1.12.2013

Arranhão de luz


Alinhava cerejas por cima do teu corpo nu e fotografava a tua cor plasmada na sombra das paredes, a derruba-las com a respiração. Havia algo que falava naquele pássaro aprisionado na tua mão. Havia uma palavra, tricotada aos teus lábios, ainda por dizer. Havia um arranhão no lençol amarrotado, que mais ninguém via, só eu.


Foto daqui 

1.08.2013

Entardecer


Apertaram-se com força e deixaram os rostos encostados, âncorados, balanceando na ondulação. Sem nada dizer, sem convidar as palavras, sem levantar vela.

A saudade é uma cicatriz invisível, que envelhece no avesso do corpo mas cujos dedos sempre reencontram no escuro, aflitos de lhe perder os laivos dourados do entardecer. 

Tocaram-se ao de leve e demoraram o olhar. Percorreram rugas e imaginaram as ruas estreitas das suas vidas, sem nada dizer, sem nada perguntar, sem nunca se cruzar. 

Apenas aquela brisa a rodopiar, sem levantar vela, com força.



11.15.2012

Devagar


Desaparecido algures, num local perdido, abandonado do tempo e do mapa, na companhia de livros e um bom vinho para contemplar céu e interior. Algures, devagar.


11.02.2012

Words like violence


Hoje as palavras não chegaram a ver o sol. Ameaçaram simplesmente, sucumbindo de imediato como neve sensível ao calor do papel. Palpitavam, soltas, na simplicidade universal do inglês, deixando pequenos rastos duma dança. Pegadas, aqui ou acolá. Nada de muito firme ou fácil de seguir, apenas frágeis fragmentos, intermitências que se sentem na pele. Hoje as palavras não deram as mãos, não voaram nem ficaram a assobiar pelo corpo. Tão somente cresceram como árvores caladas para o mundo, despidas de folhas e frutos. Soltando apenas, por descuido ou malvadez, uma espécie de grito extenso que espanta os pássaros, única prova da sua existência. Hoje as palavras morreram baixinho, longe da boca, ao relento do coração.


10.24.2012

Devagar



O poder das imagens e do silêncio sempre me hão-de surpreender. Puxam-nos, o olhar para fora de pé, e por vezes, sem que nos apercebamos ficam presos à roupa num alfinete invisível. Palpitam-nos por detrás das pálpebras, num sonho ou num gesto que nos lembra algo que ainda não vivemos mas que sabemos nosso, algures ou adiante, sentindo-o a puxar uma malha e a tilintar uma história ao cair no chão. Chegam a ter banda sonora: dum nocturno de Chopin a uma PJ Harvey a arranhar a sua voz numa guitarra, segundos infinitos, ao encontro de uma lua qualquer. Hoje acordei com uma buganvilia invisível, enrolada e pedalei, devagar. 

10.13.2012

Vida[s]

O que é afinal a vida? O que é? O que foi? O que será ou pode vir a ser? Numa vida há muitas vidas, próprias, alheias, presentes, passadas e futuras. Numa vida há muitos estados, estágios, coisas importantes e pequenas coisas que pareciam insignificantes na altura e que no entanto ficam presentes por toda uma vida. Uma pedra no meio de um bosque distante onde nos sentámos um dia e nunca mais regressámos a um pensamento que foi só nosso, um sorriso, uma noite límpida, um livro devorado pela noite dentro, um dia de sol. Um poema amarrotado, uma garrafa partilhada na companhia de amigos. Um beijo roubado, uma carícia. Um abraço apertado, uma vitória suada, uma corrida terminada. Um desgosto de amor. Um observar o mundo que nos rodeia, um grito do Ipiranga, uma noite ao relento com céu estrelado. Fotografias gravadas na memória. Um livro escolhido a dedo, dedicado. Uma refeição cozinhada com carinho. Uma piada inteligente recebida ao acaso. O amor de uma mãe. O entregar do coração, do corpo, do mais fundo que existe em nós. O adormecer de um filho que se observa horas a fio. O viajar porque é preciso, o regressar porque te amo. O partir de um vidro com a mão. A dor que se guarda sem transparecer. A surpresa, a descoberta. As saudades de quem partiu. Os lugares secretos onde se gosta de regressar de quando em vez. As cartas escritas deixadas na gaveta. O cão, o gato. Uma frase lida que se sente nossa. A exposição que nos deixa imóveis. Os arrepios. O mar que nos ondula, a chuva na pele. O começar de novo. O que não se esquece. O momento irrepetível, o déjà vu. O mistério da própria vida, o deserto, a multidão. Uma casa de pedra com uma árvore no telhado. O caminho sinuoso, o guiar de noite. O velho blusão de pele, a T-shirt branca. Uma música nova que mexe comnosco. Um piano afinado a ecoar pela sala. A 7ª Sinfonia do Beethoven a estremecer. O cálice meio cheio e o outro meio vazio. A esperança roubada. A vontade de tentar de novo. Os teus pés frios a procurar os meus. O barulho da fogueira ateada. O movimento de uma anémona no aquário azul de perder de vista. O balão de ar quente a levitar do mundo. As rugas que sempre hão de contar uma história. As minhas mãos nas tuas, o teu pescoço. Um nome antigo, que já não existe. A sonoridade de certas palavras. O dois cavalos amarelo com a capota aberta e a areia da praia espalhada pelo tapete. Um cigarro no pátio das buganvilias. O pássaro que vinha de noite bater à janela. O colega da primária que morreu de overdose muitos anos depois de o saber. Um olhar em silêncio, meros segundos tornados horas. Os dedos minúsculos apertados no nosso dedo. O teu respirar. O sabor das cerejas, as castanhas quentes a queimar as mãos. O ovo estrelado às altas horas da noite e os ovos mexidos ao pequeno almoço. O dormir todo nu. O adormecer exausto, o acordar dum novo dia. O meu irmão miúdo a correr do enxame de vespas depois ao ir buscar a bola. O carro velho coberto de figos maduros atirados de cima da árvore. Os passeios infindáveis com o Avô. A palavra sincera mas mal medida. A crítica construtiva. O pensamento livre. O que é a vida afinal? Há muitas vidas dentro de uma vida. O que será que está ainda por vir?

* Pela primeira vez sem imagens por ter tantas [mais as que aqui não estão]   

10.04.2012

Whish[list]


Queria uma "pão de forma" assim, velhinha velhinha, para pintar de azul do céu e correr mundo.

Black cat


Há dias que nos desiludem. Deixam-nos estranhos, ao abandono do corpo que não sentimos mais nosso. Ali, de dedos cortados rentes para o mundo. E uma espécie de bando de pássaros negros, teimando em nos asfixiar de qualquer poema, de qualquer melodia, num frenesim indecifrável. Há dias que nos desiludem. Que puxam o som para baixo de água, entregando aos lábios um eco vasto, vazio. Deixando nos rostos uma nitidez mais pálida, lenta, quase fotográfica. Ali, diante dos olhos calados na sombra, observando o corpo de fora, como um fantasma que já partiu. Algures, distantes, como uma doença que não se sabe ter mas ficou.

9.18.2012

Closer [than this]


The XX, Chained

Red house [over the sea]


There was a time when our eyes followed the autumn leaves dancing in circles. A time stretched to the limits, until it sounds like snow hitting the roof of our thoughts. Waiking whispers and old stories. Lazing the skin, flying with the birds. A time of deserts and a red house, lost over the sea. There was a time that does not seem to return. A time with blankets in nowhere. Mixing the warm of blood in the cold of the nigh. A time of a child holding hands with a missing grandfather. A time with many colors, many smells and dreams. There was a time we must keep closer, hard in our heart. A time to come back sometimes, a time to never forget.   

Assíduos do shaker

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