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10.23.2013

Tu, nas minhas mãos



Ficas sempre nas minhas mãos. Pousada ou a esvoaçar no interior dos gestos. Solto-te devagar, duma forma invisível ao olhar, como quem solta um novelo preso ao corpo e à alma. 

E ali fico, atónito, calado com os meus botões, a puxar o fio, a ver-te dançar no respirar, a sentir a luz do teu sorriso, a saborear cada beijo adormecido: um a um, dois a dois. Uma maré de ti, nas minhas mãos.

Liberto-te, estou em crer, simplesmente pelo prazer de te voltar a ter no fechar da mão. Tu ali, aprisionada, sempre ao meu alcance. Pronta para te agarrar forte e fundo, prolongando o espreguiçar do teu corpo nos meus olhos fechados até ao relâmpago do teu toque, incendiando o meu sangue.

Ficas sempre nas minhas mãos. Beijo-te nelas demoradamente quando não estás e adormeço a pensar em ti.






3.02.2012

Breve cantilena [a pau de giz]


Junta o sorriso à leveza desse gesto despido
Suspenso, adormecido 
na cantilena do amadurecer dos frutos
Junta-os assim, nesse teu jeito distraído
Sem te aperceberes 
Já viste como iluminam?
Junta-os, como um acidente antigo  
feito a traço de giz
Firme, algures na memória 
mas desprendendo-te ao vento
Todos os dias
Todos os anos
Todos os invernos
Calor, tocando o meu rosto frio 




2.21.2012

Tua

A minha mão é tua
Faz dela o que quiseres
Talvez o calor da areia ou um arrepio
à deriva na pele despida
Mordida, aberta
Como o poema improvável
que desperta lábios de água-lua

11.09.2011

Azul sereia


De ti quero o azul
debotado à noite
pela espuma dos poemas
Para que inundes tudo
e ondules em mim
como música cintilante

4.01.2011

Grito [para ti]

Grito
Grito para ti
Não para me ouvires
ou ser notado

Grito. Desprovido de som ou palavra
Num assalto ao corpo incompleto
Numa folha de Outono a cair

Grito, talvez
para que os teus dedos quando distantes
continuem a levar a minha boca à tua
Um par de bocas, numa só

Afogando este miar aflito
num beijo largo
Infinito

1.14.2011

Amor

Deito-te no meu caderno e entorno-te como uma aguarela viva - livre. Observo os teus gestos imóveis, sentados só para mim, pendurados ao sono. Avançam e recuam com pés descalços, na lentidão da sombra, debruçados curiosos ao meu ombro. Às vezes descuidam-se desleixados, deixando a marca de um beijo no pescoço para logo se esconderem num cheiro que fica no ar. Passo-te com a mão na pele e na cicatriz das letras que te deixei. O barulho das cigarras avisa o tempo quente que já é dia e que te amo, assim como és.

9.29.2010

O teu nome


Muse, Exogenesis Symphony Pt 1 - Overture


A noite cai, baixinho, à hora do costume
vestida de poema, com asas de nevoeiro
E uma lua altiva despenteia harpejos de lume
sussurrando o teu nome, tão certeiro

6.20.2010

Saudades

Entram devagar, sem avisar - as tuas saudades. Descem com os pés frios e põem a perna sobre o meu corpo. Prendem-no, embalam-no, abraçam-me. Instalam-se, a pentear cabelos e a navegar no meu rosto, num silêncio nocturno.

Duas luas de jade irrompem magnéticas do escuro, dançam como o mar e misturam-se nos meus olhos. Inundam-nos do teu sorriso, do teu calor e dão-lhes as mãos. Resgatam-nos para outro tempo, para outro lugar - coordenadas mágicas que fizemos só nossas.

Os teus lábios desabotoam, com pressa, as roupas espalhadas, preservando o calor, na calma das conversas infinitas, que se prolongam até a noite nos sussurrar o sono entrelaçado.

Entram devagar, sem avisar - as tuas saudades - e estão aqui comigo. Tu comigo, aqui, agora.

5.11.2010

A tua falta

Sentir a tua falta. Ouvir a tua voz, ao longe, a ondular em mim. A tua voz abraçada, a fazer festas. Próxima. Presente. Guardar os meus gestos nos teus cabelos e o frio dos teus dedos agarrados no calor das minhas mãos. Dar nomes aos teus sinais, com beijos lentos - um a um - até construir o caminho para os teus lábios, minha casa, meu porto de abrigo, meu ninho. Perder-me na luz do teu arco-íris, nos teus olhos, onde nos fazemos peixes vivos, para nadar num mar de azul, denso, infinito, apenas nosso. Pedir ao teu cheiro um breve e vago assobio na pele, um arrepio no escuro das pálpebras fechadas, para te sentir próxima do meu braço, para te encontrar por lá e puxar-te para aqui, agora, já.

5.09.2010

Night garden

Há uma calma no nosso silêncio
que só os dedos e lábios alcançam
perdurando num suspiro entrelaçado no olhar

4.01.2010

Nas tuas ondas

Deitado na cama, desfeita em silêncios, na suave maciez do corpo despido, agitava com as pernas a brancura amachucada pelo tempo, ondulando, à deriva, no vasto vazio infindável, longe de tudo, perto, ainda de ti. O barulho desse movimento, como o rebentar das ondas sem nunca ter um fim, sem nunca se gastar. Um búzio vivo a sussurrar a tua voz e o que mora por detrás do teu nome, a trazer-te num movimento lento de peixes verdes, deixando reflexos de madre-pérola ou do teu sorriso. E assim mergulhas dentro de mim, até não conseguir mais suster-te e ter de te libertar por vir à tona respirar. Não são saudades, não são limos separados dos abraços desfeitos, são ondas, apenas ondas. As tuas ondas ainda a bater em mim.

3.30.2010

Mel

Escorres-me dos pensamentos até aos lábios, suspensa no peso da saudade, num mel espesso e vagaroso interior. Fecundo, sedoso, que te arrasta diluída no doce dos sentidos, misturada em mim. Algures, por dentro da pele - entre um brilho de sol nas searas e passos descalços a correr - vagueando nua, em mim, entre músicas e imagens soltas à tua passagem, que te dissolvem no meu lago cristalino, que apenas ondula quando te vai e vem buscar. Lentamente, sem pressa de chegares, aconchegas-te e ficas, na dança do teu sabor. Escorres-me em mel, e em mel te conservo, todo este tempo e o que ainda há-de vir, neste favo da memória, que não parte com as abelhas nem no aroma das flores. Um mel pegado aos dedos, um mel colado a um sopro do coração.

8.11.2009

Entre nós

Entre nós a inutilidade do tempo
Esvaziado, profanado de sentido

Entre nós o mel das palavras
silenciadas nos olhos presos

Entre nós o brilho dos poemas
Num beijo, no calor das mãos

Entre nós o apagar da noite
Rendida ao aluar dos corpos

Entre nós uma paz aquática
Uma núvem, o azul

Entre nós o reencontro
Nunca uma partida

7.11.2009

O teu corpo (num dia perfeito)

O teu corpo é um mar que vai e vem na maré das minhas mãos. É um jardim vivo, encantado, plantado em terra que faz mudar a cor das árvores e dos meus olhos. Por cujos ramos subo, suspenso, a pairar com os sentidos atentos, na frescura da pele, num cheiro de framboesa perfumado em chocolate que desconcentra e embriaga os lábios.

O teu corpo é uma janela rasgada para dentro, onde te sinto, por inteira, numa fala calada e descansam os olhos outrora aflitos. Onde se prolonga o calor de um sorriso infinito num quente frio que se cola à pele agarrado pelas mãos perdidas.

O teu corpo é um acidente iminente, com curvas de rotunda. Elípticas, prolongando o tempo. Deixando um atordoar de luz de lua oscilante que atrai um gato para o meio da estrada, embalado por uma música perfeita.

O teu corpo é uma fita do bonfim quebrada por beijos húmidos. De desejos impossíveis, dos que valem realmente a pena, ofuscando tudo, ao redor, até a vista da cidade adormecida.

O teu corpo é um farol que passou a brilhar nos meus olhos fechados num ponto que baptizaste estrela e que ninguém nos tirará. É um aperto forte que apetece esvaziar sem largar mas sem quebrar. Que apetece morder. O teu corpo és tu comigo num dia perfeito. És tu a viajar em mim. O teu corpo és tu a dormir em mim, algures pelo meu sangue.


Acho o teu corpo assombrosamente perfeito, mas afinal concordo contigo. Mudaria algumas pequenas coisas: juntar-lhe-ia o meu, moldando-se ao teu, na lividez desértica dos silêncios, libertando imagens que quase ferem, por entre suspiros suados e dedos-olhos-lambidos. Levitando num tempo estranho, mais lento e demorado, lembrando que apenas uma parte dos corpos nos pertence, sendo a outra entregue, partindo, numa viagem, algures dentro de mim, dentro de ti.

5.25.2009

Iliteracia

Apaixonei-me 
pela escrita 
antes de ti

Imagens ficaram
depois
do que li em ti

Entre os dois momentos
sou um analfabeto
Não sei se morri se nasci
 

4.29.2009

O texto que tomei para mim

Tomei um texto para mim. Queria-o tanto, meu, que mesmo sabendo-o de alguém, que não eu, não quis saber. Tomei-o para mim sem pedir licença. Guardei-o, como se guarda um bem frágil. Precioso. Uma anémona, liberta, no meu oceâno. O texto que tomei para mim.

Percorri-lhe cada frase, vezes sem conta. Na claridade e no escuro. Lentamente, refiz da escrita os teus gestos. A tua imagem, apagada. Senti, com as mãos, a textura de cada palavra. Como uma cicatriz antiga, lembrada delicadamente. A cada pausa, o teu respirar. Próximo. Presente.

Era um texto pequeno. Simples, mas infinito. O texto que tomei para mim. O texto que passou a viajar e a dormir comigo. Que diluí na pele. Que passei a saber de cor. Tudo isso mora nesse texto. O texto que quiz só meu, O texto que tomei para mim.

2.18.2009

Levitate

Let me dreaming, don’t you mind
Let me see what we can find
Someplace we'll derive

In a snowy bright of light
Or a caught of summer night
Just going in this dive

Let me dreaming, don’t ask why
Questions are an enemy
For something so alive

A strange kind of gravity
Never-ending memory
Presence, tranquilize

So take me in your case
I’ll keep you in my taste
In a wind called levitate

Assíduos do shaker

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