7.09.2013

Impossível é não viver*




Se te quiserem convencer de que é impossível, diz-lhes que impossível é ficares calado, impossível é não teres voz. Temos direito a viver. Acreditamos nessa certeza com todas as forças do nosso corpo e, mais ainda, com todas as forças da nossa vontade. Viver é um verbo enorme, longo. Acreditamos em todo o seu tamanho, não prescindimos de um único passo do seu/nosso caminho. 
Sabemos bem que é inútil resmungar contra o ecrã do telejornal. O vidro não responde. Por isso, temos outros planos. Temos voz, tantas vozes; temos rosto, tantos rostos. As ruas hão-de receber-nos, serão pequenas para nós. Sabemos formar marés, correntes. Sabemos também que nunca nos foi oferecido nada. Cada conquista foi ganha milímetro a milímetro. Antes de estar à vista de toda a gente, prática e concreta, era sempre impossível, mas viver é acreditar. Temos direito à esperança. Esta vida pertence-nos. Além disso, é magnífico estragar a festa aos poderosos. É divertido, saudável, faz bem à pele. Quando eles pensam que já nos distribuíram um lugar, que já está tudo decidido, que nos compraram com falinhas mansas e autocolantes, mostramos-lhes que sabemos gritar. Envergonhamo-los como as crianças de cinco anos envergonham os pais na fila do supermercado. Com a diferença grande de não sermos crianças de cinco anos e com a diferença imensa de eles não serem nossos pais porque os nossos pais, há quase quatro décadas atrás, tiveram de livrar-se dos pais deles. Ou, pelo menos, tentaram. O único impossível é o que julgarmos que não somos capazes de construir. Temos mãos e um número sem fim de habilidades que podemos fazer com elas. Nenhum desses truques é deixá-las cair ao longo do corpo, guardá-las nos bolsos, estendê-las à caridade. Por isso, não vamos pedir, vamos exigir. Havemos de repetir as vezes que forem necessárias: temos direito a viver. Nunca duvidámos de que somos muito maiores do que o nosso currículo, o nosso tempo não é um contrato a prazo, não há recibos verdes capazes de contabilizar aquilo que valemos. Vida, se nos estás a ouvir, sabe que caminhamos na tua direcção. A nossa liberdade cresce ao acreditarmos e nós crescemos com ela e tu, vida, cresces também. Se te quiserem convencer, vida, de que é impossível, diz-lhe que vamos todos em teu resgate, faremos o que for preciso e diz-lhes que impossível é negarem-te, camuflarem-te com números, diz-lhes que impossível é não teres voz. 


[José Luis Peixoto]



* ou sobre os tempos modernos




6.09.2013

Perdi tanta memória




O silencio é um copo de vidro, tombado por um dedilhar sem pé. 
Fica oscilando com a luz, o encanto frágil das imagens, nadando livres mas amordaçadas. 
Vão e regressam, intermitentes, nas suas longas asas, pesadas. Diluindo as rugas da folha amarrotada para confiscar ao mundo fragmentos de uma frase perdida. Sem eco, sem repetição. 
Partiu-se o silêncio. Morreu. Paz à sua alma.

5.08.2013

Ainda há tempo


Ainda há tempo para roubar um sorriso, para descobrir o acaso
Ainda há tempo para rolar na relva, para dar a mão à poesia
Ainda há tempo para entrar na noite escura e acenar ao passado
Ainda há tempo para ser simples e inteiro, baralhar e dar de novo
Ainda há tempo para repartir e dividir, para fechar os olhos e tudo ter
Ainda há tempo para poisar nos teus cabelos, respirar, dormir na tua sombra
Ainda há tempo para o mar, para o arrepio, para bossanova
Ainda há tempo para sacodir as palavras, espantá-las livres como pássaros 
Ainda há tempo para amar a vida
Amar, sem medo, sem pé, como quem se inunda de facas


5.01.2013

Match Point


O Estoril Open tornou-se uma espécie de aldeia dos macacos sem a inocente graça e naturalidade dos mesmos, mas mantendo uma certa, digamos, curiosidade antropológica, não fosse triste a exacta amostra do país. Nele gravitam um fraco verniz 'empiriquitado' de umas quantas caras conhecidas: da advocacia, à política,  do jogador da bola à revista cor de rosa, misturando-se num rebanho denso, uniforme, que se põe a jeito da fotografia fácil. Emanando conversa de circunstância, sexista ou de humor duvidoso, desprovida de qualquer charme, qualquer inteligência, com uma gritante falta de valores nas suas frases feitas ou pensamentos amorfos e um despudor de quem vai a um evento desportivo apenas pelo acto de se fazer ver mostrar nessa montra de zoo, grande maioria sem pagar, ou pôr o 'Laboutin' no corte, sem o mínimo de conhecimento ou interesse na sua essência - Ténis. Ficando apenas pelo croquete grátis e espumante rosé. Triste espectáculo, debotado. Terra batida esta onde se jogam as aparências e se iludem as realidades.

4.25.2013

A escultura da pele


A mão percorre, de olhos fechados, a escultura de linhas aguçadas. São punhais que afaga, não arte. Desliza lentamente, apertando-a com a força suficiente. Até sangrar, sem que a dor lhe aumente ou transforme a alma. Apenas uma mão cerrada, sem pressa de partir, sem nome, sem lugar. O sangue a escorrer, espesso e delicado, tomando caminhos esquecidos daquela mão imóvel, tingindo o seu calor pela pele. Tudo é possível de sentir com os olhos fechados. Tudo é possível agarrar ao avesso da luz. Tudo. Abertos os olhos a mão volta à rotina. O corpo recupera algo de antigo, amputado por breves momentos. A mesma dor no entanto, incauta, algures pela copa das árvores a acenar ao vento.

4.07.2013

10 new stories, #6 [Tree don't care what the little bird sings]



A mão percorre, de olhos fechados, a escultura ponteaguda. São punhais que afaga, não arte. Desliza lentamente, apertando-a com força, até sangrar, sem que a dor lhe aumente ou diminua a alma. Apenas uma mão cerrada, sem pressa, sem lugar. O sangue a escorrer, espesso e delicado, por detrás das veias, tomando talvez caminhos antigos daquela mão imóvel, tingindo o seu calor no eco do silêncio aprisonado. Tudo é possível de sentir com os olhos fechados. Tudo é possível de agarrar à pele. Tudo. Abertos os olhos a mão volta a ganhar vida e a pálida calidez do corpo recupera algo de antigo. A mesma dor, incauta, imóvel, tatuada algures pela copa das árvores a acenar ao vento.


4.01.2013

Certeza [do que há-de vir]



Resta-me pouco tempo! Pressenti-o ao acordar mas não to revelei. Achei, talvez, que te iria assustar sem aparente razão, que te teria para sempre para to poder contar ou que, ao invés, não me deixarias sair, ou mesmo sem o saberes, pressentirias algo nos meus olhos e me darias um beijo mais longo, um carinho mais demorado. 

Apesar de não ter voltado a esse pensamento, fiquei assim, com essa sensação colada ao corpo, como que com um peso morto sentado ao ombro, acentuando a gravidade num movimento mais arrastado, mais fotográfico para o mundo

Resta-me pouco tempo! Mesmo sem o ouvir sentia-o nas conversas irrelevantes, nos problemas urgentes, nos telefones a tocarem, silenciados pela cadência do sangue, pelo respirar. Talvez porque numa vida nos reste sempre tão pouco tempo, no desfiar dos dias, adiando o essencial sem nos darmos conta, sem o pavor consciente de que pode não haver tempo.

Uma vida é uma só. Irremediável, irrepetível. Sem tempo a perder, apenas o que existe - pegar ou largar. E eu hoje com tão pouco para ficar aqui na conversa com o papel.

Cheguei mais cedo e no percurso agradeci o tempo vivido na plenitude do verbo, o dado e o recebido dos que me são mais queridos, mais meus,  das pequenas coisas efémeras que também compõem tanto uma vida. 

Toquei à campainha só para vires à porta e entre um beijo aluado e um abraço de anémonas lentas pensei para comigo - talvez o tempo não interesse nada!

2.27.2013

Chorar [lágrimas azuis]


Apaga a luz e sorri só para ti. Resguarda-te. Resguarda-o. Ninguém te alcançará, ninguém o merece. Ninguém. Não penses em nada. Limita-te a preservar esse esgar como uma onda vagarosa. Gigante, não de altura, mas de extensão interminável, por rebentar. Prolonga-o. Prolonga-a, não no tempo que passou tão rápido mas nesse pedaço de silêncio de que todos somos feitos. Não penses em nós, peço-te. Hoje não. Só por uma vez. Insisto. Lembra-te do cheiro que mora no interior dos livros e viaja numa frase ou numa imagem até onde ela te quiser levar. Dá-lhe a mão e senta-te num qualquer banco de jardim mas não chores. Hoje não. Concentra-te nesse sorriso que é só teu. A vida por vezes parece fugir-nos na estranha distância dum respirar fundo. Onde tudo parece ter morado. Até esse amor infinito que te dói tantas vezes nos dias frios e te faz cantar baixinho no olhar. Apaga a luz e sorri. Resguarda-te. Resguardo-te no meu peito, aqui. Comigo.

2.22.2013

Peso indelével


Há poesia a assentar
por dentro do corpo
Quente
Calada
Revirando elíptica 
num remoínho d'água
Escapando aos dedos
Pesada 

2.12.2013

Espalha lume na ponta dos dedos




que te seja leve o peso das estrelas 
e de tua boca irrompa a inocência nua 
dum lírio cujo caule se estende e 
ramifica para lá dos alicerces da casa 

abre a janela debruça-te 
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo 
espalha lume na ponta dos dedos e toca 
ao de leve aquilo que deve ser preservado 

mas olho para as mãos e leio 
o que o vento norte escreveu sobre as dunas 

levanto-me do fundo de ti humilde lama 
e num soluço da respiração sei que estou vivo 
sou o centro sísmico do mundo 




Al Berto

Assíduos do shaker

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