Oasis, The Hindu Times
8.31.2008
8.30.2008
Noites calmas

Calor de luzes pela noite densa. Movimento que se esvai. Aos poucos. Arrefecido na sua eterna e lânguida espera de silêncios. O início fora talvez assim: de silêncios escuros. E era a noite quem melhor o lembrava.
A mesma realidade é infinitamente diferente, chegando a parecer repetida. Como um zoom fotográfico desfocando-se em pontos. Passando a assemelhar-se às células do próprio fotógrafo que lhe cede o dedo e o olhar.
Qualquer olhar já é passado. No tempo que leva à percepção. E não passa dum jogo de luz, que julgamos falsamente nosso.
Gostava desse desprendimento de posse do olhar por si só. De ouvir as artérias da noite sussurrarem-lhe ímanes. Sentir a sua presença aveludada a cada inspirar de ar frio. Tirar algumas fotos. Ténues tentativas de aprisionar essas danças invisíveis. Apenas perceptíveis em algumas noites calmas.
8.29.2008
Mistério de luz

quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas - noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavam
os líquenes das imundas máscaras
hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se
onde se pode - num vocabulário reduzido e
obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir
apesar de tudo
continuamos e repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva - vamos pela febre
dos cedros acima - até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial
8.28.2008
Valeu?

- “Oi! Estava mesmo à tua espera! É só um tirinho! Valeu?”
Desculpe? “Oi”? “à tua”? “tirinho”? “valeu”? Estarei em Ipanema ou em Copacabana? Não, parece que estou mesmo em Lisboa!
É nestas alturas que (queiram desculpar) assentaria como uma luva o uso de uma arma de fogo (silenciosa, note-se, nada de grandes estardalhaços, que prezo bastante o silêncio) para, depois do referido “tirinho”, poder retribuir convenientemente o cumprimento com um ligeiro baixar de cabeça e um saudoso “à tua”. “Valeu”.
PS: Não tenho nada contra brasileiros mas já me faz um bocadinho de espécie que certos estabelecimentos não tenham nenhuma preocupação na forma de atendimento dos seus clientes. Mas provavelmente é defeito meu.
8.27.2008
Memória
8.26.2008
Massagem
8.25.2008
8.16.2008
Férias
8.15.2008
8.14.2008
Perfect served
8.13.2008
Ir andando, que se faz tarde
+Vir+e+ir+(Iva+Silva)%5B1%5D.jpg)
Faz-me um pouco espécie (para não dizer muita) e considero sintomático (do grau de afecto real) que ao rever alguns colegas de faculdade, a quem chamo de “amigos” e não via há anos, que a primeira coisa que me perguntem seja a fatídica questão do “onde estás a trabalhar, agora”, logo seguida dum chorrilho de perguntas de onde está este e aquela. E de comentários como “está muito bem” ou “mudou daqui para ali”. Pode parecer uma estupidez, ou sensibilidade excessiva da minha parte, mas, para além de não me interessar minimamente, soa-me quase sempre a “comparativos”, “invejas” ou "exacerbados auto-elogios" sem qualquer razão de ser (a meu ver, lá está). Até coabito bastante bem com namoros, casamentos e filhos, mas esta pergunta, assim a seco, é castradora de qualquer vontade de conversa. Onde estou? Aqui, à tua frente! E, curiosamente, já com vontade de ir andando, que se faz tarde.
8.12.2008
Oito

Por mais que gostasse das palavras a vida é feita de números. Apercebera-se, com o passar dos anos, dessa matemática fatalista das coisas, subtilmente camuflada, mas sempre presente.
Foi difícil aceita-lo mas sabia-o agora, bem. Indubitavelmente bem. Como que uma força do destino. Imparável. A que nada podia fazer frente.
Estava diante da linguagem mais poderosa e universal. Precisa. Milimétrica. Que não permitia trocas, fonéticas ou interpretações. A crua e fria linguagem dos números. Sempre presentes. Sempre escondidos. No mais banal dos acontecimentos.
Decidiu então que teria um número. Sim, um número. Porque não? Assim como quem tem um poema ou uma palavra favorita. Teria um número.
Chegara à conclusão que (estatisticamente, lá está) todos têm um número. Que se sucede mais vezes, por razão aparentemente desconhecida (ou talvez não) nesse misterioso alfabeto vivo dos dez algarismos.
O seu número era o oito. Curvo. Simétrico. De círculos perfeitos, unindo seus corpos num só. Talvez pela sua forma feminina, ou de ampulheta. Talvez por, tombado, tender para infinito.
8.11.2008
Aquela voz

Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
8.10.2008
8.09.2008
A arte de ler
8.08.2008
O silêncio dos sentidos
Tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falarem de mim, pessoas de quem gostei, pessoas que perdi, gente que tenho ainda.
António Lobo Antunes
Basta-me o silêncio dos sentidos.
Nada mais.
Tudo o resto é supérfluo. Dispensável.
Basta-me o silêncio invisível aos olhos abertos.
Esse rio de mãos frias que perdura como lâmina ou raio de sol.
E onde dançam imaculadas transparências e densos nevoeiros.
Que sempre nos levam, algures, aos seus jardins secretos.
Onde nem todos conseguem entrar.
Que fale sempre alto esse silêncio.
E nunca se cale.
Esse silêncio que diz.
Esse silêncio sentido
Esse silêncio dos sentidos.
8.07.2008
Vestígios

Adormeceu com a brisa a fazer-lhe festas nos cabelos. Sentiu texturas de ouriços, algas e anémonas. Viu cores inimagináveis. Ouviu cânticos de sereias. Aveludadas inocências e espirais de abismo. Em alternância. Os extremos também se tocam. Lembrava-se de o ter pensado, e de se ter sentido tocada, exactamente aí. Naquele extremar de sentidos e sensações. Algures. Em parte incerta. Naquele calor hieroglífico de Rá.
Regressou finalmente em peixe, ancorando em coral. Acordou extremecida com o beijo mais fresco e salgado que algum dia existirá em terra firme. Na pele quente e bronzeada com vestígios daquela viagem. Entre o sonho e a realidade. Entre o segredo e o delírio. Por entre vestígios dum deitar fecundo no estenso areal.
8.06.2008
8.05.2008
Avareza em fumo negro

Do seu brilho que te ofusca o negro indiferenciado do teu ser. Escondes-te. Arrastas-te no mundo. Amorfo. Negro. Sou AVAREZA, e estou em ti.
8.04.2008
8.03.2008
Sir Hellington, o cavalo marinho

Enrolaste-te na minha respiração com a tua lentidão vertical. Como que levitando uma tranquilidade inatingível. Só possível com a experiência da idade. Que aos poucos se apoderava de mim num eco interior. Aos poucos, a tua presença espreguiçava no ritual clássico do inspirar e expirar.
Foste outrora o espião perfeito. Belo e delicado. Enviado pelo Rei dos mares numa sombra mutante. Camuflando, talvez, a tua beleza fulminante. Protegendo-a dos olhares indefesos. Vestido dessa farda híbrida. Absíntica. Delicoespinhosa. Inventei essas palavras Hellington. Perdoa-me. Mas não há palavras possíveis para descreverem essa tua forma fugaz. Uma presença que se sente sem se ver.
Vimo-nos estáticos como medusas petrificadas. Apenas com o movimento do olhar. Como quem se estuda ao milímetro, num respeito silencioso. Agitando histórias ensurdecedoras, de não reveladas. A tua cauda enrolada, Hellington, é o meu dedo no queixo. Tentando perceber toda a sabedoria contida no teu olhar.
8.02.2008
Amante
Paris - Referência: 666 (F)
Requisitos:
Não fazer perguntas sabendo antes ler as respostas
Preferir gestos e silêncios
Olhar nos olhos. Perder-se por lá
Preferir coração à razão
Acreditar em magias e acasos
Ter asas e abismo
Possuir revolta e tranquilidade de mar
Amar pequenos momentos
Reconhecer aqueles segundos que se espreguiçam no tempo
Coleccionar músicas e usa-las para ver o mundo com banda sonora
Ser veneno e antídoto
Ter o encanto do deserto espalhado na pele
E a frescura dos frutos nos lábios
Não ser perfeita. Ter muitos defeitos para descobrir
Recusar promessas e não as fazer também
Ser lareira, chuva e vapor
Ter a sabedoria delicada dum vinho
E histórias antigas, por detrás das orelhas
Nada esperar mas sonhar
Amar a beleza das coisas belas
Ser o pecado a cada encontro
E um uivo que perdura nos luares
Ser seda e sede
Ter a subtileza da surpresa
Poder mudar tudo o exposto
Por razões de confidencialidade o anunciante é omisso. As candidaturas podem ser enviadas para este apartado, preferencialmente manuscritas a aparo, lacradas e com fotografia a sépia, contendo uma parte do corpo que considerem de elevada sensualidade. Serão contactadas nesta ou numa próxima encarnação. Mesmo não sendo a eleita, informa-se, que teremos a delicadeza de enviar um pombo correio ou um sinal de fumo. No caso do pombo, apenas se solicita que, a ser confeccionado, lhe dediquem a merecida atenção não esquecendo a apresentação do prato e o acompanhamento por um vinho de qualidade (de preferência nacional). No caso do sinal de fumo nada se solicita, com excepção das possíveis Pocahontas (às quais se apresentam as desculpas por meio tão banal) ou às fumadoras compulsivas, às quais se sugere apenas que não inspirem sob pena de inviabilizarem futuras comunicações (os pombos correios são cada vez mais raros).
Com os melhores cumprimentos,
Michael Page International