3.02.2011

Inside

Saudades de tropeçar num texto longo ou em algo alto, invisível ao olhar, viajando algures dentro de mim, longe de tudo, envolto dum tempo tépido sem pressa de me arrancar de lá.

2.26.2011

A mala das palavras

Olhava para as pessoas comuns e ouvia-as sempre sem som, esvaziadas de palavras. Tentava antes ler-lhes o que morava por dentro delas: os gestos límpidos e inatos, alheios ao movimento fácil dos lábios. Ás vezes ouvia-as com o barulho do mar ou colocava-lhes uma banda sonora, escolhida cuidadosamente, que lhes prendia os gestos num movimento mais lento, e ficava assim, ali, a olhar para elas, absorvendo a sensibilidade inocente, impossível de encenar neste mundo de palavras gastas e faz-de-conta. Falava cada vez menos, refugiando-se em longos textos sentidos que rasgava por não querer falar sobre eles. Abraçava as amizades com quem privava com uma força frágil e demorada de quem abraça o vento. Abria um bom vinho e preparavam entradas inventadas que serviam de jantares tardios onde se falava de tudo quase sem palavras. Percebia a escassez do tempo e a magia do silêncio partilhado. As palavras? essas oferecia-as com a pimenta do humor e no sal de um beijo colado à testa.

2.19.2011

Se

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.


Sophia de Mello Breyner Andresen

2.07.2011

Inside


Massive Attack, Sam

Onde sentes a alma? Na cabeça? No peito? Em frio ou calor? Abraçada, por dentro, na quietude mais fina e tranquila ou num movimento de nuvem irrequieta? Onde sentes a alma? Quanto mostras do que dela mora em ti?

2.04.2011

Arquitectura #19

Espaço amplo. Pés direitos estupidamente altos. Paredes de tijolo estragadas pelo tempo. Contraste do metálico antigo industrial com apontamentos modernos de design simples: mornos, tácteis e rectilíneos. Um conforto descontraído, simples e despido. A minha cara.

Também podia ser assim portanto!

1.28.2011

As imagens


As imagens passam umas atrás das outras, aleatórias, dispersas, sem qualquer pressa ou razão. Passam apenas, por um qualquer desígnio universal, empurradas como por uma cadência plástica de projector de slides que surpreende o escuro por já não se usar, arrumado numa caixa perdida na arrecadação.

As imagens passam. Passam, com o que nunca se apercebeu e com o que nunca se verá plenamente. Passam com o que de nós lhes entregámos e com o que nunca se viveu ou viverá e no entanto está lá estampado, impregnado.

Passam, numa leveza estranha, quase poética, que se faz pesada e afunda em música no corpo, dissipando um tempo que se sente a textura, que mesmo aprisionado se agita até se revelar noutras imagens que lhe seguem automáticas, imprevisíveis, nascidas dum lugar distante mas tão próximo ao mesmo tempo.

Com o tempo despedimo-nos das coisas reais e conhecidas para abrirmos as portadas da alma a andorinhas de cal, que nos pintam as pálpebras por dentro do escuro em imagens que passam, umas atrás das outras, sem qualquer pressa ou razão.

1.20.2011

Tempo [de mudar o tempo]

Vive-se cada vez mais num tempo que nos foge como água nas mãos. Um tempo que é o mesmo que sempre foi mas que deixou de ser verdadeiramente nosso. Por mais conscientes ou atentos, deixámos o tempo partir. Permitimos que sumisse de solidão, de falta de conversa ou afecto, deixando-o à deriva e ao seu relógio que sussurra para todos sem se deixar ouvir.

Vive-se num tempo pelo qual passamos tantas vezes alheados das verdadeiras questões ou de nós próprios. Tantas vezes quase sem tempo para pensar ou questionar o mundo, desejos ou vontades, nesta estúpida velocidade que inventámos sem darmos conta.

Vive-se mais de idade mas viver-se-à melhor? Indubitavelmente menos, estou em crer. Num tempo que observa atónito a nossa loucura colectiva, correndo para tudo, competindo por falsas urgências ou velocidades tão vãs que acrescentam afinal tão pouco.

Vive-se no tempo dos assassinos do tempo. Num tempo sem tempo, arrastados na correnteza e carneirada, impotentes, perdidos, algures longe de nós. Por isso paremos. Paremos para pensar e para apreciar o que se desfoca na velocidade estonteante. Paremos e olhemos o tempo de frente e o tempo que nos rodeia - o que passou, o que se vive, o que virá. Paremos para dizer ao tempo que ainda é tempo de mudar o tempo.

1.18.2011

Eu contarei

Eu contarei a beleza das estátuas -
Seus gestos imóveis ordenados e frios -
E falarei do rosto dos navios

Sem que ninguém desvende outros segredos
Que nos meus braços correm como rios
E enchem de sangue a ponta dos meus dedos.


Sophia de Mello Breyner Andresen

1.14.2011

Amor

Deito-te no meu caderno e entorno-te como uma aguarela viva - livre. Observo os teus gestos imóveis, sentados só para mim, pendurados ao sono. Avançam e recuam com pés descalços, na lentidão da sombra, debruçados curiosos ao meu ombro. Às vezes descuidam-se desleixados, deixando a marca de um beijo no pescoço para logo se esconderem num cheiro que fica no ar. Passo-te com a mão na pele e na cicatriz das letras que te deixei. O barulho das cigarras avisa o tempo quente que já é dia e que te amo, assim como és.

12.31.2010

12.25.2010

All you need is now


[Duran Duran, All you need is now]


Querer aprisionar o mundo numa fotografia, para lhe sorver e conservar intactas todas as subtilezas e pequenos nadas invisíveis ao nosso tempo. Olha-las à distância e acariciar-lhes os cabelos infinitos. Trazer-lhe as sombras outrora ocultas no bolso das calças e puxá-las ao calor do dia numa nova luz. Observá-lo como quem trinca uma fruta sumarenta, sedosa e escorrida. Absorver-lhe o líquido que não é água nem sangue mas se mistura com o corpo - matéria invisível contida num olhar ou gesto apagado. Avivado dum nada que sempre caminhou ao nosso lado, destapando um cheiro ou uma imagem. Viver o momento intensamente, em todos os lugares e um dia, quem sabe, talvez regressar.


Já não escrevia há muito tempo. Já não ouvia estes meninos há muito também.

12.15.2010

Ho Ho Ho [versão digital]



Sei que ando quase sem tempo para nada
Sei que tenho vindo muito pouco a estas bandas
Sei que ligo pouco à época natalícia
mas também sei que não queria deixar de desejar a todos umas boas festas

12.12.2010

Cada vez gosto mais do Porto

[Rota do chá, Porto]


Cada vez gosto mais do Porto, das suas gentes e dos seus locais.
Sempre descubro novos cantos e encantos, sempre me sabe a pouco, sempre prometo voltar.

12.05.2010

Luna Pena


Saborear as palavras num som de outra rotação, quebrando estilos, quebrando regras, esbatendo as fronteiras dos estilos musicais

12.04.2010

Em ti

Durmo, na tua sombra
sem que o meu peso te invada
o calor suspirado à pele

11.11.2010

Oração

Escuta os arrepios do corpo e o balançar da ondulação
Envelhece sem a pressa de partir mas na vontade do dia que se segue
Pesa a beleza das palavra nos ecos mais simples, destapados ao silêncio
Respira fundo até teres a lua dentro de ti e mia-lhe baixinho com o calor das mãos
Nada despido de preconceitos
Pensa por ti e pensa nos outros
Ama, entrega-te e faz sorrir
Aperta o passado ao futuro para seres brindado por momentos irrepetíveis
Abraça com a força com que te dás
Agradece o saber da idade e o poder da loucura
Dorme de bem com a consciência
Apaga a luz mas mantêm-te sempre aceso para o mundo

Assíduos do shaker

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