Mostrar mensagens com a etiqueta Os meus poetas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Os meus poetas. Mostrar todas as mensagens

10.14.2013

E ao anoitecer


e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia 


[Alberto]

8.11.2013

Sacode as núvens


Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras. 
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.




[Sophia de Mello Breyner Andersen]

8.09.2013

A nudez do teu nome



o meu amor não cabe num poema ― há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
os quartos que os gestos não preenchem.

o meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto ―
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura a mão que protege a chama que estremece. 

o meu amor não se deixa dizer ― é um formigueiro
que acode aos lábios com a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente os segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

o meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome ― é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. nenhum poema
podia ser o chão a sua casa.


[Maria do Rosário Pedreira]

8.08.2013

Old ideias... same perfection


caught the darkness, it was drinking from your cup
I caught the darkness drinking from your cup
I said is this contagious?
You said just drink it up

[Leonard Cohen, The Darkness]

5.21.2013

2.12.2013

Espalha lume na ponta dos dedos




que te seja leve o peso das estrelas 
e de tua boca irrompa a inocência nua 
dum lírio cujo caule se estende e 
ramifica para lá dos alicerces da casa 

abre a janela debruça-te 
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo 
espalha lume na ponta dos dedos e toca 
ao de leve aquilo que deve ser preservado 

mas olho para as mãos e leio 
o que o vento norte escreveu sobre as dunas 

levanto-me do fundo de ti humilde lama 
e num soluço da respiração sei que estou vivo 
sou o centro sísmico do mundo 




Al Berto

1.23.2013

Caminhar


Deixa a mão
caminhar
perder o alento
até onde se não respira. 


Eugénio de Andrade

7.31.2012

Há dentro de nós um poço


Há dentro de nós um poço. No fundo dele é que estamos, porque está o que é mais nós, o que nos individualiza, a fonte do que nos enriquece no em que somos humanos. E a vida exterior, o assalto do que nos rodeia, o que visa é esse íntimo de nós para o ocupar, o preencher, o esvaziar do que nos pertence e nos faz ser homens. Jamais como hoje esse assalto foi tão violento, jamais como hoje fomos invadidos do que não é nós. É lá nesse fundo que se gera a espiritualidade, a gravidade do sermos, o encantamento da arte. E a nossa luta é terrível, para nos defendermos no último recesso da nossa intimidade. Porque tudo nos expulsa de lá Quando essa intimidade for preenchida pelo exterior, quando a materialidade se nos for depositando dentro, o homem definitivamente terá em nós morrido. Já há exemplos disso. Um dos mais perfeitos chama-se robot. É invencível pensarmos o que será o homem amanhã. E nenhuma outra imagem se nos impõe com mais força. Mas o que desse visionar mais nos enriquece a alma é que o homem então será possivelmente feliz. Porque ser homem não é ter felicidade mas apenas ser humano. Não há grandeza nenhuma feliz e é decerto por isso que se diz que os felizes não têm história. A única felicidade compatível com a grandeza é a que já não tem esse nome, mesmo que o tenha. Chamemos-lhe apenas compreensão ou aceitação.

Virgílio Ferreira

6.26.2012

Doze moradas do silêncio


Envolver-me 
na mais obscura solidão das searas e gemer 
Amassar com os dentes uma morte íntima 
Durante a sonolência balbuciante das papoulas 
Prolongar a vida deste verão até ao mais próximo verão 
para que os corpos tenham tempo de amadurecer 

...colher em tuas coxas o sumo espesso 
e no calor molhado da noite seduzir as luas 
o riso dos jovens pastores desprevenidos...as bocas 
do gado triturando o restolho....as correrias inesperadas 
das aves rasteiras 

....e crescerei das fecundas terras ou da morte 
que sufoca o cio da boca..... 
....subirei com a fala ao cimo do teu corpo ausente 
trasmitir-lhe-ei o opiáceo amor das estações quentes. 



Al Berto

6.18.2012

Poema à mãe




No mais fundi de ti, 
eu sei que traí, mãe
Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
          Era uma vez uma princesa 
          no meio de um laranjal...
 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 



Eugénio de Andrade

5.21.2012

Orange


Este estranho desencontro de ter o corpo num lugar e a alma em outro


Rosa Lobato Faria

5.17.2012

Presídio


Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo 
Que dizer do pescoço, às vezes mármore, 
às vezes linho, lago, tronco de árvore, 
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...? 

E o ventre, inconsistente como o lodo?... 
E o morno gradeamento dos teus braços? 
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne: 
é também água, terra, vento, fogo... 

É sobretudo sombra à despedida; 
onda de pedra em cada reencontro; 
no parque da memória o fugidio 

vulto da Primavera em pleno Outono... 
Nem só de carne é feito este presídio, 
pois no teu corpo existe o mundo todo! 





David Mourão Ferreira

5.12.2012

Cedo demais


Noite, Bernardo Sassetti

Partiste cedo demais. Tu que me fazias sempre partir, algures por ai - num palco, num filme, numa música ou fotografia que se prolongavam sempre para lá do seu tempo físico, num romantismo trágico que se colava à pele, luminoso. Partiste cedo demais e vais deixar-me saudades.

3.21.2012

Poesia


"A poesia é uma espécie de salvação. Nela afasto-me de tudo, para voltar a aproximar-me, de uma forma muito mais profunda".


Tonino Guerra 
(poeta italiano que se despediu hoje, dia mundial da Poesia, aos 92 anos de idade)

3.20.2012

Wings


Be as a bird perched on a frail branch
that she feels bending beneath her .
still she sings away all the same ,
knowing she has wings


Victor Hugo

2.24.2012

Obscuro domínio


Amar-te assim desvelado 
entre barro fresco e ardor. 
Sorver o rumor das luzes 
entre os teus lábios fendidos. 

Deslizar pela vertente 
da garganta, ser música 
onde o silêncio aflui 
e se concentra.

Irreprimível queimadura 
ou vertigem desdobrada 
beijo a beijo, 
brancura dilacerada 

Penetrar na doçura da areia 
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul, 

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,

onde o furor habita 
crispado de agulhas, 
onde faça sangrar 
as tuas águas nuas.

Eugénio de Andrade

2.15.2012

Zumbido

A cegueira e a obstinação dos homens lembra-me às vezes a cegueira e a obstinação das varejeiras enfrenizadas contra as vidraças. Bastava um momento de serenidade, dez-réis de bom senso, e em qualquer fresta estava a liberdade. Mas o demónio da mosca, quanto mais a impossibilidade se lhe põe diante, mais teima. O resultado é cair morta no peitoril. Não se pode fazer ideia da maravilha de criança que era a filha de um poeta de meia tigela que hoje me lia versos impossíveis, a empurrá-la enfastiado com a mão esquerda, quando ela graciosamente o interrompia. A canção enluarada, a quadra perfeita, o soneto verdadeiro que justificavam aquele homem estavam ali, a brilhar nos olhos da pequenita; e o desgraçado às turras à janela, a zumbir e a magoar-se, sem ver que tinha diante de si o verdadeiro caminho da salvação!

Miguel Torga

12.27.2011

Nuvem [tocada por um vento de lábios azuis]

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".

E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.

Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

12.12.2011

A arte do reparar [sem pressa]

Entrevista a um dos escritores portugueses contemporâneos que mais admiro desde que se iniciou e não era muito conhecido. Absolutamente envolvente e fascinante.


1.

O fáscínio da letra, do alfabeto. O alfabeto é uma coisa invulgar porque, com muito pouco material, com muito poucas peças nós conseguimos fazer um conjunto de combinações intermináveis <...> quando nós começamos a ler deixamos de ver a letra <...> as letras fazem parte de um mundo completamente abstrato <...> a velocidade da leitura é um mundo que é completamente distinto do mundo normal <...> abrir um livro é muito semelhante a entrar numa igreja, ou seja, nós diminuimos a velocidade, o silêncio aparece, concentramo-nos. Nós quando abrimos um livro de certa maneira temos ali uma máquina de lentidão <...> As “máquinas de lentidão”, o livro, são cada vez mais necessárias, e é ao mesmo tempo uma máquina de reflexão, de pensamento como não há outra. A televisão, o teatro, o cinema, não têm este tempo individual dado ao leitor, que é uma coisa que o livro tem <...> o leitor pode parar numa frase 2 minutos, 30 segundos ou 2 anos, ou seja o ritmo é do leitor e este o ritmo é do pensamento, é o ritmo próprio do pensamento.


2.

O apelo para o quantitativo <...>; “Pediram-me para rezar mas eu só me lembrava da tabuada” <...> vivemos muito pelo signo da tabuada, quando se pede espírito respondem-nos com a tabuada, quando se pede cultura respondem-nos com a tabuada, e cada vez mais, 2x2=4, quando alguém pede piedade responde-se com 2x2=4, quando alguém pede uma sugestão, 2x2=4 <...>; a possibilidade da pessoa reparar nas coisas, provavelmente o que há hoje muito pouco, devido a esta velocidade, é a dificuldade em parar. E reparar não é parar, é parar, e continuar parado, continuar parado diante da mesma coisa. Parar é continuar parado durante muito tempo diante da mesma coisa <...> Nós só reparamos as coisas [de reparar/arranjar] se repararmos nelas <...> o que julgo que falta é lentidão <...> a multiplicação das imagens leva a uma falta de atenção perigosa


3.

Há uma urgência, a cultura do tempo é deixada para trás <...> a ideia de uma obsessão, a obseção da linha recta <...> o Homem não descansou enquanto não transformou a viagem num percurso em linha recta, primeiro com a auto-estrada <...> e o avião foi o máximo disso, já nem sequer se faz o percurso pelo solo, levanta-se, e tenta-se traçar a linha recta, como uma ideia de caminho mais curto. O que é interessante é que a linha recta está muito ligada, até pela palavra, com a rectidão moral <...> o que me interessava no “Caminho para a Índia” era o desvio da linha recta, a viagem do protagonista está constantemente a sair da linha recta, de certa maneira está a desviar-se geométricamente e moralmente, é uma viagem imoral, perversa e de certa maneira contradiz um pouco esta obseção pela pressa, pela de linha recta, que me parece que está instalada.


Entrevista a Gonçalo M. Tavares na integra aqui

Assíduos do shaker

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin