... any place, far away
5.03.2012
5.01.2012
Sayid, o pardal libanês
Atira-te Sayid porque o mundo é pequeno demais para quem já percorreu os céus. Esgota-se depressa nas palavras repetidas que se despem como pétalas às imagens vividas e a luz começa-lhes a desvanecer, mais pesada, assentando fria nas pedras antigas. Tu Sayid cujo canto já pouco embala o vento que conheces como irmão. Foste o que quiseste, nada mais. Fizeste os dias curtos e os anos pequenos às luas redondas das noites quentes. Seguiste o teu trilho, os teus lugares, os telhados e janelas de quem quiseste espreitar. Nada pediste. E agora Sayid sentes-te preso numa gaiola, eu sei. Soube no teu olhar ter chegado a tua hora. Resta-me agradecer-te as visitas e a despedida desprendida. Adeus amigo Sayid. Atira-te, mas não te deixes cair.
4.21.2012
Cristal
4.20.2012
Slava's Snowshow
No meio de um mundo cada vez mais cinzento, carregado de ares sisudos e absorvido por uma espécie de endeusamento dos números e fatalidade dos problemas ainda existem pequenas maravilhas que nos remetem a outros locais e nos devolvem a fantasia e o sonho, a surpresa e a interacção com o próximo, servidos com humor e inteligência, no seu estado mais puro.
Um espectáculo absolutamente deslumbrante, do melhor que já assisti, e que aconselho vivamente.
4.17.2012
4.16.2012
We
O que te torna único? O que levas sempre contigo debaixo das pálpebras? O que te rouba uma lágrima ou um sorriso? O que te faz correr sem queres parar? O que guardas da leveza de uma imagem, irrepetível? O que te dissolve na brisa nocturna? O que te ondula no olhar e te agita no silêncio? O que te arrepia a pele ou te embala a dor? O que te une a alguém? O que te separa? O que desenhas com os dedos num traço invisível? O que te sussura a lua e os ecos das palavras? O que te amarra ao instinto? O que descobres para fazeres teu? O que atas a uma pedra e deixas afundar? O que vale uma vida? O que lhe entregas de ti?
4.15.2012
Só desta vez
escrever sem música e sem imagens. escrever despido de ondulação. escrever às escuras, sem tacto, sem fome, sem deserto nem paixão. escrever alheado da textura das palavras, sem miados, sem anémonas. escrever sem lua, sem arfar, sem carícias. escrever sem a mão dada ao improviso, sem brilho nem sabor. escrever para enganar os ecos e os silêncios. só desta vez. só para dissolver a cálida transparência do que nos habita e nos exige a escrita.
3.29.2012
3.26.2012
3.24.2012
3.23.2012
Phantom in your fingers
I'm the ghost in your house
Calling your name
My memory lingers
You'll never be the same
I'm the hole in your heart
I'm the stain in your bed
The phantom in your fingers
The voices in your head
Depeche Mode, Ghost
3.21.2012
Poesia
Tonino Guerra
(poeta italiano que se despediu hoje, dia mundial da Poesia, aos 92 anos de idade)
3.20.2012
Wings
that she feels bending beneath her .
still she sings away all the same ,
knowing she has wings
Victor Hugo
3.16.2012
Estranho desencontro
Este estranho desencontro de vivermos sem sermos realmente nós. De nos apressarem os passos e nos deixarmos ir, sem questionar ou parar para pensar. Da entrega total à absurda aritmética das coisas, que tudo exige para continuar a somar. Do desfalecer dos corpos exaustos à inabalável importância de tudo. Tecidos gastos, desfiados da cor. Do livro entreaberto que se solta da mão ao fechar dos olhos. Do definhar do tempo, da reflexão, da disponibilidade para os outros. Este estranho desencontro de vivermos no mesmo mundo, distantes de quase tudo.
3.15.2012
3.02.2012
Breve cantilena [a pau de giz]
Junta o sorriso à leveza desse gesto despido
Suspenso, adormecido
na cantilena do amadurecer dos frutos
Junta-os assim, nesse teu jeito distraído
Sem te aperceberes
Já viste como iluminam?
Junta-os, como um acidente antigo
feito a traço de giz
Firme, algures na memória
mas desprendendo-te ao vento
Todos os dias
Todos os anos
Todos os invernos
Calor, tocando o meu rosto frio
2.24.2012
Obscuro domínio
Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver o rumor das luzes
entre os teus lábios fendidos.
Deslizar pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio aflui
e se concentra.
Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada
Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,
no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,
onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.
Eugénio de Andrade
2.23.2012
2.22.2012
2.21.2012
Tua
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