12.22.2007

A crise

Cliente (C): Boa tarde. Podia dizer-me o preço destes botões de punho? Não estão marcados.

Funcionária (F): Botões de punho? Isto não são botões de punho. São... são... Ó colega o que é "isto"? São... Uma coisa que ficou ai.

C: Desculpe, mas são botões de punho.

F: Ó colega quanto é que “isto” custa? Deixe ver... Não está registado no sistema...

C: Se quiser oferecer-mos eu aceito.

F: Por mim...

C: Tudo bem deixe estar, quero zelar pelo seu posto de trabalho. Boas Festas!

Apenas não pedi o livro de reclamações pois estamos no Natal e temos que compreender que o comércio em Portugal anda mesmo mau. É da economia. Que havemos de fazer...

12.21.2007

Memória

"Um acontecimento vivido é finito. Um acontecimento lembrado é ilimitado"

Walter Benjamin

12.19.2007

Pequenas diferenças

O mundo está cada vez mais igual. Avançando aos poucos, pé ante pé. Camuflado no frenesim do movimento. Imperceptível aos menos atentos. Cobrindo tudo duma tinta espessa. Pastosa. Asfixiando as cores, esbatendo as luzes num tom uniforme. Insuportavelmente igual.

Globalizam-se gostos e desejos. Estereotipam-se estilos. Moldam-se causas e vontades. Acentuam-se desigualdades e injustiças. A informação é comprada em pacotes e disseminada em modas, sem o devido tratamento ou juízos de valor. Tudo se aceita. Nada se contesta se nos deixamos embalar no seu cavalgar.

O verdadeiro poder é reservado e corporativo. Oculto. Move-se discretamente na sombra das ilusões lançadas. Tomando as rédeas deste mundo uniforme.

Não podemos mudar o mundo, mas devemos procurar o conhecimento, a exigência e os valores que nos permitirão, talvez, não deixar fugir as pequenas diferenças.

12.18.2007

Folha branca

O tempo e o espaço concentrados no infinito branco da folha despida. Simplicidade vazia que tudo absorve e permite. Lago de silêncios magnéticos ávidos de aparos e afagos. Textura impaciente. Sempre expectante. Cálida nudez sedutora de partidas ou destinos. Nunca de chegadas. Caminho incerto. Cama. Desfilamento.

A felina necessidade da escrita. Rugindo. Afiando as unhas. Aproximando-se lentamente da pele. O peso da necessidade. Palavras soltas que correm para um amplo largo empedrado. Ecos que levantam voo. Respirar. Arrepios. Uma droga que se espalha escorrendo da alma. Talvez. Depositando o seu corpo cansado na insuportável brancura da folha. Branca. Branca. Tão branca.

12.17.2007

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

12.14.2007

12.13.2007

A thousand kisses deep.





The ponies run, the girls are young,
The odds are there to beat.
You win a while, and then it's done -
Your little winning streak.
And summoned now to deal
With your invincible defeat,
You live your life as if it's real,
A Thousand Kisses Deep.

I'm turning tricks, I'm getting fixed,
I'm back on Boogie Street.
You lose your grip, and then you slip
Into the Masterpiece.
And maybe I had miles to drive,
And promises to keep:
You ditch it all to stay alive,
A Thousand Kisses Deep.

And sometimes when the night is slow,
The wretched and the meek,
We gather up our hearts and go,
A Thousand Kisses Deep.

Confined to sex, we pressed against
The limits of the sea:
I saw there were no oceans left
For scavengers like me.
I made it to the forward deck
I blessed our remnant fleet -
And then consented to be wrecked,
A Thousand Kisses Deep.

I'm turning tricks, I'm getting fixed,
I'm back on Boogie Street.
I guess they won't exchange the gifts
That you were meant to keep.
And quiet is the thought of you
The file on you complete,
Except what we forgot to do,
A Thousand Kisses Deep.

And sometimes when the night is slow,
The wretched and the meek,
We gather up our hearts and go,
A Thousand Kisses Deep.

The ponies run, the girls are young,
The odds are there to beat.
You win a while, and then it's done -
Your little winning streak.
And summoned now to deal
With your invincible defeat,
You live your life as if it's real,
A Thousand Kisses Deep.


Leonard Cohen

12.12.2007

Mar revolto

Queria dizer-te o mar revolto que um dia aprisionei. Maré contida mas indomável. Bater incessante que sempre volta em busca de uma fresta de palavra para se libertar. Fome voraz de passado esquecido. Que sempre flui para ti.

No contorno dos lábios ondula esse mar. Ancorado. Depositando o sal e a espuma dos dias guardados. Levantando a poderosa tempestade que sempre se agita no silêncio profundo do nosso olhar.

De nada serve falar a este nível de abstracção. O mar é sempre vasto e incerto. Sem principio nem fim e eu já me habituei a ele. Revolto.

12.11.2007

Claridade e escuridão

Escuro. Dava-se cada vez melhor no escuro. Na ausência. No nada.
Nada já lhe interessava. Nada o comovia. Nada.
O mundo fora perdendo cor e a luz tornara-se, aos poucos, insuportável. Perdera a vontade dos dias. Apenas tacteando os silêncios frágeis da noite. Vazia. Protegida. Sagrada.
O seu corpo tornara-se uma casa inabitada. Inóspita. Apenas visitada por um vácuo antigo que lhe fortalecia os sentidos. Tornando-o num predador de silêncios. Via no escuro a tinta invisível dos dias, protegida dos olhares. Uma inocência perdida, evaporada com o calor do sol. As falsas verdades. A coragem adiada. Os valores esquecidos. Também pairavam no negro enxame do escuro. Na transpiração do dia acabado. Cansava-o essa predisposição pois tornava-o seu escravo. Era, no entanto, apenas o que lhe restava e o prendia a este mundo de claridade e escuridão.

12.10.2007

Eu quero morrer no mar

Olha os meus olhos morena
porque a aventura é ficar
se a minha terra é pequena
eu quero morrer no mar.

Lençóis de algas e peixes
de barcos a menear
no dia em que tu me deixes
eu quero morrer no mar.

E se o negro é a tua cor
respirando devagar
depois de amor meu amor
que quero morrer no mar.

António Lobo Antunes

12.07.2007

Fragmentos divinos

Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência?
Ou impõe-se devagar, como as coisas que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?

Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.

Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.

Nuno Júdice


Apesar de não ser crente parece-me uma curiosa visão divina.

12.06.2007

Sometimes blood sings





Sometimes blood sings.
When blood sings you ear strange voices inside your body. Whispering you softly images and words like Champaign bobbles. Blowing warm emotions around your skin.
When blood sings you dance embedded in his rhythm.
When blood sings your have no doubts that you are not alone. Someone or something is trying to tell you a secret. It’s pure magic when blood sings and it happens always when you are not expecting. Sometimes blood really sings.

12.04.2007

O anjo da escada

Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando
clamando...

Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros...
com os meus caminhos...
com as minhas nuvens...


Mário Quintana

12.02.2007

Elegance is an attitude

"Elegância á a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir"


Paul Valery

12.01.2007

O encantador de almas

"Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida"

António Gedeão


O encantador de almas alimenta-se de sonhos. Atordoa-os com músicas celestiais invisíveis e ceifa-os para sempre dos vastos campos, não os deixando crescer e voar. Dizem que se veste da noite e tem a brancura inóspita da lua nos seus cabelos. Penso que nunca ninguém o viu mas consta que os tritura num círculo perfeito. Da medida do ser. Reduz a sua essência a um pó mágico. Brilhante, com que alimenta o ego. Cuidado com os seus encantos e preces derrotistas. Protejam bem os vossos sonhos e não desistam há primeira pois o encantador de almas vai sempre voltar.

Assíduos do shaker

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