Madredeus
Porque custam tanto alguns adeus ?
Quatro e dez da manhã e o sono distante. Algures, vagueando por parte incerta. Perdido, talvez. Subindo e descendo como um barco na ondulação louca das horas. No rodar dos ponteiros. A noite em claro dissipada em pensamentos escuros. Soltos. Dispersos, sem ligação aparente. Pontas soltas dum fino novelo emaranhado. À espera de ser decifrado.
Ser chuva pelo teu corpo
envolvendo-te, às primeiras gotas,
nessa forma insipiente
entre a inocência e o despertar do desejo.
Correr em ti, na violência de um rio
arrastando sentidos, levantando estacas.
Infiltrar-me nos lábios, entreabertos,
estremecendo a tempestade
num torpor. Libertando um esgar.
Uma folha, que desce comigo.
Molhar-te os olhos, a pele, os ossos.
Inundar-te a alma de mim.
Gota a gota. Toque a toque,
No barulho da chuva.
Precipitar-me. Diluir-te.
Para que juntos, finalmente,
possamos ser um só.
Misturados, nesse líquido
que já não é chuva e se faz nuvem
no calor da paixão.
Nick Cave & The Bad Seeds
Para uma senhoria de vários inquilinos não ter vontade, ainda, de partir com Cassiel.