4.07.2013

10 new stories, #6 [Tree don't care what the little bird sings]



A mão percorre, de olhos fechados, a escultura ponteaguda. São punhais que afaga, não arte. Desliza lentamente, apertando-a com força, até sangrar, sem que a dor lhe aumente ou diminua a alma. Apenas uma mão cerrada, sem pressa, sem lugar. O sangue a escorrer, espesso e delicado, por detrás das veias, tomando talvez caminhos antigos daquela mão imóvel, tingindo o seu calor no eco do silêncio aprisonado. Tudo é possível de sentir com os olhos fechados. Tudo é possível de agarrar à pele. Tudo. Abertos os olhos a mão volta a ganhar vida e a pálida calidez do corpo recupera algo de antigo. A mesma dor, incauta, imóvel, tatuada algures pela copa das árvores a acenar ao vento.


4.01.2013

Certeza [do que há-de vir]



Resta-me pouco tempo! Pressenti-o ao acordar mas não to revelei. Achei, talvez, que te iria assustar sem aparente razão, que te teria para sempre para to poder contar ou que, ao invés, não me deixarias sair, ou mesmo sem o saberes, pressentirias algo nos meus olhos e me darias um beijo mais longo, um carinho mais demorado. 

Apesar de não ter voltado a esse pensamento, fiquei assim, com essa sensação colada ao corpo, como que com um peso morto sentado ao ombro, acentuando a gravidade num movimento mais arrastado, mais fotográfico para o mundo

Resta-me pouco tempo! Mesmo sem o ouvir sentia-o nas conversas irrelevantes, nos problemas urgentes, nos telefones a tocarem, silenciados pela cadência do sangue, pelo respirar. Talvez porque numa vida nos reste sempre tão pouco tempo, no desfiar dos dias, adiando o essencial sem nos darmos conta, sem o pavor consciente de que pode não haver tempo.

Uma vida é uma só. Irremediável, irrepetível. Sem tempo a perder, apenas o que existe - pegar ou largar. E eu hoje com tão pouco para ficar aqui na conversa com o papel.

Cheguei mais cedo e no percurso agradeci o tempo vivido na plenitude do verbo, o dado e o recebido dos que me são mais queridos, mais meus,  das pequenas coisas efémeras que também compõem tanto uma vida. 

Toquei à campainha só para vires à porta e entre um beijo aluado e um abraço de anémonas lentas pensei para comigo - talvez o tempo não interesse nada!

2.27.2013

Chorar [lágrimas azuis]


Apaga a luz e sorri só para ti. Resguarda-te. Resguarda-o. Ninguém te alcançará, ninguém o merece. Ninguém. Não penses em nada. Limita-te a preservar esse esgar como uma onda vagarosa. Gigante, não de altura, mas de extensão interminável, por rebentar. Prolonga-o. Prolonga-a, não no tempo que passou tão rápido mas nesse pedaço de silêncio de que todos somos feitos. Não penses em nós, peço-te. Hoje não. Só por uma vez. Insisto. Lembra-te do cheiro que mora no interior dos livros e viaja numa frase ou numa imagem até onde ela te quiser levar. Dá-lhe a mão e senta-te num qualquer banco de jardim mas não chores. Hoje não. Concentra-te nesse sorriso que é só teu. A vida por vezes parece fugir-nos na estranha distância dum respirar fundo. Onde tudo parece ter morado. Até esse amor infinito que te dói tantas vezes nos dias frios e te faz cantar baixinho no olhar. Apaga a luz e sorri. Resguarda-te. Resguardo-te no meu peito, aqui. Comigo.

2.22.2013

Peso indelével


Há poesia a assentar
por dentro do corpo
Quente
Calada
Revirando elíptica 
num remoínho d'água
Escapando aos dedos
Pesada 

2.12.2013

Espalha lume na ponta dos dedos




que te seja leve o peso das estrelas 
e de tua boca irrompa a inocência nua 
dum lírio cujo caule se estende e 
ramifica para lá dos alicerces da casa 

abre a janela debruça-te 
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo 
espalha lume na ponta dos dedos e toca 
ao de leve aquilo que deve ser preservado 

mas olho para as mãos e leio 
o que o vento norte escreveu sobre as dunas 

levanto-me do fundo de ti humilde lama 
e num soluço da respiração sei que estou vivo 
sou o centro sísmico do mundo 




Al Berto

1.12.2013

Arranhão de luz


Alinhava cerejas por cima do teu corpo nu e fotografava a tua cor plasmada na sombra das paredes, a derruba-las com a respiração. Havia algo que falava naquele pássaro aprisionado na tua mão. Havia uma palavra, tricotada aos teus lábios, ainda por dizer. Havia um arranhão no lençol amarrotado, que mais ninguém via, só eu.


Foto daqui 

1.08.2013

Entardecer


Apertaram-se com força e deixaram os rostos encostados, âncorados, balanceando na ondulação. Sem nada dizer, sem convidar as palavras, sem levantar vela.

A saudade é uma cicatriz invisível, que envelhece no avesso do corpo mas cujos dedos sempre reencontram no escuro, aflitos de lhe perder os laivos dourados do entardecer. 

Tocaram-se ao de leve e demoraram o olhar. Percorreram rugas e imaginaram as ruas estreitas das suas vidas, sem nada dizer, sem nada perguntar, sem nunca se cruzar. 

Apenas aquela brisa a rodopiar, sem levantar vela, com força.



11.15.2012

Devagar


Desaparecido algures, num local perdido, abandonado do tempo e do mapa, na companhia de livros e um bom vinho para contemplar céu e interior. Algures, devagar.


11.02.2012

Words like violence


Hoje as palavras não chegaram a ver o sol. Ameaçaram simplesmente, sucumbindo de imediato como neve sensível ao calor do papel. Palpitavam, soltas, na simplicidade universal do inglês, deixando pequenos rastos duma dança. Pegadas, aqui ou acolá. Nada de muito firme ou fácil de seguir, apenas frágeis fragmentos, intermitências que se sentem na pele. Hoje as palavras não deram as mãos, não voaram nem ficaram a assobiar pelo corpo. Tão somente cresceram como árvores caladas para o mundo, despidas de folhas e frutos. Soltando apenas, por descuido ou malvadez, uma espécie de grito extenso que espanta os pássaros, única prova da sua existência. Hoje as palavras morreram baixinho, longe da boca, ao relento do coração.


Assíduos do shaker

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