... somos todos nós
5.23.2011
5.16.2011
A vida

A vida é um suceder de acidentes, uns atrás dos outros. sem os controlares. e tu não percebes nada. tu nunca percebes nada. mas também ninguém disse que a vida é para ser percebida. é apenas para ser vivida, assim. sentida, mordida, respirada ou chorada até às entranhas, mesmo sem a perceber. uma vida apenas é manifestamente insuficiente para a poder perceber. e tu nunca percebes nada. tu nunca percebes nada. chegas, tantas vezes, a evitar um abismo sem sequer o vislumbrar ou a tocar no destino como se ele estivesse ali, escrito, a estender-te a mão. e tu dando-lhe a tua, sem perceber nada. tu sem nunca perceber nada de nada. e quando, avançando na idade, te achas quase quase capaz de a perceber um pouco melhor, estás talvez apenas conformado sem o admitir. até que, finalmente, um acidente te colha de frente. mesmo em cheio. toma! pum! e com ele, se a tiveres vivido bem, num rebobinar de longos segundos brancos, essa sensação estranha de ter valido a pena chumbar no exame sem nunca a ter copiado pelo colega do lado.
5.12.2011
5.08.2011
5.03.2011
A palavra mais simples

A água quente cai com o mesmo barulho que a água fria e a sombra de todas as cores esconde-se num mesmo eco trémulo e vagaroso, que afugenta a matéria do olhar dando-lhe voz. Diluí dos objectos uma certa ferrugem macia, invisível talvez de improvável. Quase impossível, de tão distante do toque mas de passos tão chegados.
Os sussurros da noite são sempre um mistério indesvendável, assim como as tuas mãos que resgatam o calor do sol, aquecendo mais a alma do que a própria pele. Não sei nada para além do que sinto. Será muito ou pouco? Não sei. As crianças é que têm sempre a razão, até porque ela só nasceu adulta para tudo estragar.
Ando tantas vezes, assim, entretido à conversa com o silêncio, fazendo nascer palavras no ventre, que gatinham pelo seu próprio pé até à boca, até não se poderem mais suster. Até perderem o pé no meu corpo e nadarem, livres, para ti. Deixo-te, desta vez uma, colada na saliva de um beijo, ao ouvido. A que tu já sabes de tanto ta dizer de tantas formas. A palavra mais simples mas que apenas a ti te pertence.
5.02.2011
Memória
4.17.2011
Dentro das gavetas

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mas sábio do que tu.
Há um mês ou um século, não importa.
Pedro Mexia
4.15.2011
Poema açucarado
4.14.2011
Arquitectura #20

O pátio arejado "apiscinado" com o som da água e das folhas de uma trepadeira gigante de perder de vista

O branco de todas as portadas e janelas abertas à luz, salpicadas por cores vivas e garridas dos ecos dos sorrisos

O respeito pela pedra antiga com o minimalismo moderno do essencial alinhado ao piso de tábua corrida
4.13.2011
Hino

É para ti
que crio os hinos
e os oceanos
a persistência opaca
da noite
o vício das árvores
Os cabelos pretos
que desprendo
são para ti que invento
entre o instinto
roxo
dos teus lábios
É para ti que crio
o orvalho branco
dos meus espasmos
onde tu és deus
e eu apenas nua
de te dar o líquido instinto das
gargantas
como os meus seios arqueados
lua
Maria Tereza Horta
4.12.2011
Desconcertante
4.04.2011
4.02.2011
Capicua

A notícia do défice nacional se ter fixado nos 8,6 em vez dos 6,8% do PIB abriu mais uma fantástica janela de oportunidade na página oficial do ministério das finanças . Então não é que foi criado um "utilérrimo" widget? Nada mais nada menos que teixeirasantear.o.seu.nome.pt
É quase a mesma coisa que com o da Floribela e do Jaló, com a vantagem de poder servir simultaneamente como gerador de chaves aleatórias para o euromilhões. Fontes próximas do ministro apontam no entanto já para os 8,8% no que apelidam de salvação da capicua permitindo também assim a potencialidade do jogo de espelhos!
4.01.2011
Grito [para ti]

Grito
Grito para ti
Não para me ouvires
ou ser notado
Grito. Desprovido de som ou palavra
Num assalto ao corpo incompleto
Numa folha de Outono a cair
Grito, talvez
para que os teus dedos quando distantes
continuem a levar a minha boca à tua
Um par de bocas, numa só
Afogando este miar aflito
num beijo largo
Infinito
3.31.2011
Ferrujem

Viajar por fotografias alheias. Tanta realidade aprisionada numa estética difusa e descomprometida. O mundo é tudo o que acontece mesmo o que não se viveu ou viverá, mesmo o que não se vê a olho nu, mesmo o que se inspira na manhã despida de gente. Tempos misturados, realidades e ficções, lado a lado, cruzando os braços ou evaporando-se num sopro, debotando-nos a alma num caderno de notas - não de escrita, de música oscilando no cheiro do café.
3.27.2011
3.26.2011
Art
3.20.2011
Ser do sim
3.18.2011
Devagar

Levantar devagar. No espreguiçar dos gatos nas vidraças. Escrever dois textos curtos mas de horizonte largo. Tocar uma sonata de Schuman e fechar abruptamente o piano, de repente, libertando na sala o barulho de todas as notas numa só, colada às paredes. Acordar devagar como uma música que tudo revela a seu devido tempo, devagar. Olhar os pássaros no balançar dum ramo mais alto do que o que contem o olhar. Esticar o tacto num afiar de unhas, devagar. Passar a mão pelo relevo de um poema e sentir a cicatriz da sua voz a entranhar-se pelo corpo. Abrir a tua blusa, devagar. Tirar fotografias ao acaso para eternizar o nosso tempo. Viver devagar. Morrer, depressa.
3.12.2011
Metade

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste,
e que o convívio comigo mesmo se torne
ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer
Porque metade de mim é plateia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.
Osvaldo Montenegro
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