5.01.2012

Sayid, o pardal libanês


Atira-te Sayid porque o mundo é pequeno demais para quem já percorreu os céus. Esgota-se depressa nas palavras repetidas que se despem como pétalas às imagens vividas e a luz começa-lhes a desvanecer, mais pesada, assentando fria nas pedras antigas. Tu Sayid cujo canto já pouco embala o vento que conheces como irmão. Foste o que quiseste, nada mais. Fizeste os dias curtos e os anos pequenos às luas redondas das noites quentes. Seguiste o teu trilho, os teus lugares, os telhados e janelas de quem quiseste espreitar. Nada pediste. E agora Sayid sentes-te preso numa gaiola, eu sei. Soube no teu olhar ter chegado a tua hora. Resta-me agradecer-te as visitas e a despedida desprendida. Adeus amigo Sayid. Atira-te, mas não te deixes cair.

4.21.2012

Cristal


Estas lágrimas serão brincos ou punhais  
Penduradas de tão sérias, a baloiçar no horizonte.
Desfalecem aos poucos, desfiadas ao peito aberto 
Assassinando os dias cansados
que hão-de morrer calados

4.20.2012

Slava's Snowshow


No meio de um mundo cada vez mais cinzento, carregado de ares sisudos e absorvido por uma espécie de endeusamento dos números e fatalidade dos problemas ainda existem pequenas maravilhas que nos remetem a outros locais e nos devolvem a fantasia e o sonho, a surpresa e a interacção com o próximo, servidos com humor e inteligência, no seu estado mais puro.

Um espectáculo absolutamente deslumbrante, do melhor que já assisti, e que aconselho vivamente.

4.16.2012

We


O que te torna único? O que levas sempre contigo debaixo das pálpebras? O que te rouba uma lágrima ou um sorriso? O que te faz correr sem queres parar? O que guardas da leveza de uma imagem, irrepetível? O que te dissolve na brisa nocturna? O que te ondula no olhar e te agita no silêncio? O que te arrepia a pele ou te embala a dor? O que te une a alguém? O que te separa? O que desenhas com os dedos num traço invisível? O que te sussura a lua e os ecos das palavras? O que te amarra ao instinto? O que descobres para fazeres teu? O que atas a uma pedra e deixas afundar? O que vale uma vida? O que lhe entregas de ti? 

4.15.2012

Só desta vez


escrever sem música e sem imagens. escrever despido de ondulação. escrever às escuras, sem tacto, sem fome, sem deserto nem paixão. escrever alheado da textura das palavras, sem miados, sem anémonas. escrever sem lua, sem arfar, sem carícias. escrever sem a mão dada ao improviso, sem brilho nem sabor. escrever para enganar os ecos e os silêncios. só desta vez. só para dissolver a cálida transparência do que nos habita e nos exige a escrita.

3.23.2012

Phantom in your fingers


I'm the ghost in your house
Calling your name
My memory lingers
You'll never be the same
I'm the hole in your heart
I'm the stain in your bed
The phantom in your fingers
The voices in your head


Depeche Mode, Ghost

3.21.2012

Poesia


"A poesia é uma espécie de salvação. Nela afasto-me de tudo, para voltar a aproximar-me, de uma forma muito mais profunda".


Tonino Guerra 
(poeta italiano que se despediu hoje, dia mundial da Poesia, aos 92 anos de idade)

3.20.2012

Wings


Be as a bird perched on a frail branch
that she feels bending beneath her .
still she sings away all the same ,
knowing she has wings


Victor Hugo

3.16.2012

Estranho desencontro


Este estranho desencontro de vivermos sem sermos realmente nós. De nos apressarem os passos e nos deixarmos ir, sem questionar ou parar para pensar. Da entrega total à absurda aritmética das coisas, que tudo exige para continuar a somar. Do desfalecer dos corpos exaustos à inabalável importância de tudo. Tecidos gastos, desfiados da cor. Do livro entreaberto que se solta da mão ao fechar dos olhos. Do definhar do tempo, da reflexão, da disponibilidade para os outros. Este estranho desencontro de vivermos no mesmo mundo, distantes de quase tudo.



3.02.2012

Breve cantilena [a pau de giz]


Junta o sorriso à leveza desse gesto despido
Suspenso, adormecido 
na cantilena do amadurecer dos frutos
Junta-os assim, nesse teu jeito distraído
Sem te aperceberes 
Já viste como iluminam?
Junta-os, como um acidente antigo  
feito a traço de giz
Firme, algures na memória 
mas desprendendo-te ao vento
Todos os dias
Todos os anos
Todos os invernos
Calor, tocando o meu rosto frio 




2.24.2012

Obscuro domínio


Amar-te assim desvelado 
entre barro fresco e ardor. 
Sorver o rumor das luzes 
entre os teus lábios fendidos. 

Deslizar pela vertente 
da garganta, ser música 
onde o silêncio aflui 
e se concentra.

Irreprimível queimadura 
ou vertigem desdobrada 
beijo a beijo, 
brancura dilacerada 

Penetrar na doçura da areia 
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul, 

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,

onde o furor habita 
crispado de agulhas, 
onde faça sangrar 
as tuas águas nuas.

Eugénio de Andrade

2.21.2012

Tua

A minha mão é tua
Faz dela o que quiseres
Talvez o calor da areia ou um arrepio
à deriva na pele despida
Mordida, aberta
Como o poema improvável
que desperta lábios de água-lua

Assíduos do shaker

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