento via o horizonte, em toda a sua plenitude, sem núvens, ruído. Apenas o seu bater de asas, há muito presas no passado.
Acordas-te ao ritmo flamenco do bater das palmas, num tango com cores de Almodovar, que te vive no sangue e, nesse ápice, que nos afasta a cegueira, fizeste-te azul, de pássaro a voar em liberdade.
Para a gotinha de água que se tornará pássaro mais cedo do que julga.
10.01.2006
Arranha céus
Era uma vez uma arquitecta. Não uma arquitecta qualquer.Estou a falar da arquitecta que arranha céus com os seus poemas.
Era modesta, esta arquitecta, e nem sei, ao certo, se alguém se apercebia da altura dos seus poemas.
Se fossem dela, as twin towers, não haveria avião que chegasse aos últimos andares e o museu guggenheim poderia ter a mesma forma bizarra, moderna e ousada, mas não seria em Bilbao, porventura, na Lua.
Gostei de conhecer uma arquitecta capaz de ultrapassar as margens da folha de papel e sem vertigens, apenas um pouco modesta. Mas como vos disse, não é uma arquitecta qualquer. É a arquitecta que arranha céus, com os seus poemas.
Perdoa-me mas não resisti a partilhar...
Faz
De mim a tua tela,
Pinta-me
Com as cores
Com que o meu ser
Se esbate,
Traça em mim
A alma da tua arte.
Dá-me traços
Curvos e longos
Rectos ou escassos,
Dá-me perspectivas
Pontos de fuga
Breves espaços.
Serei abstracta
Ou digna do puro realismo?
Indiferente!
Pinta somente,
Compõe em cinco actos
O meu surrealismo.
Faz
De mim a tua tela,
Faz
De mim o teu teorema.
Eu farei de ti o meu poema.
9.19.2006
Café em Coimbra
"A realidade é a cores mas o preto e branco é mais realista"
O dia acordou cedo. E a sede do descobrir reclama um café.
Escuro, forte, amargo ou doce, conforme os dias.
Mas sempre o aroma intenso e o ritual da dança dos dedos sobre as palavras.
Um cigarro que se fuma, pausadamente, entre os pensamentos.
O olhar que se prende a uma fugaz banalidade, na rua ainda despida.
A sua cor é a dos estudantes, mas branco é o veleiro dos seus sonhos.
Saudades e tristezas vêm à tona, de quando em vez, como golfinhos a respirar, no travo de cada gole. Mas logo a gargalhada de criança, voa alto e aquece o companheiro de mesa.
Acabou o café, o jornal, a conversa. Coimbra tem mais encanto na hora da despedida.
Para a Joana nunca dizer que não a conheço.
9.17.2006
A fada
"Seek the wisdom of ages, but look at the world though the eyes of a child". Para a menina que me desviou o olhar e me lembrou os contos de fadas...Branca.
Descalça.
Pé ante pé tocava o chão
como gotas de orvalho.
E o seu sorriso
de dentes de leite,
ofuscava
de tanta luz.
A sua dança
era como a brisa.
Passava
e fazia festas.
Sardas estreladas
Olhos de infinito
Inocência imaculada
de amendoeiras em flor.
Neve
Lua
Branca
Fada.

