3.26.2011

Art

- Can you see why this is good?
- You can tell if something is truthful even if you don't understand it if it affects your body. Your liver and bowels are more important as an artist than your eyes because they are so far away from your brain.

Dialog from Six Feet Under

3.20.2011

Ser do sim


"Ser do sim é muito mais difícil mas também muito mais interessante e compensador do que ser do contra. Eu sou do sim!"


Cada vez gosto mais desta menina e do samba das suas histórias e conversas.

Adriana Calcanhoto

3.18.2011

Devagar

Levantar devagar. No espreguiçar dos gatos nas vidraças. Escrever dois textos curtos mas de horizonte largo. Tocar uma sonata de Schuman e fechar abruptamente o piano, de repente, libertando na sala o barulho de todas as notas numa só, colada às paredes. Acordar devagar como uma música que tudo revela a seu devido tempo, devagar. Olhar os pássaros no balançar dum ramo mais alto do que o que contem o olhar. Esticar o tacto num afiar de unhas, devagar. Passar a mão pelo relevo de um poema e sentir a cicatriz da sua voz a entranhar-se pelo corpo. Abrir a tua blusa, devagar. Tirar fotografias ao acaso para eternizar o nosso tempo. Viver devagar. Morrer, depressa.

3.12.2011

Metade

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste,
e que o convívio comigo mesmo se torne
ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer
Porque metade de mim é plateia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Osvaldo Montenegro

3.04.2011

Mel-and-Cia*

Uma coisa nunca é apenas o que é. Varia na forma e no lugar. Varia no tacto, no carinho e no que de nós lhe cunhamos. Varia na lentidão do tempo reservado e na palavra emprestada. Varia no olhar e nos olhos fechados. Varia no simples prazer da oferta, na reacção, no sorriso que ilumina as salas e no tocar dentro do escuro. Varia nos silêncios e na imaginação. Uma coisa nunca é apenas o que foi. Varia. Chega a ser o que ainda não foi. Chega a ser o que dela fica para sempre. Uma coisa nunca é apenas uma coisa só. Varia, nos teus lábios, nos teus gestos, na tua música por detrás de todas as coisas.


* Sementes e colheres variavelmente dispensáveis

3.02.2011

Inside

Saudades de tropeçar num texto longo ou em algo alto, invisível ao olhar, viajando algures dentro de mim, longe de tudo, envolto dum tempo tépido sem pressa de me arrancar de lá.

2.26.2011

A mala das palavras

Olhava para as pessoas comuns e ouvia-as sempre sem som, esvaziadas de palavras. Tentava antes ler-lhes o que morava por dentro delas: os gestos límpidos e inatos, alheios ao movimento fácil dos lábios. Ás vezes ouvia-as com o barulho do mar ou colocava-lhes uma banda sonora, escolhida cuidadosamente, que lhes prendia os gestos num movimento mais lento, e ficava assim, ali, a olhar para elas, absorvendo a sensibilidade inocente, impossível de encenar neste mundo de palavras gastas e faz-de-conta. Falava cada vez menos, refugiando-se em longos textos sentidos que rasgava por não querer falar sobre eles. Abraçava as amizades com quem privava com uma força frágil e demorada de quem abraça o vento. Abria um bom vinho e preparavam entradas inventadas que serviam de jantares tardios onde se falava de tudo quase sem palavras. Percebia a escassez do tempo e a magia do silêncio partilhado. As palavras? essas oferecia-as com a pimenta do humor e no sal de um beijo colado à testa.

2.19.2011

Se

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.


Sophia de Mello Breyner Andresen

2.07.2011

Inside


Massive Attack, Sam

Onde sentes a alma? Na cabeça? No peito? Em frio ou calor? Abraçada, por dentro, na quietude mais fina e tranquila ou num movimento de nuvem irrequieta? Onde sentes a alma? Quanto mostras do que dela mora em ti?

2.04.2011

Arquitectura #19

Espaço amplo. Pés direitos estupidamente altos. Paredes de tijolo estragadas pelo tempo. Contraste do metálico antigo industrial com apontamentos modernos de design simples: mornos, tácteis e rectilíneos. Um conforto descontraído, simples e despido. A minha cara.

Também podia ser assim portanto!

1.28.2011

As imagens


As imagens passam umas atrás das outras, aleatórias, dispersas, sem qualquer pressa ou razão. Passam apenas, por um qualquer desígnio universal, empurradas como por uma cadência plástica de projector de slides que surpreende o escuro por já não se usar, arrumado numa caixa perdida na arrecadação.

As imagens passam. Passam, com o que nunca se apercebeu e com o que nunca se verá plenamente. Passam com o que de nós lhes entregámos e com o que nunca se viveu ou viverá e no entanto está lá estampado, impregnado.

Passam, numa leveza estranha, quase poética, que se faz pesada e afunda em música no corpo, dissipando um tempo que se sente a textura, que mesmo aprisionado se agita até se revelar noutras imagens que lhe seguem automáticas, imprevisíveis, nascidas dum lugar distante mas tão próximo ao mesmo tempo.

Com o tempo despedimo-nos das coisas reais e conhecidas para abrirmos as portadas da alma a andorinhas de cal, que nos pintam as pálpebras por dentro do escuro em imagens que passam, umas atrás das outras, sem qualquer pressa ou razão.

1.20.2011

Tempo [de mudar o tempo]

Vive-se cada vez mais num tempo que nos foge como água nas mãos. Um tempo que é o mesmo que sempre foi mas que deixou de ser verdadeiramente nosso. Por mais conscientes ou atentos, deixámos o tempo partir. Permitimos que sumisse de solidão, de falta de conversa ou afecto, deixando-o à deriva e ao seu relógio que sussurra para todos sem se deixar ouvir.

Vive-se num tempo pelo qual passamos tantas vezes alheados das verdadeiras questões ou de nós próprios. Tantas vezes quase sem tempo para pensar ou questionar o mundo, desejos ou vontades, nesta estúpida velocidade que inventámos sem darmos conta.

Vive-se mais de idade mas viver-se-à melhor? Indubitavelmente menos, estou em crer. Num tempo que observa atónito a nossa loucura colectiva, correndo para tudo, competindo por falsas urgências ou velocidades tão vãs que acrescentam afinal tão pouco.

Vive-se no tempo dos assassinos do tempo. Num tempo sem tempo, arrastados na correnteza e carneirada, impotentes, perdidos, algures longe de nós. Por isso paremos. Paremos para pensar e para apreciar o que se desfoca na velocidade estonteante. Paremos e olhemos o tempo de frente e o tempo que nos rodeia - o que passou, o que se vive, o que virá. Paremos para dizer ao tempo que ainda é tempo de mudar o tempo.

1.18.2011

Eu contarei

Eu contarei a beleza das estátuas -
Seus gestos imóveis ordenados e frios -
E falarei do rosto dos navios

Sem que ninguém desvende outros segredos
Que nos meus braços correm como rios
E enchem de sangue a ponta dos meus dedos.


Sophia de Mello Breyner Andresen

1.14.2011

Amor

Deito-te no meu caderno e entorno-te como uma aguarela viva - livre. Observo os teus gestos imóveis, sentados só para mim, pendurados ao sono. Avançam e recuam com pés descalços, na lentidão da sombra, debruçados curiosos ao meu ombro. Às vezes descuidam-se desleixados, deixando a marca de um beijo no pescoço para logo se esconderem num cheiro que fica no ar. Passo-te com a mão na pele e na cicatriz das letras que te deixei. O barulho das cigarras avisa o tempo quente que já é dia e que te amo, assim como és.

Assíduos do shaker

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