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9.08.2012

These roads


Há dias em que não se escreve por desejo ou o que se quer, mas simplesmente o que a escrita nos exige. Sussura-nos algo ouvido, que vai crescendo ou desenha-nos imagens intermintentes, que vão e vêm, ganhando forma e nitidez, entrelaçando-se à mão como trepadeiras. Às vezes são pequenas frases, aparentemente sem sentido, ou palavras soltas que nos vão arranhando as pernas ou seguindo no caminho ao longo de vários dias, para, a certa altura, nos especarem diante de nós, à espera de um afago ou reação. A escrita chega mesmo a soltar-nos os cães. E nós ali, derrubados no chão, impotentes a sentir-lhe os dentes afiados ou as lambidelas ásperas na face. Há dias em que nada se tem para dizer e no entanto há algo que nos empurra, que nos embala. Algures, por essas estradas.

8.23.2012

A sombra das palavras [que caem como gelo]



Pega a caneta e escreve. Derrama com ela o teu sangue - negro, espesso, denso - alastrando a tua sombra ou os teus raios de sol, pedaços da voz que te sussurra ao ouvido quando todos dormem. Impregnando o teu cheiro, o teu grito, a tua cor. Pouco a pouco, no silêncio branco da folha despida. Escreve-te nela, deixando-te embalar como uma viagem inacabada. Sem principio nem fim, apenas caminho, curvas. Sem medos, sem reservas, sem antes nem depois, sem enganos, sem aparências, sem rodeios. Como um deslizar de iceberg sem pressa, sabendo-se corroído aos poucos pelo tempo até se derreter um dia na imensidão do mar. Ora revolto na rapidez de um arrepio, ora  deambulando algures no reflexo de uma palavra. Não conquistarás o mundo. Não esperarás nada de volta. Não conhecerás todos os lugares nem falarás todas as línguas. Não ficarás para contar. Libertarás apenas, talvez um pouco desse questionar das coisas, quando lhes batemos sem querer. Aparentemente óbvias ou menores, descobrindo-lhes encantos perdidos, esquecidos a alguns olhos moldados por demasiadas certezas. Pega na caneta e escreve. O que te apeteça, o que ela te exija.


7.18.2012

Writen in my blood


Não escrevo há muito tempo, e no entanto a escrita permanece-me, constante. Destapa os ouvidos ao calar da noite, e ali fica como um búzio alado, soprando na cara baixinho, lambendo as feridas ou puxando a mão para um campo de searas, onde passeiam ao vento imagens, frases, sons. Mesmo sem caneta ou aparente alento ei-la ali, especada, como um cão fiel ao seu dono, olhando-o imóvel, à espera de um assobio ou afago. 

Não escrevo há tanto tempo, talvez por respeito a esse pesar ou chamamento, a essa maré que sempre me regressa e me busca, ora desenrolando novelos indeléveis e quase indecifráveis, ora atirando pedras que estilhaçam abruptas nas janelas e ecoam por muito tempo. 

Não escrevo há tão pouco tempo e no entanto parece tanto... Quando assim acontece é como acordar de um sono que nunca se chegou verdadeiramente a dormir ou a recordar ofegante uma vida que não se chegou verdadeiramente a correr, como quem recebe uma estranha parte de nós que esteve ausente por parte incerta mas sempre nos pertenceu e sempre nos pertencerá.

4.15.2012

Só desta vez


escrever sem música e sem imagens. escrever despido de ondulação. escrever às escuras, sem tacto, sem fome, sem deserto nem paixão. escrever alheado da textura das palavras, sem miados, sem anémonas. escrever sem lua, sem arfar, sem carícias. escrever sem a mão dada ao improviso, sem brilho nem sabor. escrever para enganar os ecos e os silêncios. só desta vez. só para dissolver a cálida transparência do que nos habita e nos exige a escrita.

2.26.2011

A mala das palavras

Olhava para as pessoas comuns e ouvia-as sempre sem som, esvaziadas de palavras. Tentava antes ler-lhes o que morava por dentro delas: os gestos límpidos e inatos, alheios ao movimento fácil dos lábios. Ás vezes ouvia-as com o barulho do mar ou colocava-lhes uma banda sonora, escolhida cuidadosamente, que lhes prendia os gestos num movimento mais lento, e ficava assim, ali, a olhar para elas, absorvendo a sensibilidade inocente, impossível de encenar neste mundo de palavras gastas e faz-de-conta. Falava cada vez menos, refugiando-se em longos textos sentidos que rasgava por não querer falar sobre eles. Abraçava as amizades com quem privava com uma força frágil e demorada de quem abraça o vento. Abria um bom vinho e preparavam entradas inventadas que serviam de jantares tardios onde se falava de tudo quase sem palavras. Percebia a escassez do tempo e a magia do silêncio partilhado. As palavras? essas oferecia-as com a pimenta do humor e no sal de um beijo colado à testa.

8.26.2010

A primeira pessoa

Há muito tempo que não escrevia na primeira pessoa. Talvez por existirem quase sempre muitas pessoas à frente, remetendo a "primeira" para uma espécie de observador sentado numa núvem [narrador atento, eterno suplente], só descendo numa emergência ou aflição.

Quando se conhece bem uma pessoa, ela é também muito aquilo que não precisa de dizer. Muito do que observa e absorve e lhe passa a correr no sangue, muito do que guarda em fotografias de película fina entornadas um pouco no olhar, muito do que faz sentir, sem necessidade de escritos ou de qualquer palavra.

Há muito tempo que não escrevia na primeira pessoa e não sabia mesmo se o voltaria a fazer por aqui. Não por decoro ou reserva, receio ou modéstia, talvez apenas por saber da fragilidade das palavras e dos ouvidos das pessoas, que tantas vezes criam ou tomam para si sentidos que nunca existiram, lá está, na tal "primeira" pessoa.

6.16.2010

Uma frase com asas

Abro um livro e leio-te uma frase devagar, resgatando-a para o teu mundo. Uma frase quer-se viva, agregadora de outras e é sempre diferente consoante o momento, contexto ou lugar, nunca será uma mera junção de palavras com silêncios. Assim, solta, despojada e desprotegida, uma frase pode facilmente morrer de frio, sem outra tua que a siga, abrace ou aqueça. Largo-ta, assim, como um pássaro, frágil mas precioso, guardado algum tempo nas minhas mãos para poder beber da minha boca, da minha alma. Para que te consiga entregar o calor dos gestos e a vontade de voar. Para que te pinte de mil cores o céu das tuas pálpebras fechadas. Para te pousar no ombro, enrroscar-te no rosto e cantar.

4.06.2010

Escrever

- Escrever não é falar
- Não? Qual é a diferença?
- É exactamente o oposto. Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.

Anos mais tarde, já estava doente, voltei a lembrar-me desta nossa conversa. Tinha acabado de te escrever uma carta - mais uma, talvez a terceira - que nunca te cheguei a mandar e que destruí depois. E, escrevendo, poupei as coisas que gostaria de te ter dito e que gostaria que tivesses ouvido. Cheguei quase a convencer-me de que bastava escrever-te para tu me ouvires mesmo que nunca tenha chegado a pôr a carta no correio. Porque era tão sentido e tão magoado, tão distante, o que te dizia nessas cartas, que quase acreditei que tu não podias deixar de me ouvir.

Miguel Sousa Tavares

2.09.2010

2.07.2010

Babel, o nome de uma unidade

Apresentada a 6 de Fevereiro [data de nascimento do padre António Vieira, apelidado por Pessoa como o imperador da língua portuguesa] e com data de abertura prevista para 23 de Abril [dia internacional do livro] pela carga simbólica associada às duas datas referidas, o novo "grupo editorial" Babel apresenta-se ao público, com um conjunto de objectivos e premissas que me parecem muito, mas muito bem:

  1. Nome que remete o livro para a língua, numa palavra bonita e universal, que agrega em si mesma o paradoxo e oxímoro, distanciando-se das verdades absolutas e irredutíveis;
  2. Assumpção clara do culto da diferença, referindo que cada livraria terá a sua identidade própria e que não existirão duas iguais;
  3. Conceito de livraria gourmet, agregando o duplo sentido literário e gastronómico;
  4. Aposta em obras como a colectânea Pessoana de David Mourão Ferreira, editada pela Ática como "O rosto e as máscaras", só para citar uma das demais;
  5. Ausência de adjectivos ou colagens "editoriais" ao seu nome, apenas Babel, o nome de uma unidade

Parece-me muito bem! Vou cuscar logo que abra!

2.03.2010

Escrita

Se tens algo a dizer ou uma mensagem a comunicar escreve uma carta. Um romance é para contar uma história.

José Luís Borges

Continuo sem vontade de escrever.


1.14.2010

Poesia


1.
Aristóteles diz que "As pedras grandes caem mais depressa que as pequenas", e Galileu diz: "Não! Está enganado, caem todas do mesmo modo" e nenhum deles atira uma pedra, pensam apenas. É tremendo, mas Galileu acerta "É assim que caem as pedras", sem atirar nenhuma pedra diz: "É assim que caem as pedras", isto é um poema. Uma coisa é a literatura, outra, completamente diferente, é a poesia. "É assim que caem as pedras", isso é um poema, isso é a poesia.

2.
- Uma palavra a mais pode matar um poema?
- Mata-o... As matemáticas são as mais exactas de todas as ciências, mas a poesia é a mais exacta de todas as letras, portanto os excessos matam-na.

3.
Um poeta é maduro quando é capaz de pegar num verso bom e atirá-lo à rua. Custa, dói, mas sacrifica tudo por um bom poema.

4.
A poesia impõe a ordem à desordem que é a morte. É a última casa da misericórdia.


Joan Margarit


Retirado de uma entrevista sua soberba. Uma agradável surpresa, dum poeta que não conhecia mas que me apetece descobrir.

1.11.2010

Paz

É engraçado como a escrita nos bate à porta e entra sem nos dar tempo de levantar, para a abrir. Quando damos por ela já nos invadiu por inteiro e temos de a soltar cá para fora. Passou toda a semana a preencher-me os espaços, a aconchegar-se com frases soltas e palavras avulso, pintando frescos por dentro com imagens ou fios suspensos como teias de aranha. Um novelo sem nexo ou vontade própria, que se junta, aos poucos, com nós firmes, à espera duma mão que os desate de novo para o papel. Sempre branco, sempre escasso.

É engraçado como não parte este peso dos olhos, como teima em não se levantar. Por mais que se durma, por mais que se descansasse ou se tente simplesmente não pensar em nada. Permanece, não sei se aqui se acolá, algures presente, impenetrável, um cansaço apoiado nos ombros. E dentro das pálpebras sorrisos de criança a brincar, saltando de nuvem em nuvem, arrastando o som da infância até ao futuro incerto.

É engraçado como escrevo sem vontade que me leiam, correndo o risco de captarem uma frase ou imagem errada, que não é para quem a lê, que se apanha por engano, e magoa ou fica a remoer. Que sabemos nós afinal? Nada disso, hoje, aqui, agora sou apenas uma espécie de árvore, imóvel mas que sente sem querer ser visto. Que sente as coisa que lhe tocam sem ter qualquer vontade de as tocar. Pássaros que vêm pousar e nos cantam ao ouvido. Algures distante, Imóvel, pesado.

É engraçado como sinto uma lareira apagada com uma ténue chama, quase invisível, mas que se sabe ter, que se sabe não apagada. Que se sabe no limite mas também se sabe poder recuperar. Com tempo. Com o tempo que só o tempo pode e sabe dar. Com o tempo necessário para cansar o próprio cansaço.

É engraçado como os olhos vêm ao longe um vidro de comboio molhado por lágrimas que nos partem por dentro, num pó cortante, moído. Um comboio em andamento, sem retorno. Ali, com ele o cansaço teima em não partir. Agarrado com as unhas pesado. Tão pesado.

É engraçado como se tem a certeza de querer recomeçar mas deixar tudo bem, tudo sarado, tudo em paz. É engraçado como não tem graça nenhuma. É engraçado escrever isto aqui. Apenas, talvez, porque me fez sentir melhor.


Escrito algures numa viagem distante mas necessária

11.23.2009

A magia de um livro


Um livro é sempre uma descoberta, do mundo, de nós.
Um livro é sempre um lento escorrer de sons e imagens, tatuadas na pele, guardadas no fechar das pálpebras.
Um livro é sempre uma mão invisível que nos afaga o corpo.
Um livro é sempre uma luz, um incêndio, um torpor.
Um livro é sempre um passo, um caminho.
Um livro é sempre um sussurro, uma brisa, um arrepio.
Um livro é sempre um livro. Um livro é sempre o alimento, o sumo dos dias.

11.06.2009

A maravilha que deve ser escrever um livro

(...) a maravilha que deve ser escrever um livro: a invenção dentro da memória; a memória dentro da invenção; e toda essa cavalgada de uma grande fuga, todo esse prodígio de umas poligâmicas núpcias, secretas e arrebatadas, com a feminina multidão das palavras: as que se entregam, as que se esquivam; as que é preciso perseguir, seduzir, ludibriar; as que por fim se deixam capturar, palpar, despir, penetrar e sorver, assim proporcionado, antes de se evaporarem, as horas supremas de um amor feliz. Não há matéria mais carnalmente incorpórea; nem outra mais disposta a por amor ser fecundada.
Como se pode interpretar de outro modo esse velho lugar-comum de ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro? Só se em todos os casos se tratar de grandes e inevitáveis actos de amor: com a Mulher, com a Terra, com a Língua. Mas de plantar árvores e ter filhos haverá sempre muita gente que se encarregue. De destruir árvores também; de estragar filhos igualmente. Em compensação, um livro, um livro que viva, multiplicado, durante alguns anos ou alguns séculos, e que depois vá morrendo, sem ninguém dar por isso, mas nunca de uma só vez, até ser enterrado na maior discrição ou até se ver de súbito renascido, inesperadamente ressuscitado, um livro com semelhante destino - luminoso por mais obscuro, obscuro por mais luminoso -, isto é que foi sempre o que me empolgou.


David Mourão Ferreira

10.24.2009

Fascinante

- A escrita dá-lhe algum prazer? Ou é um processo penoso com um final agradável?
- Há momentos em que é muito difícil, especialmente quando se começa um livro. Quando estou a terminá-lo, é extremamente agradável, porque dominei o livro, inventei-o, resolvi todos os problemas. Portanto é uma mistura, é complicado do início e mais fácil no final.

- Quando sabe que o livro está terminado?
- Simplesmente sei. Quando sinto que já fui o mais longe possível. Quando já não consigo fazer mais nada e não há mais nada a fazer para o melhorar. Quando esgoto o potencial do livro. Se conseguir responder a todas as questões e resolver todos os problemas que o livro levanta, significa que está pronto.

- Qual é a sensação de terminar um livro?
- Sinto uma enorme satisfação. O único problema é que sinto também que tenho de começar outro.


Excerto da primeira entrevista a um jornal português de Philip Roth [escritor norte americano]

8.07.2009

O escritor a sério

Aqui me encontro, a meio da noite, dormida e revirada. Sobressaltado fulminantemente por uma frase [ou uma imagem, pois há muitas frases que se me misturam com imagens, ou vice-versa, adiante…]. Entre o sono e a atenção, suspensa, do pensamento.

Se dum escritor a sério se tratasse, levantar-me-ia, de imediato, e dirigir-me-ia para a secretária, ou acenderia a luz, pelo menos, puxando o caderno de notas, propositadamente depositado à distância de um braço, para alinhavar ali, naquele preciso momento, a estranheza de tal aparição.

Mas, à inexistência desses dotes ou pretensões, aqui me encontro, tentando convencer apenas a memória a não me apagar, durante o sono, essa frase pintada [ou tela rascunhada?], para poder pegar nela, com a devida atenção, talvez amanhã [já que, também, acho mal não pegar nessas pseudo-ninfetas, que teriam por certo um nome muito mais pomposo e poético se se tratasse, lá está, de um escritor a sério].

Isto, entretanto, se adormecer, já que a dita [seja lá ela o que for ou se chamar] já ganhou corpo, galopando veloz na minha cabeça, cujo corpo clama por conseguir dormir, ao contrário se de um escritor a sério se tratasse, que daria, por certo, pulos de felicidade por tanta inspiração, mesmo que a altas horas da madrugada.

Acontecem-me muito, estas coisas, e quando a memória acede ao meu pedido [poucas vezes, refiro], visitam-me muito, durante o dia seguinte, em flashs ou ecos inesperados como que me lembrando duma tarefa pré-destinada, como que me levando mais peças dum puzzle enigmático, ainda por descobrir.

Não sei se isso acontece aos escritores a sério, mas também suponho que eles não meditem se valerá a pena levantar para ir beber um copo de leite quente para ver se o sono regressa. É que estou certo, que os escritores a sério, têm muito mais em que pensar.

6.19.2009

O escritor imóvel (revisitado)

Permanecia imóvel, apenas respirando. Abrindo e fechando os olhos esponjosos. Atentos. Sentindo o sangue, em constante viagem. A mando de algo ou de alguém [estranho, ter tantas coisas dentro de nós que não se comandam. Que não ordenamos. Que, tantas vezes nem damos por elas].

O cansaço a ocupar-lhe os cantos. Todos os espaços. Um navio pesado a ondular na respiração. A conquistar território, como uma droga a alastrar. Um cansaço aquático, submergindo o corpo estanque, com a alma aprisionada. Fechada. Sem fuga possível.

Não lhe resistia. Podia escapar-lhe facilmente, num simples movimento. Numa acção. Mas não. Não lhe apetecia. Permanecia imóvel, olhando apenas o deslizar das sombras, as sonoridades das coisas. O conteúdo que habita dentro do vazio.

O tédio de tudo ter feito ou podido fazer. Sem nunca lhe chegar. A alegria fugaz das coisas simples. A insuportável sensação de nada desejar. A solidão estranha num mar de gentes. Num mundo cada vez mais distante. Uma ilha que fizera sua. Afastando o outrora próximo: pessoa a pessoa, lugar a lugar. Uma amarra que se soltara de vez, para não mais se conseguir agarrar. A nada. A ninguém. Um barco à vela sem direcção.

Permanecia imóvel abandonando os enganos das palavras, apreciando apenas o seu som e movimento [todos se enganam com frases feitas. Oferecidas aos outros e a si próprios. Com mais ou menos confortos. Com mais ou menos alentos. Falsas fés. Esperanças incontroláveis].

Permanecia imóvel partindo na leveza da brisa ou numa música agradável ao toque. Num pássaro azul, pousado à janela. [Partir para onde? Para quê?] Regressava com o eco dos pontos de interrogação, a cravarem-se como setas, deixando instantaneamente de o serem para se transformarem em vis certezas desérticas. Vastas. De perder de vista no fio do horizonte. E o cansaço incansável. Impiedoso, a ganhar corpo ao próprio corpo.

Não lhe resistia. Baixara as luvas invisíveis convidando golpes miúdos de mar. Dançando-lhe certeiros. Desgastando os ossos antigos. [Dizia-lhes calado: É só disso de que és capaz? Sorria para dentro, num falso orgulho, que nunca existira, consciente da queda breve. Próxima. Inevitável. Reconfortante, talvez].

Permanecia imóvel adiando o tempo do próprio tempo. Esticando-o ao limite. Podendo inverter tudo à distância de um simples desejo. Ali, naquele preciso momento. Mas sabia-os infrutíferos. Perecedouros. Sucumbiriam rápido demais para o seu tempo de núvens estreladas. Para o seu tempo de pirilampos na noite mais fria.

Não esperava já nada. Ninguém. Perdera o interesse até da própria surpresa, que sempre o fascinara. Tornara-se numa espécie de escritor imóvel. Preso a uma cadeira e quatro paredes. Apaixonava-se, talvez, demasiado facilmente pelas pessoas e pelas coisas. Tão facilmente que o levara a resguardar-se por custar vê-las morrer diante de si. Nesse prazo de validade que sempre o atraiçoava.

Ali estava imóvel diante do terror do papel. Fiel companheiro de sempre. Insuportavelmente branco, infinito ou limitado por arestas finas. Cortantes. Sempre partida ou chegada. Sempre cru ou inacabado.

Consta que nunca mais foi visto, o escritor imóvel. Diz-se que se diluiu na própria folha. Diz-se que voou pela janela deixando imóvel o tempo que levou a cair no chão.

5.23.2009

Escrever


"Escrevo para não me suicidar"

Magrite Duras


Há dias em que a escrita tem muito disso. Dias em que fala mais alto do que o próprio corpo. Em que comanda a mão e nos rapta o pensamento. Dias em que ficamos à sua total mercê. Há dias em que a escrita apenas exige. Uma lucidez crua, que não sabíamos nossa, ou um barco à deriva numa viagem sinistra. Há dias em que a escrita nos confunde os sentidos. Prolonga-os na textura ou dilui-os no branco do papel. Dias onde a tinta se chega a confundir com o sangue. Dias onde a escrita é uma arma letal. Afiada. Sem nada que lhe faça frente. Sem nada que nos faça valer.

4.20.2009

Anatomia de um poema

Abri um poema. Entrei. Remexi. Palavras nevavam na pele. Quente. Despida. Numa cadência inconstante. Durando para lá do efémero da sua existência. Ritmos e pausas conduziram-me a um jardim nocturno. Despercebido do mundo. Cor de fresco descalço. Com laivos de lua. Sentei-me, num banco de madeira, envelhecido pelo tempo. A falar com o silêncio. Exausto de beleza. Desnudado de mim. Tirei um fruto, num esticar de braço, e mordi o sabor da tua boca ao sair do mar. Perdi-me num barco à vela e deixei-me levar. Lento. Ondulando, de nuvem em nuvem. Num azul de Creta. Num embalar de vento. Quando o fechei senti o barulho a ecoar e o pó da capa a dissipar-se na luz. Quando o fechei senti-o preso, em mim, e não me deixou acordar.

Assíduos do shaker

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