8.26.2012

Words



[ ... Walk with her
Beneath the tree tops
Create new paths and memories
Show her, how the sunlight
Glances through the gaps between the leaves
Words, help her change the world
In only one verse
Tell her to reach for the stars
And to always put love first ... ]

Ane Brun, Words

8.23.2012

ou como diria um velho amigo...


A sombra das palavras [que caem como gelo]



Pega a caneta e escreve. Derrama com ela o teu sangue - negro, espesso, denso - alastrando a tua sombra ou os teus raios de sol, pedaços da voz que te sussurra ao ouvido quando todos dormem. Impregnando o teu cheiro, o teu grito, a tua cor. Pouco a pouco, no silêncio branco da folha despida. Escreve-te nela, deixando-te embalar como uma viagem inacabada. Sem principio nem fim, apenas caminho, curvas. Sem medos, sem reservas, sem antes nem depois, sem enganos, sem aparências, sem rodeios. Como um deslizar de iceberg sem pressa, sabendo-se corroído aos poucos pelo tempo até se derreter um dia na imensidão do mar. Ora revolto na rapidez de um arrepio, ora  deambulando algures no reflexo de uma palavra. Não conquistarás o mundo. Não esperarás nada de volta. Não conhecerás todos os lugares nem falarás todas as línguas. Não ficarás para contar. Libertarás apenas, talvez um pouco desse questionar das coisas, quando lhes batemos sem querer. Aparentemente óbvias ou menores, descobrindo-lhes encantos perdidos, esquecidos a alguns olhos moldados por demasiadas certezas. Pega na caneta e escreve. O que te apeteça, o que ela te exija.


8.13.2012

Azul


Enche-me assim, do teu azul feito de água, não do céu. O céu é demasiado distante e os teus olhos cruzam-se no meu horizonte, tingindo-me por dentro como peixes vivos. Azul, onde flutuo despida de tudo e me deixo embalar no tempo de um suster de respiração. Neste teu beijo demorado, salgado de imagens, que guardo na pele e me devolves nessa tua maré. Azul, simples mas intenso azul. Feito de água, não do céu.

8.08.2012

Ten new stories #5 [To Let myself go]


Ane Brun, To let myself go


A guitarra a arrastar o arranhar metálico de umas notas mais demoradas. Teimosas em se esconder no silêncio, quase esquecidas deste tempo, coladas, junto ao pensamento. E eu com elas a viajar, e eu com elas a fazer anzóis dos cabelos. "To let myself go... To let myself flow... is the only way of being".

7.31.2012

Há dentro de nós um poço


Há dentro de nós um poço. No fundo dele é que estamos, porque está o que é mais nós, o que nos individualiza, a fonte do que nos enriquece no em que somos humanos. E a vida exterior, o assalto do que nos rodeia, o que visa é esse íntimo de nós para o ocupar, o preencher, o esvaziar do que nos pertence e nos faz ser homens. Jamais como hoje esse assalto foi tão violento, jamais como hoje fomos invadidos do que não é nós. É lá nesse fundo que se gera a espiritualidade, a gravidade do sermos, o encantamento da arte. E a nossa luta é terrível, para nos defendermos no último recesso da nossa intimidade. Porque tudo nos expulsa de lá Quando essa intimidade for preenchida pelo exterior, quando a materialidade se nos for depositando dentro, o homem definitivamente terá em nós morrido. Já há exemplos disso. Um dos mais perfeitos chama-se robot. É invencível pensarmos o que será o homem amanhã. E nenhuma outra imagem se nos impõe com mais força. Mas o que desse visionar mais nos enriquece a alma é que o homem então será possivelmente feliz. Porque ser homem não é ter felicidade mas apenas ser humano. Não há grandeza nenhuma feliz e é decerto por isso que se diz que os felizes não têm história. A única felicidade compatível com a grandeza é a que já não tem esse nome, mesmo que o tenha. Chamemos-lhe apenas compreensão ou aceitação.

Virgílio Ferreira

7.20.2012

7.18.2012

De este cuerpecito mío... que se ha convertío en río

Writen in my blood


Não escrevo há muito tempo, e no entanto a escrita permanece-me, constante. Destapa os ouvidos ao calar da noite, e ali fica como um búzio alado, soprando na cara baixinho, lambendo as feridas ou puxando a mão para um campo de searas, onde passeiam ao vento imagens, frases, sons. Mesmo sem caneta ou aparente alento ei-la ali, especada, como um cão fiel ao seu dono, olhando-o imóvel, à espera de um assobio ou afago. 

Não escrevo há tanto tempo, talvez por respeito a esse pesar ou chamamento, a essa maré que sempre me regressa e me busca, ora desenrolando novelos indeléveis e quase indecifráveis, ora atirando pedras que estilhaçam abruptas nas janelas e ecoam por muito tempo. 

Não escrevo há tão pouco tempo e no entanto parece tanto... Quando assim acontece é como acordar de um sono que nunca se chegou verdadeiramente a dormir ou a recordar ofegante uma vida que não se chegou verdadeiramente a correr, como quem recebe uma estranha parte de nós que esteve ausente por parte incerta mas sempre nos pertenceu e sempre nos pertencerá.

6.26.2012

Doze moradas do silêncio


Envolver-me 
na mais obscura solidão das searas e gemer 
Amassar com os dentes uma morte íntima 
Durante a sonolência balbuciante das papoulas 
Prolongar a vida deste verão até ao mais próximo verão 
para que os corpos tenham tempo de amadurecer 

...colher em tuas coxas o sumo espesso 
e no calor molhado da noite seduzir as luas 
o riso dos jovens pastores desprevenidos...as bocas 
do gado triturando o restolho....as correrias inesperadas 
das aves rasteiras 

....e crescerei das fecundas terras ou da morte 
que sufoca o cio da boca..... 
....subirei com a fala ao cimo do teu corpo ausente 
trasmitir-lhe-ei o opiáceo amor das estações quentes. 



Al Berto

6.19.2012

Silêncio vendado


Vendada mordes o silencio da cal
e habitas macia 
nesse suspiro molhado
libertado sem tempo ou lugar
Deserto indolente
Aceso, ao sussurrar dos dedos



6.18.2012

Poema à mãe




No mais fundi de ti, 
eu sei que traí, mãe
Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
          Era uma vez uma princesa 
          no meio de um laranjal...
 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 



Eugénio de Andrade

6.12.2012

Check please...



Reunião mensal de vendas. Agenda previa objectiva. Estratégias para alavancar vendas e resultados. Apresentações individuais de 7 minutos/máximo por pessoa. Muitos powerpoints, gráficos, tabelas, números e frases feitas. Posturas tensas. Semblantes e... um pedido para aumentar o som...  Simples! 

6.09.2012

On the rocks


Não tenho nada para dizer. Nada que valha a pena ou o esforço. Nada. Limito-me a folhear desprendidamente um livro de fotografias a preto e branco, perdido há semanas, abandonado, algures pelo chão. Curioso, como a nitidez ecoa pela sala sem usar uma única frase, despida de qualquer palavra. Apenas o barulho do gelo a quebrar no copo de cocktail. Também não me apetece falar da bebida. Há dias assim, em que se dispensa a fala e se desliga do mundo. E as imagens a olharem-me atentas, algumas quase aflitas - a exigirem um toque, uma memória, uma atenção. Numa imagem vivem muitas histórias, muitas músicas, muitas pessoas e sempre têm algo a dizer. Algo que se esqueceu ou que nunca se ouviu. Algo que valha a pena. 

Assíduos do shaker

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