3.31.2007
3.30.2007
Elixir de uvas
Ao seu lado, mirrava o seu oposto. E quanto mais se olhava para a outra, bela e vigorosa, mais dó nos merecia aquela pobre amostra de vida murcha, encarquilhada e desmaiada, que nem o sol parecia querer tocar. Mas eram ambas irmãs, da mesma seiva nascidas. O que a outra tinha de belo, esta tinha de penoso, o que ela tinha de vida, este parecia acrescentar em definhamento. E quanto mais a primeira crescia e desabrochava, mais a outra parecia encolher-se e desistir. No entanto, persistia, teimosamente, num martírio teimoso.
Foi então que algo de estranho aconteceu. A sua sombria existência abandonara o lar para cair à terra numa lentidão frágil, em câmara lenta, como se o mundo parasse para observar. Ao tocar o solo, fez-se um silêncio ensurdecedor. Não se ouvia vivalma e o mundo aguardava como um animal calado mas inquieto, a antever uma catástrofe. E ali ficou, imóvel ao olhar, mas rolando lentamente, na sua forma amorfa e amassada. Numa agoniante viagem, em que os minutos pareciam horas e estas dias, percorreu a encosta até encontrar a parede do casario.
3.29.2007
Saudade

apenas o frio da pedra
Dos longos passeios sem destino
apenas as curvas do carreiro
Das histórias intermináveis
apenas o brilho entre a folhagem
Do assobio bem disposto
Apenas o silêncio dos pássaros
Da paciência interminável
Apenas pedaços de memória
Do olhar ávido de criança
Apenas saudade em olhos fechados
Das histórias intermináveis
O tanto que faltou conversar
Saudades. Tantas...
Para uma pessoa especial que já não está.
3.28.2007
Dorme

Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua? É teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.
3.27.2007
Desconhecido
3.25.2007
O pior português

António de Oliveira Salazar
Três nomes em sequência regular...
António é António
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está tudo bem.
O que não faz sentido
É o sentido que isso tudo tem
Fernando Pessoa
O pior português é a ignorância. A total indiferença pela história, a falta de fascínio pelo conhecimento e saber. O facilitismo apático da crítica sem acção. Um amorfismo pantanoso que nos afunda lentamente, parados no tempo, num sabe tudo analfabeto.
O pior português é a falta de educação que coloca no mesmo saco génios e vulgares, sufocando tudo como erva daninha. É o ser cigarra invejando a formiga, achando tudo cair dos céus.
O pior português é sobretudo não dar valor à liberdade trocando-a por uma suposta segurança: podre, monótona, de foros e quintais.
Embaraçoso. Quase vergonhoso este Portugal secular mas de tão pequena memória, que prefere ditadores e opressores a descobridores e poetas.
3.24.2007
3.22.2007
Vertigens de infinito

3.21.2007
Musa

Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos
Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente
3.19.2007
Pedras e polimentos
3.18.2007
Unmade bed
3.17.2007
3.16.2007
Pouco mais há a dizer

3.15.2007
A ponte

Talvez o espesso manto branco
Te torne tão difícil de encontrar
Invisível à luz dos dias
Transparente, aos olhares apressados
Que tudo sabem. Que tudo julgam.
A verdade não existe
Mas pequenas mentiras
que ao derreter desvendam parte
do seu sinistro caminho
para logo se voltar a cobrir
Existe uma ponte que poucos conhecem.
Separa o óbvio do inexplicável
Dela se contempla o rio da vida
Que corre sem razão aparente
e, ao que julgam, sem lei ou batina.
3.14.2007
Aquele olhar

De repente, ao fundo do túnel, uma barreira móvel de luz, vidros e pessoas surge para, ao partir, levar também aquele olhar.
3.13.2007
3.12.2007
Longa viagem

Barco e navegante em sintonia de movimentos. Adrenalina. Força. Vitórias e derrotas. Saudades. Esquecimentos. Descobertas.
Ousadia e tradição, algures num horizonte salpicado por espuma branca salgada. Guiado pela estrela polar desfiando, aos poucos, o embaraçado novelo de ideias e pensamentos num fio ondulado, que se liberta em rasto branco deixado para traz.
3.11.2007
Mar
3.10.2007
3.09.2007
Waiting
3.08.2007
Lídia

Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.
3.07.2007
O jardim dos poetas

No jardim dos poetas há um brilho invisível que tudo ilumina. Há silêncio frio e emoções sonoras em raios de sol, surgindo por entre árvores seculares.
No jardim dos poetas há crianças de todas as idades e pássaros contadores de histórias. Há folhas de Outono que não caem mas se levantam para o céu.
No jardim dos poetas há aromas de frutos silvestres no salpicar dos ribeiros a correr, pelas veias. Amantes que se tocam ao luar dos dias e saudades a coaxar junto ao lago dos peixes da memória. No jardim dos poetas moram segredos antigos, guardados pelas estatuetas clássicas de anjos e demónios e há sempre um nevoeiro de mulher vestida em noite estrelada, que dá corpo e alma ao jardim dos poetas.
3.06.2007
3.05.2007
Presa em mim

Aqui me sinto presa. Em mim. Presa neste corpo. Fraco, apertado, que desperta o desejo dos homens e a inveja das mulheres. Este corpo belo para tantos mas duma indiferença, quase invisível, para meu ser.
Corpo que não escolhi. Que embrulhou esta alma rebelde, com um laço apertado, que estrangula e aleija esta inquieta leveza insaciável que quer a fuga a todo o momento.
Não sei que corpo lhe serviria. Penso que nenhum. Ou talvez algum ainda não inventado. Mais denso, mais inócuo, que cobrisse melhor esta luz que tenta sair por todos os meus poros.
E assim continuo. Estática. Presa. Presa no meu corpo como fera enjaulada às voltas, num lento enlouquecer. Penso se a morte calará esta voz ou se já morri e fiquei presa neste caixão.
Aqui estou. Existo. Persisto. Presa em mim…
3.04.2007
Rosas

O que achava mais interessante nas rosas não era a sua notoriedade quase vulgar. A flor das flores. A associação ao amor. A variedade de cores para todos os gostos ou ocasiões: vermelho paixão, branco pureza, amarelo liberdade, champagne admiração e até preto sofisticado.
Gostava de rosas porque era assim que sempre lhe tinham chamado. Rosa. Simplesmente Rosa, nada mais. Um nome vulgar para muitos, mas não para ela que amava as coisas simples da vida como ninguém. E, apesar de todos os espinhos que esta lhe reservara, sempre os soubera ultrapassar com um sorriso nos lábios. Vermelho Rosa, lá está.
Tivera seis filhas. Lindas, de pele rosada e aroma floral com a força da natureza. São Rosas, também, curiosidade, mas não são milagre.
Apenas Rosas, como a mãe.
3.03.2007
O caminho

Caminhos que se cruzam, que se distanciam. Caminhos que se separam. Temporariamente. Definitivamente. “O caminho faz-se caminhando”, quantas vezes envolto num nevoeiro cerrado ou noite escura. Quantas vezes sem nos apercebermos que já tomámos outro atalho. Em direcções tão diferentes das inicialmente traçadas. Mas talvez o mais intrigante e inquietante, deste caminho, é que a mais inconsciente direcção poderá mudar totalmente o rumo da viagem. E a outra, deixada para traz, já não volta, e poderia ter sido totalmente diferente. Melhor? Pior? Quem sabe? Mas passou. Inconscientemente. Imperceptivelmente, ao sabor do acaso. Como uma gota de água que escorre por uma parede, para local incerto.
Este caminho é a vida e é isso que a torna tão interessante.
3.02.2007
Musicalidade de infância

E a lânguida e triste música rompe…
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha de um lado
O deslizar de um cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo…
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora o cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo…
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo…
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos…)
Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal… E a música atira com bolas
À minha infância… E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos…
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás da minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com jockey amarelo…
E de um lado para o outro, da direita para a esquerda
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância…
E a música cessa como um muro que desaba,
E a bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto de um cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que desaparece pelas costas abaixo…